verônica

Palavras nas paredes, palavras em todos os cantos.

Enquanto sentia seus pés se moldando sobre o chão irregular, fazendo com que a carne macia da sola pouco calejada engolfasse as pequenas pedras no chão, ela pensou que deveria sentir dor, mas nada alcançava sua consciência. Era como se estivesse dormindo. No entanto, se estivesse dormindo, ainda seria capaz de lembrar seu próprio nome. Nos sonhos, durante seus dezoito anos de vida, nunca havia esquecido seu nome. Estranhamente, naquele momento isso pareceu desimportante, tal qual a sensação de pisar sobre o chão malcuidado.
O túnel apertado onde estava era iluminado por luminárias antigas, dependuradas de forma sofrida no teto. Alguns fios expostos transmitiam insegurança, mas a sensação também não foi capaz de alcançar seus pensamentos conscientes. Pichações pouco artísticas cobriam quase a totalidade das paredes do túnel. Delas pouco sentido se fazia, já que eram majoritariamente nomes, números ou símbolos simples.

AMANDA @ CARLOS 😦 JONAS 434 08/12/2000 ISABEL ❤ CABO 6 WESLEY 😀 SAMANTA 13 31 18

Caminhava lentamente, observando as paredes e sentindo o chão tentando agredir seus pés. As mãos tocavam a superfície áspera das paredes, ora acompanhando os contornos das letras desenhadas às pressas sobre o cimento, ora apenas seguindo as linhas pouco exatas das divisões do concreto. Os nomes, símbolos e números ainda não faziam sentido, mas, à medida que caminhava pelo túnel, sua mente se encarregava de entreter-se, criando situações que explicassem o que via nas paredes.

434 foi o número de vezes em que chorei por amor.
Houve a vez em que assisti o pôr do sol em Cabo com Samanta.
Houve a vez em que Wesley disse que eu não era boa o bastante para ele.

Não percebeu quando parou de enxergar o que passava em sua cabeça como invenções e passou a compreendê-las como memórias reais, apenas prosseguiu andando lentamente pelo corredor estreito. Progressivamente estreito. Algum tempo depois (embora ela não seria capaz de pontuar exatamente quanto), percebeu que o túnel se afunilava muito sutilmente. Em seu campo de visão, o fundo escuro e as paredes pareciam apenas obedecer regras de perspectiva, mas, se no começo da caminhada (quando havia sido? Não conseguiu lembrar. Sentia que existia apenas o agora) havia espaço de quase um metro entre o topo de sua cabeça e a parte inferior das luminárias empoeiradas, agora havia menos de dez centímetros.

Decidiu não pensar mais nisso.

Houve aquela vez em que Carlos me enviou um e-mail com a lista feita pelos meninos da minha sala, onde eu constava como “MAIS POSSÍVEL DE ENGRAVIDAR DO INSPETOR DE ALUNOS”
Houve a vez em que eu tinha 13 anos e minha vida mudou.
Houve aquela vez em que Amanda roubou minhas pequenas panelas de brinquedo e atirou-as no rio.
Houve a vez em que Isabel teve uma filha.

Quem é a filha de Isabel?

ARNALDO ISABEL VERÔNICA 73653837-2 ISABEL PRAIA 22

A pergunta persistiu, muito mais pungente que as outras histórias/memórias. As luminárias já estavam na altura de seu rosto e as paredes já estavam a vinte centímetros de seus cotovelos.

Quem é a filha de Isabel?

Já tinha que andar curvada. Os braços tinham pouco espaço para fazerem o movimento natural de balanço ao caminhar.

Quem é a filha de Isabel?

Não viu outra alternativa a não ser apoiar-se nos joelhos e nas mãos para se mover. Nas paredes, as palavras pareciam agora entremeadas por um outro nome, que aparecia muito frequentemente.

VERÔNICA ISABEL ISABEL VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA ARNALDO VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA ISABEL VERÔNICA

Quando seus cotovelos não tinham mais espaço para se esticarem e ela podia fazer pouco mais do que se arrastar, nas paredes havia apenas um nome.

VERÔNICA.

As paredes comprimiam seu corpo, estranhamente frias e quentes simultaneamente, como uma compressa gelada sobre uma testa febril. Então, quando pareceu impossível continuar, ela pôde vislumbrar o final do túnel. O que lhe parecia apenas sombras provocadas pela profundidade do túnel mostrou-se como a escuridão numa abertura final. Ela teria que se arrastar até lá, mas as paredes a comprimiam quase proibitivamente. Sentia seu peito comprimido pelo chão coberto de pedriscos, mas não sentia dor. Percebeu que Seu peito já não tinha mais espaço para se expandir, então parou de respirar. De alguma forma, estava tudo bem. Não havia pânico. A saída estava quase ao alcance, mas ela não conseguiria esticar os braços para enganchá-los na borda do túnel.

Na parede, à altura de seus olhos, pela última vez, leu a palavra que tanto se repetia. VERÔNICA. Era a última pichação, escrita em letra cursiva, como infantil. Em menos de dez centímetros estava a saída, mas ela estava presa e não entendia como poderia sair. Então, a compreensão atingiu-a como um raio.

Eu sou Verônica, filha de Isabel.

Com a força que os verdadeiros nomes têm, Verônica conseguiu impulsionar-se para fora do túnel claustrofóbico e, agarrando-se nas bordas, puxou a cabeça, depois o tronco, o quadril e finalmente as pernas para fora do túnel de concreto. Olhou para trás, apenas para enxergar a abertura do túnel se fechando aos poucos. Em menos de um minuto, o túnel havia completamente entrado em colapso, deixando para trás aquilo que a rodeava completamente.

O Nada.

Não era uma escuridão profunda, como poucos sortudos conseguem em seus quartos para potencializar o sono noturno. Não era uma escuridão absoluta, como aquela que encontramos ao olhar para dentro de nós e perceber nossa verdadeira natureza vazia. Era uma escuridão feita do mais absoluto Nada, a completa ausência de tudo, inclusive do próprio conceito de Tudo. Mas, contrariando as possibilidades, Verônica estava lá, desafiando o Nada a aceitar sua existência.
Sob seus pés, não via nada, mas a sensação era úmida, como se pisasse numa triste poça de chuva numa tarde fria e cinzenta.

Ao longe, algo pareceu desafiar a inexistência da mesma forma que ela. Uma luz fraca, amarelada, começava a se aproximar. Era difícil calcular, já que a luz tinha Nada para iluminar e não haviam raios nem feixes de luz se estendendo para além de seu contorno puntiforme. Sua mente, enquanto os olhos se hipnotizavam pela luz, gastava grande parte de sua energia escassa repetindo uma única frase:

Eu sou Verônica, filha de Isabel.

Verônica não viu o sangue que pingava de seus braços e pernas arranhados pelas paredes do túnel, descia em gotas e desaparecia na inexistência. Observou por muito tempo (Tempo? Certamente não há Tempo.) a luz que se aproximava lentamente. Conseguiu determinar que seu desenho lembrava muito uma lamparina de óleo. Muito tempo se passou até que visse que a lamparina estava presa a uma haste de madeira. Ainda mais tempo escoou até que Verônica percebesse que esta haste estava sendo mantida erguida por um homem de idade incalculável, que parecia flutuar no Nada. O contorno do barco sob seus pés foi a última coisa que Verônica conseguiu discernir claramente antes que o homem finalmente parasse a embarcação à sua frente.

– Eu sou Verônica, filha de Isabel. – disse Verônica, antes que o homem pudesse dizer qualquer coisa.
– Sim. Onde está a moeda?
– Que moeda?
– A taxa de embarque. Você precisa pagar pelo embarque, Verônica, filha de Isabel.

Ela observou seu corpo pela primeira vez. Não estava vestida, portanto, não tinha bolsos. Não carregava nada. Em sua canela, arranhada pela passagem pelo túnel, encontrou uma tatuagem que mostrava uma coruja, mas nada mais. A coruja tinha dois enormes olhos amarelos e brilhantes, mas ela não percebeu essa possibilidade. Também esqueceu-se de suas patelas e seus próprios olhos.

– Não tenho moeda alguma.
– Então não posso levar você. – Respondeu o barqueiro, com os olhos fixos nos dela.

Verônica não protestou, afinal, não entendia por que deveria embarcar de qualquer forma. Assistiu em silêncio o barqueiro desaparecer no Nada. Apenas uma eternidade depois, percebeu o propósito do homem com a lamparina. Chorou, mas havia apenas o Nada para ouvi-la.

Enquanto isso, onde havia Tudo e não Nada, Isabel também chorava. Sobre o pequeno caixão branco, colocou um coelho branco de pelúcia.

– Nós podemos tentar de novo – sussurrou Arnaldo para Isabel, na tentativa de consolar a esposa. Ainda era visível o inchaço que permanecia no abdômem dela após o parto.
– Mas não será Verônica… – ganiu Isabel, entre lágrimas pesadas.

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~ por Mari em 24 de setembro de 2018.

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