inferno

Enquanto ela se esforçava para colocar um pé depois do outro, a interminável fileira de mudas se estendia ao longo da estrada. Ela corria o mais rápido que podia, mas ainda assim jamais pareceria rápido o bastante.
Lágrimas insistiam em escorrer pelo seu rosto emaciado, tão cinza quanto a névoa onipresente naquela estrada maldita. “Falta muito?”, ela perguntou para si mesma, obtendo resposta imediata: “Falta a infinidade, e não falta nada. Mesmo que você o encontre, não haverá nada que possa fazer”.

Mas precisava tentar, jamais deixaria para trás sua única chance.

Sangue escorria pelo meio de suas pernas, empoçando-se nas marcas de calcanhar de cada pisada que dava na terra molhada. “Mais, mais rápido”.

Mais uma vez, arrancaram-no dela. “Este não vai morrer, não é possível, vou conseguir salvá-lo”.

E então ela soube. Uma das mudas parecia recentemente plantada; alcançou-a. Sem pensar, cavou vorazmente o solo, quebrando as unhas, enfiando farpas nas pontas dos dedos. Encontrou a caixinha que procurava.
Arrancou-a do solo, conseguindo enxergar entre as tábuas mal pregadas da caixa. Retirou a tampa e abraçou-o, apenas a tempo de ouvi-lo dar o suspiro final.

A mãe apertou seu bebê, e urrou para a noite. A pequena criança morta em seus braços era mais branca do que o luar; apesar de ter sido enterrado vivo após o nascimento, parecia quase pacífico. Ela enrodilhou-se em cima da pequena cova, e chorou até dormir com o filho morto nos braços, aos pés da muda de carvalho.

Em seu eterno inferno, a mãe perdeu mais um filho, e mais uma muda fora plantada. Nove meses de paz, ela teria. Nove meses de amor, antes do próximo pesadelo.

inferno

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Mais um exercício de escrita de cinco minutos, proposto para ser baseado na imagem acima :).
Desculpem por isso. Ainda não aprendi a colocar meu cérebro numa coleira, e assim que digo para ele “Ei, olha só, vamos passear!” ele me apronta esse tipo de coisa.
Menino mau, Cérebro, menino muito mau.

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~ por Mari em 14 de julho de 2015.

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