sobre o sentido da vida e a verdadeira riqueza

Em busca do sentido da vida, centenas de milhares de seres humanos pensaram por centenas de milhares de anos, em esforço fútil. Como não sou boa em aprender com os erros dos outros, cá estou eu, me juntando às massas dos que acreditam saber de alguma coisa.
Mas fique com o que eu sei: não há sentido na vida. A vida acontece, apenas acontece, e acontece repetidamente apenas por acontecer. A vida dá um jeito, a vida se esgueira onde tudo parecia perdido. Entre paralelepípedos numa estrada movimentada, há a pequena planta que abriga um pequeno formigueiro. Num telhado, sob forte chuva e raios, a gata dá à luz a uma ninhada de gatinhos que, de alguma forma, sobrevivem para perpetuar a história daquela família felina. No útero da mulher infértil, com muito mais frequência do que o esperado, mais um ser humano consegue se desenvolver, apenas para nascer e questionar a própria existência.
A vida acontece, e esta é a beleza. Não tem sentido, nem aquele que buscamos dar. A vida continuará sem que nossa vontade tenha forças para interferir. Mesmo que nos empenhemos em multiplicá-la, criando filhos, animais ou plantas como se o ecossistema dependesse de nosso esforço, ou mesmo que decidamos exterminá-la, arrancando a planta do paralelepípedo, afogando aquela ninhada de gatos ou causando desastres naturais inimagináveis com nossos atos egoístas, a vida permanecerá.
A vida permanecerá, como sempre aconteceu. Existiu por bilhões de anos antes da infecção humana começar na Terra e permanecerá por outros bilhões depois que a Natureza vencer a doença de Nós, com a facilidade que vencemos um resfriado. Somos apenas uma minúscula parte de um todo, mas a arrogância humana acredita que somos a causa de tudo. Então, qual a beleza da vida, se para ela somos apenas uma doença passageira no Planeta?
De novo, arrisco-me na sabedoria inculta que formo em palavras: a beleza está em reconhecer sua insignificância, sua ínfima parte na história do Universo, entender que, mesmo infinitamente pequeno, você representa uma única e jamais vista combinação de átomos na história do Universo. A beleza está em compreender que, apesar de não ser mais importante que a planta na estrada, você desafiou as probabilidades esmagadoras que ditavam que sua existência era impossível matematicamente. A beleza está em entender que sua vida é tão válida e impossível quanto a do gato recém nascido no telhado, mas que, ao contrário dele, você tem consciência disso já que, por uma coincidência ainda mais impensável do acaso, nasceu humano. A beleza está em entender que, apesar de todas as intercorrências inacreditáveis na história da humanidade, há uma linha sem falhas que percorre toda sua ancestralidade, desde seus pais até as primeiras formas de vida na Terra. Em todas as gerações, por todas as probabilidades incalculáveis, o indivíduo específico que faz parte da sua linhagem permaneceu vivo e deu origem a seu ancestral mais recente. E cada um deles tinha na própria existência a mesma improbabilidade da sua. A beleza, então, está em enxergar a si como parte do todo, como parte da insana maré de acaso que formou seu corpo e sua consciência. Está em ver que são as melhores possíveis as pessoas que por acaso venceram as probabilidades de não existirem e estão ao seu lado: porque além de terem conseguido coincidir com você neste espaço e tempo, te concederam a honra de dar tudo o que temos de verdadeira riqueza para você. O tempo.
Reconhecer a verdadeira riqueza, entender as verdadeiras prioridades da vida e saber o quão improváveis e maravilhosos são todos os seres talvez, para você, não seja o sentido verdadeiro da vida. Talvez a beleza tenha morada em outros lugares, outros conceitos, outros valores. Mas é fato incontestável: se você não tivesse vencido a inexistência, não estaríamos aqui para debater isso, não é mesmo?

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~ por Mari em 22 de agosto de 2018.

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