de onde vem a esperança

 

esperancaTerça Feira. A luz de sol que entrava pela janela tocou seu rosto e ela acordou, como todos os dias.

Naquela manhã, algo parecia diferente. Ela olhou para os lados, ainda sonolenta. Viu suas roupas atiradas ao chão, uma xícara de chocolate quente esquecida sobre o criado mudo e o livro que estava lendo antes de dormir ainda aberto sobre o travesseiro do lado não usado da cama de casal. 

Sentou-se na borda da cama e esfregou o rosto. A impressão não se foi, embora tudo parecesse igual ao que esperava encontrar.

Levantou-se, foi até a sala. Ligou o som alto, para ver se a música traria distração. Freddie Mercury então interrompeu o silêncio. 

I was born to love you 

With every single beat of my heart 

Yes, I was born to take care of you 

Every single day…

Foi até o banheiro lavar o rosto. “Que bagunça”, pensou. Olhou-se. As olheiras estavam crescendo, e ela já conseguia vislumbrar mais alguns pés de galinha.  Os cachos curtos desgrenhados, o braço tatuado tantos anos atrás.

– Feliz Aniversário – diz ao espelho – Trinta e oito. Puta merda.

‘...An amazing feeling 

Coming through...”

Ela então captou no espelho um pequeno movimento atrás dela. Olhou,  não achou nada. Chamou, procurou atrás dos móveis. Nada. Há um ano já morava sozinha, desde que a filha fora para a faculdade. Ninguém além dela tinha a chave de seu apartamento, e ela estava em época de provas, em outra cidade. Não era ela.

…Go, I love you babe 

Yes I was born to love you 

I wanna love you, love you, love you…

“É só impressão. É a maldita velhice chegando”.

…I wanna love you 

I get so lonely, lonely, lonely…

Foi até o quarto, abriu o armário de roupas brancas. Percebeu que haviam poucas, e imaginou que a maioria estivesse no cesto no banheiro. “É hora de lavar, e eu esqueci de novo”. Pegou uma calça e uma camisa. Ela sabia que faria sol, mesmo que a previsão fosse de temporal. Havia sido assim sempre, desde que era criança. Nunca, nunca chovera em seu aniversário. Freddie Mercury calou a sua voz que nunca envelheceu e a sua coleção de músicas lhe preparou uma surpresa: uma gaita anuncia Smiths.

…Hand in glove

The sun shines out of our behinds

No, it’s not like any other love

This one is different – because it’s us...”

“Uau, essa eu não esperava”, ela riu-se.

Algo atravessou o quarto atrás dela. Ela quase conseguiu ver. Voltou-se para aquela direção o mais rápido que pôde, mas perdeu o movimento. “Eu não entendo, acho que estou ficando louca. E velha. Uma velha louca.”

…And everything depends upon

How near you stand to me...”

O telefone tocou e a música quase tornou-o inaudível. Ela correu para a sala e desligou o som.

– Feliz Aniversário, velha. De novo. 

– Obrigada, coisa. Mas não esqueça que daqui a duas semanas é o seu. Está tão velha quanto eu.

– Que nada, eu sou dois anos mais nova. Esqueceu que só você é do tempo da fita cassete?

– Besta. Vamos?

– Vamos. Passa aqui?

– Tô indo. Tchau.

– Tchau.

Terminou de vestir-se. Olhou mais uma vez para a casa, esperando encontrar aquilo que lhe dera a impressão de movimento. Nada. 

Tomou um copo do suco que encontrou na geladeira. Morango, já meio velho. 

Abriu a porta da frente, e encontrou uma única rosa em cima do capacho. Havia um cartão nela. 

Leu o que dizia nele, e era o que sempre soube que estaria escrito.

Um sorriso iluminou-se em seu rosto, ela sabia que finalmente era a hora. Colocou a rosa num copo com água, ainda sorrindo.

Saiu de casa para buscar a irmã, que não havia virado loira e frustrada, afinal, depois de tanto brincarem com isso. Era uma bela morena com dois filhos de seis e oito anos, e estava esperando um terceiro. Mesmo assim, não deixaria de trabalhar no laboratório delas até os nove meses, como fizera nas outras gravidezes.

Quando trancou a porta, eu saí de onde me escondia. E ela, como em todas as outras vezes que olhei para o futuro, continuou sem enxergar-me(se). 

E continuou sem entender de onde tirara a força para continuar durante todos aqueles anos, mesmo quando na juventude, tudo parecia errado. Ela nunca conseguiu parar de ter esperanças, e nunca entender o porquê.

 

 

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~ por Mari em 14 de janeiro de 2009.

4 Respostas to “de onde vem a esperança”

  1. Aaaaaaaaaaah! Chorei!

    Irmã parideira, comofas///

    Amo demais!

  2. ótima narrativa, gostei bastante =^.^=

  3. Eu não sabia q eu ia morrer cedo!!! O.o

  4. nuss realmente esse tb está mto bom…ate agora o melhor dos que eu li

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