as cores no lago

Todos os dias, às seis e meia, Bráz levantava-se da cama, espreguiçava-se. Tomava banho e fazia a barba. Extremamente metódico, sua organização o levara ao sucesso profissional muito precocemente. Aos trinta e cinco, tinha seu próprio escritório num prédio de luxo, secretária e assessora. Sua casa tinha lavadeira, cozinheira e faxineira. Era juiz, e um homem extremamente correto.

Julgava-se feliz e completo. Era inteligente demais, e considerava a vida de casado uma perda de tempo. Vários de seus conhecidos – também mantinha-se reservado quanto a amizades profundas – aos trinta e cinco já haviam casado, separado e casado de novo. Um deles já tinha seis filhos com quatro mulheres diferentes.

Não tinha nenhuma ambição sentimental, e mesmo seu contato com a família era reduzido. Todo o seu tempo era dedicado ao crescimento profissional. Como isso dera frutos, ele não medira esforços para seguir em frente.

Numa segunda feira de um inverno qualquer, ele não conseguiu ligar o carro para ir trabalhar. Estava adiantado como sempre e não teria que ir até muito longe. Decidiu andar.

O caminho mais longo, mas mais agradável passava por dentro de um parque.

Havia pessoas fazendo cooper pelo pequeno e sinuoso caminho de pedriscos que cortava os gramados. Crianças correndo e cães buscando bolinhas. Belas árvores frondosas por todos os lados. Bráz contemplou o ambiente, e decidiu que iria caminhando para o trabalho mais vezes.

Algo prendeu seu olhar. Havia um belo carvalho plantado ao lado de um pinheiro, e entre os dois, nascia uma solitária rosa vermelha. Era uma inusitadíssima visão, principalmente pela beleza. Era estranho para ele que algo assim lhe chamasse a atenção. Ele gostava da natureza, é claro, e apreciava muito o parque e a vegetação. Mas nunca havia prestado atenção em algo tão pontual quanto aquela rosa.

Ele aproximou-se da rosa, queria vê-la mais de perto. Agachou-se colocando a maleta no chão e apoiando-se no carvalho.

– É lindo, não é? – disse uma voz feminina de algum lugar próximo.

Bráz assustou-se com a abordagem repentina e arregalou os olhos. Detrás do pinheiro saiu uma moça que estava em algum lugar entre os vinte e os trinta anos. Seus cabelos eram cacheados e estavam presos de forma desleixada num coque, com muitos fios soltos. Alguns deles eram roxos. Ela usava uma camiseta regata vermelha e uma calça xadrez. Estava descalça. Havia brincos de todos os tipos nas orelhas e nariz, e ele demorou mais tempo do que o normal para registrar todos os aspectos da aparência dela. Não estava acostumado com mulheres que não usassem tailleurs e saltos altos.

– Eu venho aqui todos os dias vê-la. Algumas vezes, as pessoas notam, outras, não. – disse a moça.

– É realmente muito bonita. Eu mesmo nunca a havia notado.

– Como alguém poderia NÃO notá-la? É a coisa mais esdruxulamente perfeita que existe.

Bráz processou o termo estranho que ela havia usado para descrever a flor, e percebeu que era estranhamente adequado. Não conseguia pensar em mais nenhum adjetivo para a rosa.

– Alice.

– O que?

– Meu nome, bobinho. Alice. – riu-se ela.

– Ah, claro. Bráz. Meu nome é Bráz.

– Bráz? Hahaha! Mas quem se chama Bráz hoje em dia?!

– Er… era o nome do meu avô, e…

– É um belo nome, Bráz. Incomum, mas belo.

Bráz estava confuso. Uma parte dele ainda prestava atenção na rosa, e outra tentava mesmo assimilar aquela presença caótica que agora andava em círculos em volta do pinheiro, Pisando em folhas mortas e grama com seus pés descalços. Ele notou que as unhas dos pés dela tinham um esmalte roxo desgastado.

– Você é sempre sério assim, Bráz?

– Como?

– Ah, não é possível que você não entenda nada do que eu falo! Perguntei se você é sempre sério assim, sabe. Até meio chato. – ela pensou um pouco – Meio chato, não. Muito chato.

– Hã… chato? Sabe, eu estava indo pro trabalho, e…

– Tire esses sapatos.

– Hã?

– Vamos, tire os sapatos, ou quer que os tire para você? Acho que já é grandinho o suficiente para saber como fazer, mas eu não recusaria ajuda se pedisse!

Ele estava começando a ficar um pouco amedrontado, e abaixou-se para pegar a maleta.

– Hã… Alice, eu acho que já vou indo, tenho uns papéis pra assinar, e…ei, o que é que está fazendo???

– Tirando seus sapatos, ué. Eu pedi para você fazer e você não fez, então, acho que realmente ainda não aprendeu como é! – ela estava agachada na frente dele, puxando os sapatos de couro caríssimos dele.

Bráz já não sabia mais o que fazer, então permitiu que ela terminasse o que tanto queria.

– Agora siga-me.

– Mas como, o que você vai fazer?

Alice pegou a maleta dele e saiu correndo. Sem alternativas e relativamente desesperado pelo notebook que estava dentro dela, ele correu também, só de meias, pelo gramado.

Ela ia em direção ao pequeno lago que ficava no meio do parque. Ele, que não estava acostumado a correr, cansou-se logo e diminuiu o passo. Acabou perdendo-a de vista. Compreendeu então, que havia sido roubado.

O entendimento da situação não o enraiveceu, ele sentiu uma leve tristeza, mas ao menos estava aliviado por toda aquela conversa estranha ter acabado. Era só um notebook, e ele tinha o backup de todos os dados. Caminhou até a beira do lago e sentou-se sob um salgueiro. Observou aquele começo de dia, que havia sido diferente de todos os que já havia vivido.

– Você é mesmo muito mole. Mole e chato.

Ele olhou para a direção do som, e ela estava ali, encostada no salgueiro, com a maleta aos pés. Alice sentou-se ao lado de Bráz e entregou-lhe a maleta.

– Eu não sou mole e chato. Sou apenas um juiz que resolveu ir trabalhar sem carro e foi abordado por uma moça completamente… digamos…

– Louca?

– Eu não queria dizer essa palavra, mas acho que o sentido é esse.

– A loucura é apenas o que excede o padrão, Bráz. E os padrões são apenas maneiras de tornar o caos mais compreensível para os fracos. Padrões são pra tolos.

– Compreenda, você não é a pessoa mais fácil de entender que eu já conheci. Afinal, você roubou minha maleta.

– Sua maleta está aqui. Eu só precisava atrair a sua atenção para que você visse o resto das belezas deste parque, além da rosa.

E então ele olhou em volta, e viu o reflexo do sol das oito da manhã no lago, viu uma mãe amamentando um bebê, viu uma pequena garotinha chorando com um joelho ralado, e viu a própria Alice, com um raio de sol sobre seu olho, acentuando o azul céu de sua íris.

– É, acho que você viu, e agora eu posso ir.

– Mas…

– Mas nada. Comece a olhar para as pequenas coisas, Bráz. Ah, só mais uma coisa. Quer se casar comigo?

Bráz arregalou os olhos sem entender nada.

– Nah, deixa pra lá. Você nunca ia mesmo conseguir ver as cores certas.

E antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela virou as costas e saiu correndo por entre as árvores.

Ele ficou por mais alguns minutos sentado ali, refletindo sobre o acontecido. Tinha certeza que não havia entendido nem metade do que ela queria dizer, se é que ela queria mesmo dizer algo. Afinal, ela era completamente louca.

Decidido a esquecer aquela estranha manhã, ele voltou para perto da rosa, para buscar seus sapatos. Ninguém os havia roubado, e ele calçou-os. Saiu do parque, pegou um táxi e foi trabalhar.

Durante aquele dia, pegou-se em muitos momentos pensando em Alice. Mas, na maior parte do tempo, ele estava pensando no reflexo do sol no lago, na garotinha com o joelho ralado e na mãe amamentando o seu bebê. Achou que talvez valesse a pena voltar ao parque, para observar as pequenas belezas, como disse Alice. Alguma parte da consciência de Bráz já não a achava louca, e acreditava que ela havia lhe transmitido a única verdadeira sabedoria.

Saiu do escritório um pouco antes do pôr do sol, e foi ao parque. Sentou-se no mesmo lugar sob o salgueiro, e contemplou o dia virando noite com todas aquelas cores sendo refletidas no lago.

– É, eu sempre apareço aos desavisados assim, não se assuste. – disse Alice, saindo detrás do salgueiro. Havia folhas secas em seus cabelos e roupas. Sua calça xadrez estava suja de terra.

– Não me assustei. Na verdade, eu esperava mesmo que aparecesse.

– Isso é bom.

– Você sabe o que fez comigo hoje, Alice?

– Sei. Mas diga, eu quero ouvir.

– Você mudou meu jeito de ver as coisas. Me mostrou que havia muito mais cores do que eu conseguia ver. E eu a estava julgando louca.

– Se não tivesse me julgado louca, não teria me ouvido.

E então, Bráz a olhou dentro dos olhos tão azuis quanto sábios, totalmente despidos de loucura ou sanidade. Ela era maior do que esse aspecto, e ele a amou naquele momento, e em todos os outros.

– Eu quero, Alice.

– Isso é bom, de verdade.

E eles se beijaram ali, embaixo do salgueiro.

Casaram-se algum tempo depois. Há coisas que ele nunca soube sobre ela, e resolveu não perguntar. Ele confiava demais nela para duvidar de sua capacidade de manejar sua própria vida, e a curiosidade não pesava mais tanto.

Ela ensinou a ele tudo o que ele precisava saber, e sempre que podiam, eles caminhavam juntos pelo parque, viam o carvalho, a rosa e o pinheiro, e sentavam-se sob o salgueiro, vendo todas as pequenas coisas viverem suas realidades à volta deles.

Obrigada ao Rogério pela rosa e pelo Bráz, e até pela não utilizada Karina :D.

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~ por Mari em 26 de outubro de 2008.

3 Respostas to “as cores no lago”

  1. preferia ter lido até a parte que ele pensa que ela roubou o note book. fez mto sentido na minha vida.

  2. Fico incrível! Mto bom mesmo! Meu gato tá mto orgulho de ter seu nome envolvido em algo tão bom!
    Em relação a rosa, pode ter certeza q ainda te darei outras! 😉

  3. Se eu fosse diabético, eu morreria com tanto açúcar.
    Brincadeira, está muito bom, embora meio melado. E você está melhorando mesmo nas descrições. Muito bom!

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