o jardim dos fantasmas

A passagem até lá não lhe custará nada além de seu tempo, mas o jardim dos fantasmas não é um lugar para todos.

Não é lugar para os fracos de coração, porque não haverá ninguém para juntar os cacos quando este se partir em centenas de estilhaços pontudos. Não é lugar para os fracos de mente, pois perdem-se como balões soltos ao infinito pelas mãos diminutas do filho desatento. Não é lugar para os fracos de corpo, pois apenas preencher os pulmões com o ar daquele lugar pode fazer com que se faça num instante a viagem de volta, aquela mesma que lhe foi tão cansativa durante a vinda. Não é lugar para os fracos de visão, pois nem com os olhos mais abertos seriam capazes de enxergar os fantasmas e a bela paisagem caótica. E não estamos falando dos olhos do rosto, é claro. São os olhos da alma. Curiosamente, são os mais cegos de todos.

No jardim dos fantasmas as histórias se repetem como fábulas abandonadas que se percebem vistas pela primeira vez em milênios. Ávidas pela consciência, elas se agarram aos olhos de quem as vê, pouco se importando se enfiaram suas garras até arrancarem sangue.

E também lá que as árvores são feitas de dor e prazer, estendendo suas raízes profundamente no chão frágil e coberto de ervas coloridas. No céu, vemos tudo o que não gostaríamos de ver. Há tempestades com frequência, ruidosas e raivosas. Elas seriam capazes da mais absoluta obliteração em meros segundos, mas assim que as percebemos com nossos olhos da alma, elas se desfazem com a mesma facilidade que chegaram.

No jardim dos fantasmas há um lago. A qualquer hora do dia, em qualquer estação do ano, quando você olhar para ele, verá apenas o seu reflexo, mas de todas as formas que forem possíveis. Às vezes, também as impossíveis. Se alguém mais olhar para o lago, talvez um ou dois dos fantasmas, não verá a si mesmo, mas também um reflexo de você, o Jardineiro.

As plantas no Jardim dos Fantasmas crescem sozinhas,  espalhando suas ramas de contornos impossíveis para todos os lados. Você, Jardineiro, não precisará regá-las jamais. São os fantasmas que precisam de cuidado.

Quando você chegar, abra o coração, abra a mente, o corpo e os olhos da alma. Os fracos, no Jardim dos Fantasmas, são os que se escondem atrás das muralhas que erguem com seus corações impenetráveis. São os que tentam não ultrapassar os grandes e enferrujados portões do Jardim. A única forma de se manter inteiro no Jardim é desfazendo-se em pedaços. Os mais fortes partem-se voluntariamente. Os invencíveis deixam que o vento os leve, pulverizando-se sobre o Jardim.

Quando você estiver inteiro, a verdadeira inteireza que vem com o ato de virar pó, permita-se realizar seus dois trabalhos. O primeiro é regar. Ora, você é o Jardineiro, o que esperava? Não regue as plantas, é claro. Regue os fantasmas. Todos eles. Olhe bem em seus olhos vazios e ouça seus gritos. Colha seus frutos, abrace suas não-existências, coexista naquela ausência tão desejada.

E depois vá embora. Seu segundo trabalho é acender a luz do farol que fica às margens do lago. Acenda a luz, torne-se a luz e vá embora.

Se esqueça do Jardim, todos os dias. Mas lembre-se dele também e se aventure nas memórias que te fazem ansiar pela próxima visita. Os portões se abrem para você todos os dias. Por que então você não entra?

 

~ por Mari em 15 de março de 2019.

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