pesadelo

A dor encurvava suas costas como se ele tentasse carregar o mundo todo. Antes um profissional altivo, sorridente e brilhante, agora sofria a perda, todos os dias. Apagaram seus olhos, tomaram sua vivacidade, embruteceram suas feições antes tão gentis.

Com seu chapéu surrado, encostava-se na parede de um prédio abandonado. A testa franzida enquanto acendia o sexto cigarro denunciava sua preocupação e paciência. A chuva cessara há quase uma hora, mas uma garoa fina persistia e insistia que a rua devia permanecer encharcada. Seu rosto permanecia oculto pelo ângulo do chapéu, e seu corpo coberto por um velho sobretudo claro.

Aguardava pacientemente o surgimento de seu pesadelo. Não um pesadelo comum; um homem maltrapilho que a atacara bêbado, ou um mafioso que a tomara por vingança. Seu pesadelo levara sua esposa por pura maldade. E o homem, contrário a todas as outras pessoas, o enxergava. E havia decidido pela vingança, nem que levasse toda a eternidade.

Numa cadeira de rodas, um rapaz franzino se aproximava, levado lentamente por uma enfermeira rotunda. Seus olhos pareciam vazios a esta distância, e sua cabeça lisa exposta ao frio e à umidade desafiava o bom senso. Acima dos ombros do rapaz, seu pesadelo espreitava, com suas grandes garras esfumaçadas enterradas na lateral direita do corpo do rapaz, e seu olhar demoníaco se fixou no rosto do homem de chapéu. Percebeu que sua existência fora notada. O urro que ecoou pelas ruas fora tão ensurdecedor que todos ali teriam enlouquecido, se fossem capazes de ouvir. O rapaz na cadeira de rodas não titubeou. A enfermeira não incluiu pausa no discurso sobre como ele deveria usar um chapéu se quisesse visitar sua mãe como uma surpresa em noites frias. O homem não fora notado nem por enfermeira nem paciente.

Arrancando com violência as garras do fígado do rapaz, o pesadelo saltou sobre ele e pousou logo à frente do homem. O rapaz subitamente levou suas mãos à lateral do corpo. Ao ser indagado pela enfermeira, expôs dor súbita e lancinante. Ela pareceu preocupada e apressou o passo, na esperança de examiná-lo ao chegar à casa de sua mãe.

O pesadelo aguardava o homem de chapéu em posição de ataque. Suas mandíbulas abriam e fechavam ameaçadoramente, evidenciando uma fileira de dentes negros pontiagudos. O corpo magro, como derivado de um casamento profano entre réptil e inseto, reluzia à iluminação amarelada da rua. O exoesqueleto estava intacto, e brilhava sutilmente em suas aberturas entre as costelas. De dentro da caixa torácica, um brilho alaranjado emanava do lado direito do corpo do demônio; esticou seus chifres para trás, e com mais um urro infernal executou o bote bem planejado.

O homem, experiente, aproveitou a posição do tórax do pesadelo enquanto este avançava e cravou-lhe sua adaga por entre as costelas, atingindo a fonte do brilho alaranjado. Com movimentos convulsivos, o pesadelo caiu no chão, desfez-se em milhares de insetos pequenos que se dispersaram imediatamente.

O homem respirou fundo. Conseguiu erguer um pouco mais suas costas, e seus olhos alcançaram o rapaz na cadeira de rodas, que já se afastava. Um meio sorriso se fez, ao pensar que aquele rapaz teria outra chance. À amarrotada foto da esposa que retirou da carteira prometeu eterna devoção, beijou-a e derramou uma lágrima. No inverso, anotou mais um tracinho. Já não havia mais espaço para quase nenhum, e sua preocupação agora era decidir qual seria a próxima foto de seu grande amor que usaria em sua vingança.

Na semana seguinte, ao examinar os testes de seu paciente, o médico teve que informar ao rapaz que seu tumor havia sido completamente curado, contra todas as expectativas. A enfermeira roliça que o acompanhava derramou uma lágrima; sua mãe o abraçava e chorava de emoção, rindo e murmurando “Obrigada, obrigada, obrigada”, ao médico.
Ao final da consulta, ele tirou o jaleco, colocou seu sobretudo claro e seu chapéu surrado e foi acender mais cigarros à espera de seus pacientes e seus pesadelos.

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~ por Mari em 9 de outubro de 2015.

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