não alimente o fantasma

Com suas pernas tão curtas, a distância entre seu quarto e o quintal parecia tão grande. Mesmo assim, com muita determinação, todos os dias a menina punha um pé atrás do outro enquanto os braços se mantinham firmes à sua frente, carregando uma cesta de vime com as flores que colhia no pequeno jardim de seus pais. Ela escolhia as flores mais cheirosas (frequentemente, eram as menores – e ela jamais teria percebido a analogia com sua própria vida, talvez por ser tão jovem). Poucas eram o suficiente, ele costumava precisar apenas de uma ou duas. Mas mesmo assim, ela separava pelo menos cinco, já que todos os dias tentava jantar ao lado de seu amigo, comendo a mesma comida que ele.
O sabor tão vegetal e térreo das flores contrastava diretamente com sua aparência delicada e aroma adocicado. A única parte que ela realmente gostava de comer era o néctar dos hibiscos que ocasionalmente levava. Mas eram grandes e vermelhas demais, então nem sempre ele as aceitava. Naquela noite, como na maioria delas, decidiu levar as preferidas dele: as pequenas, delicadas e tão simples damas-da-noite.

As mãos imateriais do amigo se estenderam para fora da vegetação que crescia no fundo do quintal. Elas tocaram a estrutura diminuta do cacho de flores e o perfume, já tão forte, tornou-se pungente e inesquecível. De dentro da grande moita malcuidada daquele canto, braços seguiram as mãos, depois um torso e uma cabeça. Os olhos enormes e negros do menino pareciam impossivelmente vivos, emoldurados por um rosto feito de nada, escuro como a noite e frio como a morte.

O fantasma terminou de emergir de dentro da moita, e a menina sorriu largamente. A lua iluminou a brancura das flores e ele avidamente as engoliu. Ela viu as flores descendo por sua traqueia transparente e desaparecerem no peito. Ele sorriu, e seus dentes pontiagudos e ameaçadores apareceram por trás de seus lábios de vácuo. Ao contrário do que qualquer outra pessoa sentiria, ela não experimentou medo algum de sua aparência tão sinistra. Ele a beijou no rosto e seu toque era nada mais pesado que o pouso de uma borboleta. O fantasma sorriu e se sentou no chão, abraçando suas finas pernas de menino. Ela se colocou ao lado e, com um graveto, gastaram mais de duas horas desenhando na terra exposta na base da moita. Ele não falava muito, mas ela percebeu que o rosto dele fechou-se de súbito e ele parecia estar buscando palavras no mundo de onde não fazia parte.

“Por que você vem aqui, quando você sabe que deixa as coisas mais difíceis para mim?”
“Você gosta tanto de jantar as flores. E porque eu gosto da sua companhia, ué. Você é meu único amigo.”
“Não é possível.”
“Tá bom, tá bom, tem a Júlia, da escola, a Marina da natação e o Carlinhos do desenho. Mas você é meu único amigo de noite.”
“Era para você estar dormindo. E eu preciso ir embora. Não posso ficar aqui.”
“Eu estou dormindo.”

“Eu estou dormindo”, ela ouviu, como se sua voz infantil fosse forte o suficiente para alcançar seus ouvidos adultos adormecidos. A mulher se levantou, e suas pernas nada curtas a levaram até a sala, onde um vaso grande tinha belas damas-da-noite dentro. Nele, um papel colado reproduzia o que seu terapeuta havia lhe dito tantas vezes: “Não alimente o fantasma”.

Mesmo assim, a mulher foi até a cozinha, encheu um copo grande com água fresca e despejou-a no vaso de flores.

~ por Mari em 22 de dezembro de 2018.

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