nada


Ele não me amava mais, era óbvio.
Seus dedos não me tocavam, seus olhos não procuravam meu corpo. Pensando bem, acho que seus olhos já não procuravam os meus; o desejo pela minha mente havia se esvaído, com tanta facilidade quanto pelo meu corpo.
Curiosamente, ao longo dos anos, eu havia perdido a capacidade de me enxergar. Meus olhos eram os dele, já que minha própria auto-imagem era irrelevante perto da opinião dele. Afinal, foi isso o que me ensinaram: seja submissa, seja a esposa perfeita, seja mulher. Ponha-se no seu lugar. A mulher é a base, a mulher está nos bastidores.
Não questionei. Quem duvida de valores tão profundamente embutidos? Seus olhos eram os meus, e eles não me viam.

Eu não era mais nada. Ninguém.

O vazio então desafiava minha criação tradicional. A sociedade via o casamento perfeito, a bela esposa que aguarda o marido bem sucedido na pomposa e organizada casa, com os dois exemplares filhos de banho tomado e jantar preparado no final do dia.

Eu? Eu não via nada.

Quando ele chegava em casa, nos últimos tempos, jantava sem perceber o que engolia, com os olhos vidrados no tablet de última geração. As crianças o procuravam, e ele conversava laconicamente, enquanto fingia se interessar por seus dias na escola com os amigos.
Ao deitar-se para dormir, agarrava-se ao celular, ignorando a esposa ao lado. Nem percebi por quanto tempo ainda insisti em deitar cheirosa e com uma bela camisola.

Hoje, então, deitei-me com a camisola que outra pessoa usou na lua de mel. Tantos anos, tanta dor, destruíram quem eu era. Suponho que hoje eu seja uma cópia de cera, inexpressiva, pálida e doentia. A camisola ainda servia, mas ao olhar no espelho, não havia nada.

Brindei à inexistência com um copo de vinho, muitos comprimidos e um meio sorriso. Não havia ninguém para compartilhar a taça comigo, nem mesmo eu.

Eu não estava ali, então não fui embora, não deixei de existir.

Através de seus (meus) olhos, lembrei-me do rosto que um dia foi meu.

Eu não estou em lugar nenhum.

 

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~ por Mari em 9 de fevereiro de 2015.

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