até o fim do muro

Hoje faz dez anos que ela anda pelo parque todos os dias. É uma bela mulher, em meados de sua terceira década de vida.

Ela não corre, apenas passeia, antes de ir para o trabalho. Acorda antes de amanhecer, escova os longos cabelos ruivo-escuro, arruma-se para o trabalho no escritório e sai de carro. Estaciona sempre na mesma vaga ao lado do parque, e segue pelo muro até o portão de entrada.

“É só seguir pelo muro”, ela murmura para si mesma, e ri sozinha. A antiga piada interna dói como uma facada, todos os dias, sempre do mesmo jeito.

Aos vinte e poucos ela conheceu o amor de sua vida. Tudo o que ela sempre sonhou, ali, na sua frente. Ela ia distraída pela lateral do mesmo parque, sem conseguir achar a entrada. Parou, e perguntou a um velho sujo, parado à frente de uma cantina qualquer, onde ficava a entrada. “É só seguir pelo muro”, ele disse. E assim ela fez. Quando estava desistindo e amaldiçoando o velho de todas as formas por não achar a entrada dada a extensão do parque, alguém a derruba.

Um belo rapaz alto, de cabelos castanhos e roupas de corrida que ia pela mesma direção que ela, aparentemente descuidou-se e trombou nela. Ele a levanta, retirando seus fones de ouvido e desculpando-se infinitamente.

O homem notou que ela ofegava, e estava muito vermelha. Quando ele pergunta se ela está bem, ela explode, grita e esperneia. Berra aos quatro ventos sobre como aquele velho a enganou, como aquele parque certamente não tinha entrada alguma, como ela iria andar para sempre, e ainda por cima, esse “imbecil” a derruba.

“É só seguir pelo muro”, ele diz. E sorri. Ela pára, sem acreditar no que ouviu, e começa a rir. E gargalhar. Os dois desconhecidos riem juntos, até as lágrimas caírem. Então, sem dizer palavra, ele a toma pela mão e anda mais vinte metros. Ali estava a entrada do parque, fora do campo de visão dela anteriormente, por uma curva.

Caminharam juntos pelo parque, pela primeira vez. Sentaram-se embaixo de um salgueiro, à beira do lago, e beijaram-se. Naquela hora, eles souberam que era assim que deveria ser, todos os dias.

Namoraram por um ano e meio, depois casaram-se. Ela pensava todos os dias que era a mulher mais feliz do mundo. Ele dizia que a amava todos os dias, abraçava-a e beijava-a ternamente, mesmo quando estava atrasado para algum compromisso. Dizia que nem todo o tempo do mundo seria suficiente para amá-la da forma que ela merecia.

E os passeios pelo parque eram feitos toda manhã, antes de ele ir para o trabalho (a esta altura ele havia recentemente terminado a faculdade de direito, e estava começando a crescer como advogado). A gravidez dela veio sem problemas, e mesmo com o ventre crescendo, eles prosseguiam com a caminhada diária. Sempre começando pelo muro, e persistindo na brincadeira de seguir até o fim, e depois, pela borda do lago, até o salgueiro.

Aos seis meses, quando ela perdeu a criança, eles caminharam mesmo assim. Ela, depois de dois dias de repouso. Ele não fez pausa alguma.

Três anos após o casamento, ele começou a sentir dores de cabeça. O diagnóstico de câncer inoperável veio abruptamente, e tão rapidamente quanto, a sua saúde deteriorou-se.

Ela estava lá quando, um dia embaixo do salgueiro ele falou sobre o cheiro das laranjas podres. E ambos caminhavam e riam ao lado do muro, quando o nariz dele sangrou pela primeira vez.

Ele emagrecia e empalidecia, a medida que o câncer consumia aquilo que o fazia quem ele era. Eles prosseguiam com as caminhadas, mesmo depois que ele largou o emprego.

Quando ele não conseguiu mais andar, ela o levava na cadeira de rodas. Um dia, ela propôs que ficassem em casa, pois ele estava debilitado demais. Ele recusou. Queria ver o lago mais uma vez. E foi à beira dele, com os reflexos da água em seu rosto, e com as mãos dela envolvendo as dele, que ele morreu.

Há quatro anos ele morreu, e mesmo no dia do funeral ela caminhou. Continuou trabalhando, sem cair em depressão. Alimentava-se das memórias de anos de amor profundo e verdadeiro.

Hoje faz dez anos que ela está em coma. Aos vinte e poucos anos, enquanto caminhava ao lado de um parque, um carro descontrolou-se e atingiu-a, atirando de encontro ao muro. Ela nunca mais acordou, desde então. O motorista do carro, um belo rapaz de cabelos castanhos, morreu na hora.

Sua saúde, depois de tantos anos hospitalizada, deteriorou-se. A família decidiu desligar os aparelhos que a mantém viva.

Enquanto isso, em algum lugar, ela pára. Está à frente do lago, pensando em seu amor perdido. Chora por ele, e deseja encontrá-lo, deseja com todas as forças que encontra em si. Alguém a chama pelo nome, por cima de seu ombro. A voz que ela ouviu por tanto tempo, a voz que prometia sempre estar lá quando ela precisasse. Ela vira-se e beija-o, enquanto lágrimas de saudade escorrem por seu rosto.

Ele toma a mão dela, e juntos, andam até a saída do parque, sabendo que desta vez, não voltarão mais. Os anos de caminhada estão terminados, para ambos.

E em outra realidade, ela dá seu último suspiro.

Vale contar que este conto caiu na minha cabeça como uma bigorna, eu tive que escrevê-lo. Ele é meio espírita, e isso é completamente alienígena pra mim; a coisa do “até o fim do muro”, é uma piada interna com pessoas muito queridas.

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~ por Mari em 22 de setembro de 2008.

Uma resposta to “até o fim do muro”

  1. debulhei em lágrimas

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