três urubus

Hoje, quando eu saí de casa, três urubus me cumprimentaram. Cumprimentar, na língua deles, significava olhar ameaçadoramente com suas expressões doentias, como se calculassem o melhor jeito de desmembrar minha carcaça em decomposição.

Ao contrário do que os três urubus gostariam, eu estava viva ainda, ao menos em parte. Eles sabiam o que isso significava, e esperavam avidamente o lanche da manhã.

Ajoelhei-me, oferecendo minhas costas nuas, divididas apenas pelas amarras do sutiã envelhecido. Sobre minhas escápulas, pendiam sangrentas minhas asas. O pouco que havia crescido delas desta vez já havia sido mordiscado por todos os outros predadores noturnos. Já não doíam mais; o sangue seco entremeava as penas alvas e os nervos jaziam sem vida. O espaço entre as escápulas, ferido, mas amortecido.

Os três urubus se aproximaram. Sorriam com ferocidade enquanto arrancavam o que restava das asas. Dobravam as penas brancas em seus bicos negros. O meu sangue que sujava suas cabeças depenadas parecia apenas molhar a pele negra e brilhante que se estendia até seus pescoços. Demoraram menos de um minuto para terminarem de arrancar as asas moribundas. Com precisão quase cirúrgica, limparam as feridas paralelas que ficaram, deixando apenas as manchas de sangue para trás. Minhas costas tinham novamente a forma que todos esperavam que tivessem.

Um som metálico indicou que o portão da casa ao lado se abria, como em todas as manhãs. Minha vizinha, ainda de camisola, agachou-se e abriu os botões traseiros da roupa, com dificuldade. As asas dela estavam maiores, mas ainda mais feridas que as minhas. Os urubus avançaram com voracidade sobre ela, arrancando as penas e a carne das asas pendentes.

Fechei minha camisa. Foi um pouco mais fácil encaixar os botões em suas casas, com a ausência do volume nas costas. O tecido azul claro do uniforme de trabalho manchou-se com o sangue das feridas entre as escápulas. As asas da vizinha já haviam sido quase completamente devoradas. Antes que eu pudesse terminar de me recompor, ela já havia levantado, fechado os botões da camisola e retornado para dentro de casa, não sem antes me cumprimentar com um aceno triste e condescendente.

Andei com a bolsa apoiada no ombro, sentindo a alça de couro esfregar-se insistentemente na base da minha asa esquerda. Caminhei apressadamente pela avenida movimentada que levava ao prédio comercial onde eu trabalhava.

Também seguindo pela avenida gigantesca, centenas de pessoas também apertavam seus passos, segurando suas pastas, bolsas, paletós e jalecos, chapéus e capacetes.

Atrás de cada um deles, as manchas de sangue paralelas entre as escápulas maculavam seus uniformes, roupas sociais e de trabalho; em seus rostos, os mesmos olhos mortiços, vazios e esquecidos.

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~ por Mari em 11 de julho de 2017.

Uma resposta to “três urubus”

  1. Ai, que coisa linda e tristíssima!!!!!!!
    Minhas asas também foram comidas.

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