mediocridade

Há pessoas que envelhecem e evoluem, aprendem, se lapidam. Há outras que tendem a se misturar, a mergulhar na mediocridade.

Infelizmente, ele foi um deles. Nos conhecemos na adolescência, e o amor era lindo. Aprendi tanto, mudei para melhor. Contra todas as expectativas, continuamos juntos. Dez, quinze, vinte anos depois, cá estamos nós.

Temos dois filhos lindos, que misturam nossos traços com maestria. Samara está no primeiro ano do ensino médio, e é uma aluna brilhante de uma escola particular de classe média-alta. Álvaro acabou de concluir seus estudos, e está tentando ser admitido no curso de medicina de uma universidade pública. É muito difícil conseguir tal feito, mas acreditamos que em um ano ou dois de cursinho ele aprenda o necessário para conseguir.

Eu? Eu sou dentista, seguindo o sonho de criança. Tenho meus pacientes fixos, e minha renda é suficiente para termos uma vida confortável, principalmente quando adicionada à renda do Mauro como administrador de uma empresa de médio porte.

Mediocridade. A vida farta nos acolheu, nos mimou e arrancou nossos ideiais. Eu nunca gostei muito de política, mas Mauro era militante. Lutou, sofreu. Lamentou o comportamento da grande massa, como ovelhas obedientes. Hoje, Mauro passa seus dias no trabalho, e de lá, em happy-hours com seus amigos, com bastante cerveja e um ocasional olhar para a moça na mesa ao lado.

Entendo, claro. Faço parte das estatísticas. Sou a média, a básica, a comum. Não sofro de nada, por nada, nem por ninguém. Vou à festas de fim de ano do balé de Samara, onde posso ver que ela não é a pior da classe, mas nem de longe brilha como as outras. Ela é colocada na fileira do meio, do lado. Sempre.

Mauro tem criado nossos filhos para seguir os passos dele. Sempre buscando o dinheiro, a estabilidade e o conforto. Ele jamais mencionaria que passou noites em claro, acampado na frente de delegacias por meninos negros presos injustamente. Jamais contaria que carregou o corpo morto de um deles e chorou junto com a mãe do moleque. Seus filhos? Jamais passariam por isso. Seus filhos jamais entenderiam o que foi a fome que ele mesmo passou na infância, e a dor que sentiu, por ele e por todos os outros.

Ele amava. Amava todos, amava o mundo. Hoje? Seu umbigo é seu universo, e ele é seu deus supremo.

Deus.

Deus, meus olhos estão cansados, mas acostumados com o escuro. Minhas mãos cheias de calos e sujeira entremeiam meus cabelos emaranhados, na tentativa de soltá-los dos nós permeados de terra e teias de aranha. Tentei fechar meus olhos novamente.

“Volte, por favor, volte, volte, volte…”, pensei, mas a Realidade não voltou.

Realidade é como chamo a minha vida medíocre com Mauro. Como chamo nossos filhos, Samara e Álvaro, e suas vidas infinitamente comuns. Como chamo cada um dos meus pacientes e seus demorados tratamentos dentários. Como chamo cada reunião de pais entre mães, (e só mães, e me pergunto por que ainda chamam de reunião de “pais”) mães tão medíocres e vazias como meu próprio interior.

Tentei forçar meus olhos a enxergar novamente aquele mundo mediano; apertei com tamanha força que bolhas escuras dançaram na frente da minha visão quase noturna depois de tanto tempo no escuro. A realidade não pode ser esta, disse a mim mesma tantos anos atrás. Então, criei uma para mim. Na minha Realidade, está tudo bem. Está tudo calmo, tudo sempre feliz, constante, gentil.

Deus, ouvi o som do alçapão mais uma vez. A luz que invade o buraco onde vivo ofuscou meus olhos, que se arregalaram tanto quanto os de uma coruja. Meus ouvidos atentos o escutaram cantarolar, e o som da chibata açoitando os degraus sofridos da escada.

No começo, eu me escondia como podia. Cobria-me de sujeira, na esperança que ele sentisse repulsa. Tentei, depois, ganhar a empatia dele, com conversa, com carinho. Arrumava meu cabelo usando gravetos como pente, e limpava a sujeira como podia. Hoje vivo com a falha de minhas estratégias, num mundo cheio de apatia, dor, abuso e abandono.

A esposa dele de vez em quando descia para observar, dando prazer à si mesma. Os dois filhos deles, Samara e Álvaro, quase certamente não fazem ideia do que os pais guardam no porão.

“Olha só, quem temos aqui!”, ele disse, animado como todos os dias. Não emiti nem um grunhido em resposta.

Mauro veio, agachou-se e olhou-me nos olhos. Acariciou meu rosto, e retirou terra de um dos meus olhos. “Vamos cuidar de você, não vamos?”, disse ele, como todos os dias.

Ajoelhou-me, e atirou-me para que eu ficasse de quatro. Ao ouvir o som de um zíper se abrindo e a chibata alcançando minhas costelas pela primeira vez, fechei meus olhos e me transportei para a Realidade.

“O mundo não é este”, pensei. “O mundo não pode ser este. Deus, por favor, pare.”

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~ por Mari em 1 de junho de 2015.

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