Nada

Já há muito tempo, meu maior desejo era desaparecer; sumir, ser imperceptível, absolutamente invisível.
Nada me preparou para que um dia isso acontecesse de fato.

Deixe-me explicar: as pessoas me escutavam. É como se minha voz fosse alta o suficiente para ser ouvida em qualquer situação, mesmo se eu tentasse sussurrar. Já passei por algumas situações constrangedoras por causa disso. Aquelas em que todos se calaram e subitamente minha voz pôde ser ouvida alta e claramente falando algo absolutamente estúpido.
Sofri tanto. As crianças podem ser cruéis demais, como certamente todos já sabem. Sofri tanto que, talvez por defesa, durante minha adolescência, fiquei quase todo o tempo rouca. Hoje percebo que talvez tenha sido uma bênção disfarçada, uma forma do meu corpo de me impedir de passar mais vergonha do que já passava sem fazer esforço.
Outra coisa que minha voz fazia, totalmente fora do meu controle, era afirmar as coisas das quais eu não tinha certeza alguma como se fossem a verdade mais incontestável. Também já me sabotou algumas vezes: induzi outros a erros crassos ou a acreditarem que eu realmente sabia do que eu estava falando. Eu nunca soube de coisa alguma, mas provavelmente, se você consultasse alguém que já me escutou falar, vai ouvir o contrário. “Ela sabe de tudo”, diriam. Eu nunca soube de coisa alguma, mas minha voz insistia em afirmar tudo como incrivelmente certeiro.

E foi por isso que, apesar de nunca terem me faltado inimigos, também nunca me faltaram amigos. Tenho a impressão de que as pessoas gostam de vozes certeiras, que as apresentem soluções seguras. Como se terceirizar suas decisões fosse o único caminho verdadeiramente confortável. Por muito tempo, talvez, isso não me incomodava muito, apenas me causava uma ansiedade constante, mas subclínica. Houve um tempo em que eu acreditei verdadeiramente que era uma pessoa extrovertida, negligenciando todas as situações em que o barulho era intenso demais para mim e eu precisava me isolar para conseguir respirar. Então, um dia, percebi que de fato, eu era apenas desinibida. Mas a introversão era notável e muito mais forte do que eu. Eu precisava do isolamento que todos tão veementemente me negavam, talvez mais por motivos egoístas que por preocupação comigo. Eles precisavam da certeza que eu tão incertamente ofertava. Precisavam da pessoa que falava mais alto, da que tão carismaticamente vomitava piadas sem graça. Gradativamente, talvez, cada uma dessas pessoas me levou embora um pedaço.

E a cada pedaço eu implorava por solidão, por invisibilidade, por ser mais uma em todos os lugares. Implorava para que entendessem finalmente que eu não sabia de nada, apenas parecia saber. Por auto-preservação, mendiguei meus pedaços de volta, mas apenas superficialmente; acredito que profundamente, agradeci cada pedaço levado embora, já que a cada mutilação eu me tornava menor e mais próxima do meu objetivo de desaparecer.

Um dia os pedaços se acabaram, e eu desapareci.

Não havia mais nada. Os últimos pedaços haviam sido retirados da casca que sobrara para o final, mas agora nem isso havia mais para que alguém se lembrasse de como era minha aparência. “Ótimo, nunca gostei dela”, pensei. Pequenez, sem dúvida. Mas foi inevitável.
Andei até o espelho e apenas metade de mim se surpreendeu quando ninguém me olhou de volta. Refletida no vidro prateado havia somente a parede ladrilhada do banheiro; a imagem ignorava absolutamente que eu estava ali. A luz não se deu ao trabalho de atingir minha carne e moldar-se. Lógico: eu não estava ali.
Eu não estava ali e nem em nenhum outro lugar, eu era Nada; pela primeira vez, meu lado de fora mostrava acuradamente meu lado de dentro. O mais intangível vazio, a mais perfeita ausência, a mais incontestável inexistência.

Demorou algum tempo para que eu me acostumasse, logicamente. Entendam, eu nunca duvidei muito de quando me diziam que eu era inteligente quando era criança, então pus esse talento em prática e absorvi minha nova condição. Testei minhas possibilidades: estendi meus dedos invisíveis utilizando toda propriocepção que me restava, já que eu também não podia me ver. Para minha surpresa, senti a resistência do vidro frio do espelho encontrar a ponta do meu dedo médio.

Foi assim que eu notei que mesmo o Nada também é capaz de modificar o mundo.

Já que meu desaparecimento havia sido gradual, pedaço a pedaço, as pessoas ao meu redor não notaram. Algumas continuaram até conversando comigo como se eu estivesse lá. Eu respondia, mas elas não podiam ouvir. O comportamento delas permaneceu inalterado; ao conversar, as pessoas falam muito mais consigo mesmas do que com seus interlocutores, então se Nada estava ali para ouvi-las, estava tudo bem.

Tentei agir como sempre agi: acordei, comi, trabalhei, voltei para casa. Nada mudou.
Todos os dias continuaram absolutamente iguais. Ninguém me via, mas ninguém percebeu que eu não estava ali.

Nada mudou.
Sendo Nada, mudei; olhei para o passado e ensinei para mim, quando ainda era Alguém, que um dia eu seria Nada. O tempo é fluido, como aprendi quando já era Nada. Aprendi que sempre fui Tudo, e sempre fui Nada.

Quando as pessoas puderam me enxergar novamente, Nada mudou. Ainda me escutam quando calam repentinamente, ainda ficou rouca quando estou desesperada por invisibilidade. Ainda esqueço que não devo fazer piadas constantemente, e ainda engano a todos com minha falsa e falha sabedoria.

Mas sou Nada, sou Tudo, e sou Alguém. E sempre serei.

~ por Mari em 22 de maio de 2019.

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