lia

Ela era linda. Notei-a quando a vi parada do outro lado da rua, em frente à janela da minha casa térrea. Estava imóvel, com os cabelos lisos e negros ao vento, fitando-me diretamente através do vidro da janela.
Seu vestido era de cor creme e esvoaçava no mesmo ritmo dos cabelos. Era pálida. Exibiu-me um sorriso encantador, e quando correspondi, atravessou a rua e veio bater à minha porta.
Corri, hipnotizado pela situação alienígena.
Ao abrir a porta, notei que ela tinha sardas, os olhos muito negros e as bochechas rosadas por cima da palidez extrema. Era ainda mais bonita do que eu pensava.
– Oi. – Ela disse, de forma simples e despretensiosa.
– Hã… oi… – respondi, atordoado.
– Você tem chá, não tem?
– Tenho. Entre e sente-se, vou lhe trazer um pouco.
Olhei pela porta da cozinha a pá enterrada no cimento fresco que estava usando para cobrir o quintal. Estava cansado daquelas  ervas daninhas tomando conta da terra. O trabalho ficaria para depois. Naquela tarde, eu teria companhia.
Ela acomodou-se, sentada com a postura perfeita no canto mais distante do sofá, e observou-me através do balcão da cozinha enquanto eu preparava o chá. Os seus cabelos agora encobriam levemente o belo rosto da moça, e suas mãos cruzadas perfeitamente ao colo a faziam parecer saída de uma pintura antiga.
Levei-lhe o chá, carregando também uma xícara para mim.
Conversamos por horas. Disse que era de muito longe, e estava perdida na cidade quando notou-me através da janela. Contei-lhe toda a minha vida; ela, contou-me apenas que seu nome era Lia. Não importava o quanto eu soubesse dela, estava completamente apaixonado pelos enormes e negros olhos da moça, carregados de sentimento.
Em algum momento, toquei-a. Sua pele era fria e aveludada. O toque era tão perfeito que causou-me arrepios na espinha. Beijei-a, e fui beijado. Eu já a amava, já entregaria a minha vida por aquela moça que havia aparecido tão repentinamente.
Senti-me completo, enlouquecido por não tê-la conhecido vinte anos antes – Tolo, ela não poderia ter mais do que isso de idade, pensei eu.
Tomei-a em meus braços, a envolvendo ternamente. Ela era tão pequena que quase desapareceu dentro do abraço. Levei-a ao quarto.
Deixou-me tirar o seu vestido, e eu notei que ela não vestia nada por baixo dele. Encolheu-se, envergonhada. Seus pequenos seios empinados e sua pele de alvura impecável tomaram conta da minha sanidade, e consumei o que mais queria desde que a vi.
Acordei no dia seguinte e ela não estava lá. Não parecia haver sinal nenhum de sua presença ter existido na minha casa. Havia uma xícara de chá usada em cima da mesa de centro da sala, em frente a lareira.
Apenas uma.
Desnorteado, corri para a janela. Nem sinal dela.
Não me recordo bem daquele dia. Sei que andei por toda a vizinhança à procura dela. Voltei para casa ao entardecer, desolado, perdido. Acreditava ter sonhado aquilo tudo.
Sentei-me no sofá, descansei a cabeça no encosto e meus olhos tocaram a janela.
Ela estava lá, da mesma forma que no dia anterior. O sol do fim da tarde pintando seus cabelos de vermelho.
Ela sorriu.
Abri a porta e corri para ela, tomando-a no colo num abraço passional, como se não visse o amor de minha vida por meses.
Naquela noite, depois do sexo, ela levantou-se. Notei, enquanto fingia dormir. Chamei-a e ela virou-se.
– Onde vai, Lia?
– Tenho fome, vou buscar algo para comer.
– Há comida na geladeira, pode servir-se.
– Obrigada – ela disse, sorrindo.
– Não vá embora hoje, fique mais comigo.
– Tudo bem.
Mais aliviado, adormeci, sem notar que o lado em que ela estava deitada na cama, parecia intocado.
Acordei no meio da madrugada, preocupado com a ausência dela. Ouvi barulhos estranhos vindo da sala, e andei cautelosa e silenciosamente até a porta.
Lia estava no meio da sala, ajoelhada, de costas para mim. À sua frente havia alguém deitado no chão. Um homem nu.
Alarmado, chamei-a. Ela sobressaltou-se e virou o rosto. Estava com a boca cheia de sangue. O homem estava morto, e havia um enorme buraco em seu abdômem. Pude ver intestinos, que pareciam boiar num mar de sangue.
Lia levantou-se rapidamente, o medo estampado em seus olhos.
Sinto que minha mente tange a loucura ao afirmar tal absurdo, mas ela tornou-se um gato cinzento e fugiu pela janela entreaberta por onde a notei do outro lado da rua. Creio estar errado; ela não tornou-se um gato. Não houve nenhuma transmutação cinematográfica, nenhum processo de transição. Ela simplesmente sempre havia sido um gato, naquele momento, embora minhas memórias traíssem minha percepç.
Olhei o homem deitado no chão da sala. Seus olhos estavam abertos, injetados de sangue. Era um homem alto e atlético. Estava quente ainda, embora morto indubitavelmente. Seu abdômem parcialmente devorado expunha órgãos internos. O fígado estava deslocado, exibindo mordidas diversas.
Mordidas humanas, não felinas.
Decidi que meu amor por Lia demandava que eu resolvesse aquele problema.
Tudo ficaria bem. Tudo acabaria bem.
Dirigi-me ao quintal, que estava sendo cimentado por mim até o dia anterior, quando encontrei Lia.
Peguei uma pá e cavei uma cova rasa. Arrastei com dificuldade o homem, por causa de seu tamanho e peso. Joguei-o de mal jeito na cova e pude ouvir seu braço estalando quando tocou o fundo por baixo de seu corpo. Cobri com a terra. Cimentaria a cova assim que o dia clareasse.
A sala ainda estava escura quando voltei. Havia um rastro de sangue que brilhava em negro no chão por onde carreguei o homem. Não havia nenhum sinal de como ele havia sido trazido até ali. A porta da frente continuava trancada. Náuseas sobrepujaram meus pensamentos e corri para o banheiro. Vomitei e senti-me fraco e tonto.
Deitei-me na cama sujo de terra e sangue e acordei tarde na manhã seguinte.
Nem sinal de Lia.
O rastro de sangue estava quase completamente seco, e amarronzado no chão de ladrilhos claros da sala.
Sentia-me fraco, devastado, perdido. Apesar disso, o amor por Lia não tinha mudado.
Eu não sabia quem era ela, e agora, não sabia o que era ela. Mas decidi ajudá-la e aceitá-la, fosse qual fosse a realidade.
As manchas de sangue estavam secas quando eu finalmente fui limpá-las depois de cimentar a cova no quintal.
No fim da tarde, o vento castigava as árvores da rua, e assobiava nas janelas da minha casa. Folhas revolviam-se em redemoinhos. A campainha tocou e era Lia de volta.
Seu olhar era triste e assustado, e ela atirou-se em meus braços. Beijei-a.
Não perguntei o que havia acontecido, e ela não contou. Jantamos almôndegas e acariciei seu cabelo sedoso até que ela adormecesse.
Acordei cedo na manhã seguinte, e ainda não havia notado que o lado da cama continuava intocado.
Um prato com restos de molho estava em cima da mesa, e a luz da sala de jantar continuava acesa.
Na sala de estar, à frente da lareira, havia um homem nu deitado. Ele não estava morto, gorgolejava tentando falar ao me ver. Cuspia sangue.
Aproximei-me rapidamente, colocando a cabeça do homem moribundo em meu colo. Seu abdômem também estava destroçado. Além disso, faltavam-lhe alguns músculos da coxa, aparentemente arrancados com violência.
Era meu vizinho, Augusto. Convidou-me algumas vezes para comer a maravilhosa comida que sua esposa, Paula, fazia. Tinha três filhos pequenos.
Cuspiu mais sangue, com grandes coágulos.
Céus, há quanto tempo aquele homem estava ali?
Não havia uma grande perda de sangue, e seu abdômem estava aberto, mas não completamente perdido. Ele possivelmente sobreviveria se fosse levado ao hospital.
Olhei para o canto e havia um gato cinzento sentado de forma altiva, observando-me. O homem arfava.
O olhar do gato – de Lia – acusador, incisivo, fez-me pegar uma faca de mesa mal afiada, a que tinha sido usada no jantar da noite anterior. Calmamente, na perna saudável de Augusto, fui cortando com dificuldade até atingir uma grande artéria qualquer. O homem debatia-se e lutava como podia, mas estava muito fraco. Sangue jorrou do corte com bordas irregulares quando atingi o meu objetivo. Sentei-me ao lado do homem gorgolejante e assisti-o sangrar por mais de cinco minutos antes de finalmente morrer. Uma enorme poça de sangue manchava o tapete e molhava-me a roupa. Havia respingos no sofá, nas paredes, na lareira.
Levantei-me, larguei a faca ao lado do homem. O olhar do gato brilhava. O felino atravessou um feixe de luz do sol que vinha da janela e suas patas molharam-se no sangue. Então, Lia (e sempre havia sido ela novamente), enterrou habilmente a mão no abdômem aberto, retirou o fígado e mordeu-o vorazmente. Olhou-me de soslaio e compreendi que ela queria privacidade.
Enterrei Augusto da mesma forma que o outro homem.
Na noite seguinte, encontrei uma mulher partida ao meio. Na outra, uma mulher grávida com o abdômem aberto e seu bebê parcialmente devorado ao lado do corpo.
Isso persistiu por um tempo indeterminado, mas acabei criando uma rotina para encobrir os hábitos de minha amada.
Em algum momento, eu notei que Lia não aparecia mais para preencher minhas noites, mas os corpos continuavam a aparecer. Depois de algum tempo, eu parei de tomar tanto cuidado, pois meu quintal já não tinha mais espaço. Comecei a guardar partes na geladeira, dentro de paredes e móveis.
Eventualmente, o cheiro chamou a atenção de Paula, a esposa de Augusto. Perguntou-me se estava tudo bem por uma fresta na porta, e eu afirmei que sim.
Depois de alguns dias, policiais bateram à minha porta e me levaram embora.
Durante o julgamento, ouvi palavras como insanidade, frieza, ausência de culpa. Compulsão. Ouvi sobre canibalismo e requintes de crueldade. Não compreendi o que acontecia. Disseram-me que eu havia matado, comido e ocultado restos de incontáveis pessoas. Eu tentei falar sobre Lia, mas eles nunca acharam nenhuma evidência de que ela tivesse existido.
Trouxeram-me para cá, há um tempo indeterminado. As paredes são brancas e à noite, os gritos impedem-me de dormir. Estou sozinho.
Um dia, convenci-me de que eles deviam estar certos.
Nesta noite, através da janela alta e com grades, pude ver um gato cinzento parado do lado de fora, no parapeito, observando-me com seus grandes olhos brilhantes.

liaEla era linda. Notei-a quando a vi parada do outro lado da rua, em frente à janela da minha casa térrea. Estava imóvel, com os cabelos lisos e negros ao vento, fitando-me diretamente através do vidro da janela.

Seu vestido era de cor creme e esvoaçava no mesmo ritmo dos cabelos. Era pálida. Exibiu-me um sorriso encantador, e quando correspondi, atravessou a rua e veio bater à minha porta.

Corri, hipnotizado pela situação alienígena.

Ao abrir a porta, notei que ela tinha sardas, os olhos muito negros e as bochechas rosadas por cima da palidez extrema. Era ainda mais bonita do que eu pensava.

 

– Oi. – Ela disse, de forma simples e despretensiosa.

– Hã… oi… – respondi, atordoado.

– Você tem chá, não tem?

– Tenho. Entre e sente-se, vou lhe trazer um pouco.

 

Olhei pela porta da cozinha a pá enterrada no cimento fresco que estava usando para cobrir o quintal. Estava cansado daquelas  ervas daninhas tomando conta da terra. O trabalho ficaria para depois. Naquela tarde, eu teria companhia.

 

Ela acomodou-se, sentada com a postura perfeita no canto mais distante do sofá, e observou-me através do balcão da cozinha enquanto eu preparava o chá. Os seus cabelos agora encobriam levemente o belo rosto da moça, e suas mãos cruzadas perfeitamente ao colo a faziam parecer saída de uma pintura antiga.

Levei-lhe o chá, carregando também uma xícara para mim.

Conversamos por horas. Disse que era de muito longe, e estava perdida na cidade quando notou-me através da janela. Contei-lhe toda a minha vida; ela, contou-me apenas que seu nome era Lia. Não importava o quanto eu soubesse dela, estava completamente apaixonado pelos enormes e negros olhos da moça, carregados de sentimento.

Em algum momento, toquei-a. Sua pele era fria e aveludada. O toque era tão perfeito que causou-me arrepios na espinha. Beijei-a, e fui beijado. Eu já a amava, já entregaria a minha vida por aquela moça que havia aparecido tão repentinamente.

Senti-me completo, enlouquecido por não tê-la conhecido vinte anos antes – Tolo, ela não poderia ter mais do que isso de idade, pensei eu.

Tomei-a em meus braços, a envolvendo ternamente. Ela era tão pequena que quase desapareceu dentro do abraço. Levei-a ao quarto.

Deixou-me tirar o seu vestido, e eu notei que ela não vestia nada por baixo dele. Encolheu-se, envergonhada. Seus pequenos seios empinados e sua pele de alvura impecável tomaram conta da minha sanidade, e consumei o que mais queria desde que a vi.

 

Acordei no dia seguinte e ela não estava lá. Não parecia haver sinal nenhum de sua presença ter existido na minha casa. Havia uma xícara de chá usada em cima da mesa de centro da sala, em frente a lareira.

Apenas uma.

Desnorteado, corri para a janela. Nem sinal dela.

Não me recordo bem daquele dia. Sei que andei por toda a vizinhança à procura dela. Voltei para casa ao entardecer, desolado, perdido. Acreditava ter sonhado aquilo tudo.

Sentei-me no sofá, descansei a cabeça no encosto e meus olhos tocaram a janela.

 

Ela estava lá, da mesma forma que no dia anterior. O sol do fim da tarde pintando seus cabelos de vermelho.

Ela sorriu.

 

Abri a porta e corri para ela, tomando-a no colo num abraço passional, como se não visse o amor de minha vida por meses.

 

Naquela noite, depois do sexo, ela levantou-se. Notei, enquanto fingia dormir. Chamei-a e ela virou-se.

 

– Onde vai, Lia?

– Tenho fome, vou buscar algo para comer.

– Há comida na geladeira, pode servir-se.

– Obrigada – ela disse, sorrindo.

– Não vá embora hoje, fique mais comigo.

– Tudo bem.

 

Mais aliviado, adormeci, sem notar que o lado em que ela estava deitada na cama, parecia intocado.

 

Acordei no meio da madrugada, preocupado com a ausência dela. Ouvi barulhos estranhos vindo da sala, e andei cautelosa e silenciosamente até a porta.

Lia estava no meio da sala, ajoelhada, de costas para mim. À sua frente havia alguém deitado no chão. Um homem nu.

Alarmado, chamei-a. Ela sobressaltou-se e virou o rosto. Estava com a boca cheia de sangue. O homem estava morto, e havia um enorme buraco em seu abdômem. Pude ver intestinos, que pareciam boiar num mar de sangue.

Lia levantou-se rapidamente, o medo estampado em seus olhos.

 

Sinto que minha mente tange a loucura ao afirmar tal absurdo, mas ela tornou-se um gato cinzento e fugiu pela janela entreaberta por onde a notei do outro lado da rua. Creio estar errado; ela não tornou-se um gato. Não houve nenhuma transmutação cinematográfica, nenhum processo de transição. Ela simplesmente sempre havia sido um gato, naquele momento, embora minhas memórias traíssem minha percepção.

 

Olhei o homem deitado no chão da sala. Seus olhos estavam abertos, injetados de sangue. Era um homem alto e atlético. Estava quente ainda, embora morto indubitavelmente. Seu abdômem parcialmente devorado expunha órgãos internos. O fígado estava deslocado, exibindo mordidas diversas.

 

Mordidas humanas, não felinas.

 

Decidi que meu amor por Lia demandava que eu resolvesse aquele problema.

Tudo ficaria bem. Tudo acabaria bem.

Dirigi-me ao quintal, que estava sendo cimentado por mim até o dia anterior, quando encontrei Lia.

Peguei uma pá e cavei uma cova rasa. Arrastei com dificuldade o homem, por causa de seu tamanho e peso. Joguei-o de mal jeito na cova e pude ouvir seu braço estalando quando tocou o fundo por baixo de seu corpo. Cobri com a terra. Cimentaria a cova assim que o dia clareasse.

 

A sala ainda estava escura quando voltei. Havia um rastro de sangue que brilhava em negro no chão por onde carreguei o homem. Não havia nenhum sinal de como ele havia sido trazido até ali. A porta da frente continuava trancada. Náuseas sobrepujaram meus pensamentos e corri para o banheiro. Vomitei e senti-me fraco e tonto.

Deitei-me na cama sujo de terra e sangue e acordei tarde na manhã seguinte.

 

Nem sinal de Lia.

 

O rastro de sangue estava quase completamente seco, e amarronzado no chão de ladrilhos claros da sala.

 

Sentia-me fraco, devastado, perdido. Apesar disso, o amor por Lia não tinha mudado.

Eu não sabia quem era ela, e agora, não sabia o que era ela. Mas decidi ajudá-la e aceitá-la, fosse qual fosse a realidade.

As manchas de sangue estavam secas quando eu finalmente fui limpá-las depois de cimentar a cova no quintal.

 

No fim da tarde, o vento castigava as árvores da rua, e assobiava nas janelas da minha casa. Folhas revolviam-se em redemoinhos. A campainha tocou e era Lia de volta.

Seu olhar era triste e assustado, e ela atirou-se em meus braços. Beijei-a.

 

Não perguntei o que havia acontecido, e ela não contou. Jantamos almôndegas e acariciei seu cabelo sedoso até que ela adormecesse.

Acordei cedo na manhã seguinte, e ainda não havia notado que o lado da cama continuava intocado.

Um prato com restos de molho estava em cima da mesa, e a luz da sala de jantar continuava acesa.

Na sala de estar, à frente da lareira, havia um homem nu deitado. Ele não estava morto, gorgolejava tentando falar ao me ver. Cuspia sangue.

Aproximei-me rapidamente, colocando a cabeça do homem moribundo em meu colo. Seu abdômem também estava destroçado. Além disso, faltavam-lhe alguns músculos da coxa, aparentemente arrancados com violência.

Era meu vizinho, Augusto. Convidou-me algumas vezes para comer a maravilhosa comida que sua esposa, Paula, fazia. Tinha três filhos pequenos.

Cuspiu mais sangue, com grandes coágulos.

 

Céus, há quanto tempo aquele homem estava ali?

Não havia uma grande perda de sangue, e seu abdômem estava aberto, mas não completamente perdido. Ele possivelmente sobreviveria se fosse levado ao hospital.

Olhei para o canto e havia um gato cinzento sentado de forma altiva, observando-me. O homem arfava.

O olhar do gato – de Lia – acusador, incisivo, fez-me pegar uma faca de mesa mal afiada, a que tinha sido usada no jantar da noite anterior. Calmamente, na perna saudável de Augusto, fui cortando com dificuldade até atingir uma grande artéria qualquer. O homem debatia-se e lutava como podia, mas estava muito fraco. Sangue jorrou do corte com bordas irregulares quando atingi o meu objetivo. Sentei-me ao lado do homem gorgolejante e assisti-o sangrar por mais de cinco minutos antes de finalmente morrer. Uma enorme poça de sangue manchava o tapete e molhava-me a roupa. Havia respingos no sofá, nas paredes, na lareira.

 

Levantei-me, larguei a faca ao lado do homem. O olhar do gato brilhava. O felino atravessou um feixe de luz do sol que vinha da janela e suas patas molharam-se no sangue. Então, Lia (e sempre havia sido ela novamente), enterrou habilmente a mão no abdômem aberto, retirou o fígado e mordeu-o vorazmente. Olhou-me de soslaio e compreendi que ela queria privacidade.

 

Enterrei Augusto da mesma forma que o outro homem.

 

Na noite seguinte, encontrei uma mulher partida ao meio. Na outra, uma mulher grávida com o abdômem aberto e seu bebê parcialmente devorado ao lado do corpo.

 

Isso persistiu por um tempo indeterminado, mas acabei criando uma rotina para encobrir os hábitos de minha amada.

 

Em algum momento, eu notei que Lia não aparecia mais para preencher minhas noites, mas os corpos continuavam a aparecer. Depois de algum tempo, eu parei de tomar tanto cuidado, pois meu quintal já não tinha mais espaço. Comecei a guardar partes na geladeira, dentro de paredes e móveis.

Eventualmente, o cheiro chamou a atenção de Paula, a esposa de Augusto. Perguntou-me se estava tudo bem por uma fresta na porta, e eu afirmei que sim.

Depois de alguns dias, policiais bateram à minha porta e me levaram embora.

 

Durante o julgamento, ouvi palavras como insanidade, frieza, ausência de culpa. Compulsão. Ouvi sobre canibalismo e requintes de crueldade. Não compreendi o que acontecia. Disseram-me que eu havia matado, comido e ocultado restos de incontáveis pessoas. Eu tentei falar sobre Lia, mas eles nunca acharam nenhuma evidência de que ela tivesse existido.

Trouxeram-me para cá, há um tempo indeterminado. As paredes são brancas e à noite, os gritos impedem-me de dormir. Estou sozinho.

 

Um dia, convenci-me de que eles deviam estar certos.

 

Nesta noite, através da janela alta e com grades, pude ver um gato cinzento parado do lado de fora, no parapeito, observando-me com seus grandes olhos brilhantes.

triskel

Idéia do Pedro. Espero que eu tenha ao menos tangido a intenção inicial dele.  Estava precisando escrever, depois de tanto tempo.

 

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~ por Mari em 1 de outubro de 2009.

3 Respostas to “lia”

  1. OMG….simplismente…diferente, brutal, tocante, assustador e triste ao mesmo tempo …eu achei giro xD

  2. Ahá! Eu que fiz!
    Mentira, eu dei a idéia só. Não era nada do que eu tava pensando, e ainda assim era bem próximo do que eu tinha pensado.
    MAS HEIN?
    De qualquer forma, ficou bem foda.

  3. Nossa Mari, tá muito foda isso! Eu vou adorar transformar esse conto em HQ! Vamos adaptar as duas partes juntas! 😀

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