pai

paiQuando esperava na janela, eu não sabia.
Não sabia que pelo resto da minha vida eu ia querer mesmo que ele chegasse, que almejava demais essa presença louca, meio antinatural.

Afinal, não é tão fácil ser pai quanto ser mãe. Não é natural, entendam.

Quando ele não veio mais, eu não compreendi muito bem. Claro que eu sabia que ele não era meu pai mesmo, já haviam me explicado isso. Mas eu ainda assim insistia em chamá-lo assim.

A marca foi eterna. Não tenho idéia do que é paternidade, não entendo nos níveis mais profundos.
Outro veio, e tomou o lugar do primeiro. Fez o trabalho muito bem, mas a cicatriz é funda demais.

Quando alcancei a idade necessária, a primeira coisa que pensei foi que nunca cometeria o mesmo erro. Eu não acredito em famílias perfeitas, de forma alguma. Mas, queria que meus filhos soubessem muito bem quem são seus pais, e o que eles representam.

Quando eu vi que tinha feito o mesmo, o desespero caiu sobre mim.

Ela, infelizmente, está confusa. Tem pai sim, claro! Mas é ausente, como todos os pais costumavam ser no passado. Não por mal, creio eu. Mas na prática, ela ficou sem.

Aí, ela conheceu alguém que dava atenção. Que a amava. Que cuidava dela e a levava no ombro por quilômetros.  Que a acalmava num sono perturbado e que ensinou coisas.

E então, aconteceu o mesmo com ela.

Ela agora chama, pede, imita. Há meses que não o vê, e a dor do meu erro só aumenta, porque ela não esquece.

Quando ela chama o nome dele, dói mais que nunca; eu não podia ter feito isso com ela, não. Jamais.

Condenei minha filha à mesma incerteza. À mesma falta de esperança.

Mas, ao menos, se ela ainda se lembrar quando for adulta, eu vou poder dizer que não era a minha intenção, e que eu a compreendo. Se ela chorar, eu vou abraçá-la e dizer que a amo.

Quanto a mim, permaneço no silêncio da falta de compreensão. Tudo bem; acho que ao menos com isso eu aprendi. Para ela, EU nunca vou faltar.

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~ por Mari em 13 de dezembro de 2008.

2 Respostas to “pai”

  1. As mães são seres supremos… E mesmo errando não perdem essa atmosfera. Acredito que pais ausentes devem pagar junto aos seus filhos os erros cometidos, no futuro.Nós mães, fazemos nossa parte. Mas o pai do meu filho tb é super ausente, e agora, sempre q ele chora, chama pelo pai… Nada fácíl.. Afinal, como explicar?

  2. Um grande problema é que as pessoas não pensam nas consequências de seus atos. Eu sou loco pra ter um filho, mas sei que atualmente não poderia dar a ele tudo que ele merece. Digamos que “quase sempre” o grande culpado pelas frustrações e dores de um filho é o pai, isso é inegável.

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