a caça (convidado)

Pessoas, esse texto aqui não é meu, é do querido amigo Thadeu Silva.

O Thadeu é meu amigo há muitos anos, e sempre insisto para que ele coloque no papel as ideias dele :).
Cá está uma delas.

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A Caça

 

As horas passavam, mas esperava pacientemente…

Já era tarde, pouco movimento no Campus, ele se encostava em uma árvore ao lado da biblioteca. Estacionado próximo havia um SUV prateado com vidro fumê, calha de chuva e adesivo de “Bebê à Bordo”. “Carro de mãe”, pensou. “Essas desfrutáveis começavam cada vez mais cedo.”

Imagina se na época de sua mãe uma mulher com filhos ia estar até esta hora na rua? E solteira ainda por cima… Certamente largara o filho com a avó da criança, a coitada. Devia estar tão decepcionada com a vida que sua cria havia escolhido. Mãe solteira. Descarada.

Estivera observando ela nos últimos dias. Uma das últimas pessoas a sair do prédio, sempre sozinha, até altas horas “estudando”. Como se esfregar-se com o professor de Psicologia fosse “estudar”. A raiva ia consumindo seu ser cada vez que pensava naquele hippie com ar de intelectual. Ele não merecia todo o sucesso que tinha. As aluninhas todas se jogando aos seus pés… comunistinha imundo, não merecia essa atenção toda.

Não! Quem deveria estar recebendo os louros era ele! Ele que trabalhou desde os 15 anos! Ele que se esforçava todo dia no trabalho e toda noite na faculdade! Indo para casa sempre esgotado, odiando o mundo, sacolejando naqueles ônibus fétidos lotados com aquela gente medíocre. Corja miserável. Todo domingo no culto, ele tinha que acreditar que todo seu esforço algum dia lhe traria retorno. Até que um dia lhe veio a luz.

Durante uma bebedeira, em algo que ele poderia chamar de “epifania” (termo que aprendera na aula do comunistinha) ele percebeu. Sim, ele merecia o sucesso. Merecia ter o que quisesse. Ter QUEM quisesse! Ele só precisava tomar pra si aquilo que Deus lhe entregava. E essas perdidas, sempre tão exibidas e desinibidas, mereciam conhecer um homem de verdade para lhes mostrar o caminho… o caminho do paraíso ou do inferno, o que quer que lhes estivesse destinado após ele terminar com elas.

Finalmente ela saía. Apressada, esbaforida.Parece que havia ficado mais tempo do que deveria lá. Talvez a mulher do professorzinho tenha desconfiado e ligado? Lógico, o bastardinho  não poderia acompanhá-la até o carro. Sozinha ela ia. Essas vagabundas não aprendiam nada mesmo?

Ela seria seu o que, sexto… sétimo troféu? Com tanta pervertida no mundo, estava começando a perder as contas. Desfilando nessa roupa colante a essa hora, sozinha, mesmo após os relatos de seus “encontros” anteriores? Ela merecia o que estava por vir. Ele podia sentir sua pulsação acelerar quando se aproximava. Podia sentir os ferormônios da rameira no ar, clamando por seu sexo. Descuidada, deixou as chaves do carro caírem… Ninguém por perto, seria agora. Ela seria sua, mal podia esperar…. e quando ela se levantou grudou nas suas costas com a faca na mão.

“Não se mexa ou eu te rasgo aqui mesmo vadia. ” – Disse, como num sussurro. Quase podia sentir o gosto daquela carne tenra em seus lábios.

Mas não podia ver o sorriso de satisfação, quase psicótico, que se formara no rosto dela…

Em um rápido movimento, quase imperceptível para o desgraçado, ela segurou e torceu seu braço, posicionando-se em suas costas. Agora ELA estava no comando. “Você demorou bastante, seu bostinha. ”

Com uma mão torcia o braço daquele farrapo humano, enquanto com a outra pressionava a faca firmemente contra seus testículos. Apenas o suficiente para fazer o maldito suar frio e congelar no lugar. Tinha certeza que não era isso o que ele esperava que acontecesse esta noite… nenhum deles previra sua reação. Corja imunda.

Fazia dias que esperava esse momento. Desde que soube do início dos ataques ela planejara isso. Notícias de jornal, relatórios policiais… estudou o perfil de seu objetivo cuidadosamente. Os locais dos ataques, o intervalo entre eles, o tipo de mulher esperada. E virou a “presa perfeita”. Estava cada vez melhor nisso…

Matriculara-se na faculdade como “aluna de transferência”, buscando os mesmos cursos aos quais as alunas anteriores frequentavam. Aproximou-se de possíveis alvos. Não foi difícil cruzar os dados após invadir o computador da instituição. Antes de aprofundar suas pesquisas e ter suas investidas bloqueadas, chegara a pensar que talvez fosse o professor de Psicologia, “queridinho das novinhas”, por quais diversas alunas se diziam apaixonadas. Atraente, carismático, revolucionário. Até mesmo o fato de ser bem casado e com filhos poderia ser um disfarce para ocultar outro monstro… já havia eliminado mais de um assim.

Predadores se disfarçam das mais diversas formas. O respeito do professor, o sorriso do pastor, o olhar de um pai, o ombro amigo… nem sempre são fáceis de reconhecer. Ela já havia conhecido uma boa variedade deles durante os últimos anos. Às vezes é preciso ser um para reconhecer outro.

Mas quando o caçador se torna a caça é que se reconhecem os verdadeiros merecedores. Esse era fraco, estava paralisado. Ela gostava quando eles reagiam… tudo ficava muito mais interessante. Era fascinante ver como a noção de realidade daqueles que se consideravam tão fortes se despedaçava em mil pedaços. Ela se dedicava desde a adolescência a ser melhor do que seus adversários. Mais forte, ágil, inteligente, perspicaz…. na natureza sempre foi assim, a sobrevivência do mais apto. E ela era o topo da cadeia alimentar.

Frágil? Nunca. Ela jamais deixaria acontecer com ela o que vira acontecer com tantas outras garotas… e tantos animais saiam livres, continuando a espalhar o terror quando o máximo que mereciam era o confinamento de um zoológico. Mas ela não viveria com medo. Não, se era para alguém ter medo que fossem eles. Esse desperdício de material genético que contaminava a sociedade. Quanto mais “problemas” ela pudesse solucionar, melhor.

Ajudava o fato de ter sido diagnosticada ainda jovem com “transtorno de personalidade”. Teve acesso ao outro lado. Ela aprendeu. E pôs em prática o aprendizado. Convenceu a todos que estava melhor, que era “normal”. Conceito tão fraco na sociedade. Fingia bem, trocava de máscaras com naturalidade. Foi simples enganar esse traste de que poderia dominá-la. A reversão dos papéis, aos seus olhos, era algo sublime…

Tapou-lhe a boca. Por mais “durões” que fossem, eles sempre gritavam nesse momento E aplicando um pouco mais de força, com precisão cirúrgica, decepou seu membro ainda pulsante.

Ela arrastou seu corpo para trás do carro, jogando-o no porta-malas forrado com plástico. “Pra você não sangrar no estofamento… o carro é alugado. ” – Disse com uma piscadela jocosa, recebida por um olhar horrorizado enquanto fechava a porta.

Entrou no carro e abriu seu caderninho, e riscou mais um “codinome” de suas páginas… achava graça nos apelidos que os jornais davam para esses inúteis. No que dependesse dela, seus verdadeiros nomes cairiam no esquecimento. Já havia uma próxima presa, pegara seu “nome” no jornal sensacionalista da noite. Esperava que fosse uma presa mais interessante, este nem merecia que despendesse mais tempo em seus cuidados. No caminho descartaria o corpo do infeliz que se esvaia em sangue…  em breve estaria morto, com a caçada terminada agora se tornara apenas mais um. Mas sempre haveria mais um alvo à vista para seu divertimento. Sorriu, um novo jogo começaria.

E ela pacientemente esperaria mais uma vez.

 

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~ por Mari em 8 de junho de 2015.

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