queda

Naquele dia, tudo parecia ligeiramente diferente. As cores brilhavam um pouco mais, o céu estava quase lilás, tão forte era o azul.
A transmissão de monitoramento da Guerra mostrava o de sempre: velhos campos de batalha, tomados por poeira, ervas daninhas e carcaças robóticas. Alguns deles estavam sendo abertos para visitação; a escola dela já havia planejado uma visita a um campo próximo, e prometido que seus alunos caminhariam pelas trincheiras.

Do calor da Guerra já não se ouvia falar há algumas gerações. A batalha fora vencida na Terra, e os países estavam começando a se reestabelecer. A Federação Sol estava muito forte, começando a fazer presença nas conferências entre sistemas. A vitória mais recente era uma nova Federação aliada, que adicionaria bilhões de armas à guerra contra as máquinas que ainda oferecia risco.

Cinco mil anos (terrestres) passaram-se entre o início das inteligências artificiais e o início da guerra. Curiosamente, as Federações foram atacadas ao mesmo tempo. A vitória soava frágil, mas o senso de paz estava se espalhando vagarosamente pela Via Láctea.

Ela resolveu sentir o dia mais colorido, e saiu de casa. A construção de formas anciãs era um refúgio, um tempo à vida tranquila.
A relva amarelada roçava em seus pés. Caminhou pelo milharal, tocando ocasionalmente uma espiga ou outra, admirando a perfeição e crescimento daquela safra.

Quando o sol pareceu brilhar um pouco mais, uma brisa fria lambeu seus braços nus e seu rosto, causando arrepios profundos. Olhou para a direção do vento e foi surpreendida por um enorme fluxo de energia negra, espiralando e convergindo num portal inconstante.

A energia parecia pesada e voraz. A enorme tempestade enegreceu completamente o lado leste de sua fazenda, enquanto que no lado oeste, o sol brilhava forte. Seu cão dormia aos pés da varanda da casa, desinteressado pelo vórtex apocalíptico que se aproximava.

Então, no olho da tempestade, ela enxergou a si mesma. Com as mãos estendidas e o corpo franzino, o vestido que ela usava estava completamente em farrapos. Os olhos fundos, enegrecidos, expunham medo e exaustão.
Sua imagem estendeu a mão, que projetou-se através do portal. Hipnotizada por seu próprio reflexo, estendeu sua mão roliça e corada e tocou aqueles seus dedos que eram pouco mais do que ossos. A sensação foi violenta, e o frio subitamente pareceu trincar seus ossos. Através do portal, viu seus olhos em órbitas emaciadas iluminarem-se, ao perceberem aquele mundo tão pacífico. A imagem largou a arma que carregava, correu e embrenhou-se no milharal.

Ela então viu-se sozinha, desarmada, no campo eterno de batalha naquela realidade em que a Guerra não havia sido vencida.
Ruínas de sua casa pontuavam a imensa planície devastada. Sinais de humanidade escassos, com pequenos detritos espalhados pela terra revolta. As árvores que restavam de pé eram esqueletos partidos, sem folhas e sem vida.

Quando o vórtex se fechou diante de seus olhos, seu grito de desespero seria ouvido por multidões, se elas ainda existissem. Desviando do corpo de seu cachorro já há muito decomposto, ela começou a fugir das máquinas que já se moviam em sua direção.

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Mais um exercício, iniciado por esta imagem:

🙂

a queda

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~ por Mari em 3 de agosto de 2015.

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