Quando ele se levantou, tudo era pó.

Seus pés desbravavam montanhas de cinzas esbranquiçadas, ocasionalmente pontuadas por um pedaço ou outro mais rígido. Por onde passava, deixava um rastro, que logo era apagado pela ventania constante.

Nuvens de pó formavam-se à distância, e ele notou que uma tempestade não tardaria a se formar.  O sentimento de mais profundo pesar o dominava, suas lágrimas pareciam escorrer de cada um de seus poros.

Ajoelhou-se, tomou em seus dedos um dos pedaços maiores que encontrou no chão. Rígido, com marcas de calor.  Ao seu redor, em todas as direções, o mundo era tomado por cinzas e pedaços de ossos que não se desfizeram na cremação.  “Eles deviam ter moído”, pensou, e mais e mais lágrimas escorreram e aglutinaram porções das cinzas no chão.

“Sinto muito pela sua perda”, ele ouviu de sua tia, ao abraçá-lo. Em outra dimensão, ele respondeu cordialmente pela presença na cerimônia.

Quando os convidados se puseram em círculo e o assistiram colocando as cinzas dela num pequeno buraco e plantando uma muda de salgueiro por cima delas, ele foi capaz de derramar uma única lágrima.

Lá, no mundo real, as lágrimas profusas insistiam em enevoar seu caminho. Mesmo assim, um pé depois do outro, ele avançava por entre as cinzas de sua esposa. “Hei de emergir inteiro da planície do desespero.” – pensou.

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~ por Mari em 18 de agosto de 2015.

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