a perda e a compreensão

Pensamentos pequenos, sentimentos pequenos.

Seriam eles pequenos o suficiente para mudar o plano inicial?

Desde que você se foi, as coisas mudaram de cor, mudaram de cheiro e textura.
Para pior? Não sei. Diferentes, apenas; insanas, eu diria.

Desde que você se foi, estive perdido dentro de mim. Tentei continuar a andar pela margem do rio, mas acabei escorregando para dentro dele.

Afinal, andar longe demais não oferece riscos, e a segurança extrema nos priva de experiências, não era o que você costumava dizer? Suas filosofias mundanas, sempre as mais sábias.

Se fosse possível, eu o resgataria daí, desfaria o teu sonho e te transformaria em frangalhos.

Será que você sabia o tamanho da sua empreitada? Será que conhecia a direção dos ventos tão bem antes de partir? Creio que não. Acho que eu apostaria meus olhos que não.

Pensei em livrar-me deles, os olhos. Para que, se não há mais você para ver? E se eu tentar olhar para o que restou de você, as feridas em mim nunca vão se curar.

Nunca pensei que veria isto acontecer. Acreditava em tudo, principalmente em mim. Você se foi, afinal, e a culpa é toda minha.

Se estivesse aqui, você perguntaria: “Mas sua por quê? Não há nada de culpa sua na MINHA escolha”. Mas há, e muita culpa minha; eu criei as tuas asas. Eu as construí da mais pura cera e das penas de todos os pássaros mortos que encontrei.

Aconselhei-te a voar baixo, ensinei-lhe tudo o que sabia sobre o céu. Mesmo assim, você se foi, escravo do próprio sonho. Levado pela ilusão de eternidade, pela ambição da consciência do todo.

Então, tuas asas te traíram. A única maneira que eu tinha de te segurar enquanto estivesse lá, e eu falhei.

A ignorância quanto ao teu sonho ter sido realizado ou não é o que mais me consome. Afinal, teria você conseguido tocar o sol, filho meu?

Quando você caiu, recolhi teus restos, e os enterrei no topo da colina; chorei, chorei e expulsei a alma de mim, mandei-a ir com você.

E quando ela se foi, sobraram os meus próprios restos para cuidar. Acordo todos os dias querendo que você nunca tenha existido, que você tenha sido apenas um sonho louco de um homem sem filhos. Mas a sua lápide me prova o contrário, e a realidade me atinge como um raio.

Hoje recolhi cera e penas. Decidi ver o que você viu, afinal. Fiz as minhas asas com o mesmo carinho que construí as tuas, e levantei vôo, como havia de ser.

Quando percebo que estou me aproximando, eu entendo, filho. Tudo fez sentido. Então, finalmente, eu toco o sol, e o eco que restou do seu ato similar me envolve, e eu mal sinto a dor da queda.

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~ por Mari em 22 de setembro de 2008.

3 Respostas to “a perda e a compreensão”

  1. Quanod tiver um tempo, lerei com td amor do mundo

  2. li *_*
    e acho que entendi … se é que me entende!

  3. Lindo demais! Amo sua criatividade e sensibilidade! Sei que vai tocar o sol.

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