(ir)realidade (lia II)

As roupas espalhadas pelo chão, arrancadas às pressas.

A cama desarrumada, molhada de suor, cheiro de sexo pairando no ar.

Lia havia voltado, e a saudade dela me dominou pelos 35 anos que passei enfiado naquele sanatório.

Convenceram-me que ela era apenas produto da minha então recém diagnosticada esquizofrenia. Disseram-me que eu havia cometido todos aqueles crimes, aqueles que eu poderia descrever com detalhes cada mordida que minha pequena e pálida amada dava nos corpos por vezes ainda vivos.

Mandaram-me pra casa, depois de 35 anos de tratamento. “Curado”; foi o que disseram. O que eu acho de verdade é que pensam que eu estou velho demais para matar alguém e que o governo cansou de sustentar um assassino num manicômio caro.

De vez em quando eu via o gato cinzento atrás das grades da janela, rasgando sua silhueta contra a lua cheia. Por alguma razão, a lua me parecia sempre cheia. Tive lua cheia por 35 anos. No dia em que saí de lá, a lua minguava num céu avermelhado, sem estrelas, totalmente diferente daquelas noites em que eu – ou Lia – saía para caçar. Naquele tempo, a gente podia ver até estrelas cadentes no céu das maiores cidades. Agora, a maldita iluminação exagerada das metrópoles e a poluição escondem todo o brilho das estrelas, e até a lua parece mortiça por trás da poeira e fumaça.

É claro que nunca disse a eles que ainda via “coisas”.  Fingia-me de bom paciente, escondendo os comprimidos embaixo da língua e os cuspia quando a enfermeira gorda deixava o quarto.

Quando cheguei em casa, sozinho, as coisas estavam arrumadas. Minha mãe cuidou para que a casa fosse arrumada por muitos anos, com a aposentadoria que ganhei por invalidez pagando os custos. Eventualmente, ela morreu (e eu fui avisado quase dois meses depois) e a casa foi deixada às traças. As despesas caíam automaticamente na conta em que eu recebia o dinheiro da aposentadoria, portanto, ninguém me incomodava sobre a casa.

No entanto, quando eu entrei em casa, haviam velas acesas, estava tudo limpo e arrumado. Lençóis novos, de altíssima qualidade, recobriam a minha velha cama. Duas xícaras de chá fumegante em cima do balcão da cozinha. Encostada no batente da porta que separava a cozinha e a sala dos quartos, estava Lia.

Linda, com o mesmo vestido que estava no dia em que a avistei pela primeira vez do outro lado da rua.

– Estava te esperando. Eu fiz chá e dei um jeito nas coisas por aqui, se não se importa – disse Lia.

– É claro que não me importo.

Atirei-me em seus braços franzinos, senti o perfume de seus cabelos. Ela ainda era a menina que eu conheci tantos anos antes. Nenhuma ruga, nenhum cabelo branco, ainda com o frescor da juventude. E aquela pele gelada.

Beijei-a fervorosamente, com a saudade de milênios, a dor de tantos anos de distância.

As roupas espalhadas pelo chão, arrancadas às pressas.

A cama desarrumada, molhada de suor, cheiro de sexo pairando no ar.

Ficamos deitados, Lia enrodilhada em meus braços. Parecia tão pequena, tão pequena.

Foi quando ela beijou meu pescoço e um arrepio subiu pela minha espinha. Virei para beijá-la e ela mordeu-me, arrancando um pedaço gordo do meu lábio inferior.

Assustado, meus olhos arregalaram-se, enquanto eu via o sangue escorrendo pela boca dela, pelo meu peito, manchando os lençóis imaculadamente brancos.

Não havia dor. Lia abocanhou um grande pedaço da pele e músculos do meu pescoço e puxou, com um pouco de dificuldade.

O sangue banhava-nos. Eu não sentia mais medo. Sentia prazer, o mais extremo que já senti em toda a vida.

Ela desceu, mordiscou meu mamilo direito e arrancou-o com as unhas. Urrei; não de dor. Comeu um pedaço e me deu a outra metade. O sabor era delicioso, adocicado, com o aroma único que só a carne humana tem.

O ferimento no pescoço era muito profundo, e o sangue jorrava com vigor. As cores começaram a falhar na minha visão, e Lia parecia distante. Mas o prazer continuava.

Ela desceu mais. Arrebentou com os dentes a minha virilha e o alto da coxa. Senti o orgasmo chegando, e nesse momento, perdi a consciência. Pouco depois acordei, com Lia oferecendo-me um de meus dedos da mão, parcialmente mordiscado. Comi fracamente o coxim do dedo, deliciando-me com a textura da impressão digital. Ela, gentilmente, havia retirado a unha para que eu não me engasgasse.

Então, um lampejo final de realidade (ou irrealidade, afinal, eu nunca soube distingui-las) e eu me vi sozinho, ensanguentado,  num quarto que parecia uma versão de um filme triste do meu. Muita poeira, cupins, baratas. Eu estava deitado numa cama envelhecida, que eu tinha quebrado, totalmente coberta de sangue que jorrava do meu pescoço. Estava nu, comendo meus próprios dedos, com uma faca na outra mão.

E então, perdi a consciência novamente.

Num último sopro de vida abri um olho. Estava caído ao lado da cama, sem sentir meu corpo e com muito frio. Ao lado do batente da porta, um gato cinzento com olhos brilhantes me observava.

E ele sorria.

Céus, ele sorria.

E depois, não houve mais nada.

Eu não quis continuar o conto – ele que quis ser continuado. Às vezes, as bigornas são grandes demais. Eu não tive nenhuma escolha quanto a esse conto. Às coisas são bem esquisitas de vez em quando. Bem, acho que eu que ando lendo demais.


Anúncios

~ por Mari em 11 de janeiro de 2010.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: