o feixe de luz

Ela nasceu e foi colocada no escuro.

Disseram aos pais dela que ela jamais poderia ver a luz do sol, nem de longe. Que ela deveria ser criada para viver no período noturno, e que durante o dia deveria ser mantida num ambiente protegido de qualquer pequeno raio de luz.

Ela foi crescendo assim, afastada e com muito medo da luz. Quando era pequena, seus pais lhe diziam que se ela estivesse fora da cama dela (no porão) quando o sol nascesse, um monstro gigantesco viria devorá-la.

Houve uma época em que seu temor era tanto que às quatro da manhã ela já estava escondida embaixo da cama.

Aos doze anos, ela não frequentava a escola, e o pouco que sabia, sua mãe havia lhe ensinado com relativa má vontade – a jovem mãe não acreditava que valesse a pena, afinal, que futuro sua filha teria?

Nunca teve curiosidade de ver a luz do sol, nem o dia. Ela não sabia que o céu era azul. Não conhecia o que era a brisa da manhã, e nunca havia visto um campo de margaridas brancas e amarelas balançando ao sabor do vento.

Passava suas noites brincando no jardim da casa, correndo pelos campos em volta, à luz da  lua. Ela enxergava tão bem no escuro que mesmo em noites de lua nova, conseguia distinguir as tocas de animais pelo chão; sua audição era tão apurada que reconhecia as espécies de coruja pelos piados.

Seus pais nunca conseguiram adaptar-se perfeitamente à sua rotina. Seu pai ainda trabalhava de dia, no mercado da cidade, e sua mãe adotou uma agenda intermediária, que não funcionava bem. Por isso, a menina passava muito tempo sozinha.

Sua pele era tão branca que as veias lhe apareciam por todo o corpo. Seus cabelos, nunca desbotados pelo sol, eram tão negros quanto a noite em que ela vivia.

Ela brincava no balanço pendurado no carvalho, um dia, quando percebeu que o vento estava mudando; uma tempestade chegaria em breve. Voltou para casa um pouco depois. Seu pai esta va dormindo, ele levantava com o nascer do sol para o trabalho; sua mãe, adormecida com um livro no colo, à luz da lareira.

A menina aninhou-se no colo da mãe, com os joelhos apoiados no chão. Deixou o sono carregá-la. Sua mãe acordou com o barulho das janelas batendo com o vento pouco depois. Ao ver a menina, carregou-a para o seu quarto no porão.

A mãe sabia que havia um furacão chegando. Correu até o quintal e recolheu os lençóis estendidos no dia anterior. Voltou à casa e colocou as barras nas janelas e portas. Era uma casa velha e estava infestada de cupins. No último furacão, o barracão de ferramentas fora destruído, e a estrutura da casa ficara avariada, e ela passou a ranger muito nos dias mais frios.

Quando julgou que havia feito toda a segurança possível, deitou-se ao lado do marido, cobriu-se, e começou a rezar. Tentou dormir, acreditando que não seria uma grande tempestade. Não conseguiu. Duas horas depois, ao nascer do sol, o furacão chegou. A chuva açoitava as janelas travadas, o vento começou a arrancar as telhas. Em pouco tempo, haviam muitas goteiras por toda a casa. A mãe da menina não saiu da cama, com medo de ver os estragos contra os quais não podia lutar. O marido abraçou-a, e rezaram juntos.

A menina acordou quando a casa começou a tremer, e tentou chamar a mãe. Não obteve respostas, tamanho era o barulho do vento e da chuva. Ela sabia que não poderia sair, o sol já havia nascido, pelo horário. Então, ela enfiou-se embaixo da cama com seu cobertor e seu coelho cor de rosa de pelúcia, e encolheu-se o máximo que pôde.

Em pouco tempo, a casa fora completamente destruída. Primeiro o teto se foi completamente, depois as paredes e os móveis. Os pais não tiveram chance alguma, e morreram abraçados sobre a cama, quando a parede de seu quarto desabou sobre eles.

Eles haviam pensado em descer ao porão com a filha, mas quando perceberam que isso era mesmo necessário, já era tarde demais para mover-se de onde estavam.

Toda a parte de cima da casa era escombros, ao fim da tormenta. parte das fundações havia sido arrancada também, e o chão que para a menina era teto estava esburacado e em parte, desabado.

Esteve desmaiada durante grande parte da passagem do furacão, e acordou com uma sensação que não conhecia. Um calor estranho no rosto, os olhos ardendo por baixo das pálpebras.

Havia um feixe de luz do sol, que entrava por uma fresta no teto, diretamente sobre seus olhos. Ela assustou-se, e tentou afastar-se; o medo era tanto que ela não percebia o tamanho da desgraça à sua volta. Ela estava com muita dor, pois a cama havia quebrado e despencado sobre ela. Conseguiu fazer com que o feixe de luz ficasse longe de seu rosto. Deitada ali no chão, ela via o raio perto de sua mão direita. Observou-o, estudou-o. Era algo completamente novo, ela nunca havia visto algo assim.

Ela nunca havia visto nada tão belo.

Algum tempo passou, e ela percebeu que o raio moveu-se aos poucos, cada vez mais para perto de sua mão estendida. Ela já não sentia mais medo – ele parecia tão inofensivo – e, afinal, ela já não havia sido tocada por ele e nada acontecera?

Ela esperou mais um pouco antes de tentar sair de onde estava. Pela dor, e pela crescente curiosidade pelo feixe de luz que se aproximava.

O feixe, por fim, tocou seus dedos. Nada aconteceu. Um calor gostoso, que ela associava à lareira em noites frias, envolveu a sua mão. Nada de bolhas, monstros e morte.

Estava ali, maravilhada com a sensação, quando alguém desceu pelos escombros,para saber dela. Era seu padrinho, que morava numa casa próxima.

Ele observou-a com a luz em sua mão, e entendeu.

Retirou os destroços da cama e do teto de cima da menina que já estava crescida, e tomou-a ao colo.

Sem medo, escalou de volta os restos da escada, e o corpo dela foi inundado de luz. Ele abraçou-a quando ela chorou. Não por medo, mas por deslumbramento.

Eles saíram da área da casa destruída, e ele colocou-a no gramado, enquanto gritava por ajuda para a menina ferida.

E um pouco antes de tudo mudar em sua vida, ela sorveu mais um pouco do sabor da desconhecida luz e do medo que se fora.

Vinte anos depois, ela ainda acorda todos os dias para ver o amanhecer, e sentir os primeiros raios de luz em seu rosto. Ela nunca mais teve medo.

 

Eu não quero mais ter medo.

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~ por Mari em 17 de outubro de 2008.

Uma resposta to “o feixe de luz”

  1. Essas ‘bigornas’ são aqueles que despencam assim,
    advindos do nada, na sua cabeça?
    Puts, se for, que caiam mais bigornas de contos 😀
    Lindo esse, bem escrito e supimpa (:

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