vôo

Ele corria, gritava. Dizia que ia contar para a mãe, que a mãe ia chamar a polícia.

Depois de anos e anos de abusos vindos do Padre Fausto, ele finalmente começara a entender a gravidade da situação. Desde pequeno a mãe o levara para a igreja. Católica fervorosa, orgulhava-se do pequeno coroinha. Padre Fausto era um exemplo de  bondade, retidão e confiança; ela deixava seu filho por tardes e tardes no catecismo. Quando o garoto via-se sozinho com o Padre Fausto, este lhe fazia perguntas estranhas, sobre os amiguinhos. Encostava-lhe a mão naqueles lugares que a mamãe disse que serviam apenas pras necessidades. Com o passar do tempo, Padre Fausto passou a machucar- lhe as partes, deixando-o sangrando e choroso. Dizia-lhe que era isto que era o catecismo, que era isto que a mamãe queria para ele, e que se reclamasse, mamãe ficaria muito triste e o abandonaria. Que Jesus queria que ele fosse bonzinho.

E ele era.

Aos poucos o garoto parara de chorar, e aprendera a acreditar que estava fazendo o que a mãe queria. Continuava sentindo muita dor, mas ele pensava que Jesus o aceitaria e ele seria recompensado.

Mas ele cresceu. Aos dez anos, já vira na televisão e começara a entender que aquilo que Padre Fausto fazia com ele não era certo; decidiu que daria um fim à situação. Naquela tarde, quando chegou à igreja, Padre Fausto fez os avanços costumeiros. E ele afastou-se, gritando. Começou a correr, gritando para o padre que descobrira que aquilo era errado e contaria à mãe e à polícia. O padre perseguia-o, derrubando bancos pela igreja.

O sol entrava pelos vitrais, formando imagens estranhas e distorcidas no chão. O garoto pensava em tudo o que acreditara, em todas as mentiras. Pensava se Jesus realmente permitiria que ele sofresse tanto.

Sentiu um puxão. Era a mão do padre, que finalmente conseguira agarrar a parte de trás da camiseta. Lutou; conseguiu rasgar o pedaço da roupa, arranhar profundamente o rosto do Padre Fausto, morder seu braço. Mas o padre o agarrou pelos cabelos.

Com a voz calma, Padre Fausto anunciou que não teria mais compaixão. Que finalmente faria tudo o que o garoto merecia, porque Jesus não gosta de crianças rebeldes que não obedecem à mamãe e a Deus. Carregou-o pelos cabelos até o altar, violando-o ali em cima. A igreja vazia parecia abarrotada de terror e ódio, e o garoto continuava lutando. Tufos soltavam-se com pele de seu escalpo na mão do padre, e sangue escorria pela sua nuca e costas.

O Padre teve seu orgasmo, enquanto o garoto gritava, banhado em sangue , tufos de cabelo por cima do altar. Sentiu o ódio dominando sua mente, a vontade de acabar com aquilo. Aquele garoto já crescera demais, as coisas poderiam começar a ficar perigosas. Olhou para a pia de batismo, cheia para a cerimônia que aconteceria dali a algumas horas.

O garoto sentiu-se arrastado para fora do altar. Sua visão já estava prejudicada pelo medo, e ele já não identificava o ambiente ao redor. Alucinava; sentia que corria por uma praia, longe, longe. Correu até a beira do mar, enfiou os pés na água e sentiu a temperatura fria tomar conta de seu corpo. Deliciou-se com a sensação da areia entre os dedos. Observou uma estrela-do-mar avermelhada chegar arrastada pela água. Adentrou mais profundamente, caindo de joelhos na água, sentindo as ondas baterem contra seu peito. A água abraçava-o, libertadora, acolhedora. Uma enorme onda atingiu-o, e a água que alcançava suas costas tomava forma, criava imensas asas impossíveis, transparentes e fluidas.

Levantou vôo, com suas enormes asas cristalinas pingando no oceano. Avistou uma árvore, solitária no horizonte praiano. Atrás dela, o sol se punha com cores inimagináveis, que formavam arco íris quando transpunham as asas do garoto.

E ele voou, cada vez mais alto. Pensou se encontraria Jesus, finalmente. Quando não encontrou, ele finalmente entendeu. Só existia um Deus, e este Deus era ele mesmo. Ali, com suas asas impossíveis, em seu vôo impossível e eterno.

O padre retirou o corpo do garoto da pia batismal. Ele lutara, foram quase três minutos até ele parar de debater-se com a cabeça dentro da água benta. Sentou-se no chão, ao lado do corpo molhado e mutilado do garoto. Pela primeira vez em anos, notou o que fizera. E chorou.

Uma sombra maculou as cores estranhas projetadas pela luz através dos vitrais. O padre olhou, lágrimas escorrendo. Ao longe,  avistou uma criatura estranha, com asas cristalinas, voando cada vez mais alto.

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~ por Mari em 12 de janeiro de 2012.

2 Respostas to “vôo”

  1. Pesadão, foda pra caralho, como sempre 😀

  2. Particularmente gostei bastante desse texto. Pesado mas ao mesmo tempo muito vívido e bem escrito.

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