paletó

 

Deitado, ele levantou a lanterna pela décima vez desde que deitara, vinte minutos atrás. Apreensivo, respirou fundo. As formas compostas pelas roupas iluminadas pela luz mortiça da lua minguante atravessando a janela enganavam. Iluminou seu paletó, pendurado no cabideiro; a semana se fora, e ele estava exausto, mas não conseguia dormir. Na verdade, não conseguia dormir bem há semanas, desde que Aquilo mostrou-se pela primeira vez. Meio tonto depois de uma noite de bebedeira com os colegas de trabalho, viu-se paralisado em sua cama. Tentava gritar, tentava mover-se, mas o corpo não respondia. Então, sentiu a presença dAquilo. E Aquilo aproximou-se, tocando-o com seus finos e pálidos dedos gelados. Percorreu lentamente toda a extensão de suas pernas, apalpando-lhe o pênis. Ria, de forma maníaca, o rosto encoberto pela escuridão. Subiu o toque pelo tórax, levando as mãos aracnóides ao pescoço do inebriado homem. Apertou, aproximando seu rosto do aterrorizado homem, que pôde notar a pele lisa, branca demais, os olhos psicóticos e o riso sardônico. Aprisionado dentro de seu próprio corpo, via-se impossibilitado de lutar. Finalmente, conseguiu gritar, e Aquilo se foi, tão subitamente quanto veio.

Algum tempo depois, quando o homem finalmente havia convencido-se de ter sofrido um delírio pelo álcool, Aquilo voltou. Às vezes, ficava apenas parado num canto, no limite da visão periférica. Num dia, notou que seus cabelos desgrenhados, envoltos em tule negro, começavam no meio da cabeça até ali, completamente careca. Em outro, percebeu a roupa, uma paródia de um arlequim, negra com losangos brancos. Ao sorrir, Aquilo exibia dentes impossivelmente pontudos. Nos olhos, a mais pura maldade.

Às vezes, Aquilo o tocava novamente, e seu peito enchia-se do mais profundo e crescente pânico. A imobilidade era inevitável. Aquilo tentava enforcá-lo, acariciava-o, lambia-o com uma enorme e reptiliana língua.

Um dia, o homem notou que ao apontar uma fonte de luz, a criatura simplesmente deixava de existir. Se tentasse dormir com as luzes acesas, acordava no meio da noite, com a criatura sobre si, e as luzes apagadas. Então, a paranoia instalou-se e ele portava lanternas. Não dormiu em paz por semanas, acendendo a luz da lanterna para periodicamente varrer o ambiente.

Iluminando o paletó, notou uma forma curiosa perto da manga. No escuro, levantou-se, sempre apontando a lanterna para todos os lados. Ao se aproximar, sentiu a presença dAquilo nas suas costas, seu bafo gelado enrijecendo-lhe a nuca. Virou-se com a lanterna; nada. Voltou-se ao paletó e identificou um impossível losango branco, tão parte do paletó quanto qualquer outra parte negra da tintura.

“Devo ter manchado com alguma coisa. É realmente um formato muito curioso”. Deitou-se e exausto, acabou dormindo. Na manhã seguinte, examinou o pequeno losango, que parecia igual. Decidiu levar o paletó ao tintureiro em algum outro dia, e tirar aquele sábado para ver um ou dois filmes, comendo amendoins na sala. Ao deitar-se, parecia mais calmo. Achava que naquele dia, seria deixado em paz por Aquilo. E foi. Ao acordar no domingo, passou direto pelo seu paletó, e não notou mais alguns losangos e o tecido levemente mais flexível e brilhante.

“Estou ficando velho, e preciso dormir melhor. Olhe estas entradas! Nem meu pai tinha tanto!”, pensou ele na frente do espelho ao escovar os dentes naquela noite. Deitou-se, e percebeu-se livre do medo. Inexplicavelmente acreditou que seria deixado em paz dali em diante, que Aquilo jamais voltaria para fazer coisas impensáveis com ele. E dormiu como não dormia muito tempo.

Quando acordou, era noite. Acreditou que tivesse acordado cedo demais, então resolveu vestir-se. Coçou a cabeça, e seus cabelos se soltaram em sua mão. Ele não sentia medo. Andou pelo quarto, e suas mãos pareciam estranhas, geladas, mas ele não sentia frio.

Vestiu seu paletó, que agora era uma paródia velha de uma roupa de arlequim, e ainda não sentia medo. Cobriu seus cabelos com tule negro, e sentiu seus dentes tornando-se pontudos ao tocar-lhes com a língua reptiliana. Tinham um gosto metálico.

Sentia-se só, muito só. Olhou para a cama e viu um homem, na faixa dos trinta anos, adormecido, cheirando à bebida. Tocou-lhe os pés, as pernas. O homem parecia acordado, mas algo em seu toque impedia-o de se mexer.

E ele estava tão só, tão só. E chegou mais perto. Tocou-lhe o pênis, a barriga. Riu.

Tão só.

Decidiu que precisava da companhia deste homem, para sempre. Decidiu sufocar-lhe, assim ele seria seu para sempre. O homem gritou.

 

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~ por Mari em 5 de setembro de 2012.

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