o corvo e a morte branca

 

– Repita comigo agora. “Eu não sirvo para nada” – disse o bicho, em sua voz estridente.

– Eu… eu não sirvo para nada – respondi.

– Não foi bom o suficiente. Você está muito fraca esta manhã. Repita, vamos. “Eu não sirvo para nada”.

– Eu não sirvo para nada.

– Melhor, mas não ótimo. Claramente você não serve para isso, nem para mais nada. Pode ir agora. Estou decepcionado com você.

O corvo se transformou em um pingente feito de uma brilhante pedra negra , tão negra que provavelmente nem nome tinha. Pendurei a corrente de prata em volta do meu pescoço como fazia todas as manhãs.

Meus filhos estavam sentados na sala, brigando por causa de um controle de videogame. Eles haviam quebrado o outro, provavelmente por negligência ou violência gratuita. Murmurei na direção deles um “bom dia” desanimado que não foi percebido. O controle, empunhado como uma clava pelo mais novo, atingiu a testa do mais velho, provocando quase instantaneamente um inchaço roxo e disforme.  Meu cumprimento fora inteiramente sobrepujado pelo som da batida do plástico no crânio do meu filho, seguido pelo grito e o palavrão provindos da boca logo abaixo da testa ferida.

Meu marido estava sentado na cozinha, a xícara de café numa mão, o celular em outra. Fingiu um sorriso ao me ver, respondeu o segundo “bom dia” que me forcei a proferir naquele dia e engoliu toda a xícara de uma vez. Estava subitamente atrasado, como todos os dias. Ele sempre ficava atrasado quando eu entrava na cozinha. Saiu, batendo a porta atrás de si. Esqueceu, de novo, de se despedir dos meus filhos. Talvez também tenha esquecido de se despedir de mim, mas eu não tinha certeza.

Eu ainda estava de pijama quando decidi que desta vez eu não sairia para trabalhar. Um sorriso rasgou o meu rosto, inesperadamente. Os músculos faciais quase atrofiados tiveram dificuldade de lembrar o que fazer. Levantei a mão e envolvi o corvo de pedra, sentindo o gelado sobrenatural daquela pequena obra de arte. Andei até o quarto, meus pés determinados sacudindo os tacos de madeira do chão da casa antiga. Lá fora, o sol brilhava forte sobre o ar gelado de outono. Aqui dentro, as cortinas fechadas da sala (para não atrapalhar a televisão dos meninos) deixava passar apenas um feixe insistente de luz que dividia a sala ao meio. Enquanto andava, meus olhos caíram sobre aquela faixa tão clara de sol e meu sorriso se alargou. Olhei mais uma vez para os meninos, que agora pareciam um pouco mais calmos. O mais velho fora vencido pela batida na cabeça; assistia o irmão perder repetidamente o controle do carro simulado na TV. No meu quarto novamente, escolhi no guarda-roupas uma calça jeans e um casaco vermelho de botões que pus sobre uma blusa branca. A blusa tinha uma textura diferente desde que a havia colocado pela última vez, há dois anos quase exatamente. O casaco e a calça também pareciam diferentes. Todos ficaram largos. As costuras tentavam sem sucesso contornar meu corpo emagrecido naquele tempo. Saí de casa, ainda sorrindo.

Minha casa tinha um enorme quintal verde, uma área grande que continha um pequeno bosque, um riacho uma velha lagoa com carpas. As mesmas carpas que meu bisavô havia colocado ali, junto com suas filhas, netas e bisnetas. A estrada que alcançava minha propriedade era pouco movimentada, empoeirada e esburacada e levava tanto para a estrada principal quanto para dentro do bosque. Entrei no meu carro, uma SUV antiga preta, tão sofrida quanto a estrada que eu a forçava rodar sobre. Acelerei, não dando a devida atenção aos buracos, como deveria ser.

Tenho certeza que meus filhos não notaram minha ausência.

Ao invés de seguir a estrada em direção à cidade, como para ir ao trabalho, segui determinada para dentro do bosque. A estrada enegreceu-se quando as árvores densas filtraram a luz forte e clara do sol de outono. Acelerei.

Depois de dez minutos, eu já sabia o que encontraria logo à frente, e meu cérebro tentou convencer-me do contrário. O instinto de sobrevivência insiste em incutir o medo mesmo nas almas mais perdidas, que têm na morte a ideia do alívio supremo. Como há dois anos, segui depois da curva fechada.

Logo à frente, a árvore agigantava-se ao final da curva, encobrindo maldosamente o penhasco que estava logo atrás.

Não se engane, eu sempre soube daquela fenda. Ao longo da infância, minha mãe me alertara repetidas vezes para jamais confiar naquela curva, jamais esquecer que aquele carvalho ancião obscurecia a morte certa. Era uma fenda enorme, recoberta pela vegetação. Parecia uma caverna tão funda que a escuridão não permitia aos mais curiosos descobrir onde terminava. Ninguém havia conseguido entrar e sair novamente para contar a história, minha mãe dissera. Aprendera com a mãe dela, que aprendera com meu bisavô, na mesma época em que  ele enchera a lagoa de carpas.

Eu nunca havia chegado perto da fenda antes daquele dia no outono de dois anos atrás. E não tinha ousado repetir o feito até agora. Joguei displicentemente a SUV num dos cantos da estrada; de que importava?

Atrás do carvalho, a escuridão densa parecia gelar os pés de quem se aproximava. “A fenda não gosta de crianças”, ouvi uma vez de minha mãe. Quantas vezes não deixei de dormir por causa das sombras que tinha certeza que emergiam da fenda todas as noites para vagar pelo bosque?

Desta vez, ao contrário de dois anos atrás, eu sabia exatamente o que encontraria.

Na borda da fenda, apoiei meus pés na pedra rústica. Tirei os sapatos. Todos tiram os sapatos, a mulher tinha me dito da última vez. Fechei os olhos, abri meus braços e deixei a gravidade fazer o que faz de melhor.

A queda pareceu durar anos. O impacto, no entanto, foi tão súbito quanto intenso. Todos os meus ossos se quebraram, meus órgãos escaparam de dentro da carne e meus olhos saltaram para fora de suas órbitas. Apesar disso, ainda estava viva. Senti a estatueta farfalhar.

– O que foi que você fez desta vez? Você não serve para nada mesmo! – grasnou o bicho.

– Vá buscá-la – pedi.

– Por que? Para você estragar tudo de novo?

– Por favor.

Sem responder, o corvo saiu voando pela escuridão. Meus olhos se fixaram em uma série de ossos pequenos na direção da minha cabeça. Discerni o que restava de um pé, provavelmente ainda conectado ao resto do corpo antigo. A calça jeans rasgada e destruída pelo tempo podia ser qualquer uma, mas o casaco vermelho que reluzia com a parca luz que penetrava através da fenda não deixava dúvidas.

Do fundo da caverna, os pés brancos e sujos se aproximavam, exatamente como eu esperava. O andar dela era cauteloso, curioso, como o de uma corça. Apesar disso, quando seus olhos entraram no meu campo de visão, eles exalavam a fúria e sabedoria de uma existência de milhares de milênios. O corpo nu da mulher era do mais absoluto branco, assim como seus olhos sem íris nem pupilas. Os cabelos negros emaranhados estavam cheios de sujeira. De sua boca, um líquido escuro escorria, formando desenhos fluídos em seu queixo, como tatuagens tribais. Seus seios pendiam belos, seu corpo bem formado como o de uma modelo internacional. A imagem era paradoxalmente maravilhosa e aterradora. O corvo a acompanhava, voando em círculos ao redor. Quando ela parou à minha frente e agachou-se para falar comigo, o pássaro preto pousou em seu ombro, cravando as garras em sua carne cor de neve.

– Você quer outra chance? – ela falou, com sua voz feita de terra, medo e imortalidade.

– Não.

– Você se arrepende da última que teve?

– Sim. Não consegui ser feliz. – a calma em minha própria voz diante da Morte me surpreendeu.

– Não adianta fugir para a morte, quando o problema está dentro de você. Você sabe disso?

– Sei. Mas não adiantou viver.

– Claro. Você apenas voltou para casa. O problema estava em você o tempo todo, e continua aí. Você também sabe disso?

– Sei.

– E deseja morrer mesmo assim? Não acha que pode tentar mais uma vez, sabendo o que está errado?

– Eu sei o que está errado.

– Eu também sei. E por isso você vai morrer agora.

Ela estendeu a mão e laçou a corrente de prata que ainda estava em volta do meu pescoço com os dedos longilíneos. Arrancou com um puxão firme. As vértebras quebradas em meu pescoço tiveram uma última chance para protestar antes que eu morresse.

Levantei-me, sem dor, e observei meu novo corpo nu. A carne fora substituída por alguma outra coisa, que não tinha peso.

– Espero que seja feliz agora. Mas vai ser como se mudar esperando que a chuva passe. Chove em todos os lugares quando você é a tempestade. – A mulher falou pausadamente e virou as costas. Enfiou-se na escuridão novamente, o corvo voando ao seu redor.

Quando encontraram a SUV, meu marido soube instintivamente o que tinha acontecido. As equipes de resgate enviaram câmeras para o fundo da caverna, que flagraram o meu corpo junto às dúzias de outros ao redor. “As condições dessa caverna não permitem o resgate, senhor. Peço desculpas, mas o corpo da sua esposa não poderá ser retornado ao senhor. Ela certamente morreu instantaneamente”, o bombeiro dissera. Meu marido derrubou duas lágrimas à beira da caverna, retirou o celular do bolso e avisou sobre a minha morte à mãe dele.

Meus filhos e ele organizaram um pequeno funeral simbólico em casa. Depois, junto à minha mãe e a mãe dele, levaram flores para a beirada da caverna.

Naquele dia, os mortos da fenda levantaram suas cabeças com o aroma dos crisântemos.

Meu corpo imaterial me permitiu visitar minha casa sem que me percebessem. Meus filhos pararam de brigar. Cresceram unidos pela perda da mãe e se tornaram homens de sucesso, respeito. Meu mais velho se casou com um bom homem e adotou duas meninas. O mais novo decidiu não se casar, mas teve um filho com uma moça inteligente e continuavam melhores amigos. Tinham bons empregos. Eram boas pessoas.

Meu marido se casou novamente no outono seguinte à minha morte e engravidou a nova esposa com duas meninas de uma só vez. Eu os observei enquanto as educavam, iam aos seus recitais, seus jogos de vôlei e aulas de desenho. Eu estava lá quando conversavam de madrugada sobre tolices e se amavam apaixonadamente por mais de quarenta anos. Eu estava lá quando ela se foi, e o vi chorar copiosamente pela perda da esposa. Também vi quando ele finalmente se foi, aos noventa e três anos, numa cama ao lado de todos os filhos, netos e bisnetos. A fenda não recebeu novas flores naqueles cinquenta e cinco anos, mas não me importei. Os mortos continuaram quietos.

Quando ele saiu do cemitério, ainda confuso, naquela tarde chuvosa de seu funeral, eu o cumprimentei educadamente, ao longe. Ele sorriu, mas logo desviou o olhar para o amor de sua vida que viera abraçá-lo calorosamente.

No fundo da fenda, deitei-me no frio e dormi. Não estava feliz, a moça estava certa desde o começo. Mas eles tinham sido, então sorri pela última vez.

 

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~ por Mari em 19 de julho de 2017.

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