presentes

Seus olhos cansados, inflamados pela vida difícil e pelo vento cortante tentavam lacrimejar. Não conseguiam. O frio era extremo, cada poro de seu corpo gritava, como se cem agulhas congeladas fossem forçadas para dentro. A camiseta vermelha tinha vários furos. Suas pernas enrijecidas lutavam para avançar cada metro, mas ele continuava.

Ao sair do beco que costumava chamar de lar, tirou o próprio casaco e cobriu a filha que dormia pacificamente ao seu lado. Seus quatro anos eram desafiados pelo corpo franzino e pernas curtas e arqueadas. Não parecia mais que um bebê.

Quando sua esposa era viva, havia um teto sobre suas cabeças. Infelizmente, o último inverno a levou, junto com o bebê que esperavam. Ele jamais imaginava que sentiria dor maior do que aquela, mas a filha pequena dormindo sobre um papelão numa tempestade de neve cortava mais fundo.

Arrancava pedaços de sua alma que ele nem sabia que existiam.

Andava mais devagar agora. Seus dedos enegrecidos não sentiam mais o frio. Agradeceu por isso. O vento uivava e sacudia as árvores nuas da estação. Ele ainda as achava belas, principalmente as enfeitadas para o Natal.

As luzes onipresentes iluminavam de várias cores a rua, mas seus olhos cansados viam apenas enormes esferas luminosas, indistintas. Ainda acreditava que depois dos olhos de sua filha, eram a visão mais bonita que ele poderia ter.

Depois que ela se fora, as finanças lhe traíram. Sua tristeza o fez produzir menos por alguns dias, e ele fora mandado embora. As economias minguaram com a rapidez de uma lágrima sorrateira, e ao final do mesmo inverno, já estavam na rua.

Ao menos, as chuvas de primavera escondiam suas lágrimas em meio às gotas, e sua filha era pequena demais para reconhecer um sorriso triste. Ele cantava, e as lágrimas estavam a salvo sob a chuva. Então, ele cantava mais, a plenos pulmões. A melodia permeava o som da chuva castigando o asfalto, e as pessoas eram atraídas como abelhas ao mel.

Sob a tempestade, chegaram as primeiras crianças.

Ele nem sabia de onde elas tinham vindo, e para onde elas iriam depois do beco. Não conhecia seus pais, nem sabia seus nomes. Uma a uma, com seus rostos sujos, corpos emaciados, roupas em frangalhos e olhos ainda cheios de vida arrebanhavam-se ao seu redor.

Todas as noites, abraçado a sua filha, cantava. O fogo aceso no latão iluminava dezenas de rostinhos esperançosos, maravilhados.

Ele alcançara mais um de seus destinos planejados. Abriu o saco que carregava e começou a recolher os restos de comida de um restaurante famoso. Véspera de Natal, mas felizmente o restaurante abrira. Recolheu filés pela metade, frutas velhas e pedaços de pão. A colheita fora farta, e um sorriso entremeou-se nas rugas cansadas de sua face.

Mais uma parada, e a lixeira da padaria lhe rendeu mais de vinte pães. Seu sorriso se alargou, e ele olhou para cima. Abriu a boca e deixou que entrassem alguns flocos de neve.

A última parada seria numa mercearia, que já estaria fechada, não fosse a solidão do velho proprietário, sem família para compartilhar a ceia. Sentado num banco de madeira, fazia as contas das vendas do dia. Ao ver o homem, um sorriso se abriu. Já eram velhos amigos. Compartilharam uma xícara de chá quente, alguns biscoitos quebrados e as dores de uma vida inteira.

O dono da mercearia deu-lhe alguns pacotes de biscoitos e chocolates, sorrindo; “Para suas crianças”, ele disse. Coçou a velha barba branca, e alcançou uma pequena boneca de pano empoeirada em cima de uma prateleira. “Era da minha filha. Há muito ela não se lembra do pai, quanto mais da boneca. Leve para a sua pequena.”

O homem agradeceu e saiu. O saco de juta que usava para carregar a comida estava pesado, como ele gostava. As lágrimas de emoção venceram o frio e escorreram por suas bochechas. Congelaram antes de chegar ao queixo.

Ao chegar ao beco, as crianças se agrupavam ao redor do fogo, aquecendo as mãos e disputando os toldos das lojas ao redor.

Sua filha continuava dormindo. Aconchegou a boneca ao lado dela e a acordou gentilmente. Carregou menina e boneca para perto do fogo, e abriu o saco.

Cearam os restos, os biscoitos, os pães e as frutas, e aquela foi a melhor refeição da vida da maioria daquelas crianças. Almejaram juntos camas, lareiras, abraços e presentes.

Colocou a filha no colo e abraçou quantas crianças conseguiu. Sentaram ao redor do fogo e contaram histórias até adormecerem.

Quando o dono da mercearia encontrou um velho suéter, por volta da meia noite, foi até o beco entregá-lo ao homem. E foi assim que ele o encontrou, rodeado de suas crianças adormecidas, com a filha no colo. Ninguém notou que ele não respirava mais. O velho ajoelhou-se ao lado do amigo, arrependendo-se de cada migalha que não compartilhara. Levantou-se, tomou a menina no colo e chorou por cada uma daquelas vidas.

Seu amigo lhe dera o melhor presente. “Filhos, venham. Vou lhes dar onde dormir. Me digam seus nomes.”

Com as crianças ao lado, cantou a plenos pulmões por todo o resto do caminho.

Conto Natalino Fundo Transparente


Este conto foi originalmente publicado na antologia  de contos de Natal da comunidade Escritores e Amantes da Terra Média. Ela pode ser baixada aqui: http://bit.ly/eatm-natal2014  A ilustração é do querido amigo Augusto L. Passos. Os trabalhos dele podem ser vistos aqui: www.facebook.com/AugustoLPassos ou  http://tirasnossauro.wordpress.com

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~ por Mari em 5 de janeiro de 2015.

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