samuel e os castelos

Quando ele se levantou da cadeira onde estava sentado com aquele olhar grave, ela soube.

Eles haviam sido muito felizes – cinco anos de casamento, que inicialmente parecia perfeito. A mãe dela o adorava, o tratava como filho, trazendo bolinhos e defendendo-o sempre que possível. A mãe dele estava morta, mas ele sempre afirmou que ela a teria amado.
Todos aguardaram o casamento acontecer depois de três anos de namoro, e tudo saiu perfeito.

E tudo havia continuado perfeito, até aquele dia de março, quando ele voltou mais tarde pra casa.

A esposa estava sentada no sofá, acariciando o ventre levemente distendido pela gravidez de cinco meses. Assistia a um programa qualquer, preocupada com a demora do marido.
Lá fora a chuva estava forte demais, e o barulho abafava os sons externos. Ela não o ouviu chegar com o carro.

Ele abriu a porta subitamente, com um estrondo. Estava encharcado e cambaleante. Ela correu para ampará-lo, quando ele quase caiu. Em seus olhos o medo estava estampado, as pupilas dilatadas e a respiração ofegante.

A camisa branca que ele havia colocado antes de sair de casa pela manhã, estava suja e manchada de sangue.
Ao reparar no fato, a esposa entrou em pânico. Inspecionou-o, perguntando o que havia acontecido. Recebeu como resposta apenas grunhidos e palavras desconexas.

Então finalmente, achou a fonte do sangue na camisa. Havia um corte em sua mão esquerda, causado por um objeto cortante muito afiado. Propositalmente. Colocou-o em seu colo, os dois sentados no chão. Acariciou sua cabeça até ele se acalmar. Quando isso aconteceu, ele dormiu. Ela o acordou levemente após algum tempo, para colocá-lo na cama.

Ele dormiu por quatorze horas. O dia seguinte era sábado, e ela não tentou acordá-lo. Quando ele se levantou, ela preparava o almoço.

– Oh querido, – disse ela aproximando-se, para abraçá-lo – você está bem? Fiquei tão preocupada… pode me dizer o que acontec-

– CALE A BOCA! – respondeu ele estapeando-a com as costas da mão, com força suficiente para atirá-la ao chão, ao lado da bancada central da cozinha.

Ela o olhou com um misto de perplexidade e medo. Quem era aquele homem? Que havia acontecido ao moço gentil que lhe levava flores quando ia buscá-la na faculdade?

Os olhos dele estavam tomados pela fúria. Ele pareceu ponderar mesmo assim por um momento, e saiu a passos largos e pesados da cozinha.

E então, jogada no chão ao lado da bancada, ela encolheu-se o melhor que pôde, e chorou. Quando acalmou-se, levantou e foi até o quarto. Ele estava deitado, com os olhos abertos, fitando o teto branco.

– Desculpe-me – disse ele, sentando-se e olhando-a nos olhos – Desculpe-me do fundo da minha alma. Eu errei.

– O que aconteceu ontem? O que aconteceu hoje?

– Eu não sei. Não há resposta para nenhuma das perguntas.

– Como assim? – perguntou ela, chorosa – Mas você me BATEU! Ontem, chegou atordoado e sangrando, e hoje me BATEU!

– Eu sei. Mas não me lembro de nada, e não consigo achar razões para os dois fatos – ele olhou para a mão com o curativo que a esposa fez cuidadosamente enquanto ele dormia.

Ela sentou-se ao lado dele na cama, sobre a colcha verde.

– Você está bem? – perguntou ela?

– Sim. Não. Não sei.

– Posso fazer algo por você agora?

– Não, acho que não.

– Então, vou deixá-lo a sós. Preciso pensar, também. A dor de ser esbofeteada pelo homem que amo é muito maior do que apenas a física.

– Eu já me desculpei. Peço perdão novamente.

– Não é necessário.

Ao dizer isso, ela virou-se para a porta e saiu, deixando-o sozinho no quarto do casal.

Ela foi até o quarto que estavam preparando para o bebê. Era um menino, disse o médico. As coisas estavam parcialmente compradas, e ela sentou-se na cadeira de balanço, onde pretendia amamentar seu Samuel num futuro próximo. Chorou novamente, mas desta vez, pela perda dos sonhos, pela incerteza do futuro.

A convivência do casal sofreu mudanças após o episódio. Ele ficou mais frio e cauteloso, e ela notou que algumas vezes, em discussões leves, ele retirou-se para conter a fúria. Ela, tornou-se mais distante, com medo de causar-lhe mais acessos como o primeiro. Esperava que ele explicasse o que aconteceu no dia da tempestade, mas ele nunca mais tocou no assunto.

O corte na mão esquerda dele transformou-se numa cicatriz perfeitamente reta, e ele regularmente, notou ela, perdia-se observando a marca.

O fluxo seria natural, e ela sabia. Sabia que mais cedo ou mais tarde aquela conversa aconteceria. Ela não sabia se gostava ou não da idéia. Afinal, não conhecia mais o homem com quem convivia, mas ainda amava-o profundamente.

O dia chegou, no mesmo dia em que Samuel deveria nascer. O bebê estava atrasado. Ele levantou-se após o jantar, com aquele olhar que ela havia previsto nas vezes em que pensou sobre o assunto.

– É melhor que isso tudo acabe. Não consigo mais vê-la sofrer em silêncio pelos cantos, e  suportaria menos ainda que você falasse sobre isso.

Ela não teve resposta. Ele havia sido mais frio do que ela poderia prever. Ficou calada, esperando a conclusão do raciocínio dele.

– Em algum lugar de mim eu ainda a amo. Mas o resto de mim não entende mais o que é amor. Depois do que aconteceu aquele di-

– E o que aconteceu aquele dia? – ela interrompeu, à espera de respostas.

– Eu ainda não sei. E se soubesse, não te contaria. Desculpe-me.

– Então é isso? Agora, que ele vai nascer, você vai embora?

– É. Vai ser melhor assim.

– Você vai amá-lo?

– Não sei.

Isso a tocou em um lugar que ela não conhecia, e seu primeiro instinto materno de proteção ativou-se. Ela acariciou o ventre.

– Então vá. Leve com você as memórias dos tempos felizes.

Ele virou as costas e foi para o quarto, arrumar as poucas coisas que levaria naquele dia para o hotel onde pretendia ficar.

Ela ficou ali parada à mesa, com seu prato vazio à frente, e apenas a luz acima dela acesa. Derramou apenas uma lágrima, que caiu no centro do prato. Levantou-se com dificuldade e sentou-se no sofá.

Ela não olhou quando ele saiu, em silêncio.

Depois da partida dele, ela deitou-se e dormiu. No dia seguinte, ao acordar, a sua bolsa d’água estourou, e ela foi de táxi ao hospital ter seu Samuel.

A mãe dela foi quem ligou para o hotel para avisar do nascimento do garoto. Ele não estava no quarto do hotel. Se ele recebeu o recado deixado com a recepcionista, isso não o tocou. Ele não apareceu para ver o filho.

Ela continuou morando com Samuel na casa onde morou com seu marido nos cinco anos de casamento. De vez em quando ainda chorava, sentia falta do amor que sentia antes, sentia falta das tardes de filme e pipoca, dos piqueniques no parque embaixo do salgueiro. Mas, na maior parte do tempo, ela era tomada pela frieza.

Samuel nunca falou; andou tarde, e fazia movimentos repetitivos. O autismo talvez melhorasse com a idade, mas o máximo que ele atingiu foi uma incrível capacidade de construir castelos de cartas. Ele passou a maior parte do tempo desde os três aos dezenove anos construindo enormes castelos de cartas, que às vezes saíam dos limites do seu quarto, invandindo a sala, a cozinha.

Quando o vento os derrubava, ele sentava pacientemente e os reconstruía.

Ele nunca soube do pai, acreditava a mãe. Na verdade, ele compreendia tudo. Construir e reconstruir castelos em seu silêncio eterno era escolha sua. Ele sabia falar, se quisesse. Não sentia necessidade. A sua mais profunda sabedoria ele transmitia com seus atos.

Então, o vento derrubou o castelo mais bonito que ele construiu. Ele levantou-se e lentamente começou a reconstruí-lo.

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~ por Mari em 5 de outubro de 2008.

3 Respostas to “samuel e os castelos”

  1. A forma com que você desenvolve a história não deixa que o leitor se canse, mas tambem não revela tudo, deixando que ele se interesse cada vez mais *–*

    Ameeei 🙂

    Ah, uma sugestão de livro:
    “Nascido num dia azul”
    Fala sobre uma criança com uma doença parecida com o autismo,
    mas menos branda…
    Eu li sobre o Samuel e lembrei dele 🙂
    Só uma sugestão só ok?
    Beijooo :*

  2. Adoro esses simbolismos que peças de jogos, como xadrez, baralho, etc., tem, comom se pode exprimir coisas importantes através deles.

    Com sou curioso por vida fiquei curioso para saber mais sobre o “que aconteceu aquele dia”. =)

  3. muito, muito bom

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