s(mothering)

Mais uma gota de sangue. O chão começa a ficar realmente sujo, o carpete marcado. Velhas e novas manchas, a cada dia, quando ela se corta.
Lhe faz bem. Ela sente que aquilo a limpará, finalmente. No quarto ao lado, seu bebê chora. “É fome”, ela pensa. Tudo bem. Nada que dois ou três minutos de atenção não resolvam.

Lamenta-se, todos os dias, por tudo o que já fez. Todos os arrependimentos, todos os pecados que cometeu. Além disso, lamenta-se ainda mais pelos pecados que ainda cometerá. No auge de suas crises, ela questiona suas missões. Sabe que é tudo vontade de Deus, e sabe que é por Ele que faz. Mas ainda assim, uma (grande) parte dela considera aquilo um pecado.

Ela está confusa. O bebê no quarto chora mais, e, como uma resposta, um de seus dois irmãos a chuta, dentro do útero. Não deve demorar mais que um mês agora. Outra gota cai, mas, ela sabe, deve ser a última. O sangramento já está quase estancado.

Levanta-se, observa a janela. Seu bangalô na vizinhança calma é açoitado pela chuva forte de verão. Um relâmpago ilumina momentaneamente o horizonte. O bebê, agora soluça. O som torna-se insuportável, subitamente. Ela grita, manda-o calar-se. Quando ele não a obedece, ela sabe que é a hora. Deus o fará calar, afinal. Esta é a resposta, ela sabe que só nos braços d’Ele seu filho pode acalmar-se e dormir calmamente, o sono das crianças e dos anjos.

Ela vai até o quarto, no caminho, apanha o travesseiro em sua cama. O andar está cada dia mais difícil, com a barriga de gêmeos quase a termo. Aproxima-se do berço, onde o bebê se retorce. “Ele já tem quase um ano. É tão lindo.”, ela pensa.

Coloca então o travesseiro sobre a face pequenina e franzida da criança. O choro é instantaneamente abafado. Demora algum tempo até o bebê sentir o perigo, e começar a lutar. Ele luta por mais de dois minutos. “É forte, o menino. Meu garoto.”. Quando ele finalmente amolece, ela tira o travesseiro do rosto dele. Ele está imóvel. A fralda cheia. Ela o limpa. Cobre-o com o cobertor e vai para o seu quarto.

Coloca o travesseiro de volta ao lugar, troca de roupa e deita-se. Percebe que seu travesseiro está molhado, e não entende o motivo. Então, ela adormece. Tem um pesadelo, no qual seu bebê está morto, e sendo levado embora por homens sem rosto. Ela acorda com um sobressalto, e decide checar a criança. “Apenas paranóia de mãe, é claro. Não tem como ele não estar bem, não é?”.
Ela entra no quarto, e observa seu filho, imóvel, com a boca aberta. “Ele dorme como um anjo”. Ela se aproxima, e o acaricia. Sente que ele está gelado, e não respira.

O pânico toma conta dela. “Não, não pode ter acontecido de novo, não pode”. Ela pega a criança no colo e corre, sai para o quintal da frente gritando. Já passa da meia noite, e depois de alguns momentos, sua vizinha aparece, alarmada.

– Meu bebê, meu bebê! – a mulher grávida berra, sacudindo a criança, com esperanças que ela acorde.

Tudo, a partir dali, parece um sonho para ela. É assim todas as vezes. Tem apenas vislumbres do funeral, das perguntas dos médicos. Lembra que enterrou-o junto com seus irmãos, cinco pequenos caixões, lado a lado no cemitério, embaixo de belas lápides de mármore branco. Ela não compreende por que seus bebês sempre morrem. Síndrome da morte súbita, dizem os peritos. É uma pena, tantos na mesma família.

Seus gêmeos nascem duas semanas antes da hora. São grandes e fortes, dizem os médicos. Ela ainda está abalada com a morte do filho, mas a chegada dos pequenos a alegra.

O tempo passa, e mais uma vez a compreensão toma conta dela. Ela entende o que aconteceu, e apanha a navalha que encontrou naquela caixa de chapéu, quando seu pai morreu.
Corta-se, e entende de onde vieram as cicatrizes e as manchas no carpete.

Corta-se mais uma vez, e compreende a missão. Sente o peso dos pecados, mas acredita no Bem Maior, por seus filhos.

Os gêmeos têm agora seis meses, e os braços e pernas dela estão cobertos de feridas, recentes e antigas.
São duas crianças, e é muito, muito difícil.

Há uma tempestade se aproximando. Está muito frio, e seus dedos estão enrijecidos. Um dos gêmeos começa a chorar, seu irmão acorda e o acompanha.
Ela olha pro céu, e uma lágrima cai. A compreensão é maior agora, e as coisas tornaram-se mais difíceis. Mas ela não desistirá. Por Deus, e por seus filhos. Apanha o travesseiro, e vai até o quarto das crianças.

A decisão mais dura de sua vida foi escolher o primeiro.

 

(uma interpretação de como poderia ter sido a vida de Waneta Hoyt. Não sabe quem ela é? Google her.)

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~ por Mari em 22 de setembro de 2008.

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