permanência

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Através da janela, a luminosidade fraca denunciava o início de um novo dia. O odor característico e o som leve indicavam que a breve chuva de verão daquela manhã também despertara. O homem se levantou para trabalhar e sua esposa permaneceu dormindo, como tinha feito pelos últimos trinta anos.

Só que nesta manhã ela estava morta. Curiosamente, a sensação era em nada diferente do pseudo-despertar sonolento que sofria todas as manhãs quando ele se levantava, pontualmente, mesmo antes do despertador tocar.

O marido foi até a sala, ainda tentando despertar completamente. Através do vão da porta conseguiu observar o corpo rotundo de sua esposa sob o fino lençol de verão, deitado de lado. Não sentiu nada, a alma ausente como é comum aos trabalhadores diários.

Se arrumou, enfiou a camisa para dentro da calça de forma apenas suficientemente cuidadosa. Pegou o paletó, jogo por cima do ombro. Apenas uma peça de roupa, mas pesada como trinta anos de escritório. Engoliu um copo de café fresco da cafeteira, mas que estava doce demais.

Enquanto o esposo fechava a porta, a mulher se sentia gradativamente dominada pelo pânico. Não conseguia se mexer. Sentia tanto, tanto frio. Não percebia sua própria respiração; sua pele inconfundivelmente áspera e imóvel como borracha. O lençol sobre seu corpo inerte despertava uma sensação estranha, como se agulhas perfurassem seu corpo semi-anestesiado.

Os pensamentos vinham difusos e sem sentido. Fluíam como cascatas elétricas, incontidos, avassaladores. Tudo parecia um pesadelo mal construído, e a percepção de tempo perdeu-se completamente. Ainda estava deitada do mesmo jeito quando ele chegou, à noite. Ela não sabia dizer se o marido apenas esteve fora por alguns minutos ou se trabalhara pelo dia todo. Ouviu seu nome sendo chamado, e tentou balbuciar uma resposta.

Nada.

Ao vê-la exatamente na mesma posição que a havia deixado de manhã, compreendeu, mesmo antes de se aproximar. O coração dela nunca foi bom, e sua morte prematura sempre fora uma possibilidade contemplada por ambos com frequência.

Ele se arrependeu de não ter se despedido apropriadamente; tantos anos de companheirismo perdidos numa manhã de apatia. Circundou a cama para alcançar o lado para o qual o corpo dela estava voltado, observou-lhe o rosto, pálido, com manchas arroxeadas. Uma lágrima escorreu de cada olho, enquanto ele se ajoelhava ao lado do corpo morto da esposa. Tomou-lhe a mão entre as dele, e notou que seu braço estava completamente enrijecido. “Eu te amo, eu te amo, eu te amo…”, disse-lhe, permitindo que mais lágrimas escapassem do canto de seus olhos. Havia dez anos que não juntava essas três palavras em uma frase.

Nesta mesma hora que ela notou o rigor mortis de seu próprio corpo. Não conseguia enxergar o esposo com seus olhos ainda fechados do sono que não terminara. Sentiu os dedos dele, tão familiares, acariciarem a lateral de seu rosto. Era como se sua pele estivesse coberta por uma densa e espessa camada de couro. Ele permaneceu ao seu lado por algum tempo – cinco minutos, cinco horas? – e depois se levantou.

O viúvo pegou o telefone e discou, ela pôde ouvir sua voz distante falando coisas indistintas. Imagens estranhas invadiam sua cabeça, tão aleatórias quanto sua enxurrada de pensamentos. Ainda contemplando, por dentro de seus olhos cerrados, coelhos colhendo flores de sangue num campo verde, sentiu-se adormecer. Foi acordada por homens de branco erguendo-a displicentemente, utilizando sua própria rigidez como auxílio.  Foi acomodada numa maca. Depois, num saco. Adormecera novamente, certa de que alucinava auditivamente ao ouvir que ela seria levada ao IML.

Subitamente, foi despertada por uma luz forte. Seus olhos haviam se entreaberto durante a movimentação, ela decidiu. Conseguiu vislumbrar sem clareza uma parede branca. A mesa onde estava deitada parecia gelada, mas ela não tinha como ter certeza através do tato entorpecido. Um homem de jaleco plástico azul aproximou-se, mascando um chiclete sob o bigode bem aparado.

“Mulher, 56 anos, 97 kg, 1,59 de altura. É isso aí, José, que está anotado?”

“É sim. Cara, elas não aprendem mesmo. Essa tia aí tem cara de quem se entupia de chocolate. Depois o coração não aguenta, vem a diabetes e elas nem sabem do que morreram”

Ela quis responder, ansiou pela defesa própria. “Eu nem gosto de chocolate! EU NEM GOSTO DE CHOCOLATE!!!”, pensou ela ferozmente. A raiva empossou-se de sua mente por completo. Em vida, as emoções não são capazes de tamanha unicidade, tão imensurável força. Na morte, entretanto, as emoções parecem ser absolutas, imprevisíveis e completas.

“Vamos acabar logo esse negócio que eu quero ver o jogo. Coração, certeza. Faz assim, vou direto lá e depois você finge que olhou o resto, beleza?”

“Beleza. O Corinthians vai perder mesmo, nem sei por que você quer ver o jogo, hahaha, mas eu quebro teu galho.”

Viu que o homem do chiclete e do bigode esticou o braço e pegou um bisturi. Conduziu a mão displicentemente até a clavícula da mulher e começou a cortar. Não havia dor, mas ela pôde sentir o instrumento gelado. Os homens continuaram a conversar, mas a mulher morta não conseguia mais decifrar o que diziam. Sua mente era dominada pela única sensação do instrumento invadindo sua pele torpe. Sentiu o fraco sacolejar do bisturi, precedido por uma longa sessão de risadas altas e indistintas.

Sentiu-se pressionada por dentro. Sem cuidado algum, Bigode arrancou sua caixa torácica, retirou seu coração e seus pulmões. A mulher morta esforçou-se para ouvir o que diziam. O som molhado que fizeram ao atingirem a bandeja da balança tatuou-se em sua memória instantaneamente.

“Tá vendo, José? Olha aqui. Todo esse negócio escuro aqui foi o infarto. Sei lá, ela deve ter demorado no máximo uns dez segundos pra morrer. Foi dormindo?”, proferiu Bigode entre mascadas do chiclete.

“Deixa eu ver aqui na ficha… pera… acho que foi, o marido achou ela deitada na cama.”

“É, deve ter sido. Um desses dirigindo, amigo, e ela tinha levado mais um monte de gente junto. Até que foi sorte.”

Sorte, sorte, sorte. Como ele podia falar que sua morte havia sido afortunada? A mulher ainda estava ali, assistindo dois desconhecidos dissecando seu próprio coração. Concentrou-se e conseguiu ver do que falavam. Era realmente uma mancha grande. Bigode saiu da sala. José, franzino e de olhos mortiços, prosseguiu arrancando e pesando seus órgãos. Com um serrote, abriu sua cabeça com movimentos firmes. O cérebro foi partido na altura das sobrancelhas, exibindo seus giros e sulcos. Quando ele puxou a pele do escalpo para cima de seu rosto, a mulher morta perdeu a visão. Sentia seu cabelo roçando em seu nariz, e o cheiro do seu xampu misturava-se profanamente ao nauseabundo cheiro de morte.

Cansou-se muito por concentrar-se assim. Permitiu que sua consciência vagasse enquanto sentia pontos fortes de costura fechando sua cabeça e a enorme incisão no tórax e abdome. Teve a impressão nítida de que sua cabeça estava mais leve, vazia. A barriga estava desconfortável, pois os órgãos foram acondicionados sem cuidado algum, juntamente aos panos usados para secar seu próprio sangue. O cérebro também havia sido enfiado ali. Num breve momento de clareza, questionou sua própria capacidade de pensar.

Adormeceu mais uma vez. Cansada, tão cansada. Desta vez, acordou ao ser imersa em água. Foi lavada por outro desconhecido. Este, mais gordo do que ela e ainda vivo, ela ponderou. A ele não seriam dirigidas ofensas sobre seus hábitos alimentares. Quando estivesse na sala de autópsia, receberia apenas cumprimentos por uma vida bem vivida, a morte que um homem merece ter. Corpo farto, diversão, plenitude. As olheiras e a expressão triste que ele carregava não seriam capazes de mudar a opinião pré-concebida, mesmo depois de sua morte.

A consciência perdia-se com mais frequência. Voltava em relâmpagos violentos, breves e estarrecedores. No resto do tempo ela se sentia sonolenta. Colocaram-na um sutiã de sua própria gaveta e enfiaram-na um vestido do qual ela gostava muito. Perturbou-a ver que ele havia sido cortado na parte de trás, mas dada a dificuldade do homem gordo em vesti-la, ela perdoou a prática.

Quando recobrou a consciência, era cega novamente; seus olhos estavam completamente fechados, selados por cola instantânea. Nos lábios, narinas e ouvidos foram enfiados chumaços de algodão. Pôde sentir alguém tocando sua mão, e gotas molhadas respingavam em sua testa. O cheiro era inconfundivelmente de seu marido, que limpava as lágrimas à medida que caíam. A mulher morta sentiu que um fino tecido repousava sobre sua face e ao redor de seu corpo, flores. Sua audição estava muito abafada pelos algodões. Naquela estranha percepção de tempo, logo sentiu-se carregada. O ar perdeu a capacidade de circular e uma sensação claustrofóbica preencheu sua mente simples. Sentiu-se muito sacudida, depois a completa imobilidade. Um som forte e repetido conseguiu atravessar os tampões, acompanhado de uma vibração inconfundível na madeira que a continha.

A mulher morta estava absolutamente calma. A compreensão era total. Estava morta e enterrada. Não veria mais seu marido, seus filhos, sua família, sua casa. Todos eles continuariam chorando por ela por algum tempo, e depois esquecer-se-iam de seu rosto, de sua voz, de seus hábitos. Ela teria sorte se seus netos ou bisnetos lembrassem seu nome.

Indagava-se se todas as mortes eram assim. Se todas as pessoas que morriam permaneciam conscientes. Por tanto tempo pensava que a morte era libertadora, e por mais tempo ainda pensara que a morte era apenas o fim, e que experimentaria a total inexistência. Não era o que vivenciava, embora ela não conseguisse definir a experiência pela qual passava.

Sentiu-se mais gorda, e depois incrivelmente enorme. Em seguida sentiu-se molhada o tempo todo. Logo depois, começou a sentir-se mais magra “Puxa, isso é até bom”, pensou ela. Seus períodos de consciência eram mais indistintos, mas ela continuava ali. Permanecia ainda depois de notar que seu corpo não parecia mais unificado, e sim, pedaços de ossos espalhados pelo caixão.

Sempre que se percebia ainda existindo, pensava no esposo. Pensava nos filhos e pensava na família que construiu. Esperava que eles ainda se lembrassem dela, mas sem sentir dor. Até uma pontada de ciúme brotava quando ela pensava que o marido provavelmente havia se casado de novo. De dentro de seu caixão percebia-se fútil em seu ciúme. Se fosse capaz de rir, teria gargalhado.

O viúvo seguira sua vida; de fato casara-se de novo, com um grande amor que encontrara adiante na vida, uma moça nova que até lhe deu mais um filho. Os filhos da mulher morta tiveram seus próprios filhos, netos e bisnetos. Quando já não se lembravam mais de seu nome, ela ainda estava lá, pensando e amando cada um deles. Quando estes morreram também, foram enterrados alguns muito perto dela, e outros (como o viúvo) muito longe.

E ela estava lá.

Ela ainda está lá.

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~ por Mari em 2 de abril de 2013.

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