orquídea negra

Os passantes observavam, todos os dias, o mesmo homem sentado embaixo de uma árvore num canteiro daquela cidade grande.
Ele permanecia envolto em um manto sujo, de um tecido barato e mal feito. Sua face sempre coberta pelas sombras invocadas pelo capuz do manto, quando o sol das quatro da tarde banhava o topo de sua cabeça de contorno incomum.

Poucos notavam a corcunda unilateral que elevava o contorno de suas costas recurvadas. Suas mãos, com dedos indicadores fundidos com os médios, acariciavam um pequeno saco feito de juta, meio rasgado e encardido. Àqueles que reservavam um momento de seus dias para repugnar-se com a visão do homem, a lembrança de suas características físicas tinha dois rumos possíveis dentro de suas mentes: podia ser apagada por completo, por defesa. Ou então, o cérebro encarregava-se de preencher os espaços cobertos pelo manto e a visão aterradora seria repetida infinitamente em noites mal dormidas.

O homem sempre esteve lá, mesmo antes de aquela cidade e todas as outras serem construídas; não possui lembranças, desejos, sonhos, dores, deleites ou delírios. Possui apenas uma verdade, e é aquela que comporta todas as outras.

Ele guarda a sua verdade no pequeno e surrado saco de juta, de tempos em tempos abrindo-o para certificar-se de que ainda continua ali. Sua função é entregar a verdade a quem quiser vê-la.  Ele agarra-se a esta certeza, executando sua tarefa com ferrenha lealdade.

Esteve sempre ali, e ninguém nunca questionou sua presença ou seu saco de juta.

E então, a pequena garotinha que tomava sorvete com seu avô desgarrou-se e meteu-se na multidão apressada na calçada da avenida. Dirigiu-se diretamente ao homem, hipnotizada, não pela corcunda, nem pelos dedos fundidos, nem pelas órbitas vazias, plenamente visíveis às dez da manhã; seu olhar e seus pensamentos atraíram-se pelo leve agitar da juta ao vento.

A menina então olhou profundamente para onde os olhos do homem deveriam estar, e sorriu. O homem apenas estendeu o saco, e a garota tomou-o em suas pequeninas mãos infantis.

Sentou-se no chão, ao lado do homem. Abriu lentamente o saco e lá de dentro retirou uma orquídea. Suas pétalas aveludadas eram do mais profundo negro; sua aparência estranha era de beleza inconcebível e seu perfume tomou seus pulmões e encheu seu peito com a única verdade do mundo.

A menina levantou-se, colocou a orquídea de forma a adornar seus belos cachos cor de fogo. Acenou apenas uma vez para o homem sentado, que retribuiu o gesto. Por fim, foi-se, encontrou-se com seu avô e nunca mais voltou àquele lugar.

Quando, por saber a verdade, a menina mudou o mundo anos e anos depois, o homem colheu outra orquídea de seu jardim e sentou-se sob outra árvore, para esperar outros dez mil anos.

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~ por Mari em 22 de agosto de 2010.

Uma resposta to “orquídea negra”

  1. Fiquei feliz e triste ao mesmo tempo… oO

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