não alimente o fantasma

•22 de dezembro de 2018 • Deixe um comentário

Com suas pernas tão curtas, a distância entre seu quarto e o quintal parecia tão grande. Mesmo assim, com muita determinação, todos os dias a menina punha um pé atrás do outro enquanto os braços se mantinham firmes à sua frente, carregando uma cesta de vime com as flores que colhia no pequeno jardim de seus pais. Ela escolhia as flores mais cheirosas (frequentemente, eram as menores – e ela jamais teria percebido a analogia com sua própria vida, talvez por ser tão jovem). Poucas eram o suficiente, ele costumava precisar apenas de uma ou duas. Mas mesmo assim, ela separava pelo menos cinco, já que todos os dias tentava jantar ao lado de seu amigo, comendo a mesma comida que ele.
O sabor tão vegetal e térreo das flores contrastava diretamente com sua aparência delicada e aroma adocicado. A única parte que ela realmente gostava de comer era o néctar dos hibiscos que ocasionalmente levava. Mas eram grandes e vermelhas demais, então nem sempre ele as aceitava. Naquela noite, como na maioria delas, decidiu levar as preferidas dele: as pequenas, delicadas e tão simples damas-da-noite.

As mãos imateriais do amigo se estenderam para fora da vegetação que crescia no fundo do quintal. Elas tocaram a estrutura diminuta do cacho de flores e o perfume, já tão forte, tornou-se pungente e inesquecível. De dentro da grande moita malcuidada daquele canto, braços seguiram as mãos, depois um torso e uma cabeça. Os olhos enormes e negros do menino pareciam impossivelmente vivos, emoldurados por um rosto feito de nada, escuro como a noite e frio como a morte.

O fantasma terminou de emergir de dentro da moita, e a menina sorriu largamente. A lua iluminou a brancura das flores e ele avidamente as engoliu. Ela viu as flores descendo por sua traqueia transparente e desaparecerem no peito. Ele sorriu, e seus dentes pontiagudos e ameaçadores apareceram por trás de seus lábios de vácuo. Ao contrário do que qualquer outra pessoa sentiria, ela não experimentou medo algum de sua aparência tão sinistra. Ele a beijou no rosto e seu toque era nada mais pesado que o pouso de uma borboleta. O fantasma sorriu e se sentou no chão, abraçando suas finas pernas de menino. Ela se colocou ao lado e, com um graveto, gastaram mais de duas horas desenhando na terra exposta na base da moita. Ele não falava muito, mas ela percebeu que o rosto dele fechou-se de súbito e ele parecia estar buscando palavras no mundo de onde não fazia parte.

“Por que você vem aqui, quando você sabe que deixa as coisas mais difíceis para mim?”
“Você gosta tanto de jantar as flores. E porque eu gosto da sua companhia, ué. Você é meu único amigo.”
“Não é possível.”
“Tá bom, tá bom, tem a Júlia, da escola, a Marina da natação e o Carlinhos do desenho. Mas você é meu único amigo de noite.”
“Era para você estar dormindo. E eu preciso ir embora. Não posso ficar aqui.”
“Eu estou dormindo.”

“Eu estou dormindo”, ela ouviu, como se sua voz infantil fosse forte o suficiente para alcançar seus ouvidos adultos adormecidos. A mulher se levantou, e suas pernas nada curtas a levaram até a sala, onde um vaso grande tinha belas damas-da-noite dentro. Nele, um papel colado reproduzia o que seu terapeuta havia lhe dito tantas vezes: “Não alimente o fantasma”.

Mesmo assim, a mulher foi até a cozinha, encheu um copo grande com água fresca e despejou-a no vaso de flores.

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verônica

•24 de setembro de 2018 • Deixe um comentário

Palavras nas paredes, palavras em todos os cantos.

Enquanto sentia seus pés se moldando sobre o chão irregular, fazendo com que a carne macia da sola pouco calejada engolfasse as pequenas pedras no chão, ela pensou que deveria sentir dor, mas nada alcançava sua consciência. Era como se estivesse dormindo. No entanto, se estivesse dormindo, ainda seria capaz de lembrar seu próprio nome. Nos sonhos, durante seus dezoito anos de vida, nunca havia esquecido seu nome. Estranhamente, naquele momento isso pareceu desimportante, tal qual a sensação de pisar sobre o chão malcuidado.
O túnel apertado onde estava era iluminado por luminárias antigas, dependuradas de forma sofrida no teto. Alguns fios expostos transmitiam insegurança, mas a sensação também não foi capaz de alcançar seus pensamentos conscientes. Pichações pouco artísticas cobriam quase a totalidade das paredes do túnel. Delas pouco sentido se fazia, já que eram majoritariamente nomes, números ou símbolos simples.

AMANDA @ CARLOS 😦 JONAS 434 08/12/2000 ISABEL ❤ CABO 6 WESLEY 😀 SAMANTA 13 31 18

Caminhava lentamente, observando as paredes e sentindo o chão tentando agredir seus pés. As mãos tocavam a superfície áspera das paredes, ora acompanhando os contornos das letras desenhadas às pressas sobre o cimento, ora apenas seguindo as linhas pouco exatas das divisões do concreto. Os nomes, símbolos e números ainda não faziam sentido, mas, à medida que caminhava pelo túnel, sua mente se encarregava de entreter-se, criando situações que explicassem o que via nas paredes.

434 foi o número de vezes em que chorei por amor.
Houve a vez em que assisti o pôr do sol em Cabo com Samanta.
Houve a vez em que Wesley disse que eu não era boa o bastante para ele.

Não percebeu quando parou de enxergar o que passava em sua cabeça como invenções e passou a compreendê-las como memórias reais, apenas prosseguiu andando lentamente pelo corredor estreito. Progressivamente estreito. Algum tempo depois (embora ela não seria capaz de pontuar exatamente quanto), percebeu que o túnel se afunilava muito sutilmente. Em seu campo de visão, o fundo escuro e as paredes pareciam apenas obedecer regras de perspectiva, mas, se no começo da caminhada (quando havia sido? Não conseguiu lembrar. Sentia que existia apenas o agora) havia espaço de quase um metro entre o topo de sua cabeça e a parte inferior das luminárias empoeiradas, agora havia menos de dez centímetros.

Decidiu não pensar mais nisso.

Houve aquela vez em que Carlos me enviou um e-mail com a lista feita pelos meninos da minha sala, onde eu constava como “MAIS POSSÍVEL DE ENGRAVIDAR DO INSPETOR DE ALUNOS”
Houve a vez em que eu tinha 13 anos e minha vida mudou.
Houve aquela vez em que Amanda roubou minhas pequenas panelas de brinquedo e atirou-as no rio.
Houve a vez em que Isabel teve uma filha.

Quem é a filha de Isabel?

ARNALDO ISABEL VERÔNICA 73653837-2 ISABEL PRAIA 22

A pergunta persistiu, muito mais pungente que as outras histórias/memórias. As luminárias já estavam na altura de seu rosto e as paredes já estavam a vinte centímetros de seus cotovelos.

Quem é a filha de Isabel?

Já tinha que andar curvada. Os braços tinham pouco espaço para fazerem o movimento natural de balanço ao caminhar.

Quem é a filha de Isabel?

Não viu outra alternativa a não ser apoiar-se nos joelhos e nas mãos para se mover. Nas paredes, as palavras pareciam agora entremeadas por um outro nome, que aparecia muito frequentemente.

VERÔNICA ISABEL ISABEL VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA ARNALDO VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA ISABEL VERÔNICA

Quando seus cotovelos não tinham mais espaço para se esticarem e ela podia fazer pouco mais do que se arrastar, nas paredes havia apenas um nome.

VERÔNICA.

As paredes comprimiam seu corpo, estranhamente frias e quentes simultaneamente, como uma compressa gelada sobre uma testa febril. Então, quando pareceu impossível continuar, ela pôde vislumbrar o final do túnel. O que lhe parecia apenas sombras provocadas pela profundidade do túnel mostrou-se como a escuridão numa abertura final. Ela teria que se arrastar até lá, mas as paredes a comprimiam quase proibitivamente. Sentia seu peito comprimido pelo chão coberto de pedriscos, mas não sentia dor. Percebeu que Seu peito já não tinha mais espaço para se expandir, então parou de respirar. De alguma forma, estava tudo bem. Não havia pânico. A saída estava quase ao alcance, mas ela não conseguiria esticar os braços para enganchá-los na borda do túnel.

Na parede, à altura de seus olhos, pela última vez, leu a palavra que tanto se repetia. VERÔNICA. Era a última pichação, escrita em letra cursiva, como infantil. Em menos de dez centímetros estava a saída, mas ela estava presa e não entendia como poderia sair. Então, a compreensão atingiu-a como um raio.

Eu sou Verônica, filha de Isabel.

Com a força que os verdadeiros nomes têm, Verônica conseguiu impulsionar-se para fora do túnel claustrofóbico e, agarrando-se nas bordas, puxou a cabeça, depois o tronco, o quadril e finalmente as pernas para fora do túnel de concreto. Olhou para trás, apenas para enxergar a abertura do túnel se fechando aos poucos. Em menos de um minuto, o túnel havia completamente entrado em colapso, deixando para trás aquilo que a rodeava completamente.

O Nada.

Não era uma escuridão profunda, como poucos sortudos conseguem em seus quartos para potencializar o sono noturno. Não era uma escuridão absoluta, como aquela que encontramos ao olhar para dentro de nós e perceber nossa verdadeira natureza vazia. Era uma escuridão feita do mais absoluto Nada, a completa ausência de tudo, inclusive do próprio conceito de Tudo. Mas, contrariando as possibilidades, Verônica estava lá, desafiando o Nada a aceitar sua existência.
Sob seus pés, não via nada, mas a sensação era úmida, como se pisasse numa triste poça de chuva numa tarde fria e cinzenta.

Ao longe, algo pareceu desafiar a inexistência da mesma forma que ela. Uma luz fraca, amarelada, começava a se aproximar. Era difícil calcular, já que a luz tinha Nada para iluminar e não haviam raios nem feixes de luz se estendendo para além de seu contorno puntiforme. Sua mente, enquanto os olhos se hipnotizavam pela luz, gastava grande parte de sua energia escassa repetindo uma única frase:

Eu sou Verônica, filha de Isabel.

Verônica não viu o sangue que pingava de seus braços e pernas arranhados pelas paredes do túnel, descia em gotas e desaparecia na inexistência. Observou por muito tempo (Tempo? Certamente não há Tempo.) a luz que se aproximava lentamente. Conseguiu determinar que seu desenho lembrava muito uma lamparina de óleo. Muito tempo se passou até que visse que a lamparina estava presa a uma haste de madeira. Ainda mais tempo escoou até que Verônica percebesse que esta haste estava sendo mantida erguida por um homem de idade incalculável, que parecia flutuar no Nada. O contorno do barco sob seus pés foi a última coisa que Verônica conseguiu discernir claramente antes que o homem finalmente parasse a embarcação à sua frente.

– Eu sou Verônica, filha de Isabel. – disse Verônica, antes que o homem pudesse dizer qualquer coisa.
– Sim. Onde está a moeda?
– Que moeda?
– A taxa de embarque. Você precisa pagar pelo embarque, Verônica, filha de Isabel.

Ela observou seu corpo pela primeira vez. Não estava vestida, portanto, não tinha bolsos. Não carregava nada. Em sua canela, arranhada pela passagem pelo túnel, encontrou uma tatuagem que mostrava uma coruja, mas nada mais. A coruja tinha dois enormes olhos amarelos e brilhantes, mas ela não percebeu essa possibilidade. Também esqueceu-se de suas patelas e seus próprios olhos.

– Não tenho moeda alguma.
– Então não posso levar você. – Respondeu o barqueiro, com os olhos fixos nos dela.

Verônica não protestou, afinal, não entendia por que deveria embarcar de qualquer forma. Assistiu em silêncio o barqueiro desaparecer no Nada. Apenas uma eternidade depois, percebeu o propósito do homem com a lamparina. Chorou, mas havia apenas o Nada para ouvi-la.

Enquanto isso, onde havia Tudo e não Nada, Isabel também chorava. Sobre o pequeno caixão branco, colocou um coelho branco de pelúcia.

– Nós podemos tentar de novo – sussurrou Arnaldo para Isabel, na tentativa de consolar a esposa. Ainda era visível o inchaço que permanecia no abdômem dela após o parto.
– Mas não será Verônica… – ganiu Isabel, entre lágrimas pesadas.

sobre o sentido da vida e a verdadeira riqueza

•22 de agosto de 2018 • Deixe um comentário

Em busca do sentido da vida, centenas de milhares de seres humanos pensaram por centenas de milhares de anos, em esforço fútil. Como não sou boa em aprender com os erros dos outros, cá estou eu, me juntando às massas dos que acreditam saber de alguma coisa.
Mas fique com o que eu sei: não há sentido na vida. A vida acontece, apenas acontece, e acontece repetidamente apenas por acontecer. A vida dá um jeito, a vida se esgueira onde tudo parecia perdido. Entre paralelepípedos numa estrada movimentada, há a pequena planta que abriga um pequeno formigueiro. Num telhado, sob forte chuva e raios, a gata dá à luz a uma ninhada de gatinhos que, de alguma forma, sobrevivem para perpetuar a história daquela família felina. No útero da mulher infértil, com muito mais frequência do que o esperado, mais um ser humano consegue se desenvolver, apenas para nascer e questionar a própria existência.
A vida acontece, e esta é a beleza. Não tem sentido, nem aquele que buscamos dar. A vida continuará sem que nossa vontade tenha forças para interferir. Mesmo que nos empenhemos em multiplicá-la, criando filhos, animais ou plantas como se o ecossistema dependesse de nosso esforço, ou mesmo que decidamos exterminá-la, arrancando a planta do paralelepípedo, afogando aquela ninhada de gatos ou causando desastres naturais inimagináveis com nossos atos egoístas, a vida permanecerá.
A vida permanecerá, como sempre aconteceu. Existiu por bilhões de anos antes da infecção humana começar na Terra e permanecerá por outros bilhões depois que a Natureza vencer a doença de Nós, com a facilidade que vencemos um resfriado. Somos apenas uma minúscula parte de um todo, mas a arrogância humana acredita que somos a causa de tudo. Então, qual a beleza da vida, se para ela somos apenas uma doença passageira no Planeta?
De novo, arrisco-me na sabedoria inculta que formo em palavras: a beleza está em reconhecer sua insignificância, sua ínfima parte na história do Universo, entender que, mesmo infinitamente pequeno, você representa uma única e jamais vista combinação de átomos na história do Universo. A beleza está em compreender que, apesar de não ser mais importante que a planta na estrada, você desafiou as probabilidades esmagadoras que ditavam que sua existência era impossível matematicamente. A beleza está em entender que sua vida é tão válida e impossível quanto a do gato recém nascido no telhado, mas que, ao contrário dele, você tem consciência disso já que, por uma coincidência ainda mais impensável do acaso, nasceu humano. A beleza está em entender que, apesar de todas as intercorrências inacreditáveis na história da humanidade, há uma linha sem falhas que percorre toda sua ancestralidade, desde seus pais até as primeiras formas de vida na Terra. Em todas as gerações, por todas as probabilidades incalculáveis, o indivíduo específico que faz parte da sua linhagem permaneceu vivo e deu origem a seu ancestral mais recente. E cada um deles tinha na própria existência a mesma improbabilidade da sua. A beleza, então, está em enxergar a si como parte do todo, como parte da insana maré de acaso que formou seu corpo e sua consciência. Está em ver que são as melhores possíveis as pessoas que por acaso venceram as probabilidades de não existirem e estão ao seu lado: porque além de terem conseguido coincidir com você neste espaço e tempo, te concederam a honra de dar tudo o que temos de verdadeira riqueza para você. O tempo.
Reconhecer a verdadeira riqueza, entender as verdadeiras prioridades da vida e saber o quão improváveis e maravilhosos são todos os seres talvez, para você, não seja o sentido verdadeiro da vida. Talvez a beleza tenha morada em outros lugares, outros conceitos, outros valores. Mas é fato incontestável: se você não tivesse vencido a inexistência, não estaríamos aqui para debater isso, não é mesmo?

lampião

•31 de julho de 2018 • 1 Comentário

Quando ele se foi, disseram a ela que se acendesse um lampião ele encontraria o caminho de volta para casa.

O vento soprou mais forte naquele dia, rugindo através das ruínas da cidade. Quando anoiteceu, apenas a luz do lampião permaneceu, vencendo as brumas e a escuridão quase palpável do mundo caído.

Depois de milênios, entretanto, não havia mais ninguém para enxergar aquele fraco feixe de luz, nem escutar o fraco som que o metal da lanterna fazia ao sacudir sob a força do vento noturno.

a tempestade no espelho

•8 de março de 2018 • 1 Comentário

Com máculas cinzentas no algodão

As nuvens questionando o azul perfeito
Da norma, do correto, a despeito
Sorrio; saúdo a oposição!

O chumbo pesado que pinta o céu
Extingue o sorriso do homem pequeno
Sonhando voltar ao sol, ao ameno
Cerra seu paletó cinza e cruel

Do caos furioso vou ao encontro
Sem pudor nem medo, dispo minha alma
A tempestade lava a dor de dentro

Quando o sol fulgura sobre a cidade
Ainda rio; chove em todo lugar
quando você é a própria tempestade

 

_____________________________

Como eu não tenho bom senso, resolvi iniciar outra faculdade. E foi para a aula de Fundamentos Filosóficos da Psicologia que escrevi este sonetinho. Bem, taí, registrado.

 

o corvo e a morte branca

•19 de julho de 2017 • Deixe um comentário

 

– Repita comigo agora. “Eu não sirvo para nada” – disse o bicho, em sua voz estridente.

– Eu… eu não sirvo para nada – respondi.

– Não foi bom o suficiente. Você está muito fraca esta manhã. Repita, vamos. “Eu não sirvo para nada”.

– Eu não sirvo para nada.

– Melhor, mas não ótimo. Claramente você não serve para isso, nem para mais nada. Pode ir agora. Estou decepcionado com você.

O corvo se transformou em um pingente feito de uma brilhante pedra negra , tão negra que provavelmente nem nome tinha. Pendurei a corrente de prata em volta do meu pescoço como fazia todas as manhãs.

Meus filhos estavam sentados na sala, brigando por causa de um controle de videogame. Eles haviam quebrado o outro, provavelmente por negligência ou violência gratuita. Murmurei na direção deles um “bom dia” desanimado que não foi percebido. O controle, empunhado como uma clava pelo mais novo, atingiu a testa do mais velho, provocando quase instantaneamente um inchaço roxo e disforme.  Meu cumprimento fora inteiramente sobrepujado pelo som da batida do plástico no crânio do meu filho, seguido pelo grito e o palavrão provindos da boca logo abaixo da testa ferida.

Meu marido estava sentado na cozinha, a xícara de café numa mão, o celular em outra. Fingiu um sorriso ao me ver, respondeu o segundo “bom dia” que me forcei a proferir naquele dia e engoliu toda a xícara de uma vez. Estava subitamente atrasado, como todos os dias. Ele sempre ficava atrasado quando eu entrava na cozinha. Saiu, batendo a porta atrás de si. Esqueceu, de novo, de se despedir dos meus filhos. Talvez também tenha esquecido de se despedir de mim, mas eu não tinha certeza.

Eu ainda estava de pijama quando decidi que desta vez eu não sairia para trabalhar. Um sorriso rasgou o meu rosto, inesperadamente. Os músculos faciais quase atrofiados tiveram dificuldade de lembrar o que fazer. Levantei a mão e envolvi o corvo de pedra, sentindo o gelado sobrenatural daquela pequena obra de arte. Andei até o quarto, meus pés determinados sacudindo os tacos de madeira do chão da casa antiga. Lá fora, o sol brilhava forte sobre o ar gelado de outono. Aqui dentro, as cortinas fechadas da sala (para não atrapalhar a televisão dos meninos) deixava passar apenas um feixe insistente de luz que dividia a sala ao meio. Enquanto andava, meus olhos caíram sobre aquela faixa tão clara de sol e meu sorriso se alargou. Olhei mais uma vez para os meninos, que agora pareciam um pouco mais calmos. O mais velho fora vencido pela batida na cabeça; assistia o irmão perder repetidamente o controle do carro simulado na TV. No meu quarto novamente, escolhi no guarda-roupas uma calça jeans e um casaco vermelho de botões que pus sobre uma blusa branca. A blusa tinha uma textura diferente desde que a havia colocado pela última vez, há dois anos quase exatamente. O casaco e a calça também pareciam diferentes. Todos ficaram largos. As costuras tentavam sem sucesso contornar meu corpo emagrecido naquele tempo. Saí de casa, ainda sorrindo.

Minha casa tinha um enorme quintal verde, uma área grande que continha um pequeno bosque, um riacho uma velha lagoa com carpas. As mesmas carpas que meu bisavô havia colocado ali, junto com suas filhas, netas e bisnetas. A estrada que alcançava minha propriedade era pouco movimentada, empoeirada e esburacada e levava tanto para a estrada principal quanto para dentro do bosque. Entrei no meu carro, uma SUV antiga preta, tão sofrida quanto a estrada que eu a forçava rodar sobre. Acelerei, não dando a devida atenção aos buracos, como deveria ser.

Tenho certeza que meus filhos não notaram minha ausência.

Ao invés de seguir a estrada em direção à cidade, como para ir ao trabalho, segui determinada para dentro do bosque. A estrada enegreceu-se quando as árvores densas filtraram a luz forte e clara do sol de outono. Acelerei.

Depois de dez minutos, eu já sabia o que encontraria logo à frente, e meu cérebro tentou convencer-me do contrário. O instinto de sobrevivência insiste em incutir o medo mesmo nas almas mais perdidas, que têm na morte a ideia do alívio supremo. Como há dois anos, segui depois da curva fechada.

Logo à frente, a árvore agigantava-se ao final da curva, encobrindo maldosamente o penhasco que estava logo atrás.

Não se engane, eu sempre soube daquela fenda. Ao longo da infância, minha mãe me alertara repetidas vezes para jamais confiar naquela curva, jamais esquecer que aquele carvalho ancião obscurecia a morte certa. Era uma fenda enorme, recoberta pela vegetação. Parecia uma caverna tão funda que a escuridão não permitia aos mais curiosos descobrir onde terminava. Ninguém havia conseguido entrar e sair novamente para contar a história, minha mãe dissera. Aprendera com a mãe dela, que aprendera com meu bisavô, na mesma época em que  ele enchera a lagoa de carpas.

Eu nunca havia chegado perto da fenda antes daquele dia no outono de dois anos atrás. E não tinha ousado repetir o feito até agora. Joguei displicentemente a SUV num dos cantos da estrada; de que importava?

Atrás do carvalho, a escuridão densa parecia gelar os pés de quem se aproximava. “A fenda não gosta de crianças”, ouvi uma vez de minha mãe. Quantas vezes não deixei de dormir por causa das sombras que tinha certeza que emergiam da fenda todas as noites para vagar pelo bosque?

Desta vez, ao contrário de dois anos atrás, eu sabia exatamente o que encontraria.

Na borda da fenda, apoiei meus pés na pedra rústica. Tirei os sapatos. Todos tiram os sapatos, a mulher tinha me dito da última vez. Fechei os olhos, abri meus braços e deixei a gravidade fazer o que faz de melhor.

A queda pareceu durar anos. O impacto, no entanto, foi tão súbito quanto intenso. Todos os meus ossos se quebraram, meus órgãos escaparam de dentro da carne e meus olhos saltaram para fora de suas órbitas. Apesar disso, ainda estava viva. Senti a estatueta farfalhar.

– O que foi que você fez desta vez? Você não serve para nada mesmo! – grasnou o bicho.

– Vá buscá-la – pedi.

– Por que? Para você estragar tudo de novo?

– Por favor.

Sem responder, o corvo saiu voando pela escuridão. Meus olhos se fixaram em uma série de ossos pequenos na direção da minha cabeça. Discerni o que restava de um pé, provavelmente ainda conectado ao resto do corpo antigo. A calça jeans rasgada e destruída pelo tempo podia ser qualquer uma, mas o casaco vermelho que reluzia com a parca luz que penetrava através da fenda não deixava dúvidas.

Do fundo da caverna, os pés brancos e sujos se aproximavam, exatamente como eu esperava. O andar dela era cauteloso, curioso, como o de uma corça. Apesar disso, quando seus olhos entraram no meu campo de visão, eles exalavam a fúria e sabedoria de uma existência de milhares de milênios. O corpo nu da mulher era do mais absoluto branco, assim como seus olhos sem íris nem pupilas. Os cabelos negros emaranhados estavam cheios de sujeira. De sua boca, um líquido escuro escorria, formando desenhos fluídos em seu queixo, como tatuagens tribais. Seus seios pendiam belos, seu corpo bem formado como o de uma modelo internacional. A imagem era paradoxalmente maravilhosa e aterradora. O corvo a acompanhava, voando em círculos ao redor. Quando ela parou à minha frente e agachou-se para falar comigo, o pássaro preto pousou em seu ombro, cravando as garras em sua carne cor de neve.

– Você quer outra chance? – ela falou, com sua voz feita de terra, medo e imortalidade.

– Não.

– Você se arrepende da última que teve?

– Sim. Não consegui ser feliz. – a calma em minha própria voz diante da Morte me surpreendeu.

– Não adianta fugir para a morte, quando o problema está dentro de você. Você sabe disso?

– Sei. Mas não adiantou viver.

– Claro. Você apenas voltou para casa. O problema estava em você o tempo todo, e continua aí. Você também sabe disso?

– Sei.

– E deseja morrer mesmo assim? Não acha que pode tentar mais uma vez, sabendo o que está errado?

– Eu sei o que está errado.

– Eu também sei. E por isso você vai morrer agora.

Ela estendeu a mão e laçou a corrente de prata que ainda estava em volta do meu pescoço com os dedos longilíneos. Arrancou com um puxão firme. As vértebras quebradas em meu pescoço tiveram uma última chance para protestar antes que eu morresse.

Levantei-me, sem dor, e observei meu novo corpo nu. A carne fora substituída por alguma outra coisa, que não tinha peso.

– Espero que seja feliz agora. Mas vai ser como se mudar esperando que a chuva passe. Chove em todos os lugares quando você é a tempestade. – A mulher falou pausadamente e virou as costas. Enfiou-se na escuridão novamente, o corvo voando ao seu redor.

Quando encontraram a SUV, meu marido soube instintivamente o que tinha acontecido. As equipes de resgate enviaram câmeras para o fundo da caverna, que flagraram o meu corpo junto às dúzias de outros ao redor. “As condições dessa caverna não permitem o resgate, senhor. Peço desculpas, mas o corpo da sua esposa não poderá ser retornado ao senhor. Ela certamente morreu instantaneamente”, o bombeiro dissera. Meu marido derrubou duas lágrimas à beira da caverna, retirou o celular do bolso e avisou sobre a minha morte à mãe dele.

Meus filhos e ele organizaram um pequeno funeral simbólico em casa. Depois, junto à minha mãe e a mãe dele, levaram flores para a beirada da caverna.

Naquele dia, os mortos da fenda levantaram suas cabeças com o aroma dos crisântemos.

Meu corpo imaterial me permitiu visitar minha casa sem que me percebessem. Meus filhos pararam de brigar. Cresceram unidos pela perda da mãe e se tornaram homens de sucesso, respeito. Meu mais velho se casou com um bom homem e adotou duas meninas. O mais novo decidiu não se casar, mas teve um filho com uma moça inteligente e continuavam melhores amigos. Tinham bons empregos. Eram boas pessoas.

Meu marido se casou novamente no outono seguinte à minha morte e engravidou a nova esposa com duas meninas de uma só vez. Eu os observei enquanto as educavam, iam aos seus recitais, seus jogos de vôlei e aulas de desenho. Eu estava lá quando conversavam de madrugada sobre tolices e se amavam apaixonadamente por mais de quarenta anos. Eu estava lá quando ela se foi, e o vi chorar copiosamente pela perda da esposa. Também vi quando ele finalmente se foi, aos noventa e três anos, numa cama ao lado de todos os filhos, netos e bisnetos. A fenda não recebeu novas flores naqueles cinquenta e cinco anos, mas não me importei. Os mortos continuaram quietos.

Quando ele saiu do cemitério, ainda confuso, naquela tarde chuvosa de seu funeral, eu o cumprimentei educadamente, ao longe. Ele sorriu, mas logo desviou o olhar para o amor de sua vida que viera abraçá-lo calorosamente.

No fundo da fenda, deitei-me no frio e dormi. Não estava feliz, a moça estava certa desde o começo. Mas eles tinham sido, então sorri pela última vez.

 

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três urubus

•11 de julho de 2017 • 1 Comentário

Hoje, quando eu saí de casa, três urubus me cumprimentaram. Cumprimentar, na língua deles, significava olhar ameaçadoramente com suas expressões doentias, como se calculassem o melhor jeito de desmembrar minha carcaça em decomposição.

Ao contrário do que os três urubus gostariam, eu estava viva ainda, ao menos em parte. Eles sabiam o que isso significava, e esperavam avidamente o lanche da manhã.

Ajoelhei-me, oferecendo minhas costas nuas, divididas apenas pelas amarras do sutiã envelhecido. Sobre minhas escápulas, pendiam sangrentas minhas asas. O pouco que havia crescido delas desta vez já havia sido mordiscado por todos os outros predadores noturnos. Já não doíam mais; o sangue seco entremeava as penas alvas e os nervos jaziam sem vida. O espaço entre as escápulas, ferido, mas amortecido.

Os três urubus se aproximaram. Sorriam com ferocidade enquanto arrancavam o que restava das asas. Dobravam as penas brancas em seus bicos negros. O meu sangue que sujava suas cabeças depenadas parecia apenas molhar a pele negra e brilhante que se estendia até seus pescoços. Demoraram menos de um minuto para terminarem de arrancar as asas moribundas. Com precisão quase cirúrgica, limparam as feridas paralelas que ficaram, deixando apenas as manchas de sangue para trás. Minhas costas tinham novamente a forma que todos esperavam que tivessem.

Um som metálico indicou que o portão da casa ao lado se abria, como em todas as manhãs. Minha vizinha, ainda de camisola, agachou-se e abriu os botões traseiros da roupa, com dificuldade. As asas dela estavam maiores, mas ainda mais feridas que as minhas. Os urubus avançaram com voracidade sobre ela, arrancando as penas e a carne das asas pendentes.

Fechei minha camisa. Foi um pouco mais fácil encaixar os botões em suas casas, com a ausência do volume nas costas. O tecido azul claro do uniforme de trabalho manchou-se com o sangue das feridas entre as escápulas. As asas da vizinha já haviam sido quase completamente devoradas. Antes que eu pudesse terminar de me recompor, ela já havia levantado, fechado os botões da camisola e retornado para dentro de casa, não sem antes me cumprimentar com um aceno triste e condescendente.

Andei com a bolsa apoiada no ombro, sentindo a alça de couro esfregar-se insistentemente na base da minha asa esquerda. Caminhei apressadamente pela avenida movimentada que levava ao prédio comercial onde eu trabalhava.

Também seguindo pela avenida gigantesca, centenas de pessoas também apertavam seus passos, segurando suas pastas, bolsas, paletós e jalecos, chapéus e capacetes.

Atrás de cada um deles, as manchas de sangue paralelas entre as escápulas maculavam seus uniformes, roupas sociais e de trabalho; em seus rostos, os mesmos olhos mortiços, vazios e esquecidos.