estrela da manhã

No início havia um castelo. Suas paredes eram negras; o silício em sua composição emprestava um brilho difuso, esparso, aos tijolos irregulares. No céu acima, réplicas perfeitas dos pequenos pontos brilhantes tremeluziam em constelações infantes.

Neste castelo havia um rei. Seus olhos eram brancos e cegos, pois ao nascer, não havia nada para ser visto. Mesmo que nunca tivesse havido mais ninguém além dele, a solidão, ainda inominável, o tornara estoico. O rei então, nomeou-se ao mesmo tempo que ao sentimento; Solidão. Quando a dor do sentimento incompreensível tomou a forma de lágrimas geladas em seu rosto, Solidão arrancou sua própria costela, e dela moldou uma bela esposa. Não podia vê-la, mas sentia sua pele macia. Sabia que a tinha feito pálida como a neve, com olhos violetas e longos cabelos negros. Sentia sua pele nua, e a tomou ali mesmo. Seu troféu, sua vitória. Nomeou-a; Orgulho.

Orgulho, impassível, não era cega como seu marido, pai, irmão e criador. Ao contrário, enxergava tão bem que ao fundo dos olhos de Solidão enxergava apenas o vazio. O Rei a tinha como posse, seu diamante precioso; Orgulho não suportava as mãos ressecadas do velho Rei invadindo-a, mas sua natureza a impedia de render-se. Aguentava todos os dias, de cabeça erguida.

Ela então deu à luz uma criança, que fora concebida durante o único momento de fraqueza de Orgulho. Numa noite, enquanto seu marido a usava, uma única lágrima escorrera de seu rosto. A criança era uma bela menina, a quem nomeou Melancolia.

Melancolia, apesar de sombria, pareceu ser necessária, remediadora. Orgulho gastava seus dias inteiros ensinando a menina sobre a Realidade, contando as estrelas que insistiam em aparecer e criando flores brilhantes no jardim eterno do Castelo. Solidão era visto de outra forma pela esposa, como o provedor de sua luz. Orgulho ainda o recebia, mas mostrava-se mais participativa, mais carinhosa. Solidão suspeitou que talvez ela até o quisesse ali.

Solidão percebera que aqueles sentimentos não eram naturais a ele; caminhou até alcançar os limites do castelo e desapareceu. Sua inexistência não afetou sua criação, as estrelas nem a Realidade.

Orgulho permaneceu plantando e colhendo flores com melancolia, que se tornavam cada dia mais brilhantes. Mesmo depois de anos após a partida do marido, viu-se grávida. A criança que pariu era um menino, de pele mais clara do que as estrelas e brilhante como as flores. Nomeou-o; Luz.

Luz era uma criança agitada, sorridente. Um dia, ao correr pelo castelo e jardins, Luz escorregou e caiu. Por décadas permaneceu em queda constante, aparentemente eterna. Quando o chão finalmente fez-se existir sob seus pés, pousou delicadamente e percebeu-se em uma planície avermelhada, infinda.

Soube, mesmo sem chaves nem portas, que aquele era seu reino. Procurou por eras por seu trono. Quando estava pronto, finalmente inteiro, o encontrou. Seu lugar havia permanecido ali, intocado, desde que seu coração se apaziguara da queda; esperava apenas que Luz se tornasse inteiro. Crescera; era um homem de feições gentis e coração imaculado.

Sentado no trono, Luz percebeu, vindo do horizonte como o nascer do sol, um belo rapaz de olhos azuis e largo sorriso. Enormes asas brancas estendiam-se de suas escápulas. Luz nomeou-o; Amor. Uma estrela surgiu brilhante no céu da Criação. Na Terra, a nomearam; Estrela da Manhã. Luz e Amor reinaram por eras em sua planície avermelhada, acolhendo a todos que os buscavam e oferecendo-lhes a Verdade.

Orgulho nunca mais vira seu filho, e ocupara o resto de sua eternidade plantando sementes inférteis. O jardim nunca mais floresceu, moribundo tal qual os olhos de Orgulho. Melancolia reinara por várias eras; sua criação é cruel, doentia e sem esperanças. Ainda assim, a Estrela da Manhã brilhava forte, tocando corações na criação inóspita de Melancolia, acendendo almas em meio à escuridão.

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~ por Mari em 16 de setembro de 2015.

Uma resposta to “estrela da manhã”

  1. Muito bonito, brilhante e triste!

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