paraquedas

Eles estavam em grande vantagem na Guerra. Naquele dia, haveria mais uma missão, e eles deveriam tomar um ponto muito estratégico para o País. Costumava ser apenas um vilarejo, mas era flanqueado por dois enormes rios, o que o tornava um ponto importante de trânsito entre aquelas fronteiras caídas.
A última missão havia finalmente tocado o Soldado. Até aquele dia, ele era apenas mais um na tropa, matando e morrendo sem distinção, pelo bem do seu País. Os Inimigos queriam dominá-lo, era o que havia aprendido com seus generais. Dominá-lo, arrasá-lo, destruir sua economia, seu sistema de poder, roubar suas crianças e estuprar suas mulheres. Mas, aquela última missão fizera o Soldado refletir sobre como tamanhas atrocidades poderiam ser cometidas por um povo tão pobre, com crianças tão doentes e franzinas se escondendo embaixo das saias maltrapilhas de suas mães. Como pais de família com enxadas, valentemente morrendo na frente de seus portões poderiam oferecer perigo para seu País, com seus enormes exércitos, economia, educação e saúde. Como aqueles exércitos Inimigos mal treinados, compostos de moleques trêmulos e hesitantes poderiam oferecer alguma resistência real contra seus compatriotas?
Ele havia invadido uma cidade, após silenciosamente ser atirado de um avião e cair de paraquedas numa plantação próxima. Invadira com uma equipe pequena, com o objetivo de matar os oficiais que faziam posto em uma das entradas da cidade. Suas ordens envolviam tomar uma rota alternativa e surpreender os Inimigos por um lado mal vigiado de seu posto.
Ao adentrarem a cidade, encontraram algumas poucas casas que não haviam sido destruídas, e mesmo essas, sem sinal de habitação. O Soldado respirou aliviado, porque sempre que tinha que matar civis, ficava levemente angustiado.
Enquanto conferia a munição em sua arma, parado junto aos seus companheiros, foi surpreendido por um pequeno garoto saído de uma casa, carregando uma faca velha, enferrujada. Cheio de lágrimas nos olhos, o garoto berrou alguma coisa em sua ininteligível língua e avançou contra o líder do pelotão. Sem hesitar, abriu um buraco vermelho escuro na testa do garoto, que caiu quase sem som algum. E em meio segundo, tudo estava terminado. O líder deu risada, chutou o corpo do garoto e fez um comentário maldoso sobre o pequeno morrer virgem. O resto do pelotão deu risada, menos o Soldado. Este, já não era o mesmo.
Aquele fútil esforço do menino em defender o que restou de sua cidade e sua morte tão súbita e sem cerimônia fê-lo pensar na natureza crua daquela Guerra. Em cada civil que morreu sem nem entender o que se passava, em cada soldado Inimigo que matou, perfurando seus corpos destreinados de 16, 17 anos de idade, deixando mães inconsoláveis do outro lado do país. Em cada general, de seu País e do Inimigo em salas protegidas e aquecidas rindo, montando estratégias e mandando suas crianças para a morte. Deixou de acreditar na maldade do Inimigo e entendeu que eles haviam atacado aquele pequeno país primeiro, oprimindo e destruindo por algum motivo político maior (e menor) do que tudo aquilo.

Então, ele estava no avião, se preparando para a missão daquele dia. Aquele vilarejo entre rios não deveria oferecer grande desafio. Estava cheio de civis, e eles haviam recebido permissão para atirar à vontade. Na porta do avião, ouvia os berros do líder da missão repassando a estratégia. Começaram a contar e um a um os soldados saltaram do avião. O Soldado derramou uma lágrima pelo menino morto, e outra pelo destino desta missão. Saltou de olhos fechados e abriu os braços para sentir o vento. Atrás dele, o paraquedas abriu-se, acionado pela corda ainda presa ao avião. Ele não mataria mais civil algum. Daquela guerra, ele não participaria mais. A diferença poderia ser insignificante, apenas menos um para ser mandado para matar e morrer. Mas ele não aceitaria mais ajudar um objetivo que ele não mais compreendia, aceitava ou honrava.
Sentia o vento ficando mais forte, o ar gelado de encontro às suas bochechas desprotegidas. O peso da mochila não era mais sentido por causa da aceleração da queda. Pegou sua faca de combate, e o sol brilhou ao encontrar o metal da lâmina.
Seus companheiros caíam em trajetórias certeiras, determinados. Sabiam exatamente como proceder, depois de tanto treinamento e tantos saltos realizados naquela Guerra. Assim como ele sabia exatamente como cortar as cordas de seu para-quedas. Dançava no ar, sentindo o prazer da queda, largando para trás cada uma das lágrimas derramadas pelos inocentes mortos por nada. viu, de relance, alguns de seus companheiros alarmados pela falta do seu equipamento. Tentavam alcançá-lo, mas ele havia se afastado muito deles. E estava tudo bem agora, finalmente. Ele faria a diferença, afinal. Nenhum outro inocente morreria em suas mãos.
Quando veio o impacto, ele sorria.

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~ por Mari em 30 de junho de 2012.

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