todas as casas têm cheiro

Todas as casas têm cheiro. Normalmente, apenas um aroma característico de cada uma, fracamente perceptível por seus moradores, mas pungente para estranhos. O ar se movimenta de forma diferente, o pó se acumula em lugares peculiares, os moradores utilizam perfumes diferentes, os animais de estimação são únicos de cada moradia.

Depois de um longo dia de trabalho, Edgar afrouxou sua gravata à frente da porta do apartamento. A mão esquerda segurava a pesada pasta de couro enquanto a direita buscava a chave de casa no bolso. Girou a chave na fechadura e entrou, jogando-se no sofá pouco depois de empurrar a porta com o pé sem prestar mais atenção.

O cheiro da casa estava diferente.

Não havia aroma residual de comida, nada diferente do normal. No entanto, a forma que seu nariz reagia à casa trouxe-lhe alguma inquietação. Apesar disso, o cansaço não permitiu a estranheza alcançar a consciência e apenas a traduziu em um arrepio e uma onda de adrenalina fora de contexto. Edgar também não a percebeu.

Quando suas pernas pareceram ligeiramente mais descansadas, decidiu levantar e acomodar o paletó no cabideiro no quarto, onde ele permanecia todos os dias. No quarto, a cama estava desarrumada. “Curioso“, pensou Edgar. “Jurava que tinha ajeitado essas cobertas pela manhã“. Ainda com o paletó nas mãos, observou o cabideiro com espanto.

Havia outro paletó lá.

O paletó era grande, muito maior que seu próprio. Era de um marrom pertencente à uma categoria de cores que Edgar jamais cogitaria comprar. Tinha cheiro de perfume masculino. Não o seu próprio. Observou ao redor, fazendo a recontagem mental dos fatores anômalos que encontrara desde que chegara em casa. O pesar e a raiva se misturaram profundamente em seu peito, trazendo instantaneamente à garganta o que restou do último café que tomara antes de sair do trabalho. “Helena“, pensou ele.

Helena e Edgar eram casados há vinte anos. O único filho que tiveram morreu tragicamente afogado aos cinco anos. Os anos seguintes foram difíceis, mas eles haviam permanecido juntos. Viveram os treze anos desde a tragédia em uma montanha russa emocional complicada, mas que tinha permitido a sobrevivência do casamento. A esposa andava depressiva, calada. ” Será que estava escondendo alguma coisa esse tempo todo? Helena não faria isso comigo… faria?“, pensava ele, repetidamente, enquanto achava mais e mais evidências de outro homem em seu próprio quarto, em sua própria cama.

Então, fazendo outra recontagem, notou que eram evidências demais.

Além do paletó brutalmente marrom e gigantesco, as calças correspondentes estavam penduradas em um cabide em seu armário. As outras roupas que preenchiam o espaço eram igualmente grandes, igualmente de mau gosto. Nenhuma das roupas que ele conhecia tão bem e tinha escolhido e comprado estava ali. Fechou a porta e observou o armário de Helena, apenas para encontrá-lo exatamente como o esperado. Buscando compreensão, caminhou rapidamente até o banheiro da suíte que compartilhava com a esposa. O lado de Helena estava igual ao que ela costumava deixar. Já o dele próprio estava repleto de cosméticos que não eram seus. Cremes de barbear, pentes e perfumes que ele não reconhecia.

A mente de Edgar o traía, o incapacitava de entender a situação com clareza. Saiu do banheiro quase correndo em direção à sala. O ambiente parecia idêntico ao que esperava, alarmantemente idêntico. A cozinha ofereceu a mesma experiência, exceto por todo aquele leite empilhado num dos cantos. Nem ele nem Helena gostavam de leite. “Para que tantas caixas de leite…“, o cérebro enviou ao primeiro nível de sua consciência, futilmente. Enraivecido com a própria pequenez do pensamento, Edgar tomou às mãos uma das embalagens de leite. A incerteza crescente sobre tudo o que conhecia manifestou-se como fúria. A embalagem foi atirada com força contra a parede, espalhando todo seu conteúdo no chão.

As lajotas avermelhadas do chão do apartamento eram impermeáveis, assim como o rejunte que as unia. Edgar tinha absoluta certeza disso, pois havia instalado cada uma delas. O leite escorria lentamente em direção ao ralo perto da pia.

Decidiu observar o cômodo que dividia com Helena como escritório e biblioteca. Na parede ao lado da porta, o diploma de contadora de Helena ostentava o nome da esposa e a data de vinte e dois anos atrás. As manchas que o tempo provocara no documento estavam posicionadas exatamente como Edgar lembrava. Tentou abrir a porta e não conseguiu. Algo bloqueava o arco de abertura. Empurrou com força e um ganido alto e plástico não deixou dúvidas. Um pequeno brinquedo de plástico colorido havia se prendido sob a porta e Edgar acabara de retalhá-lo em dois. No quarto, um beliche e uma cama brancos encostavam-se nas paredes, deixando uma área central repleta de brinquedos. A janela tinha uma cortina com simpáticos dinossauros desenhados.

A mente de Edgar lançava pensamentos confusos como granizo, inundando-o de pânico. Sua pele enregelou-se e seu coração se esqueceu de bater quando ele ouviu o som da fechadura.

Helena.

Helena trabalhava numa empresa mais rígida com o horário e acabava chegando em casa vinte minutos depois de Edgar, em média.

– Mas você PRECISAVA ver a cara dele quando eu disse aquilo, hahahaha! – a voz de Helena ecoou pela sala e corredor, estridente e clara, exatamente como deveria ser. Depois da dela, uma voz grave riu abertamente, com segurança e calma.
– Eu imagino, ha ha ha ha! Você é muito boa nisso, Leninha! – “Leninha, Leninha… ninguém a chama assim, ela sempre detestou… é Helena, só Helena…” assombraram-lhe os pensamentos agressivos.

Edgar enfiou-se o mais silenciosamente que conseguiu para dentro do quarto infantil (seu escritório, ele tinha certeza disso). Não encontrou lugar melhor para se esconder rapidamente além de atrás de um dos beliches, no canto.

– Manhê, o que vamos jantar?, ouviu Edgar, claramente. A voz infantil dirigindo-se a Helena como “mãe” açoitou-lhe profundamente. Não conseguiu impedir uma lágrima de escorrer de seu olho arregalado. Como um animal acuado, ouviu muitos pares de pés se locomovendo firmemente pela casa. Conversas indistintas aconteceram por alguns minutos.

– Crianças, guardem as mochilas no quarto e se troquem para comer, quantas vezes eu vou ter que falar a mesma coisa? – gritou Helena, com a voz que Edgar reconhecia como sua característica “falsa austeridade” que dirigiu tantas vezes a Alberto.

Alberto.”

Os passos pesados que só as crianças são capazes de dar invadiram o quarto, tão familiares, tão cheios de saudade. Edgar ouviu mochilas sendo atiradas sobre camas, sapatos sendo arremessados sem nenhum cuidado para os cantos e roupas atingindo o chão, garantindo broncas futuras dadas eloquentemente por Helena.

“Alberto, é Alberto, é o Alberto, ele está vivo…”, insistia o cérebro de Edgar, tão cruel quanto apenas o luto de um pai pode ser. Não suportou a ideia de coexistir com Alberto sem o observar, pelo menos uma vez. Esgueirou-se o mais furtivamente que conseguiu de seu esconderijo, esticando seu pescoço para enxergar as crianças. “Alberto, onde está você?”. No seu bolso, seu celular tremeu. Apavorado, sem nem olhar a tela, Edgar desligou o aparelho antes que o barulho intenso da vibração chamasse a atenção de alguém.  Uma gota de suor escorreu de sua testa e invadiu seu olho, mas ele estava determinado a enxergar aquela criança. “Alberto… Papai está aqui…

Assim que saiu ligeiramente de seu esconderijo, um pequeno rosto fixou o olhar em sua face. Os olhos do menino se arregalaram. A boca se abriu enormemente e Edgar quase pôde ouvir o grito se formando em sua garganta.

– MÃE!!!! PAI!!! TEM UM HOMEM AQUI! SOCORRO!

Em desespero, Edgar tentou alcançar o braço do menino alarmado para segurar-lhe e explicar a situação, mas apenas conseguiu agarrar o ar. As pernas ligeiras do garoto o levaram rapidamente para longe do invasor. Os outros dois meninos, agora plenamente visíveis, correram juntos em direção à porta. “Não… não era Alberto… onde está Alberto…?”, os pensamentos pulsavam indistintos na mente aterrorizada de Edgar.

– O QUE? TEM O QUE AÍ?
– TEM UM HOMEM AQUI, MÃE!
– Deixa que eu vou lá ver – falou gravemente a voz masculina que havia rido da história de Helena.
– Cuidado, Fábio… quer que eu chame a polícia? – a voz de Helena estava baixa, comedida, mas cheia de adrenalina. Apenas vinte anos de convivência foram capazes de treinar os ouvidos de Edgar para capturar tamanha complexidade de sentimentos naquela voz. Edgar não ouviu resposta.

Passos largos, mas leves, avançavam cuidadosamente da sala em direção ao quarto. Fábio, presumivelmente. Edgar decidiu que manter-se escondido apenas complicaria mais a absurda situação que se desenrolava. Levantou-se e expôs-se claramente no meio do quarto dos três meninos.
Quando Fábio alcançou a porta, um calafrio escalou a espinha de Edgar. O homenzarrão ocupava quase todo o espaço do batente da porta, de altura e largura. O corpo vestia uma farda cinzenta, característica dos bombeiros.

– Eu vou te dar uma chance de explicar que merda é essa. E depois você vai sentar na sala enquanto a polícia não chega. Sem gracinhas. Você vai ter sorte se eu não arrebentar você a ponto de sua própria mãe não se lembrar de você.
Edgar, absolutamente tomado pelo pânico, foi incapaz de formular palavras compreensíveis. Balbuciou sílabas desconexas entre gotas de suor que escorriam de sua testa. Alguns segundos depois, aparentemente cansado de esperar, Fábio avançou rapidamente com o punho em riste. Os olhos de Edgar se fecharam alguns milésimos de segundo antes dos nós dos dedos gigantescos de Edgar atingirem a maçã de seu rosto.
Edgar caiu de joelhos, com sangue escorrendo pela lateral da bochecha. Não foi capaz de reagir. Permaneceu em silêncio. De joelhos, sentiu o pé de Fábio atingir-lhe as costelas. Fábio agachou-se ao seu lado.

– Helena! Está tudo sob controle. O que a polícia disse? Eles vão demorar? – gritou Fábio, estranhamente calmo, enquanto envolvia o pescoço de Edgar num golpe “mata-leão”. Levantou-o à força, arrastando-o imobilizado até a sala, onde atirou-o no sofá.
No seu campo de visão prejudicado pelo soco no rosto havia a sala tão conhecida, os olhos furiosos de Fábio e os três meninos amontoados no canto da sala, com o misto de medo e curiosidade que parece ser o combustível das crianças. Helena lentamente surgiu em sua visão periférica e depois tornou-se perfeitamente clara à sua frente. Seus olhos mostravam incredulidade, medo e, paradoxalmente, ternura.

– E..Edgar?
– Você conhece esse porra, Helena? – perguntou agressivamente Fábio. Em sua mão esquerda, uma aliança dourada brilhava, perfeitamente idêntica (apenas muito maior) à da mão de Helena.
– É meu ex marido, Fábio… o Edgar… você sabe… o pai do Alberto.

Fábio pareceu deixar a ira esvair-se ligeiramente, transformando parte de sua expressão furiosa em curiosidade.

– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI, CACETE? COMO ENTROU AQUI? – perguntou Fábio.

Quase sem som, Edgar balbuciou doloridamente a resposta mais sincera que conseguiu. Não esperava que fosse soar como o mais absoluto sarcasmo.
– Pela porta.

Fábio enfureceu-se mais uma vez e levantou a mão para acertar-lhe na face outro soco, mas a mão fora segurada por Helena.

– Não, Fábio. Não faça isso. Deixa que eu converso com ele.
– Então converse com esse merda antes que eu o arrebente inteiro.
– Não vai arrebentar ninguém, Fábio. O Edgar é um cara bom. Ele certamente tem alguma explicação perfeitamente plausível para o que está acontecendo.
– É BOM MESMO QUE TENHA! Meninos, vão para o quarto e fechem a porta. Tinha mais alguém com você lá? – Fábio dirigia-se a Edgar com a voz trovejante.

Edgar sacudiu a cabeça em negativa quase infantil. Fábio seguiu os três meninos até o quarto e postou-se à porta, como um leão de chácara. Fitava Edgar com os olhos ferozes quase sem piscar. À frente dele, Helena exibia apenas preocupação, confusão e pesar.

– Edgar… o que está fazendo aqui, afinal? Como entrou? – Helena sentou-se no sofá ao seu lado, em posição defensiva e mostrando desconforto.
– Helena… eu moro aqui.
– Você não mora aqui há doze anos, Edgar. O que está acontecendo?
– Não, Helena… eu moro aqui.
– Edgar, eu saberia se você morasse aqui ainda, você não acha?- A voz doce de Helena escondia o sarcasmo característico de sua personalidade. Mais uma vez, como ele conhecia muito bem, Helena perdia o controle e utilizava-se do sarcasmo em horas completamente inadequadas.
– Você não está entendendo, Helena… eu moro aqui. Com você. Somos casados. Alberto… Alberto morreu há treze anos.
– Você só pode estar brincando… como assim? Do que você está falando? Edgar… você está doente? Precisa de um médico?

Edgar não teve resposta. Parecia plausível a especulação de Helena. Alzheimer. Demência. Amnésia. Ele era novo demais para essas coisas, mas tudo é possível, não é mesmo?

– Você está doente, fala pra mim. Sério. Está?
– Eu… eu não sei. Acho que não.
– Vamos começar do começo. Como você veio parar aqui? – Helena havia inserido condescendência na fala. Infantilizou o discurso como se falasse com Alberto. Ou um dos outros filhos dela.
– Eu… fui trabalhar. No escritório. Hoje teve reunião. Com o Maia, sabe? Saí cansado, vim pra casa de ônibus, porque você estava com o carro. Cheguei aqui. Peguei a chave. Entrei.
– Você não tem mais a chave da porta, Edgar, nós trocamos a fechadura alguns anos atrás…
– EXCETO QUE EU TENHO, HELENA! Olha aqui! Olha essa chave! – exaltou-se Edgar. Levantou-se subitamente. Sentiu a dor na costela obviamente partida. Mesmo assim, caminhou decididamente até a porta e enfiou a chave na fechadura. Serviu. Fábio fez menção de sair de seu posto, mas decidiu esperar um pouco mais.
– Mas… como? Como você tem essa chave? – intrigou-se Helena, alarmada.
– A chave é o de menos. Helena, quem é esse cara? Quem são essas crianças? O que aconteceu? Você é minha esposa! Olha só, olha minha aliança!

Os olhos de Helena alcançaram a aliança de Edgar. Vinte anos de uso a tinham deixado opaca, mas era exatamente como ela se lembrava. E exatamente igual à que lembrava de ter devolvido ao ex-marido quando foram vencidos pelo luto e decidiram pela separação, treze anos antes.

– O que… o que está acontecendo… – perguntava Helena, mais para si mesma do que para Edgar ou Fábio.
– Eu não sei, Helena. Entrei aqui, estava tudo diferente. Quem são essas crianças? Me responda, por favor… – Edgar sabia da resposta; sabia que eram filhos de Fábio e Helena, que não faria sentido nenhum serem nada mais do que isso. Mas a simples existência delas torcia seu coração e lhe causava mais dor do que os golpes de Fábio. Como se aqueles três meninos, tão parecidos com Helena, tão parecidos com Alberto, fossem a maior traição que alguém poderia cometer contra seu próprio filho; morto, afogado, enterrado. Esquecido. Substituído.
– São Fabinho, Hélio e Rafael. Meus filhos. Nossos filhos, meus e do Fábio. Fabinho tem nove anos, Hélio e Rafael são gêmeos. Fizeram seis anos mês passado.
– Eu nem sei o que te falar. E o Alberto?
– Como assim, o Alberto? O Alberto morreu, Edgar. Pra que enfiar o dedo nessa ferida?
– Eu… eu… tinha alguma esperança de que isso tivesse mudado também.
– Mudado? Mas tudo está igual! A gente já se separou há tanto tempo… foi o que, um ano depois da morte dele? Eu refiz minha vida e esperava que você tivesse refeito a sua também. Pelo jeito não, e pelo jeito está doente também.
– Deve ser isso mesmo, Helena. – Edgar tentava compreender a situação o melhor que podia. – Devo estar doente mesmo. Acho que vou procurar o Dr. Rodrigues para uns exames. Desculpa, Helena, desculpa…

Helena abraçou Edgar, confortando-o. Seus olhos, marejados, além das lágrimas carregavam dor, compaixão e medo. – Você acha que pode ir agora, Edgar? Embora? Eu realmente queria que você fosse. Não fica chateado. É que… o susto foi grande. Você entende? Você entrou na minha casa do nada. Isso não foi legal, mas eu entendo que você não esteja bem.
– Eu entendo, claro… será que posso ir antes da polícia chegar?
– Vai, Edgar. Vê se fica bem…. e apareça. Quero saber como você vai ficar depois disso, Ok?

Edgar só conseguiu assentir. O peso de vinte anos de companheirismo sobre seus ombros só tornava mais difícil aquela despedida. Ele tinha memórias de como ela havia ganhado cada ruga em seus olhos, cada cicatriz em seu corpo. Todas elas visíveis, tanto na Helena que esperava encontrar quando na Helena que estava parada em sua frente, abraçando a si mesma e com expressão consternada. As mesmas marcas do tempo estavam ali. Apesar disso, a Helena que acreditava ser sua caminhou lentamente para trás e abraçou o homenzarrão com a aliança idêntica à do dedo dela. Com o rosto enterrado em seu peito, fazia os soluços e o choro ecoarem pela sala grande.

A sala da casa dele.

Antes de ir embora, vislumbrou o porta retratos que ele comprara numa liquidação três anos antes. Em sua memória, a foto emoldurada era uma antiga foto de Edgar, Helena e Alberto. O menino tinha perdido seu primeiro dente e exibia orgulhoso o sorriso desfalcado. Ali, viu apenas uma foto artística de Helena, Fábio e os três meninos.

Em algum lugar dentro de si, Edgar agradeceu a chance de ter saído de lá vivo às forças do universo. Ao mesmo tempo, o peso de caminhar sem rumo era grande demais. Para onde ele iria?
Caminhou por muitas horas. A noite veio e se foi. A madrugada trouxe consigo a fome insuportável que matou num fast-food qualquer. Sentou-se num banco e ali adormeceu, abraçado à pasta de trabalho.

Acordou com o sol ardendo em sua face. Levantou-se com dificuldade. Tentou aceitar mais uma vez a ideia de que continuaria sem ter para onde ir. Não conseguiu. Helena haveria de entender, ele precisava tentar de novo. “Só mais uma vez”, ele prometeu a si. “Só mais uma vez eu vou até lá, ela vai entender, a gente vai conversar. Deve haver algum engano. Não é possível. Alguma coisa aconteceu, deve ser brincadeira…”. A torrente confusa de pensamentos que misturavam negação e esperança tomou conta de sua mente. Não conseguiria ir até o trabalho nesta manhã. Veria Helena novamente.

Caminhou o mais rápido que conseguiu, com a mão sobre a costela partida grande parte do tempo. À frente do elevador, açoitou o botão com dedos nervosos, ansioso.

À porta do apartamento, mais uma vez, tudo parecia absolutamente normal. Desta vez, tocou a campainha; não cometeria novamente o erro de entrar em sua própria casa sem ser convidado. A ansiedade era insuportável. Dois, três, cinco, dez minutos. Nada. Aceitou que provavelmente todos haviam saído. Trabalho, escola, vida normal.

Tentou a chave. Acreditava que eles teriam trocado a fechadura depois do bizarro problema no dia anterior, mas tudo estava normal. A chave girou facilmente, cansada de fazer o mesmo movimento por tantos anos.

Todas as casas têm cheiro. Desta vez, Edgar sentiu quase nada. A sensação de familiaridade era tanta que seu corpo encheu-se de esperança. Olhou para o porta retratos perto da porta. Edgar, Helena. Alberto, banguela. “É A MINHA CASA! É A MINHA HELENA!”

– Helena, HELENA! Cadê você? – gritou Edgar, exaltado, misturando ansiedade, felicidade e esperança. Gritou por alguns segundos antes de se lembrar que àquela hora Helena certamente já estaria no trabalho. Abriu um meio sorriso, pensando que deveria deitar em sua própria cama e ter o descanso merecido. Largou a pasta no sofá, displicentemente, ao lado da gravata.
Caminhou até o quarto tocando nas paredes, como se buscasse evidência de realidade, constância. No quarto, tudo estava quieto. Sobre a cama, Helena, deitada.
– Está em casa, afinal! Querida… – disse Edgar, aproximando-se da cama para tocar na esposa e acordá-la.

Quando seus dedos tocaram a pele do braço de Helena, sentiram apenas o frio de quem não está mais ali.
– Ah não, ah não, ah não… Aaaaah…. Helena… Helena…

Algumas horas depois, quando conseguiu chamar polícia para recolher evidências (apenas a caixa vazia dos comprimidos), declarar o óbito (tão inegável quanto sua própria morte eventual) e levar o corpo (Helena, Helena…), Edgar encontrou, sob o travesseiro dele, um pedaço de papel.

A cada linha traçada na caligrafia desenhada da esposa, a tristeza tomou-o tão inteiramente quanto possível.

Morta. E ele a havia visto poucas horas antes, em outra vida. Em outro lugar. Enquanto ele conversava com ela, enquanto sofria pelo marido que lhe quebrara as costelas e os três meninos que substituíram o seu, Helena precisava dele. Helena dependia dele. Enquanto dormia na rua, Helena morria.

Sozinho, com a carta na mão, Edgar deitou ao lado da esposa. Depois de 20 anos, esperou a polícia enquanto admirava as rugas no canto dos olhos de Helena, cavadas pela dor tão imensurável e tão interminável. Talvez, agora, do tamanho da dele próprio.

Edgar, meu amor

Eu fiz uma coisa ruim. Não aguentei a dor, tem dias que Alberto é presente demais. Peguei aqueles remédios e tomei todos, Edgar. Eu tentei ligar para você… antes. Você não atendeu.

Fiquei esperando você voltar do trabalho, eu queria que você me impedisse. Mas você decidiu que hoje seria um bom dia para dormir fora de casa pela primeira vez. Você não me falou nada… liguei para você tantas e tantas vezes, você continuava sem atender. Desligou o celular.
Por que resolveu fazer isso comigo justo hoje, Edgar?

Agora tomei todos aqueles comprimidos. Já me arrependi. Tentei ligar para a ambulância, mas desisti no segundo toque. Se eu for salva, que seja por você.

Eu queria ficar, Edgar. Queria. Mas a dor foi grande demais.

Desculpe por isso.

Por que você não atendeu a droga do telefone?

Desculpe, desculpe, desculpe…

_____________________________

Em 27 de setembro de 2016, esta bigorna me caiu. No dia seguinte, estava tudo devidamente parido.

Depois da reação das poucas almas a quem submeti este texto, penso que devo pedir desculpas. Acho que talvez tenha sido demais.

Mas, como Edgar, de vez em quando a gente não tem escolhas. Abre a porta errada.

Esse texto é sobre um homem que talvez tenha atravessado um véu proibido entre realidades. Ou, talvez, seja sobre todos nós, e nossa interminável capacidade de olhar o mundo todo e negligenciar o que está na nossa frente, gritando por ajuda.

Talvez as duas coisas.

Como está o cheiro da sua casa hoje?

Mari

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~ por Mari em 29 de setembro de 2016.

5 Respostas to “todas as casas têm cheiro”

  1. Nossa, Mari. Me afoguei em lágrimas.

  2. Várias ondas de arrepio quando terminei de ler o texto ~ fiquei com uma outra pergunta aqui, até onde se tem escolha? Até onde se tem controle ~

  3. o mundo tá terrível, nao temos tempo para nada

  4. Que texto incrível , me prendeu do início ao fim.. Parabéns

  5. geeente, tadinho do home! Que vida miserável… ótimo texto! Muito bem escrito, prende a atenção e faz a gente sentir na pele. parabéns!

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