estranho no sofá

couchAcordei com um sobressalto. Outro pesadelo, como em muitas noites. Sentei-me na cama, desconfortável por ter caído no sono com as roupas do dia anterior. A porta entreaberta me permitiu o vislumbre de sua mão, largada acima da cabeça, enquanto você dormia no sofá. Você ressonava levemente, e dormia de boca aberta como criança – e tantas vezes o mandei ao médico por isso. Toquei tua mão e em teu sono você virou-se de lado. Sentei-me no chão, de costas para você.

Quantas noites acalmei-me de meus pesadelos na tua companhia muda? Aquela era certamente a que tornava o número incapaz de ser definido. Sorri, aquele meio sorriso que aparece quando a realização toma conta de nós.

Você chegava, até mais de uma vez por semana e trocava as lágrimas do dia pelas bênçãos noturnas da boa companhia. As pessoas perguntavam porque eu dormia tão pouco em algumas noites, e nunca consegui explicar quem você era. Era apenas meu estranho no sofá.

Aquela haveria de ser a última das noites do estranho no sofá. Você foi aparecendo cada vez menos, tomava um café e ia embora. Nada mais de conversas invadindo a madrugada, nada mais de filmes B na tv a cabo. As conversas passaram a ser cada vez mais superficiais, e a companhia tornou-se irrelevante.

Um dia não apareceu mais, e eu demorei duas semanas para notar a tua ausência. Durante algum tempo, quando os pesadelos aconteciam, eu ainda olhava pela fresta da porta, esperando ver a sua mão ali, enquanto você dormia. Sentei-me algumas vezes no chão, de costas para o sofá vazio, e fechei meus olhos imaginando que você estava atrás de mim como em todas aquelas vezes. O sofá sempre frio, desocupado. As almofadas não trocam mais de lugar.

Certa vez acordei assustada de um pesadelo. Não olhei pela fresta. Não espero mais encontrá-lo ali. Levantei-me, tomei um copo de água. Deitei-me no sofá, com a mão acima da cabeça.

Eu nunca soube teu nome. Eu sabia o quanto calçava e você sabia sobre minha verdadeira cor de cabelo. Naquela hora, eu gostaria apenas de poder gritar o teu nome e pedir que voltasse, que ocupasse o sofá e nunca mais fosse embora. Adormeci no sofá frio, sentindo a saudade mais profunda que se pode sentir.

Talvez você  tenha voltado, ou não. Mas o fato é que eu não tive mais pesadelos, então, acho que nunca saberei.

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~ por Mari em 6 de março de 2009.

2 Respostas to “estranho no sofá”

  1. beem,o comentário que deixei no outro texto era pra esse,é que eu sou um pouco distraida,o outro tambem esta belo,mas esse tem um ar misterioso e um sentimento belissimo,parabens

  2. Como disse lá no bate-papo da NEB li o texto do sofá e achei muito bom. Agora acabei de ler o “teimosa” e achei muito sensível e bem escrito. Não há dúvida que você tem aquilo que chamam de talento (e, não é pouco). Vou continuar lendo seus textos tanto pelo prazer quanto para tentar aprender a escrever…rs.
    Cuide-se e, continue alimentando isso aqui, por favor.
    Frank

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