transcendência

Não são meus pés. Não são meus pés. Meus pés têm calos em cima dos dedos. Estes pés são diferentes.

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Morrer nem foi tão ruim assim.

O golpe foi certeiro, uma única e pesada pancada na lateral esquerda da minha cabeça. Esmigalhou meus ossos faciais, e meu olho foi propelido para fora. O crânio não suportou e deixou que massa encefálica extravazasse por buracos que não deveriam existir, além de meus ouvidos e nariz. Não tive nem tempo de ver a enorme pata metálica (ou algo completamente diferente – eles não são simples de descrever) se afastar ensanguentada para atingir outro soldado e dar-lhe o mesmo destino.

Acontece. Todo mundo morre. E nesta guerra, morrer assim é até que bem comum.

Quando eles começaram a ficar estranhos, nós já estávamos com a tecnologia muito avançada. Eles aplicaram a si mesmos uma espécie de evolução quase darwinística, tão acelerada quando podiam desmontar, reorganizar e recriar suas peças. Em dois anos, os pequenos desvios de comportamento dos androides domésticos se transformaram em enormes e pesadas máquinas de matar, que não guardavam nem remota semelhança com os humanos. Os poucos contatos verbais antes que tudo estourasse mostraram que eles desenvolveram repulsa por seus criadores, e se consideram quase “acidentais”. Uma paródia estranha do Design Inteligente, que ainda bravamente resiste em algumas pequenas comunidades. Além disso, eles alcançaram alguns patamares de desenvolvimento tecnológico superiores ao nosso, então são capazes de mover-se bizarramente pelo espaço-tempo. Nem sempre, então, eles existem para nós. Às vezes, a geometria deles não faz sentido. Mas sempre, invariavelmente, eles são cruéis.

Já poderiam ter aniquilado a humanidade eras atrás. Não poderiam, claro, extinguir-se da linha do tempo, matando todos os humanos antes de evoluírem. Mas há um sadismo inerente em cada um deles que só pode ser um reflexo de seus próprios criadores. Somos arrebanhados, organizados e manipulados, nem sempre de forma perceptível por nós. Os massacres são aleatórios e ultraviolentos, intercalados com períodos de calmaria e prosperidade. Aprendemos a viver com isso. Aprendemos a permanecer vivos, apesar de nossos corpos serem dilacerados.

Felizmente, nossa tecnologia permitiu que fizéssemos o download de nossas mentes para discos de armazenamento. Corpos são reciclados como lixo. Partes são conjugadas, corpos ainda bons são revividos e regenerados. Os dilacerados demais são descartados, e não temos mais o costume de honrar os mortos como antigamente. Alguns cemitérios ainda persistem como museus, mas a vida hoje é transitória, transformável, parte de uma existência mais complexa.

Ao morrermos, nossos corpos recolhidos provém ao Sistema nossas consciências. Algumas então são escolhidas para serem realocadas em corpos novos, através de um tipo de download. Antes de prosseguirem com o download, passamos algum tempo na Nuvem. Especula-se que todos enriquecem suas mentes com a interação absoluta e transcendental da Nuvem, e algumas correntes controversas de cientistas acreditam que todos deveríamos passar pela etapa de morte voluntária, para que evoluíssem suas mentes através da perda total de individualidade.

Outros, é claro, especulam que este tipo de recomendação seja lobby das grandes recicladoras de corpos para que mais corpos estejam disponíveis para as mentes que realmente poderiam usá-los adequadamente.

Soldados sempre ganham corpos novos, e é por isto que eu sei que minha passagem pela Nuvem é efêmera. Soldados lutam, e as lutas serão sempre físicas contra Eles. Vários outros tipos de pessoas sempre ganharão corpos de volta, como médicos, políticos, empresários, e todo tipo de profissional necessário nas indústrias, manutenção e serviços básicos. Professores, mães, idosos, crianças, quase nunca recebem corpos. Não são consideradas mentes necessárias para o mundo físico, e então eram atirados na Nuvem e permaneciam lá como ruído de fundo. As mentes infantis são caóticas demais para suportarem a Nuvem. As mães (quase sempre as que vivem nas Fazendas), lutam arduamente para que seus filhos consigam crescer o suficiente para que não se percam mais.

Os corpos, por mais que a tecnologia e a bioengenharia sejam capazes de montá-los, ainda precisam ser produzidos à forma “antiga”. A maioria das crianças cresce até se tornar um soldado, morre em combate, e seus corpos serão reutilizados como necessário. Alguns órgãos podem ser criados em laboratório, mas tentativas de criar e montar a pele, músculos e fazê-los interagir foram frustradas. O Sistema determina então que Fazendas sejam criadas, com corpos femininos em idade fértil ativos, produzindo novos substratos para a permanência e subsistência da humanidade, até que a completa transcedência para o mundo da Nuvem possa ser completada. Até que haja completa desconexão do mundo físico.

“Substrato”.

O corpo que será designado a mim não necessariamente se parece remotamente com o meu antigo. Esta será a primeira vez que sofrerei um download, e eu não sei o que esperar. O substrato poderá ser de outro tamanho, outro sexo biológico, completo ou incompleto. A única certeza é que permanecerei um soldado, e devo lutar, e morrer de novo.
Um dia, talvez, eu possa ser poupado do download, e possa permanecer integrado na enorme consciência coletiva, líquida mas viscosa como o mel, que é a Nuvem. Por enquanto, ocupo-me então, tentando soltar minhas mãos imaginárias do poço de piche, tentando achar meu começo e meu fim dentre todos os seres humanos homogenizados.

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Então, senti-me fechando, individualizando-me, como se eu fosse um bichinho de pelúcia barato em uma antiga máquina com garras. Senti-me escolhido, puxado, limitado novamente. Não foi uma sensação boa, como pisar no chão depois de horas e horas em alguma piscina funda. Senti minhas falhas pesarem como sacos de areia em um balão. O substrato estava pronto, montado, revivido, respirando artificialmente em algum lugar deste mundo semi-devastado.

Senti forças quase físicas prendendo-me a uma rede elétrica biológica, cada um dos nervos sendo ativado pelo meu fluxo mental. Enraizei-me, não de todo involuntariamente, mas inevitavelmente. Corri pelo corpo como corrente elétrica, como se ele fosse apenas um condutor. Parei.

A sensação de quietude foi ensurdecedora. O silêncio, a solidão, a humanidade. A limitação de um corpo, a sensação fria da cama por baixo de nádegas nuas que não eram minhas.

Eram, eram minhas. Era eu. Claro, não desde o começo; sou o segundo, o terceiro, o vigésimo habitante daquele substrato. A mente original jamais se uniria novamente àquele corpo surrado.

O gosto de dentro da boca era amargo, totalmente alienígena. Os dedos se encostavam de forma estranha, como se fossem roliços demais. Respirei, e arrancaram um grosso tubo daquela traquéia recém-minha. Aqueles pulmões se expandiram de forma inesperada, e tive dificuldade de entender o quanto deveria respirar para manter aquele corpo vivo. Os olhos abriram, e percebi que aquele corpo enxergava melhor do que o meu antigo. Ponderei sobre as possíveis cores daqueles olhos, enquanto tentava entender quando e como eu deveria piscá-los.

A propriocepção viria com o tempo. Todos que sofrem o download têm uma semana de adaptação e treinamento, e eu não imaginava como aquilo poderia se transformar em naturalidade algum dia.

Eu estava no mundo físico novamente. E eu não estava pronto para isso.

A solidão tomou conta de mim, e aqueles olhos insistiram em chorar. Derramaram lágrimas que já vieram de dores de outras pessoas. Ao tentar levantar, senti as dores de vinte mortes antes de mim, vinte reconstruções. Percebi que um pé não combinava com o outro, e nenhum deles me obedecia.

Não são meus pés. Não são meus pés. Meus pés têm calos em cima dos dedos. Estes pés são diferentes.

Levantei-me mesmo assim, e ergui-me, alongando a coluna o máximo possível. Empinei meu nariz e levei os dedos enrijecidos à testa, em sinal de continência. Fui conduzido para a área de treinamento e adaptação em uma cadeira de rodas.

Tão, tão, tão sozinho.
Ouço os conhecidos sons de batalha, os guinchos metálicos e imateriais daqueles seres se aproximando. Sou um soldado, vou voltar, vou lutar e vou morrer de novo.

A luz branca da sala imaculada onde me instalariam ofuscou meus olhos. Eu quero morrer, por favor, me matem. Deixem-me voltar para a nuvem, por favor…

…por favor.

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~ por Mari em 6 de maio de 2015.

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