condutor

Deitada em sua cama, com seus cabelos emaranhados, ela sentia o acariciar dele em sua cabeça. Seus dedos finos, gélidos, sem vida, enfiavam-se nos nós, e saíam dali com facilidade sem desfazê-los. Ela virou o corpo para fitá-lo de frente, e seus olhos alcançaram os dele. Os dela, embora sem brilho, ainda vivos. Os dele, um poço vazio, escuro. Nem as duas brasas ao fundo brilhavam mais. Seu corpo negro existia no limiar da visão, e ele vestia-se de dor e desespero. Tentou levantar-se, mas ele a segurou. “Mais um pouco” – disse ele – “Você não precisa ir trabalhar hoje. fique aqui comigo”.

E ela ficou. Virou-se novamente, e observou as imperfeições do teto por longos minutos, ponderando se devia mesmo ficar ali ou ir trabalhar. Sentou-se na cama, com dificuldade. Ele deitou-se sobre ela, apoiando o peso sobre seus ombros. “Você não parece bem hoje. Olhe suas olheiras. Olhe seu corpo, nenhuma roupa vai ficar bem em você. Fique aqui. Lá fora, vão todos rir de você” – sussurrava ele. A mulher obedeceu, como se sua vontade de resposta houvesse sido arrancada de si. Não havia mais reação, sentia-se em piloto automático. Houve fome, mas ela o ouviu novamente dizer “Você não devia comer. Não está com fome de verdade, é na verdade enjôo. E você está tão gorda. Não coma”. E a fome passou. Quando conseguia levantar-se para ir ao banheiro, arrastava-se, como se suas pernas
pessassem a dor de um mundo inteiro. Ele agarrava suas costas, enfiando suas unhas na carne, sendo carregado por ela. Sentia-se suja, mas ele dizia “Ninguém vai te ver aqui. Não vá.”. E ela ficava.
Alguns dias se passaram, iguais. Ela percebia que os dias se esvaíam porque notava os jornais se acumulando em sua porta. Era confortável sua situação. Ele conduzia seus passos e ações, e ela acreditava que ele estava certo.

Se ela pensava em sair de casa, ele corria seus dedos por sua espinha, torcia seu estômago, e dizia “Vão rir de você. Você não presta, é pior do que eles. Fique”. E ela sabia que ele estava certo.

Semanas, meses. Seus cabelos irremediavelmente embrenhados em nós como ninhos. Seu corpo magro, alimentado com uma lasanha congelada a cada dois dias mais ou menos, jazia sobre o sofá respirando ruidosamente. As embalagens de lasanha acumuladas em cima da mesa de centro. Baratas e formigas lutavam pelos restos podres, de cheiro acre. A televisão estava ligada no mesmo canal há dias, e ela fitava a tela tremeluzente no volume mínimo. Ele aconchegava a cabeça dela em seu colo, e acariciava seus cabelos, aninhando-a como a uma criança após um pesadelo.

Ela tentou levantar, e desta vez, o que ouviu foi “Isso, parece uma boa ideia”. Ele levou a cadeira até ela, e ajudou-a a amarrar o laço com a toalha. Juntos, penduraram o nó no banheiro. Com a ajuda dele, ela subiu na cadeira. Ele passou o nó pelo pescoço dela, e calmamente retirou a cadeira sob seus pés.

Enquanto ela lutava e sufocava, viu-o saindo pela porta e olhando para trás mais uma vez. Seu sorriso abriu-se, e seus olhos brilhavam em fogo. Então, ele deixou de existir. A mais profunda solidão tomou conta dela, e finalmente ela entendeu o que havia acontecido.

A inexistência tomou-a de braços abertos, e ela morreu tão sozinha quanto possível.

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~ por Mari em 5 de janeiro de 2015.

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