considerações sobre a eternidade

Em algum aniversário entre a infância e a adolescência, meu pai me deu um presente. Era uma redoma de vidro, e dentro dela, havia apenas escuridão. Era uma peça tão misteriosa quanto bela. Não havia abertura alguma, e a escuridão parecia retida embaixo da cúpula transparente. Eu não compreendi o presente, e meu pai não me explicou. Disse que com o passar do tempo eu entenderia.

Naquela noite, coloquei o presente ao lado da cama. Refleti sobre envelhecer mais um ano, e adormeci pensando nos outros presentes: belas bonecas, vestidos, um lindo cavalo negro só para mim. A redoma perdeu-se entre meus pensamentos.
Sonhei com o dia do aniversário, que corria com meu cavalo.
Quando acordei, corri para o estábulo, e cavalguei pelo reino durante o dia todo. Quando retornei ao castelo, o sol se punha.
Naquele belo começo de noite, a lua brilhava entre abudantes estrelas.

“É uma noite perfeita”, pensei eu.

Encontrei meu pai, a caminho do salão de jantar.

– Entendeu o presente, bela princesa? – ele perguntou.

– Papai, seu presente permanece o mais obscuro dos mistérios.

– Quem sabe o que nos reserva o dia de amanhã então, filha.

Jantamos, e depois da refeição fomos à sala de jogos, onde perdi quatro vezes do meu pai num jogo de xadrez. Quando minha sonolência impediu-me de continuar, fui direto para a cama.

Na manhã seguinte, notei que o sol batia no vidro da redoma. O enfeite que a encimava funcionava como um prisma. Um belo arco-íris havia se formado na parede, e perdi-me em pensamentos observando-o.
Após um longo e indeterminável tempo, meus olhos desceram à escuridão contida no artefato. Havia algo diferente ali. Dois pequenos pontos de luz haviam aparecido em meio à escuridão, tão pequenos quanto a espessura de um fio de cabelo.

Os dois pontos tomaram-me o dia, estudei-os, observei-os. Visitei a biblioteca do castelo em busca de explicação para o artefato e seus pequenos diamantes flutuantes, sem sucesso.

À noite, à mesa de jantar, meu pai dirige a mim a mesma pergunta do dia anterior.
– Entendeu o presente, bela princesa?

– O mistério aprofundou-se, papai. Há novos aspectos a serem avaliados e compreendidos. Poderia esclarecer-me sobre os dois pontos brilhantes que surgiram?

– Você deve descobrir sozinha, e esta é a resposta mais indulgente que permito-me conceder a você.

Calei-me, sabendo que deveria esperar apenas o silêncio do meu pai.

Naquela noite, adormeci hipnotizada pelos dois pontos luminosos dentre a escuridão sob a redoma de vidro. Ainda estava na mesma posição quando acordei na manhã seguinte, e novamente vislumbrei o arco-íris diminuto projetado sobre a parede.

Olhei para a escuridão enclausurada à procura dos dois intrigantes pontos, e encontrei três, desta vez.

E então, houve um vislumbre de compreensão, mas eu ainda precisava ter certeza.

Novamente, neguei ao meu pai sobre a descoberta do mistério naquele dia ao final da tarde, e, ansiosa, fui dormir, não sem antes procurar avidamente por mais diamantes de luz. Como eu suspeitava, não encontrei nenhum. Dormi.

Ao acordar, encontrei o arco-íris. E, abaixo da redoma, quatro pontos luminosos, minúsculos, flutuavam na escuridão.

Finalmente a compreensão chegou por completo, e eu pude admirar a beleza do presente que recebi.

Procurei meu pai, que explicou a natureza daquele artefato e a responsabilidade que o cerca.

Desde sempre, em nossa família, estes artefatos são dados ao primogênito do rei. A ele cabe compreender o mecanismo da redoma ,e, ao pai, explicar o seu significado. Cada sonho que o dono da redoma tiver, desde o dia em que recebe o presente, torna-se uma estrela, naquele universo diminuto. Cabe ao portador do universo contido na cúpula sonhar e criar mais e mais estrelas, mais e mais mundos, para preencher aquele universo. E então, por ele será responsável, para todo o sempre.

Meu pai me levou para ver o universo dele. Era muito parecido com o meu, exceto pela quantidade de estrelas que brilhavam. Percebi que não sabia a idade de meu pai, e que seria impossível calcular.

Muitas dúvidas tomaram a minha mente, mas retirei-me, após a história, para refletir. Antes de proferi-las, queria ter certeza de que não sabia mesmo a resposta.

Uma das perguntas cruciais era sobre o tempo e a responsabilidade com o pequeno universo. Se seríamos os guardiões de nossos próprios universos para todo o sempre, onde estava meu avô, por exemplo? E todos os outros antes dele? Estas perguntas responderam-se sozinhas.

Na manhã seguinte, não encontrei meu pai, e nem no fim do dia. Nem no dia seguinte, e nem no outro. Por muitos anos, perguntei-me onde estaria meu pai, meu amado rei. Fui coroada um mês depois de sua partida misteriosa, e mantive-me como rainha por um incontável número de anos.

Casei-me, e tive um filho, em algum momento da minha vida. Este filho cresceu, e tornou-se um viçoso rapaz, cheio de perspectivas. Meu marido morreu de velhice muito antes de meu filho chegar à adolescência, mesmo tendo sido pai aos trinta anos. Então, compreendi a inexistência de minha mãe.

Raramente dispensava mais do que um olhar por noite à redoma ao lado da cama; ela enchia-se cada vez mais de estrelas. Algumas vezes, visitei os aposentos de meu pai. A redoma dele continuava lá, empoeirada, em cima de um pedestal, no meio de sua sala de estudos. A aparência dela era, aos meus olhos, idêntica a da primeira vez que a vi, no dia em que ele se foi.

Um dia, quando meu filho já era quase adolescente, achei que deveria dar-lhe um presente. Desci até uma sala esquecida do castelo. Talvez ela sempre tenha estado lá, ou talvez fosse completamente nova. Nunca conseguirei responder.

Estava vazia, exceto por uma redoma de vidro no meio, vazia. Tomei-a, e dirigi-me aos meus aposentos.

Dentro da cúpula vazia, soprei a escuridão, e compreendi.

No dia seguinte, entreguei-a ao meu filho. Ele intrigou-se, como aconteceu comigo, tantos anos antes.
Ele entendeu o mecanismo em três dias, e neste terceiro dia, contei a ele a história que meu pai havia me contado.

Deitei-me como sempre naquela noite. Sonhei com meu pai. Ele me dizia que agora era a vez de meu filho. Acordei, despi-me. Sabia o que deveria fazer. Toquei o prisma que encimava a cúpula.

Meu filho provavelmente sofreu o mesmo que eu, e deve ter sido coroado logo após a minha partida. Eu acredito que ele realmente cuidará do reino e da tradição.

De onde estou agora, vejo minha criação de sonhos muito mais de perto. Vejo galáxias, planetas, civilizações. Há muitos aspectos a serem considerados sobre mim, e todo o meu tempo, questiono minha própria existência, a minha serventia e a eternidade. Desconheço a profundeza dos sonhos que tive e o que eles criaram. Não compreendo a vida, nem sua função. Tenho dúvidas se sou uma, ou muitas. Não sei como lidar com o que fiz, mesmo sendo capaz de sentir cada canto deste universo. Sinto todas as dores, todas as alegrias, todas as perdas.

A mim, resta apenas a eternidade, e a certeza de que nenhuma de minhas perguntas jamais será respondida.

Lamento todos os dias pela maldição de minha família, e pensar que eu mesma condenei meu filho à mesma existência me desespera. E então, todas as noites e todos os dias acontecem ao mesmo tempo, para sempre. Numa outra realidade, meu filho torna-se pai, e, todos os dias, orgulha-se das muitas estrelas que já colocou em sua redoma.

Orgulha-se da tradição, sem saber que está enfeitando sua própria prisão eterna.

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~ por Mari em 22 de setembro de 2008.

Uma resposta to “considerações sobre a eternidade”

  1. mto bom mesmo, certos textos como esse realmente valem a pena

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