libélulas e veludo

 A garotinha estava enfiada num vestido preto grande demais, comprado às pressas pela babá. Estava parada à frente do pai. Um dos braços dele a continha, e o outro estava parado ao lado do corpo.
 

Mesmo aos sete anos recém completados, a garota compreendia o fracasso de sua família. Dinheiro eles tinham, ó sim. E muito. Sua mãe havia sido uma competente designer de interiores, e seu pai, um cirurgião plástico muito renomado. A razão do fracasso era a falta de amor. Seus pais não compartilhavam o amor que deveria ser reservado ao casamento. Não a amavam, também. Ela era bem cuidada, e tinha tudo o que queria. Mas amor era algo que não conhecia. A babá era trocada quase a cada mês, e ela não criava laços com nenhuma.
 

O fracasso era flagrante, e havia causado à menina grandes danos. Ela também nada sentia, afinal. Parada à frente do belo homem que era seu pai, observando o caixão de sua mãe descer até o fundo da cova, ela não sentia tristeza, não sentia nada. 
 

“Oh, que pena, uma moça tão jovem”; “Ouvi que ela nunca nem suspeitou do problema no coração. Morreu sem saber por que” – sussuros eram ouvidos durante o funeral.

Uma libélula vem voando, e inesperadamente pousa no vestido da menina. Ela fascina-se com as cores contra o seu vestido de veludo preto, com a natureza estranha e primitiva daquele ser.

 O inseto voa, e a garota decide que precisa ver mais, precisa conhecer cada uma das cores das asas da libélula. Desvencilha-se do pai e corre pelo gramado atrás da libélula, que voa erraticamente. Ela havia pousado no tronco de uma bela árvore desfolhada, coberta de flores roxas.

 A menina observa, chegando cada vez mais perto, com medo de assustar o animal. Ela consegue aproximar-se. Poderia observar daquela distância perfeitamente, mas ela quer mais. Decide tocar. Estica uma mão. Surpreendentemente a libélula levanta vôo, e pousa no dedo estendido da garota. Ela traz a libélula para perto do rosto para observar suas formas e cores.

 Ela só tem tempo de observar um belo azul arroxeado brilhante nas asas, e a libélula levanta vôo. Atravessa a copa florida da árvore e some no céu, o sol refletindo cores que ela tinha visto apenas em sonhos. Naquele momento, ela amou a libélula por aquele vislumbre, por tê-la permitido tocá-la. Amou-a por tê-la ensinado o que era amar.
 

Vinte anos depois, ela ainda se lembra da primeira vez que sentiu algo na vida. Sonhou com a libélula muitas vezes. Por morar na cidade, aquela continuou sendo a única que viu durante a sua vida toda.
 

Ela arruma as coisas do escritório na pasta, e sai apressada para um segundo compromisso. O carro quebrou. O metrô é a única opção.
 

Ao atravessar a rua para a estação, ela avista um pouco acima de sua cabeça uma libélula. Em seu momento de distração, é atropelada por um motorista apressado demais.

No chão, enquanto sangue saía de seu abdome destroçado, ela avista a libélula mais uma vez.
 

A libélula desce e, como por indulgência, pousa na mão pálida que está caída ao lado do rosto da moça. Nos minutos antes de morrer, ela não ouviu as pessoas gritando, nem a âmbulância ao longe. Seus sentidos estavam concentrados em memorizar todas as cores da libélula, em conhecer cada curva de sua anatomia quase alienígena.
 

E quando morreu, ela compreendia cada um dos aspectos de sua libélula, e sorriu uma última vez; quando seus olhos perderam o brilho, a libélula levantou vôo.

Ao contrário dos outros que eram metáforas contidas, este é uma metáfora descarada. E serve pra explicar o porquê da tatuagem de libélula que farei em breve.

E afinal não podemos ser responsáveis por agradar a todos. Fui levemente incompreendida… mas tudo bem. A morte não me choca e não a encaro como algo ruim, mesmo com intestinos à mostra, entendam. Se sou estranha por isso, paciência ^^… sou feliz assim 🙂

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~ por Mari em 29 de setembro de 2008.

2 Respostas to “libélulas e veludo”

  1. quase chorei
    e nao fui irônica

  2. ACHO QUE DEVEMOS MOSTRAR O QUE SOMOS E ASSIM TRANSMITIR O QUE PENSAMOS…

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