ossada

O que eu achei naquela noite fez com que minha vida deixasse a mediocridade.

Minha pasta estava pesada, cheia de documentos que precisavam de análise e aprovação urgente. Faria o trabalho em casa, como sempre. Era uma ótima forma de evitar o contato com a minha esposa. Desde que os bebês nasceram ela nunca mais fora a mesma.
Chovia intensamente naquela noite anormalmente quente de novembro. A caminho da estação do metrô, os carros passavam correndo, espirrando a água das poças nos passantes; um acertou-me em cheio. Com o susto, derrubei minha pasta no chão. Abriu-se, e os papéis espalharam-se pela calçada molhada, pela sarjeta.
Aquilo deixou-me possesso. Eram documentos importantes, e tudo estava dando errado, como tinha dado sempre nos últimos anos. Não aguentava mais aquela vida medíocre, aquela prisão corporativa em que haviam me abandonado. E o que me fazia sofrer mais era que ainda pior castigo era voltar para casa. Ela exigia coisas, queria que eu ajudasse com os gêmeos. Mas eles só faziam barulho e babavam. Eu os detestava, isso era inegável e óbvio em minha face. Nunca quis ter filhos, claro. Fora tudo por ela. E agora, o que me restava era uma ninhada de porcos barulhentos, com uma mãe gorda, cheia de estrias e ranzinza. Nem assunto tínhamos mais, nos poucos momentos de silêncio. Ela só falava das crianças. Mencionei uma vez, logo após a fertilização in vitro ter funcionado finalmente, que eu tinha medo de não termos mais tempo para nós, como casal. Ela riu, e disse que jamais deixaria de cuidar de suas obrigações como esposa. Ela ainda era linda; pena que durou tão pouco.
Tentava salvar os papéis encharcados, que se desfaziam entre meus dedos. Via trabalho de meses sendo perdidos. Comecei a rir. Logo, descontrolei-me em riso histérico. Entre lágrimas de riso desesperado e gotas da chuva intensa, não havia diferença. Ri ainda mais. Com os olhos turvados, meu choro mudou de natureza, e a depressão tomou-me por inteiro. Sentei ao chão como criança e chorei copiosamente entre meu trabalho desfeito, sujeira e o caos urbano do fim do dia. Ninguém notava-me; minha mediocridade era tão grande que os pedestres desviavam-se do homem desesperado ao chão. Agradeci-os por isso: jamais conseguiria explicar a alguém o que me acontecia.
Meus olhos, com esforço, fixaram-se em um objeto metálico brilhando na sarjeta, meio enfiado na lama perto de um bueiro. Imaginei que fosse uma moeda, como uma esmola de Deus, penalizado pela minha tristeza insignificante. Rindo ironicamente, alcancei o objeto. Limpando a lama, identifiquei um belo relógio antigo de bolso, de ouro. Abri-o e encontrei o mostrador imóvel às 12:00 em ponto. Era um belíssimo objeto. Na parte de trás, uma inscrição composta de uma única palavra me deixou estupefato:

“Mude.”

Guardei o relógio no bolso, ainda atordoado com o achado. Aquela pequena máquina me garantiria uns bons trocados na loja de penhores (que me era velha conhecida, depois de dois filhos pequenos).
Levantei-me, largando o que restava dos meus papéis no chão. Estavam perdidos, e o trabalho deveria ser refeito. Resolvi voltar logo para casa, criando falsas esperanças sobre um jantar bem feito por uma esposa que já me odiava tanto quanto eu à ela. Claro, esperanças em vão.
Resolvi testar o relógio, dando corda e acertando o horário antes de dormir. Parecia funcionar bem, e aquilo reafirmou minha idéia de penhorá-lo.
Naquela noite, sonhei com borboletas. Há meses não sonhava, e a mudança foi bem vinda. Quando acordei, dirigi-me ao banheiro para lavar o rosto e tive uma surpresa desagradável. A pele do meu pescoço parecia descolar-se, revelando um pedaço acinzentado de carne por baixo. Não sentia dor. Arranquei a pele morta, cobri a lesão com uma atadura e fui trabalhar. Minha esposa estava lá fora cuidando do jardim enquanto os gêmeos brincavam por perto. Passei por ela murmurando um superficial “Bom dia”, que ela grunhiu igualmente de volta. Cheguei ao portão sem refletir sobre o assunto, mas estranhamente notei que minha esposa parecia diferente. Mais vibrante, um pouco mais bonita. Caminhei até ela e pela primeira vez em meses, beijei-a sutilmente. Seus olhos se arregalaram, em um misto de surpresa, amor e ódio. Renovei meu voto de “bom dia”, desta vez, falando mais sinceramente. Ela sussurrou uma resposta incompreensível, perdida entre a estupefação.
No caminho para o trabalho, notei que havia mais pele morta na minha mão esquerda, que me mantinha em pé no metrô.
E naquele dia, no trabalho, refiz alguns de meus documentos perdidos, cansei-me e decidi que deveria voltar para casa. Isso não me aterrorizou, e justamente por isso, estranhei.
Chegando em casa, mais pele estava saindo, desta vez, no meu rosto. Preocupei-me. Marcaria um médico assim que possível, aquilo não poderia estar certo.
Mas, quando minha esposa me encarou, notei um brilho diferente em seus olhos.
“Fiz sua janta preferida. Espero que goste. Quem sabe, mais tarde, possamos ver um filme?”
Durante o filme, distraí-me arrancando a pele do antebraço. Ainda não havia dor, e minha esposa não parecia notar. Mostrei para ela, que disse: “Parece bom, querido, vamos prestar atenção no filme, sim?”.
Ao deitar-me, depois da primeira noite agradável em muito tempo, observei o relógio. Parecia funcionar normalmente. Notei que estranhamente não havia pensando em penhorá-lo naquele dia, e o havia esquecido em casa. Prometi a mim mesmo levá-lo na manhã seguinte.
Ao acordar, meus planos foram abortados pelo pânico. Meu braço inteiro parecia sem pele, meus músculos acinzentados, mortos, expostos. Minha mão estava adormecida. Tirei a pele da mão como uma luva. Minhas impressões digitais ficaram no chão, junto com a pele morta. Gritei, claro. Não há quem veja sua pele caindo, sem desesperar-se.
Minha esposa veio acudir-me (e ela parecia ainda mais bonita).
“O que aconteceu?”
“Não vê? Minha pele está caindo!”
“Oh sim, claro. Vamos tomar café?”
“Marta, pelo amor de Deus, eu estou doente! Preciso de um médico!”
“Sabia que eu lhe fiz panquecas? Achei-te meio magro ontem. Tem comido direito no trabalho?”
“Marta, eu preciso ir ao médico. É sério.”
“Claro, querido. E temos mel.”
Irritei-me com sua alienação, embora parecesse inteiramente sincera. Não entendia.
Vesti-me (e a calça arrancou enormes nacos de pele ao ser erguida) e corri ao médico. Antes de sair, os gêmeos brincavam no tapete da sala. Achei que poderia ensiná-los a andar, quando voltasse. Aquele pensamento efêmero mal foi registrado, mas me fez abrir um sorriso involuntário.

“Sua glicose está em níveis ótimos, senhor. Obviamente, o senhor está saudável e não há necessidade de preocupação no momento. Precisa de atestado de comparecimento?”
“Doutor, você não está entendendo. Minha pele está se soltando, meus músculos parecem mortos e não sinto dor alguma.”
“Certo, certo. Esse mal estar pode ser esta virose que anda dando por aí. Não se preocupe, o senhor vai estar novo em folha em alguns dias.”
“Mas doutor, isso realmente parece grave!”
“Não vejo nenhum motivo de preocupação, amigo. Agora, por favor, tenho pacientes doentes de verdade que preciso atender. Passe bem.”

No caminho até o metrô, cocei o rosto e metade da minha bochecha caiu. Uma garotinha sorriu para mim, enquanto eu jogava o resto do músculo no chão.

E eu sorri de volta.

O pânico parecia mais distante agora, e me sentia bem. No metrô, um grande pedaço do meu pescoço se defez, e comecei a cantarolar uma música antiga.
Chegando em casa, abracei minha esposa, beijei-a e disse o quanto ela era linda. Ela, retribuiu o gesto, olhando diretamente em meus olhos. Minha carne descolava embaixo do abraço apertado dela, e ela não parecia se importar.

Sentei ao chão e fui brincar com as crianças. Eles sentavam no meu colo, desfazendo os músculos das minhas coxas e panturrilhas; lavantei-me uma hora depois, deixando entulho pra trás, com minhas pernas quase sem carne. os ossos totalmente expostos, com tiras de ligamentos pendurados, sem função. Já não havia mais medo algum. Me sentia muito bem, aliviado, feliz. Gostava da minha casa.

Fui ao espelho e comecei a arrancar a pele e carne restante no meu rosto. Meu crânio foi aparecendo, e comecei a examinar, interessado, as raízes dos meus dentes.
Tirei o couro cabeludo, que saiu como uma peruca. O cabelo parecia velho, quebradiço.
Terminei de arrancar a carne em um banho quente. A água, escura, cheia de pedaços de carne morta, não pareceu assustar minha esposa, quando entrou no banheiro. Nem o fato de o marido dela ser apenas um esqueleto. Falei com ela, que sorriu, enquanto eu conseguia ouvir meus ossos estalando.

Estava plenamente feliz. Abracei-a, que enterrou seus dedos entre minhas costelas. Acariciou cada uma das minhas vértebras. Beijei-a, meus dentes encostando-se em seu rosto. Parecia realizada, apaixonada. Havia me esquecido como seus olhos brilhavam quando ela se sentia assim. E eu podia sentir os meus brilhando, também (ou, o que havia sobrado deles). Deitamos juntos e fizemos sexo. Minha total ausência de carne não pareceu atrapalhar, e ela aproveitou o momento como eu nunca tinha visto. Gritava de prazer, sentada diretamente sobre meus ossos da bacia.

Abracei-a, e conversamos sobre banalidades e coisas profundas. Naquela tarde, não fui trabalhar. Ajudei-a com os gêmeos. Troquei fraldas.
Dormimos abraçados, à noite.

Na manhã seguinte, coloquei meu terno, que parecia bem largo agora que não havia quase nada para cobrir. Antes de sair, resolvi olhar o relógio novamente. Decidi não penhorá-lo. Meus olhos encontraram a inscrição atrás do relógio novamente.

“Mude.”

Ri, e tive a certeza de que tinha feito exatamente aquilo. Enquanto segurava o relógio, minhas articulações cederam e minha mão se desfez em dezenas de pequenos ossos. O relógio caiu. Meus ossos todos começaram a ceder, senti-me diminuindo. Um a um, foram virando pó e perdendo-se no ar. O terno, caindo vazio ao chão. Meu último pensamento, naquela hora, foi de plenitude, felicidade.

Estiquei minha mão encharcada, que foi prontamente agarrada pelo estranho.
“Tudo bem aí, amigo? Você parecia ter um problema.”, disse o velho. De seu bolso, brotava uma corrente de relógio. Ao seu lado, uma pequena garotinha com um guarda chuva vermelho e galochas.

E estava tudo bem.

Anúncios

~ por Mari em 30 de maio de 2012.

Uma resposta to “ossada”

  1. APRENDI MUITO
    uM COM ESTE TEXTO E VI TUDO ISSO DE UMA OUTRA FORMA…DEUS ELE NA VERDADE QUER QUE NÓS FAÇAMOS MUDANÇAS EM NOSSAS VISAS E REALMENTE NESTE TEXTO ME REVELA QUE TEMOS QUE MUDAR DE FATO…DEIXARMOS DE SER NÓS MESMOS PARA VIVERMOS EM CRISTO E ENCHERGARMOS AS COISAS DE UM OUTRO PRISMA….NO TEXTO VC NÃO FALA DE CRISTO É ÓBVIO, MAS EU ENTEN DI DESTA FORMA, MESMO QUE VC NÃO QUEIRA TER DEIXADO ESTA INTENÇÃO….PRECISAMOS MUDAR E OLHAR A NOSSA VIDA COM GRAÇA E SERMOS GRATOS DE VERDACDE POR TUDO O QUE DEUS NOS CONCEDE…. UM FORTE ABRAÇO..

    VANESSA FAZZANO GADIG LOURENÇO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: