exército

Os destroços formavam pilhas de formatos únicos. O vento derrubava as partes mais soltas, poeira, pedriscos e matéria orgânica, tornando desconfortável e perigosa a caminhada pelo que restou da cidade.

Eles vinham de três em três dias. A menina contava-os fazendo pequenas marcas na parede de seu abrigo improvisado no porão de uma antiga loja de animais. Depois de tudo começado, o dono fugira, levando a maioria dos animais. Restaram alguns pássaros em uma gaiola, esquecida em um canto que não fora afetado quando o teto e as paredes começaram a ruir. A menina os libertou assim que encontrou a loja, pensando que ao menos, aqueles poderiam ser livres ainda. Um pássaro grande, branco, de bico curvo não voou. A menina não sabia o nome daquela espécie de pássaros, mas resolveu chamá-lo de Neve, por causa da cor de sua plumagem. Retirou-o da gaiola, colocando-o no ombro.

Em seus onze anos de vida antes de tudo mudar, seus pais nunca haviam deixado-a manter animais de estimação. Mas, quando encontrou Neve, decidiu que ficaria com ele, independente do que seus pais poderiam pensar sobre isso. Principalmente agora, que estavam mortos. Tão mortos quanto provavelmente todas as pessoas que conhecia. Às vezes, ela encontrava algo vivo – um cão ou gato, um adulto ou dois, sempre evitando-a. Havia encontrado três crianças vivas, e juntou-se a elas, trazendo-as famintas e sujas ao seu abrigo na loja de animais. As três foram levadas por Eles, depois de alguns dias.

A menina estava cansada – de procurar comida, cada dia mais escassa; de ter de se esconder dEles a cada três dias, religiosamente; de dormir no chão sujo, tendo como companhia apenas uma ave grasnante. E ela nem sabia exatamente do que estava fugindo. Quaisquer um que olhasse para trás, era levado com eles. A única alternativa era fugir ou esconder-se, e ela era a única pessoa que ela havia via conseguido tal façanha. Uma vez, ela havia notado, entre os destroços de uma casa, uma fresta que mostrava um cômodo abaixo do nível do solo. Parecia haver movimento lá dentro, mas ela não conseguiu maneira de entrar, e seguiu seu caminho.

Um dia, encontrou uma criança moribunda, abraçada a seu gêmeo morto. Ele lhe implorou auxílio e ao ajudá-lo a levantar-se notou que as pernas do menino estavam cinzentas e mortas. O pequeno tossiu sangue. “Estou com frio, mas meu irmão parece ainda mais gelado do que eu. Será que não pode lhe arrumar algo para se cobrir?”. A menina deitou-se ao lado do menino agonizante, emprestando-lhe seu calor do corpo. Acariciou-lhe a cabeça até sentir sua respiração cessar. Fechou os olhos do garoto e de seu gêmeo. Levantou-se, desolada pela perda da esperança mais uma vez. Naquela hora, uma decisão preencheu-a inteiramente, inundando cada pedaço que ainda estava inteiro: lutaria, e não seria sozinha. Acabaria com aquele sofrimento, ou morreria tentando. Do alto de seus onze anos, sua postura era de general. Decidiu começar seu exército ali mesmo, com aqueles dois irmãos. Do gêmeo que morreu em seu braço, tirou um cadarço do sapato. Do que havia morrido anteriormente, já rígido, rasgou um pedaço da camiseta maltrapilha. Amarrou ambos em seu punho esquerdo, sentindo a força de dois soldados ao seu lado.

Caminhou por entre as ruas antigas abarrotadas e as ruas novas feitas depois da queda dos edifícios, a procura de novos soldados. Recrutou uma chupeta de um bebê no colo de sua mãe, e dela, um brinco. Mais dez minutos de caminhada renderam-lhe um par de alianças, um carrinho de plástico sem rodas, uma bengala, duas canetas, um relógio de bolso, um par de óculos, uma foto de uma bela moça. De cada recruta ela retirava seu objeto, dando-lhe a atenção e honra que daria a um soldado vitorioso após uma batalha difícil. Fechou os olhos de quem ainda observava o céu acinzentado, refez a dignidade de quem havia caído com as roupas desajustadas ao corpo e ajeitou o bebê morto no colo da mãe, que havia falecido em um pequeno beco, sentada no canto, tentando proteger a única riqueza que tinha.

Sentia-se cada vez mais forte, criando seu batalhão de soldados mortos contra a fúria dEles. Naquele dia, voltou sorrindo a seu abrigo e Neve a recebeu voejando até seu ombro. Ela o acariciou. Prometeu a ele que tudo aquilo terminaria assim que ela conseguisse juntar um exército grande o suficiente. Naquela noite, Eles viriam, e ela deveria esconder-se e ficar imóvel. Costumava esconder Neve o melhor possível, e rezar para que ele não resolvesse grasnar quando ELes estivessem por perto. Deitou-se, aconchegada entre as tábuas e panos que lhe serviam de cama, e esperou que os gritos dEles cessassem até que conseguisse dormir. O silêncio subsequente era sempre reconfortante.

Nos três dias que se seguiram, ela vagou mais, à procura de suprimentos e recrutas. Seu exército já contava com cento e trinta e dois soldados. Ao caminhar, ela sentia a presença de seu batalhão, quase conseguindo ouvir sua marcha. Crianças, adultos e velhos, marchando lado a lado. Seus olhos brilhavam. Conseguir mais soldados havia tornado-se quase uma obsessão para ela. Escondeu-se dEles por mais meses, abarrotando sua loja destruída com pertences dos mortos. Sentia-se quase invencível, protegida o tempo todo por seu exército.

Um dia, esperou do lado de fora. Era a hora dEles, a hora de lutar. Pela primeira vez, conseguiu vê-Los. E nesta hora, teve a certeza de que seu exército fora o maior erro que poderia ter cometido.
Junto dEles, caminhava uma horda, composta, em sua maioria, pelos donos dos objetos que havia recolhido. Aquilo que lhe trouxera força e coragem para lutar a destruiria. Sentiu seu batalhão se esvaindo, cada um de seus soldados evaporando em meio ao caos. Seus objetos pesados, como grandes erros. A horda, e ELes, vieram em sua direção. Os gritos e guinchos eram ensurdecedores. Ela abriu os braços e esperou que chegassem. Não havia mais como lutar, ela havia tentado roubar o exército dEles, e tudo o que havia conseguido era enfurecê-Los ainda mais.

Via a mãe com seu bebê, este sem um dos braços e sangrando, e ela, desnutrida, cambaleando em sua direção. Viu os gêmeos, um muito mais podre do que seu irmão. Aquele que havia morrido em seus braços, arrastava uma perna sem tênis. Os sons eram a pior parte, mas quando reduziram a distância, ela foi assombrada pelo cheiro.
Ajoelhou-se no chão, esperando a morte. Não adiantava esconder-se, quando Eles já haviam visto suas vítimas. E ela sabia muito bem disso, depois de perder todos os que encontrara vivos. Eles chegaram, e ela sentiu primeiro as lambidas da escuridão, a loucura tangindo cada célula de seu corpo. Considerou isto uma bênção, porque a dor de quando a Horda a alcançasse seria alucinante.
E foi. Quando tudo havia terminado, ela levantou-se, juntou-se a eles e caminhou erraticamente, com olhos mortos e seus intestinos, ainda vermelhos e pulsando, arrastando atrás do corpo.

Neve saiu debaixo das cobertas onde ela o havia escondido, voou até ela e arrancou de seu cabelo um laço que havia restado. Planou de volta até o porão aberto da loja de animais e jogou o laço em um canto, em cima de uma pilha de objetos de donos mortos. E ali ele ficou, esperando.

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~ por Mari em 31 de maio de 2012.

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