Nada

•22 de maio de 2019 • Deixe um comentário

Já há muito tempo, meu maior desejo era desaparecer; sumir, ser imperceptível, absolutamente invisível.
Nada me preparou para que um dia isso acontecesse de fato.

Deixe-me explicar: as pessoas me escutavam. É como se minha voz fosse alta o suficiente para ser ouvida em qualquer situação, mesmo se eu tentasse sussurrar. Já passei por algumas situações constrangedoras por causa disso. Aquelas em que todos se calaram e subitamente minha voz pôde ser ouvida alta e claramente falando algo absolutamente estúpido.
Sofri tanto. As crianças podem ser cruéis demais, como certamente todos já sabem. Sofri tanto que, talvez por defesa, durante minha adolescência, fiquei quase todo o tempo rouca. Hoje percebo que talvez tenha sido uma bênção disfarçada, uma forma do meu corpo de me impedir de passar mais vergonha do que já passava sem fazer esforço.
Outra coisa que minha voz fazia, totalmente fora do meu controle, era afirmar as coisas das quais eu não tinha certeza alguma como se fossem a verdade mais incontestável. Também já me sabotou algumas vezes: induzi outros a erros crassos ou a acreditarem que eu realmente sabia do que eu estava falando. Eu nunca soube de coisa alguma, mas provavelmente, se você consultasse alguém que já me escutou falar, vai ouvir o contrário. “Ela sabe de tudo”, diriam. Eu nunca soube de coisa alguma, mas minha voz insistia em afirmar tudo como incrivelmente certeiro.

E foi por isso que, apesar de nunca terem me faltado inimigos, também nunca me faltaram amigos. Tenho a impressão de que as pessoas gostam de vozes certeiras, que as apresentem soluções seguras. Como se terceirizar suas decisões fosse o único caminho verdadeiramente confortável. Por muito tempo, talvez, isso não me incomodava muito, apenas me causava uma ansiedade constante, mas subclínica. Houve um tempo em que eu acreditei verdadeiramente que era uma pessoa extrovertida, negligenciando todas as situações em que o barulho era intenso demais para mim e eu precisava me isolar para conseguir respirar. Então, um dia, percebi que de fato, eu era apenas desinibida. Mas a introversão era notável e muito mais forte do que eu. Eu precisava do isolamento que todos tão veementemente me negavam, talvez mais por motivos egoístas que por preocupação comigo. Eles precisavam da certeza que eu tão incertamente ofertava. Precisavam da pessoa que falava mais alto, da que tão carismaticamente vomitava piadas sem graça. Gradativamente, talvez, cada uma dessas pessoas me levou embora um pedaço.

E a cada pedaço eu implorava por solidão, por invisibilidade, por ser mais uma em todos os lugares. Implorava para que entendessem finalmente que eu não sabia de nada, apenas parecia saber. Por auto-preservação, mendiguei meus pedaços de volta, mas apenas superficialmente; acredito que profundamente, agradeci cada pedaço levado embora, já que a cada mutilação eu me tornava menor e mais próxima do meu objetivo de desaparecer.

Um dia os pedaços se acabaram, e eu desapareci.

Não havia mais nada. Os últimos pedaços haviam sido retirados da casca que sobrara para o final, mas agora nem isso havia mais para que alguém se lembrasse de como era minha aparência. “Ótimo, nunca gostei dela”, pensei. Pequenez, sem dúvida. Mas foi inevitável.
Andei até o espelho e apenas metade de mim se surpreendeu quando ninguém me olhou de volta. Refletida no vidro prateado havia somente a parede ladrilhada do banheiro; a imagem ignorava absolutamente que eu estava ali. A luz não se deu ao trabalho de atingir minha carne e moldar-se. Lógico: eu não estava ali.
Eu não estava ali e nem em nenhum outro lugar, eu era Nada; pela primeira vez, meu lado de fora mostrava acuradamente meu lado de dentro. O mais intangível vazio, a mais perfeita ausência, a mais incontestável inexistência.

Demorou algum tempo para que eu me acostumasse, logicamente. Entendam, eu nunca duvidei muito de quando me diziam que eu era inteligente quando era criança, então pus esse talento em prática e absorvi minha nova condição. Testei minhas possibilidades: estendi meus dedos invisíveis utilizando toda propriocepção que me restava, já que eu também não podia me ver. Para minha surpresa, senti a resistência do vidro frio do espelho encontrar a ponta do meu dedo médio.

Foi assim que eu notei que mesmo o Nada também é capaz de modificar o mundo.

Já que meu desaparecimento havia sido gradual, pedaço a pedaço, as pessoas ao meu redor não notaram. Algumas continuaram até conversando comigo como se eu estivesse lá. Eu respondia, mas elas não podiam ouvir. O comportamento delas permaneceu inalterado; ao conversar, as pessoas falam muito mais consigo mesmas do que com seus interlocutores, então se Nada estava ali para ouvi-las, estava tudo bem.

Tentei agir como sempre agi: acordei, comi, trabalhei, voltei para casa. Nada mudou.
Todos os dias continuaram absolutamente iguais. Ninguém me via, mas ninguém percebeu que eu não estava ali.

Nada mudou.
Sendo Nada, mudei; olhei para o passado e ensinei para mim, quando ainda era Alguém, que um dia eu seria Nada. O tempo é fluido, como aprendi quando já era Nada. Aprendi que sempre fui Tudo, e sempre fui Nada.

Quando as pessoas puderam me enxergar novamente, Nada mudou. Ainda me escutam quando calam repentinamente, ainda ficou rouca quando estou desesperada por invisibilidade. Ainda esqueço que não devo fazer piadas constantemente, e ainda engano a todos com minha falsa e falha sabedoria.

Mas sou Nada, sou Tudo, e sou Alguém. E sempre serei.

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o jardim dos fantasmas

•15 de março de 2019 • Deixe um comentário

A passagem até lá não lhe custará nada além de seu tempo, mas o jardim dos fantasmas não é um lugar para todos.

Não é lugar para os fracos de coração, porque não haverá ninguém para juntar os cacos quando este se partir em centenas de estilhaços pontudos. Não é lugar para os fracos de mente, pois perdem-se como balões soltos ao infinito pelas mãos diminutas do filho desatento. Não é lugar para os fracos de corpo, pois apenas preencher os pulmões com o ar daquele lugar pode fazer com que se faça num instante a viagem de volta, aquela mesma que lhe foi tão cansativa durante a vinda. Não é lugar para os fracos de visão, pois nem com os olhos mais abertos seriam capazes de enxergar os fantasmas e a bela paisagem caótica. E não estamos falando dos olhos do rosto, é claro. São os olhos da alma. Curiosamente, são os mais cegos de todos.

No jardim dos fantasmas as histórias se repetem como fábulas abandonadas que se percebem vistas pela primeira vez em milênios. Ávidas pela consciência, elas se agarram aos olhos de quem as vê, pouco se importando se enfiaram suas garras até arrancarem sangue.

E também lá que as árvores são feitas de dor e prazer, estendendo suas raízes profundamente no chão frágil e coberto de ervas coloridas. No céu, vemos tudo o que não gostaríamos de ver. Há tempestades com frequência, ruidosas e raivosas. Elas seriam capazes da mais absoluta obliteração em meros segundos, mas assim que as percebemos com nossos olhos da alma, elas se desfazem com a mesma facilidade que chegaram.

No jardim dos fantasmas há um lago. A qualquer hora do dia, em qualquer estação do ano, quando você olhar para ele, verá apenas o seu reflexo, mas de todas as formas que forem possíveis. Às vezes, também as impossíveis. Se alguém mais olhar para o lago, talvez um ou dois dos fantasmas, não verá a si mesmo, mas também um reflexo de você, o Jardineiro.

As plantas no Jardim dos Fantasmas crescem sozinhas,  espalhando suas ramas de contornos impossíveis para todos os lados. Você, Jardineiro, não precisará regá-las jamais. São os fantasmas que precisam de cuidado.

Quando você chegar, abra o coração, abra a mente, o corpo e os olhos da alma. Os fracos, no Jardim dos Fantasmas, são os que se escondem atrás das muralhas que erguem com seus corações impenetráveis. São os que tentam não ultrapassar os grandes e enferrujados portões do Jardim. A única forma de se manter inteiro no Jardim é desfazendo-se em pedaços. Os mais fortes partem-se voluntariamente. Os invencíveis deixam que o vento os leve, pulverizando-se sobre o Jardim.

Quando você estiver inteiro, a verdadeira inteireza que vem com o ato de virar pó, permita-se realizar seus dois trabalhos. O primeiro é regar. Ora, você é o Jardineiro, o que esperava? Não regue as plantas, é claro. Regue os fantasmas. Todos eles. Olhe bem em seus olhos vazios e ouça seus gritos. Colha seus frutos, abrace suas não-existências, coexista naquela ausência tão desejada.

E depois vá embora. Seu segundo trabalho é acender a luz do farol que fica às margens do lago. Acenda a luz, torne-se a luz e vá embora.

Se esqueça do Jardim, todos os dias. Mas lembre-se dele também e se aventure nas memórias que te fazem ansiar pela próxima visita. Os portões se abrem para você todos os dias. Por que então você não entra?

 

sete pinceladas

•23 de janeiro de 2019 • Deixe um comentário

Foram as pombas. Aquelas pombas de rua, cinzas com as penas iridescentes na cabeça. Parando para refletir, acho que comecei a perceber que havia algo de diferente foi quando não voaram assustadas quando passei ao lado delas. Em vez disso, apenas continuaram ciscando quaisquer pedacinhos de comida que encontravam pelo chão. Outra pessoa veio, caminhando rápido, e elas todas levantaram voo ao mesmo tempo, como se respondessem a um chamado. Parei, esperei alguns segundos para que o homem se afastasse e elas se sentissem seguras para voltar a ciscar no mesmo lugar. Acho que alguém tinha derrubado algum tipo de comida por ali, porque elas voltaram com muita avidez para o mesmo exato lugar. Assim que começaram a comer novamente, passei ao lado delas, batendo os pés no chão e fazendo bastante barulho.

Nada.

Nenhuma delas nem ao menos dirigiu seu olhar acéfalo na minha direção. Não gastei mais muito tempo neste dia pensando sobre isso e fui embora. Estava a caminho de casa, onde eu deveria produzir. Havia uma pintura esperando que eu a terminasse. Andava difícil, entenda, naqueles dias, produzir alguma coisa. Qualquer coisa. A ideia da pintura era ótima, eu me permiti acreditar. Minha intenção era transmitir a sensação de estar deitada sob uma enorme árvore num dia de tempestade.

Na prática, as sete pinceladas que eu dei pouco diziam e eu detestei cada aspecto delas. As marcas individuais de cada cerda do pincel em todas as pinceladas pareciam zombar de minhas habilidades. Quando eu as observava, elas me olhavam de volta com o desdém que só os fracassos têm. Mas eu ainda tinha esperança de conseguir concluir aquela pintura. Apenas aquela. Nestes últimos tempos, eu já não esperava muito de mim mesma, e havia aprendido a colocar pequenos objetivos em vez de fazer grandes planos. Afinal, os grandes planos falhavam sempre por causa de pequenas coisas, e eu estava tão cansada de me frustrar, tão, tão cansada. Pequenos planos também quase sempre davam errado, mas pelo menos os fracassos eram menores e eu havia sido agraciada com a bênção de ter uma péssima memória. As coisas simples vinham e iam embora como folhas sobre uma correnteza de um rio, e eu logo esquecia de todas. Há dias que eu já não comia. Dois, três? Não seria capaz de dizer naquele momento. Entenda, a vida não é fácil. Há meses que não tinha forças para comer direito, limpar a casa ou encostar no telefone para procurar alguém para conversar. O pouco que ainda havia de energia em mim eu usava para passeios como o desta tarde, esperando que algum tipo de inspiração me atingisse como um raio. Jamais funcionara, mas eu nunca fui capaz de aprender nada com rapidez. Naqueles últimos dias, a imagem da pintura parecia tão vívida na minha cabeça, a copa da árvore frondosa logo acima de mim, os pingos grossos de chuva que conseguiam se esgueirar por entre as folhas atingindo o chão de grama ao meu redor. Atrás das folhas escurecidas pela luz esbranquiçada da tempestade, os raios se estendiam por entre as nuvens como teias de aranha.

Então, como em todos os dias do último mês, com dificuldade venci cada metro até o parque mais próximo e me sentei ali por algumas horas até que o céu ribombou, deixando claro que talvez eu devesse ir embora. Era um parque enorme, cheio de passagens estranhas e eu precisei de bastante tempo para alcançar a saída. Enquanto eu caminhava, sentia a grama verde sob meus pés e a imagem que eu tanto gostaria de transmitir para a tela pulsava em minha mente, muito mais como uma alucinação do que como uma ideia comum. Era tão forte que parecia que eu podia sentir os pingos esparsos atingindo meu corpo deitado sobre a grama, a terra sob meus dedos e os raios iluminando minhas pupilas muito escuras.

Andei com os passos pesados e lentos durante todo o caminho até meu pequeno apartamento, algumas ruas abaixo da saída do parque. Não havia quase ninguém na rua naquele dia gelado, e o vento que veio junto com as nuvens escuras prenunciava a tempestade iminente. Pensei que talvez pudesse vencer a chuva, mas, sem nenhuma dúvida, eu estava errada. Nem aplicando toda a força que me sobrava nas pernas (não muita, eu sei, mas me esforcei tanto) consegui chegar a tempo em casa. A chuva começou a despencar ao meu redor, com toda a fúria da tempestade que já se anunciava. Assustei-me com o piscar súbito de uma luz muito forte logo seguida por um gigantesco estrondo que denunciou que o raio caíra a poucos quilômetros dali. Apressei o passo o máximo que consegui, mas era como se o vento me empurrasse para trás e minhas pernas ficassem cada vez mais fracas. Eu via as gotas caindo pesadamente ao meu redor, mas precisei de alguns segundos para entender o que havia de errado.

Meus pés não estavam molhados, mesmo mergulhados nas poças largas que se formavam no chão. Olhei para meus braços, e eles continuavam secos. Minha roupa parecia impecável, mesmo sob todo aquele aguaceiro implacável. Levei minhas mãos ao rosto e o que pude sentir foi tão aterrorizante que meu corpo enrijeceu completamente. Paralisei meu movimento e me tornei quase como uma estátua de cera.

As gotas não escorriam pelo meu rosto, mas através dele.

Gritei. O som saiu de meus pulmões com toda a força, tão alto que meus ouvidos zumbiram quando meu fôlego se esgotou. Do outro lado da rua, a moça que passava agarrando-se a um guarda-chuva azul não pareceu perceber.

Tentei vencer meu medo e correr em direção ao meu apartamento, mas as pernas, ainda muito pesadas e enrijecidas pelo medo não me permitiram. Caí, diretamente sobre uma poça sob a chuva intensa. Permanecia seca. Os pingos me atravessavam sem que eu os opusesse de forma alguma.

Todo o meu esforço apenas me permitiu me virar, de forma que agora eu conseguia fitar o céu enquanto ele despejava seu choro copioso que profanamente ignorava minha existência.

Fechei os olhos.

Depois de muito tempo, ainda de olhos fechados, ouvi um grito.

“Tem alguém aqui! Tem uma moça aqui caída! Chama alguém, chama ajuda, Fernando!”

Ainda de olhos fechados, senti as gotas esparsas que caíam pesadas, desta vez, atingindo meus braços e pernas desnudos. Sob meu corpo, não as pedras que formavam desenhos no mosaico da calçada, mas a grama verde e úmida. Sob meus dedos, sentia a terra molhada, com uma clareza quase inexplicável.

Abri os olhos, mas nesta hora percebi que eles já estavam abertos. A chuva ainda caía pesada, mas a copa da árvore frondosa sobre mim me protegia da maioria dos pingos. Os que caíam eram gordos e pesados e açoitavam minha carne nua, cortantes como navalhas geladas. As folhas pareciam negras quando vistas sobre o fundo cinzento e de luz difusa da tempestade.  Um raio particularmente frondoso estendeu seus fractais quase horizontalmente ao longo do céu e do meu campo de visão, parecendo-se muito com uma enorme e luminosa teia de aranha.

Quando os policiais e a ambulância chegaram, a tempestade havia dado trégua, mas um chuvisco fino persistia, enevoando todo o parque.

“…e quando você chegou ela estava assim? Você não mexeu no corpo?”

“Não, já estava assim, toda estranha… porque ela está assim, tão branca em cima e roxa embaixo… com essas…veias?”

“É livor mortis, senhora. Parte do processo de decomposição. Já temos tudo o que precisávamos aqui da senhora, por favor, entregue seus dados ali para o Ribeiro e depois pode ir embora. Obrigado por nos avisar.”

“Tá…”

“Há quanto tempo ela morreu, Souza, já sabe? Queria ter uma ideia de quando vou poder ir pra casa, é aniversário do meu moleque, quero ir embora logo.”

“Ah, uns dois dias e meio, talvez. Vou ver com calma depois. Tá rígida, ó.”

Alguém mexeu no meu braço. Ele foi erguido e caiu novamente, tão duro quanto um galho da árvore que nos protegia da chuva fina.

“Olha aqui no pescoço. Estrangulamento, e ela está nua, né. Já sabe o que aconteceu. Essas meninas bebem demais. Aí já viu. É caso fácil, eu cuido aqui. O mais difícil vai ser identificar, sem os documentos. Pode ir embora, dá parabéns por teu moleque por mim.”

“Beleza, valeu, Souza, até mais.”

Souza agachou-se e permaneceu escrevendo coisas em um papel qualquer sobre uma prancheta suja, da qual eu só conseguia ver a parte inferior. Queria poder dizer a Souza que eu nunca tinha bebido na vida, mas minha garganta não produzia som algum. Deixei passar. Não era mais importante.

Depois de muito tempo, outros homens vieram e me colocaram num saco preto e me levaram embora.

Fechei os olhos e me deixei levar. Sorri, embora meus lábios não foram capazes de acompanhar.

Enquanto meu corpo chacoalhava dentro do saco, meu coração se encheu de alegria. Pela primeira vez em tanto tempo, senti. A inspiração tomou conta de meu ser como um raio, iluminando todas as minhas células. Minha mente fervilhou e eu tive certeza que seria capaz de pintar meu quadro e muitos outros. Ah, se ao menos minhas mãos ainda fossem capazes!

não alimente o fantasma

•22 de dezembro de 2018 • Deixe um comentário

Com suas pernas tão curtas, a distância entre seu quarto e o quintal parecia tão grande. Mesmo assim, com muita determinação, todos os dias a menina punha um pé atrás do outro enquanto os braços se mantinham firmes à sua frente, carregando uma cesta de vime com as flores que colhia no pequeno jardim de seus pais. Ela escolhia as flores mais cheirosas (frequentemente, eram as menores – e ela jamais teria percebido a analogia com sua própria vida, talvez por ser tão jovem). Poucas eram o suficiente, ele costumava precisar apenas de uma ou duas. Mas mesmo assim, ela separava pelo menos cinco, já que todos os dias tentava jantar ao lado de seu amigo, comendo a mesma comida que ele.
O sabor tão vegetal e térreo das flores contrastava diretamente com sua aparência delicada e aroma adocicado. A única parte que ela realmente gostava de comer era o néctar dos hibiscos que ocasionalmente levava. Mas eram grandes e vermelhas demais, então nem sempre ele as aceitava. Naquela noite, como na maioria delas, decidiu levar as preferidas dele: as pequenas, delicadas e tão simples damas-da-noite.

As mãos imateriais do amigo se estenderam para fora da vegetação que crescia no fundo do quintal. Elas tocaram a estrutura diminuta do cacho de flores e o perfume, já tão forte, tornou-se pungente e inesquecível. De dentro da grande moita malcuidada daquele canto, braços seguiram as mãos, depois um torso e uma cabeça. Os olhos enormes e negros do menino pareciam impossivelmente vivos, emoldurados por um rosto feito de nada, escuro como a noite e frio como a morte.

O fantasma terminou de emergir de dentro da moita, e a menina sorriu largamente. A lua iluminou a brancura das flores e ele avidamente as engoliu. Ela viu as flores descendo por sua traqueia transparente e desaparecerem no peito. Ele sorriu, e seus dentes pontiagudos e ameaçadores apareceram por trás de seus lábios de vácuo. Ao contrário do que qualquer outra pessoa sentiria, ela não experimentou medo algum de sua aparência tão sinistra. Ele a beijou no rosto e seu toque era nada mais pesado que o pouso de uma borboleta. O fantasma sorriu e se sentou no chão, abraçando suas finas pernas de menino. Ela se colocou ao lado e, com um graveto, gastaram mais de duas horas desenhando na terra exposta na base da moita. Ele não falava muito, mas ela percebeu que o rosto dele fechou-se de súbito e ele parecia estar buscando palavras no mundo de onde não fazia parte.

“Por que você vem aqui, quando você sabe que deixa as coisas mais difíceis para mim?”
“Você gosta tanto de jantar as flores. E porque eu gosto da sua companhia, ué. Você é meu único amigo.”
“Não é possível.”
“Tá bom, tá bom, tem a Júlia, da escola, a Marina da natação e o Carlinhos do desenho. Mas você é meu único amigo de noite.”
“Era para você estar dormindo. E eu preciso ir embora. Não posso ficar aqui.”
“Eu estou dormindo.”

“Eu estou dormindo”, ela ouviu, como se sua voz infantil fosse forte o suficiente para alcançar seus ouvidos adultos adormecidos. A mulher se levantou, e suas pernas nada curtas a levaram até a sala, onde um vaso grande tinha belas damas-da-noite dentro. Nele, um papel colado reproduzia o que seu terapeuta havia lhe dito tantas vezes: “Não alimente o fantasma”.

Mesmo assim, a mulher foi até a cozinha, encheu um copo grande com água fresca e despejou-a no vaso de flores.

verônica

•24 de setembro de 2018 • Deixe um comentário

Palavras nas paredes, palavras em todos os cantos.

Enquanto sentia seus pés se moldando sobre o chão irregular, fazendo com que a carne macia da sola pouco calejada engolfasse as pequenas pedras no chão, ela pensou que deveria sentir dor, mas nada alcançava sua consciência. Era como se estivesse dormindo. No entanto, se estivesse dormindo, ainda seria capaz de lembrar seu próprio nome. Nos sonhos, durante seus dezoito anos de vida, nunca havia esquecido seu nome. Estranhamente, naquele momento isso pareceu desimportante, tal qual a sensação de pisar sobre o chão malcuidado.
O túnel apertado onde estava era iluminado por luminárias antigas, dependuradas de forma sofrida no teto. Alguns fios expostos transmitiam insegurança, mas a sensação também não foi capaz de alcançar seus pensamentos conscientes. Pichações pouco artísticas cobriam quase a totalidade das paredes do túnel. Delas pouco sentido se fazia, já que eram majoritariamente nomes, números ou símbolos simples.

AMANDA @ CARLOS 😦 JONAS 434 08/12/2000 ISABEL ❤ CABO 6 WESLEY 😀 SAMANTA 13 31 18

Caminhava lentamente, observando as paredes e sentindo o chão tentando agredir seus pés. As mãos tocavam a superfície áspera das paredes, ora acompanhando os contornos das letras desenhadas às pressas sobre o cimento, ora apenas seguindo as linhas pouco exatas das divisões do concreto. Os nomes, símbolos e números ainda não faziam sentido, mas, à medida que caminhava pelo túnel, sua mente se encarregava de entreter-se, criando situações que explicassem o que via nas paredes.

434 foi o número de vezes em que chorei por amor.
Houve a vez em que assisti o pôr do sol em Cabo com Samanta.
Houve a vez em que Wesley disse que eu não era boa o bastante para ele.

Não percebeu quando parou de enxergar o que passava em sua cabeça como invenções e passou a compreendê-las como memórias reais, apenas prosseguiu andando lentamente pelo corredor estreito. Progressivamente estreito. Algum tempo depois (embora ela não seria capaz de pontuar exatamente quanto), percebeu que o túnel se afunilava muito sutilmente. Em seu campo de visão, o fundo escuro e as paredes pareciam apenas obedecer regras de perspectiva, mas, se no começo da caminhada (quando havia sido? Não conseguiu lembrar. Sentia que existia apenas o agora) havia espaço de quase um metro entre o topo de sua cabeça e a parte inferior das luminárias empoeiradas, agora havia menos de dez centímetros.

Decidiu não pensar mais nisso.

Houve aquela vez em que Carlos me enviou um e-mail com a lista feita pelos meninos da minha sala, onde eu constava como “MAIS POSSÍVEL DE ENGRAVIDAR DO INSPETOR DE ALUNOS”
Houve a vez em que eu tinha 13 anos e minha vida mudou.
Houve aquela vez em que Amanda roubou minhas pequenas panelas de brinquedo e atirou-as no rio.
Houve a vez em que Isabel teve uma filha.

Quem é a filha de Isabel?

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A pergunta persistiu, muito mais pungente que as outras histórias/memórias. As luminárias já estavam na altura de seu rosto e as paredes já estavam a vinte centímetros de seus cotovelos.

Quem é a filha de Isabel?

Já tinha que andar curvada. Os braços tinham pouco espaço para fazerem o movimento natural de balanço ao caminhar.

Quem é a filha de Isabel?

Não viu outra alternativa a não ser apoiar-se nos joelhos e nas mãos para se mover. Nas paredes, as palavras pareciam agora entremeadas por um outro nome, que aparecia muito frequentemente.

VERÔNICA ISABEL ISABEL VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA ARNALDO VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA ISABEL VERÔNICA

Quando seus cotovelos não tinham mais espaço para se esticarem e ela podia fazer pouco mais do que se arrastar, nas paredes havia apenas um nome.

VERÔNICA.

As paredes comprimiam seu corpo, estranhamente frias e quentes simultaneamente, como uma compressa gelada sobre uma testa febril. Então, quando pareceu impossível continuar, ela pôde vislumbrar o final do túnel. O que lhe parecia apenas sombras provocadas pela profundidade do túnel mostrou-se como a escuridão numa abertura final. Ela teria que se arrastar até lá, mas as paredes a comprimiam quase proibitivamente. Sentia seu peito comprimido pelo chão coberto de pedriscos, mas não sentia dor. Percebeu que Seu peito já não tinha mais espaço para se expandir, então parou de respirar. De alguma forma, estava tudo bem. Não havia pânico. A saída estava quase ao alcance, mas ela não conseguiria esticar os braços para enganchá-los na borda do túnel.

Na parede, à altura de seus olhos, pela última vez, leu a palavra que tanto se repetia. VERÔNICA. Era a última pichação, escrita em letra cursiva, como infantil. Em menos de dez centímetros estava a saída, mas ela estava presa e não entendia como poderia sair. Então, a compreensão atingiu-a como um raio.

Eu sou Verônica, filha de Isabel.

Com a força que os verdadeiros nomes têm, Verônica conseguiu impulsionar-se para fora do túnel claustrofóbico e, agarrando-se nas bordas, puxou a cabeça, depois o tronco, o quadril e finalmente as pernas para fora do túnel de concreto. Olhou para trás, apenas para enxergar a abertura do túnel se fechando aos poucos. Em menos de um minuto, o túnel havia completamente entrado em colapso, deixando para trás aquilo que a rodeava completamente.

O Nada.

Não era uma escuridão profunda, como poucos sortudos conseguem em seus quartos para potencializar o sono noturno. Não era uma escuridão absoluta, como aquela que encontramos ao olhar para dentro de nós e perceber nossa verdadeira natureza vazia. Era uma escuridão feita do mais absoluto Nada, a completa ausência de tudo, inclusive do próprio conceito de Tudo. Mas, contrariando as possibilidades, Verônica estava lá, desafiando o Nada a aceitar sua existência.
Sob seus pés, não via nada, mas a sensação era úmida, como se pisasse numa triste poça de chuva numa tarde fria e cinzenta.

Ao longe, algo pareceu desafiar a inexistência da mesma forma que ela. Uma luz fraca, amarelada, começava a se aproximar. Era difícil calcular, já que a luz tinha Nada para iluminar e não haviam raios nem feixes de luz se estendendo para além de seu contorno puntiforme. Sua mente, enquanto os olhos se hipnotizavam pela luz, gastava grande parte de sua energia escassa repetindo uma única frase:

Eu sou Verônica, filha de Isabel.

Verônica não viu o sangue que pingava de seus braços e pernas arranhados pelas paredes do túnel, descia em gotas e desaparecia na inexistência. Observou por muito tempo (Tempo? Certamente não há Tempo.) a luz que se aproximava lentamente. Conseguiu determinar que seu desenho lembrava muito uma lamparina de óleo. Muito tempo se passou até que visse que a lamparina estava presa a uma haste de madeira. Ainda mais tempo escoou até que Verônica percebesse que esta haste estava sendo mantida erguida por um homem de idade incalculável, que parecia flutuar no Nada. O contorno do barco sob seus pés foi a última coisa que Verônica conseguiu discernir claramente antes que o homem finalmente parasse a embarcação à sua frente.

– Eu sou Verônica, filha de Isabel. – disse Verônica, antes que o homem pudesse dizer qualquer coisa.
– Sim. Onde está a moeda?
– Que moeda?
– A taxa de embarque. Você precisa pagar pelo embarque, Verônica, filha de Isabel.

Ela observou seu corpo pela primeira vez. Não estava vestida, portanto, não tinha bolsos. Não carregava nada. Em sua canela, arranhada pela passagem pelo túnel, encontrou uma tatuagem que mostrava uma coruja, mas nada mais. A coruja tinha dois enormes olhos amarelos e brilhantes, mas ela não percebeu essa possibilidade. Também esqueceu-se de suas patelas e seus próprios olhos.

– Não tenho moeda alguma.
– Então não posso levar você. – Respondeu o barqueiro, com os olhos fixos nos dela.

Verônica não protestou, afinal, não entendia por que deveria embarcar de qualquer forma. Assistiu em silêncio o barqueiro desaparecer no Nada. Apenas uma eternidade depois, percebeu o propósito do homem com a lamparina. Chorou, mas havia apenas o Nada para ouvi-la.

Enquanto isso, onde havia Tudo e não Nada, Isabel também chorava. Sobre o pequeno caixão branco, colocou um coelho branco de pelúcia.

– Nós podemos tentar de novo – sussurrou Arnaldo para Isabel, na tentativa de consolar a esposa. Ainda era visível o inchaço que permanecia no abdômem dela após o parto.
– Mas não será Verônica… – ganiu Isabel, entre lágrimas pesadas.

sobre o sentido da vida e a verdadeira riqueza

•22 de agosto de 2018 • Deixe um comentário

Em busca do sentido da vida, centenas de milhares de seres humanos pensaram por centenas de milhares de anos, em esforço fútil. Como não sou boa em aprender com os erros dos outros, cá estou eu, me juntando às massas dos que acreditam saber de alguma coisa.
Mas fique com o que eu sei: não há sentido na vida. A vida acontece, apenas acontece, e acontece repetidamente apenas por acontecer. A vida dá um jeito, a vida se esgueira onde tudo parecia perdido. Entre paralelepípedos numa estrada movimentada, há a pequena planta que abriga um pequeno formigueiro. Num telhado, sob forte chuva e raios, a gata dá à luz a uma ninhada de gatinhos que, de alguma forma, sobrevivem para perpetuar a história daquela família felina. No útero da mulher infértil, com muito mais frequência do que o esperado, mais um ser humano consegue se desenvolver, apenas para nascer e questionar a própria existência.
A vida acontece, e esta é a beleza. Não tem sentido, nem aquele que buscamos dar. A vida continuará sem que nossa vontade tenha forças para interferir. Mesmo que nos empenhemos em multiplicá-la, criando filhos, animais ou plantas como se o ecossistema dependesse de nosso esforço, ou mesmo que decidamos exterminá-la, arrancando a planta do paralelepípedo, afogando aquela ninhada de gatos ou causando desastres naturais inimagináveis com nossos atos egoístas, a vida permanecerá.
A vida permanecerá, como sempre aconteceu. Existiu por bilhões de anos antes da infecção humana começar na Terra e permanecerá por outros bilhões depois que a Natureza vencer a doença de Nós, com a facilidade que vencemos um resfriado. Somos apenas uma minúscula parte de um todo, mas a arrogância humana acredita que somos a causa de tudo. Então, qual a beleza da vida, se para ela somos apenas uma doença passageira no Planeta?
De novo, arrisco-me na sabedoria inculta que formo em palavras: a beleza está em reconhecer sua insignificância, sua ínfima parte na história do Universo, entender que, mesmo infinitamente pequeno, você representa uma única e jamais vista combinação de átomos na história do Universo. A beleza está em compreender que, apesar de não ser mais importante que a planta na estrada, você desafiou as probabilidades esmagadoras que ditavam que sua existência era impossível matematicamente. A beleza está em entender que sua vida é tão válida e impossível quanto a do gato recém nascido no telhado, mas que, ao contrário dele, você tem consciência disso já que, por uma coincidência ainda mais impensável do acaso, nasceu humano. A beleza está em entender que, apesar de todas as intercorrências inacreditáveis na história da humanidade, há uma linha sem falhas que percorre toda sua ancestralidade, desde seus pais até as primeiras formas de vida na Terra. Em todas as gerações, por todas as probabilidades incalculáveis, o indivíduo específico que faz parte da sua linhagem permaneceu vivo e deu origem a seu ancestral mais recente. E cada um deles tinha na própria existência a mesma improbabilidade da sua. A beleza, então, está em enxergar a si como parte do todo, como parte da insana maré de acaso que formou seu corpo e sua consciência. Está em ver que são as melhores possíveis as pessoas que por acaso venceram as probabilidades de não existirem e estão ao seu lado: porque além de terem conseguido coincidir com você neste espaço e tempo, te concederam a honra de dar tudo o que temos de verdadeira riqueza para você. O tempo.
Reconhecer a verdadeira riqueza, entender as verdadeiras prioridades da vida e saber o quão improváveis e maravilhosos são todos os seres talvez, para você, não seja o sentido verdadeiro da vida. Talvez a beleza tenha morada em outros lugares, outros conceitos, outros valores. Mas é fato incontestável: se você não tivesse vencido a inexistência, não estaríamos aqui para debater isso, não é mesmo?

lampião

•31 de julho de 2018 • 1 Comentário

Quando ele se foi, disseram a ela que se acendesse um lampião ele encontraria o caminho de volta para casa.

O vento soprou mais forte naquele dia, rugindo através das ruínas da cidade. Quando anoiteceu, apenas a luz do lampião permaneceu, vencendo as brumas e a escuridão quase palpável do mundo caído.

Depois de milênios, entretanto, não havia mais ninguém para enxergar aquele fraco feixe de luz, nem escutar o fraco som que o metal da lanterna fazia ao sacudir sob a força do vento noturno.