todas as casas têm cheiro

•29 de setembro de 2016 • 3 Comentários

Todas as casas têm cheiro. Normalmente, apenas um aroma característico de cada uma, fracamente perceptível por seus moradores, mas pungente para estranhos. O ar se movimenta de forma diferente, o pó se acumula em lugares peculiares, os moradores utilizam perfumes diferentes, os animais de estimação são únicos de cada moradia.

Depois de um longo dia de trabalho, Edgar afrouxou sua gravata à frente da porta do apartamento. A mão esquerda segurava a pesada pasta de couro enquanto a direita buscava a chave de casa no bolso. Girou a chave na fechadura e entrou, jogando-se no sofá pouco depois de empurrar a porta com o pé sem prestar mais atenção.

O cheiro da casa estava diferente.

Não havia aroma residual de comida, nada diferente do normal. No entanto, a forma que seu nariz reagia à casa trouxe-lhe alguma inquietação. Apesar disso, o cansaço não permitiu a estranheza alcançar a consciência e apenas a traduziu em um arrepio e uma onda de adrenalina fora de contexto. Edgar também não a percebeu.

Quando suas pernas pareceram ligeiramente mais descansadas, decidiu levantar e acomodar o paletó no cabideiro no quarto, onde ele permanecia todos os dias. No quarto, a cama estava desarrumada. “Curioso“, pensou Edgar. “Jurava que tinha ajeitado essas cobertas pela manhã“. Ainda com o paletó nas mãos, observou o cabideiro com espanto.

Havia outro paletó lá.

O paletó era grande, muito maior que seu próprio. Era de um marrom pertencente à uma categoria de cores que Edgar jamais cogitaria comprar. Tinha cheiro de perfume masculino. Não o seu próprio. Observou ao redor, fazendo a recontagem mental dos fatores anômalos que encontrara desde que chegara em casa. O pesar e a raiva se misturaram profundamente em seu peito, trazendo instantaneamente à garganta o que restou do último café que tomara antes de sair do trabalho. “Helena“, pensou ele.

Helena e Edgar eram casados há vinte anos. O único filho que tiveram morreu tragicamente afogado aos cinco anos. Os anos seguintes foram difíceis, mas eles haviam permanecido juntos. Viveram os treze anos desde a tragédia em uma montanha russa emocional complicada, mas que tinha permitido a sobrevivência do casamento. A esposa andava depressiva, calada. ” Será que estava escondendo alguma coisa esse tempo todo? Helena não faria isso comigo… faria?“, pensava ele, repetidamente, enquanto achava mais e mais evidências de outro homem em seu próprio quarto, em sua própria cama.

Então, fazendo outra recontagem, notou que eram evidências demais.

Além do paletó brutalmente marrom e gigantesco, as calças correspondentes estavam penduradas em um cabide em seu armário. As outras roupas que preenchiam o espaço eram igualmente grandes, igualmente de mau gosto. Nenhuma das roupas que ele conhecia tão bem e tinha escolhido e comprado estava ali. Fechou a porta e observou o armário de Helena, apenas para encontrá-lo exatamente como o esperado. Buscando compreensão, caminhou rapidamente até o banheiro da suíte que compartilhava com a esposa. O lado de Helena estava igual ao que ela costumava deixar. Já o dele próprio estava repleto de cosméticos que não eram seus. Cremes de barbear, pentes e perfumes que ele não reconhecia.

A mente de Edgar o traía, o incapacitava de entender a situação com clareza. Saiu do banheiro quase correndo em direção à sala. O ambiente parecia idêntico ao que esperava, alarmantemente idêntico. A cozinha ofereceu a mesma experiência, exceto por todo aquele leite empilhado num dos cantos. Nem ele nem Helena gostavam de leite. “Para que tantas caixas de leite…“, o cérebro enviou ao primeiro nível de sua consciência, futilmente. Enraivecido com a própria pequenez do pensamento, Edgar tomou às mãos uma das embalagens de leite. A incerteza crescente sobre tudo o que conhecia manifestou-se como fúria. A embalagem foi atirada com força contra a parede, espalhando todo seu conteúdo no chão.

As lajotas avermelhadas do chão do apartamento eram impermeáveis, assim como o rejunte que as unia. Edgar tinha absoluta certeza disso, pois havia instalado cada uma delas. O leite escorria lentamente em direção ao ralo perto da pia.

Decidiu observar o cômodo que dividia com Helena como escritório e biblioteca. Na parede ao lado da porta, o diploma de contadora de Helena ostentava o nome da esposa e a data de vinte e dois anos atrás. As manchas que o tempo provocara no documento estavam posicionadas exatamente como Edgar lembrava. Tentou abrir a porta e não conseguiu. Algo bloqueava o arco de abertura. Empurrou com força e um ganido alto e plástico não deixou dúvidas. Um pequeno brinquedo de plástico colorido havia se prendido sob a porta e Edgar acabara de retalhá-lo em dois. No quarto, um beliche e uma cama brancos encostavam-se nas paredes, deixando uma área central repleta de brinquedos. A janela tinha uma cortina com simpáticos dinossauros desenhados.

A mente de Edgar lançava pensamentos confusos como granizo, inundando-o de pânico. Sua pele enregelou-se e seu coração se esqueceu de bater quando ele ouviu o som da fechadura.

Helena.

Helena trabalhava numa empresa mais rígida com o horário e acabava chegando em casa vinte minutos depois de Edgar, em média.

– Mas você PRECISAVA ver a cara dele quando eu disse aquilo, hahahaha! – a voz de Helena ecoou pela sala e corredor, estridente e clara, exatamente como deveria ser. Depois da dela, uma voz grave riu abertamente, com segurança e calma.
– Eu imagino, ha ha ha ha! Você é muito boa nisso, Leninha! – “Leninha, Leninha… ninguém a chama assim, ela sempre detestou… é Helena, só Helena…” assombraram-lhe os pensamentos agressivos.

Edgar enfiou-se o mais silenciosamente que conseguiu para dentro do quarto infantil (seu escritório, ele tinha certeza disso). Não encontrou lugar melhor para se esconder rapidamente além de atrás de um dos beliches, no canto.

– Manhê, o que vamos jantar?, ouviu Edgar, claramente. A voz infantil dirigindo-se a Helena como “mãe” açoitou-lhe profundamente. Não conseguiu impedir uma lágrima de escorrer de seu olho arregalado. Como um animal acuado, ouviu muitos pares de pés se locomovendo firmemente pela casa. Conversas indistintas aconteceram por alguns minutos.

– Crianças, guardem as mochilas no quarto e se troquem para comer, quantas vezes eu vou ter que falar a mesma coisa? – gritou Helena, com a voz que Edgar reconhecia como sua característica “falsa austeridade” que dirigiu tantas vezes a Alberto.

Alberto.”

Os passos pesados que só as crianças são capazes de dar invadiram o quarto, tão familiares, tão cheios de saudade. Edgar ouviu mochilas sendo atiradas sobre camas, sapatos sendo arremessados sem nenhum cuidado para os cantos e roupas atingindo o chão, garantindo broncas futuras dadas eloquentemente por Helena.

“Alberto, é Alberto, é o Alberto, ele está vivo…”, insistia o cérebro de Edgar, tão cruel quanto apenas o luto de um pai pode ser. Não suportou a ideia de coexistir com Alberto sem o observar, pelo menos uma vez. Esgueirou-se o mais furtivamente que conseguiu de seu esconderijo, esticando seu pescoço para enxergar as crianças. “Alberto, onde está você?”. No seu bolso, seu celular tremeu. Apavorado, sem nem olhar a tela, Edgar desligou o aparelho antes que o barulho intenso da vibração chamasse a atenção de alguém.  Uma gota de suor escorreu de sua testa e invadiu seu olho, mas ele estava determinado a enxergar aquela criança. “Alberto… Papai está aqui…

Assim que saiu ligeiramente de seu esconderijo, um pequeno rosto fixou o olhar em sua face. Os olhos do menino se arregalaram. A boca se abriu enormemente e Edgar quase pôde ouvir o grito se formando em sua garganta.

– MÃE!!!! PAI!!! TEM UM HOMEM AQUI! SOCORRO!

Em desespero, Edgar tentou alcançar o braço do menino alarmado para segurar-lhe e explicar a situação, mas apenas conseguiu agarrar o ar. As pernas ligeiras do garoto o levaram rapidamente para longe do invasor. Os outros dois meninos, agora plenamente visíveis, correram juntos em direção à porta. “Não… não era Alberto… onde está Alberto…?”, os pensamentos pulsavam indistintos na mente aterrorizada de Edgar.

– O QUE? TEM O QUE AÍ?
– TEM UM HOMEM AQUI, MÃE!
– Deixa que eu vou lá ver – falou gravemente a voz masculina que havia rido da história de Helena.
– Cuidado, Fábio… quer que eu chame a polícia? – a voz de Helena estava baixa, comedida, mas cheia de adrenalina. Apenas vinte anos de convivência foram capazes de treinar os ouvidos de Edgar para capturar tamanha complexidade de sentimentos naquela voz. Edgar não ouviu resposta.

Passos largos, mas leves, avançavam cuidadosamente da sala em direção ao quarto. Fábio, presumivelmente. Edgar decidiu que manter-se escondido apenas complicaria mais a absurda situação que se desenrolava. Levantou-se e expôs-se claramente no meio do quarto dos três meninos.
Quando Fábio alcançou a porta, um calafrio escalou a espinha de Edgar. O homenzarrão ocupava quase todo o espaço do batente da porta, de altura e largura. O corpo vestia uma farda cinzenta, característica dos bombeiros.

– Eu vou te dar uma chance de explicar que merda é essa. E depois você vai sentar na sala enquanto a polícia não chega. Sem gracinhas. Você vai ter sorte se eu não arrebentar você a ponto de sua própria mãe não se lembrar de você.
Edgar, absolutamente tomado pelo pânico, foi incapaz de formular palavras compreensíveis. Balbuciou sílabas desconexas entre gotas de suor que escorriam de sua testa. Alguns segundos depois, aparentemente cansado de esperar, Fábio avançou rapidamente com o punho em riste. Os olhos de Edgar se fecharam alguns milésimos de segundo antes dos nós dos dedos gigantescos de Edgar atingirem a maçã de seu rosto.
Edgar caiu de joelhos, com sangue escorrendo pela lateral da bochecha. Não foi capaz de reagir. Permaneceu em silêncio. De joelhos, sentiu o pé de Fábio atingir-lhe as costelas. Fábio agachou-se ao seu lado.

– Helena! Está tudo sob controle. O que a polícia disse? Eles vão demorar? – gritou Fábio, estranhamente calmo, enquanto envolvia o pescoço de Edgar num golpe “mata-leão”. Levantou-o à força, arrastando-o imobilizado até a sala, onde atirou-o no sofá.
No seu campo de visão prejudicado pelo soco no rosto havia a sala tão conhecida, os olhos furiosos de Fábio e os três meninos amontoados no canto da sala, com o misto de medo e curiosidade que parece ser o combustível das crianças. Helena lentamente surgiu em sua visão periférica e depois tornou-se perfeitamente clara à sua frente. Seus olhos mostravam incredulidade, medo e, paradoxalmente, ternura.

– E..Edgar?
– Você conhece esse porra, Helena? – perguntou agressivamente Fábio. Em sua mão esquerda, uma aliança dourada brilhava, perfeitamente idêntica (apenas muito maior) à da mão de Helena.
– É meu ex marido, Fábio… o Edgar… você sabe… o pai do Alberto.

Fábio pareceu deixar a ira esvair-se ligeiramente, transformando parte de sua expressão furiosa em curiosidade.

– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI, CACETE? COMO ENTROU AQUI? – perguntou Fábio.

Quase sem som, Edgar balbuciou doloridamente a resposta mais sincera que conseguiu. Não esperava que fosse soar como o mais absoluto sarcasmo.
– Pela porta.

Fábio enfureceu-se mais uma vez e levantou a mão para acertar-lhe na face outro soco, mas a mão fora segurada por Helena.

– Não, Fábio. Não faça isso. Deixa que eu converso com ele.
– Então converse com esse merda antes que eu o arrebente inteiro.
– Não vai arrebentar ninguém, Fábio. O Edgar é um cara bom. Ele certamente tem alguma explicação perfeitamente plausível para o que está acontecendo.
– É BOM MESMO QUE TENHA! Meninos, vão para o quarto e fechem a porta. Tinha mais alguém com você lá? – Fábio dirigia-se a Edgar com a voz trovejante.

Edgar sacudiu a cabeça em negativa quase infantil. Fábio seguiu os três meninos até o quarto e postou-se à porta, como um leão de chácara. Fitava Edgar com os olhos ferozes quase sem piscar. À frente dele, Helena exibia apenas preocupação, confusão e pesar.

– Edgar… o que está fazendo aqui, afinal? Como entrou? – Helena sentou-se no sofá ao seu lado, em posição defensiva e mostrando desconforto.
– Helena… eu moro aqui.
– Você não mora aqui há doze anos, Edgar. O que está acontecendo?
– Não, Helena… eu moro aqui.
– Edgar, eu saberia se você morasse aqui ainda, você não acha?- A voz doce de Helena escondia o sarcasmo característico de sua personalidade. Mais uma vez, como ele conhecia muito bem, Helena perdia o controle e utilizava-se do sarcasmo em horas completamente inadequadas.
– Você não está entendendo, Helena… eu moro aqui. Com você. Somos casados. Alberto… Alberto morreu há treze anos.
– Você só pode estar brincando… como assim? Do que você está falando? Edgar… você está doente? Precisa de um médico?

Edgar não teve resposta. Parecia plausível a especulação de Helena. Alzheimer. Demência. Amnésia. Ele era novo demais para essas coisas, mas tudo é possível, não é mesmo?

– Você está doente, fala pra mim. Sério. Está?
– Eu… eu não sei. Acho que não.
– Vamos começar do começo. Como você veio parar aqui? – Helena havia inserido condescendência na fala. Infantilizou o discurso como se falasse com Alberto. Ou um dos outros filhos dela.
– Eu… fui trabalhar. No escritório. Hoje teve reunião. Com o Maia, sabe? Saí cansado, vim pra casa de ônibus, porque você estava com o carro. Cheguei aqui. Peguei a chave. Entrei.
– Você não tem mais a chave da porta, Edgar, nós trocamos a fechadura alguns anos atrás…
– EXCETO QUE EU TENHO, HELENA! Olha aqui! Olha essa chave! – exaltou-se Edgar. Levantou-se subitamente. Sentiu a dor na costela obviamente partida. Mesmo assim, caminhou decididamente até a porta e enfiou a chave na fechadura. Serviu. Fábio fez menção de sair de seu posto, mas decidiu esperar um pouco mais.
– Mas… como? Como você tem essa chave? – intrigou-se Helena, alarmada.
– A chave é o de menos. Helena, quem é esse cara? Quem são essas crianças? O que aconteceu? Você é minha esposa! Olha só, olha minha aliança!

Os olhos de Helena alcançaram a aliança de Edgar. Vinte anos de uso a tinham deixado opaca, mas era exatamente como ela se lembrava. E exatamente igual à que lembrava de ter devolvido ao ex-marido quando foram vencidos pelo luto e decidiram pela separação, treze anos antes.

– O que… o que está acontecendo… – perguntava Helena, mais para si mesma do que para Edgar ou Fábio.
– Eu não sei, Helena. Entrei aqui, estava tudo diferente. Quem são essas crianças? Me responda, por favor… – Edgar sabia da resposta; sabia que eram filhos de Fábio e Helena, que não faria sentido nenhum serem nada mais do que isso. Mas a simples existência delas torcia seu coração e lhe causava mais dor do que os golpes de Fábio. Como se aqueles três meninos, tão parecidos com Helena, tão parecidos com Alberto, fossem a maior traição que alguém poderia cometer contra seu próprio filho; morto, afogado, enterrado. Esquecido. Substituído.
– São Fabinho, Hélio e Rafael. Meus filhos. Nossos filhos, meus e do Fábio. Fabinho tem nove anos, Hélio e Rafael são gêmeos. Fizeram seis anos mês passado.
– Eu nem sei o que te falar. E o Alberto?
– Como assim, o Alberto? O Alberto morreu, Edgar. Pra que enfiar o dedo nessa ferida?
– Eu… eu… tinha alguma esperança de que isso tivesse mudado também.
– Mudado? Mas tudo está igual! A gente já se separou há tanto tempo… foi o que, um ano depois da morte dele? Eu refiz minha vida e esperava que você tivesse refeito a sua também. Pelo jeito não, e pelo jeito está doente também.
– Deve ser isso mesmo, Helena. – Edgar tentava compreender a situação o melhor que podia. – Devo estar doente mesmo. Acho que vou procurar o Dr. Rodrigues para uns exames. Desculpa, Helena, desculpa…

Helena abraçou Edgar, confortando-o. Seus olhos, marejados, além das lágrimas carregavam dor, compaixão e medo. – Você acha que pode ir agora, Edgar? Embora? Eu realmente queria que você fosse. Não fica chateado. É que… o susto foi grande. Você entende? Você entrou na minha casa do nada. Isso não foi legal, mas eu entendo que você não esteja bem.
– Eu entendo, claro… será que posso ir antes da polícia chegar?
– Vai, Edgar. Vê se fica bem…. e apareça. Quero saber como você vai ficar depois disso, Ok?

Edgar só conseguiu assentir. O peso de vinte anos de companheirismo sobre seus ombros só tornava mais difícil aquela despedida. Ele tinha memórias de como ela havia ganhado cada ruga em seus olhos, cada cicatriz em seu corpo. Todas elas visíveis, tanto na Helena que esperava encontrar quando na Helena que estava parada em sua frente, abraçando a si mesma e com expressão consternada. As mesmas marcas do tempo estavam ali. Apesar disso, a Helena que acreditava ser sua caminhou lentamente para trás e abraçou o homenzarrão com a aliança idêntica à do dedo dela. Com o rosto enterrado em seu peito, fazia os soluços e o choro ecoarem pela sala grande.

A sala da casa dele.

Antes de ir embora, vislumbrou o porta retratos que ele comprara numa liquidação três anos antes. Em sua memória, a foto emoldurada era uma antiga foto de Edgar, Helena e Alberto. O menino tinha perdido seu primeiro dente e exibia orgulhoso o sorriso desfalcado. Ali, viu apenas uma foto artística de Helena, Fábio e os três meninos.

Em algum lugar dentro de si, Edgar agradeceu a chance de ter saído de lá vivo às forças do universo. Ao mesmo tempo, o peso de caminhar sem rumo era grande demais. Para onde ele iria?
Caminhou por muitas horas. A noite veio e se foi. A madrugada trouxe consigo a fome insuportável que matou num fast-food qualquer. Sentou-se num banco e ali adormeceu, abraçado à pasta de trabalho.

Acordou com o sol ardendo em sua face. Levantou-se com dificuldade. Tentou aceitar mais uma vez a ideia de que continuaria sem ter para onde ir. Não conseguiu. Helena haveria de entender, ele precisava tentar de novo. “Só mais uma vez”, ele prometeu a si. “Só mais uma vez eu vou até lá, ela vai entender, a gente vai conversar. Deve haver algum engano. Não é possível. Alguma coisa aconteceu, deve ser brincadeira…”. A torrente confusa de pensamentos que misturavam negação e esperança tomou conta de sua mente. Não conseguiria ir até o trabalho nesta manhã. Veria Helena novamente.

Caminhou o mais rápido que conseguiu, com a mão sobre a costela partida grande parte do tempo. À frente do elevador, açoitou o botão com dedos nervosos, ansioso.

À porta do apartamento, mais uma vez, tudo parecia absolutamente normal. Desta vez, tocou a campainha; não cometeria novamente o erro de entrar em sua própria casa sem ser convidado. A ansiedade era insuportável. Dois, três, cinco, dez minutos. Nada. Aceitou que provavelmente todos haviam saído. Trabalho, escola, vida normal.

Tentou a chave. Acreditava que eles teriam trocado a fechadura depois do bizarro problema no dia anterior, mas tudo estava normal. A chave girou facilmente, cansada de fazer o mesmo movimento por tantos anos.

Todas as casas têm cheiro. Desta vez, Edgar sentiu quase nada. A sensação de familiaridade era tanta que seu corpo encheu-se de esperança. Olhou para o porta retratos perto da porta. Edgar, Helena. Alberto, banguela. “É A MINHA CASA! É A MINHA HELENA!”

– Helena, HELENA! Cadê você? – gritou Edgar, exaltado, misturando ansiedade, felicidade e esperança. Gritou por alguns segundos antes de se lembrar que àquela hora Helena certamente já estaria no trabalho. Abriu um meio sorriso, pensando que deveria deitar em sua própria cama e ter o descanso merecido. Largou a pasta no sofá, displicentemente, ao lado da gravata.
Caminhou até o quarto tocando nas paredes, como se buscasse evidência de realidade, constância. No quarto, tudo estava quieto. Sobre a cama, Helena, deitada.
– Está em casa, afinal! Querida… – disse Edgar, aproximando-se da cama para tocar na esposa e acordá-la.

Quando seus dedos tocaram a pele do braço de Helena, sentiram apenas o frio de quem não está mais ali.
– Ah não, ah não, ah não… Aaaaah…. Helena… Helena…

Algumas horas depois, quando conseguiu chamar polícia para recolher evidências (apenas a caixa vazia dos comprimidos), declarar o óbito (tão inegável quanto sua própria morte eventual) e levar o corpo (Helena, Helena…), Edgar encontrou, sob o travesseiro dele, um pedaço de papel.

A cada linha traçada na caligrafia desenhada da esposa, a tristeza tomou-o tão inteiramente quanto possível.

Morta. E ele a havia visto poucas horas antes, em outra vida. Em outro lugar. Enquanto ele conversava com ela, enquanto sofria pelo marido que lhe quebrara as costelas e os três meninos que substituíram o seu, Helena precisava dele. Helena dependia dele. Enquanto dormia na rua, Helena morria.

Sozinho, com a carta na mão, Edgar deitou ao lado da esposa. Depois de 20 anos, esperou a polícia enquanto admirava as rugas no canto dos olhos de Helena, cavadas pela dor tão imensurável e tão interminável. Talvez, agora, do tamanho da dele próprio.

Edgar, meu amor

Eu fiz uma coisa ruim. Não aguentei a dor, tem dias que Alberto é presente demais. Peguei aqueles remédios e tomei todos, Edgar. Eu tentei ligar para você… antes. Você não atendeu.

Fiquei esperando você voltar do trabalho, eu queria que você me impedisse. Mas você decidiu que hoje seria um bom dia para dormir fora de casa pela primeira vez. Você não me falou nada… liguei para você tantas e tantas vezes, você continuava sem atender. Desligou o celular.
Por que resolveu fazer isso comigo justo hoje, Edgar?

Agora tomei todos aqueles comprimidos. Já me arrependi. Tentei ligar para a ambulância, mas desisti no segundo toque. Se eu for salva, que seja por você.

Eu queria ficar, Edgar. Queria. Mas a dor foi grande demais.

Desculpe por isso.

Por que você não atendeu a droga do telefone?

Desculpe, desculpe, desculpe…

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Em 27 de setembro de 2016, esta bigorna me caiu. No dia seguinte, estava tudo devidamente parido.

Depois da reação das poucas almas a quem submeti este texto, penso que devo pedir desculpas. Acho que talvez tenha sido demais.

Mas, como Edgar, de vez em quando a gente não tem escolhas. Abre a porta errada.

Esse texto é sobre um homem que talvez tenha atravessado um véu proibido entre realidades. Ou, talvez, seja sobre todos nós, e nossa interminável capacidade de olhar o mundo todo e negligenciar o que está na nossa frente, gritando por ajuda.

Talvez as duas coisas.

Como está o cheiro da sua casa hoje?

Mari

Moira

•16 de fevereiro de 2016 • Deixe um comentário

Ao acomodar-se na cadeira rígida da sala de espera do médico, Moira não conseguia desfazer-se do celular em suas mãos. A tela parecia hipnotizante, com as letras brilhantes entre imagens e pequenas animações. As fotos que ela tão avidamente observava, cada uma por no máximo um segundo ou dois, eram quase sempre de rostos sorridentes, acompanhados por pequenas frases motivacionais.
A rede social era apenas a base do vício, mas Moira não parecia nem se sentia diferente de mais ninguém. Toda a geração dela tinha o celular como uma extensão de seu corpo; as redes sociais eram a forma primária de conhecer pessoas novas e interagir no dia a dia.

“Moira”

“Moira!”

“Tem alguma Moira aqui?”

Finalmente, Moira percebeu que era chamada pela atendente para que entrasse no consultório. Levantou-se com rapidez, desajeitando-se com a bolsa aberta, o celular nas mãos. Não observou o rosto da atendente que a guiava em direção ao consultório do médico. Sentada na cadeira sem estofado, observou brevemente o rosto do médico quando ouviu que a boca do doutor formava um “Bom dia” seco.

Durante os cinco minutos de conversa, comentou vagamente sobre sua insônia e ansiedade. O médico não perguntou mais do que ela compartilhou espontaneamente e permaneceu em silêncio enquanto preenchia algumas receitas para remédios controlados. Enquanto a caneta rabiscava furiosamente os blocos azuis, os olhos de Moira já estavam novamente entre os dedos que desenhavam padrões curiosos em seu celular.

Em um canto superior da sala, cobrindo a junção de teto e duas paredes, havia uma massa grande de carne escura, brilhante, disforme. Partes se estendiam como tentáculos e pseudópodos para que a criatura se fixasse no canto. Olhos e bocas se revezavam entre os orifícios profanos que a carne exibia. O corpo todo pulsava doentiamente, como a respiração curta e superficial de um animal agonizante, e a criatura se movia inquieta. Onde as protuberâncias haviam estado, havia um rastro de muco grosso. Sua presença parecia ignorada pelo médico. Moira não a notou mesmo a menos de três metros da cadeira onde estava sentada.

Agradeceu, guardou as receitas dobradas dentro da bolsa que continuava aberta e saiu do consultório. Decidiu que passaria na farmácia no caminho. Com os remédios numa pequena sacola de papel, andava sem observar seus passos, com o celular entre os olhos e o chão. Em seu ombro, um pedaço de carne escura e pulsante se agarrava ao tecido de sua roupa, escapando com facilidade dos olhos vidrados de Moira.

Naquela noite, tomou dois dos comprimidos que comprara na farmácia, esperando que seu sono fosse ser melhor. Deitou-se com a luz do celular iluminando em um feixe cônico sua face e mãos. Permaneceu assim até que adormeceu, ainda com o aparelho nas mãos. Do espaço aconchegante na nuca, entre as mechas de cabelo castanho de Moira, a criatura pequena e orgânica, latejante como um coração de galinha saiu, esticando seus tentáculos e seu corpo disforme. Aumentando visivelmente de tamanho, a criatura espalhou-se por todo o corpo de moira, esticando-se e a envolvendo como em um casulo repleto de olhos, tentáculos e orifícios.

Moira acordou, sentindo-se um pouco diferente. Acreditava ter exagerado na dose do remédio. Desligou o despertador mecânico que a despertara, ainda tremelicante no criado mudo. Levantou-se, lavou o rosto, escovou os dentes. À frente da porta do apartamento pequeno, mas charmoso, Moira recolheu o jornal daquela manhã e tomou seu mingau de aveia lendo as notícias do dia.
Era domingo e ela pretendia aproveitar cada segundo dele em sua casa. Sentou-se à frente da televisão, pegou suas agulhas e suas linhas de tricô. Enquanto a programação banal de domingo vomitava baboseiras através da tela curva, à frente de um grande cubo amarronzado de compensado, seus dedos habilmente teciam formas circulares, como mandalas. Ela emendava linhas vermelhas, marrons e cor de carne, ocasionalmente formando um olho, deixando um orifício ou produzindo longas pontas. Suas agulhas desenhavam o décimo primeiro olho no tecido que produzia quando ela percebeu que não havia consultado seu celular naquele dia.
Ao lembrar-se da existência do aparelho, percebeu também que aquilo parecia um delírio, que tal aparelho jamais existira. A televisão explicava a importância do café da manhã.

Mesmo duvidando de sua vida toda sem conhecer tal aparelho, varreu com os olhos a sala, à procura de algo que se assemelhasse ao que tinha certeza que fazia parte de sua vida. A sala charmosa tinha decorações antigas de seu tempo de casada, seu marido há muito falecido. Retratos de seus netos se espalhavam pelo aparador e estante, ao lado do telefone marcado por repetidas discagens. O disco amarelado tinha o número de seu próprio telefone colado em um papel em seu centro. Desistiu de procurar o aparelho inexistente. Seus dedos insistiram em voltar a tricotar, o tecido se formando como um lençol que pesava sobre seu corpo. Depois de sete horas, decidiu levantar-se para observar seu trabalho. Não sentia fome mesmo o relógio denunciando a chegada do fim da tarde. Segurando a linha que ainda se estendia da ponta do tecido até sua mão, tentou levantar-se, mas não teve força suficiente. O tecido, agora cheio de pontas disformes, olhos e orifícios envolveu suas pernas e pelve, segurando-a fortemente no sofá.

Assustada, tentava libertar-se do abraço impensável do tecido, mas toda luta parecia em vão. Percebeu que ainda segurava a ponta do tecido e suas agulhas. Com a outra mão, alcançou a tesoura que havia deixado na outra extremidade do sofá. Tentando manter a calma, escolheu o tamanho do fio que restava, cortando-o com a tesoura muito afiada de costura. Antes mesmo de o fio cortado ser levado pela gravidade, o tecido era carne, latejante, quente e profana. Os olhos todos se voltaram para o rosto de Moira, úmidos, injetados.

Com a ponta da linha ainda na mão, tentou escapar do abraço maldito daquela criatura, mas os tentáculos feitos de pesadelo alcançaram seus braços, seu rosto, seus seios. Em cada orifício de seu corpo ela foi invadida pelas protuberâncias febris. Sentia dentro de sua cabeça as pontas tentando perfurar seus tímpanos. Quando os tentáculos conseguiram ultrapassar seus olhos e alcançar o cérebro pelas órbitas, Moira ainda se sentia consciente.

Mais consciente do que nunca.

A criatura a tomou por completo, fazendo dela parte da massa, incluindo seus olhos entre os dela, sua carne tecida entre as do pesadelo.

A consciência tornou-se coletiva, sabia que era parte de algo muito maior, algo muito mais antigo, constante, intangível. Sabia que a tentativa de contemplar o todo de quem era custaria a sanidade de quem tentasse.

Moira acordou, desligou o despertador de seu celular. Sentia-se um pouco vazia, mas atribuiu a sensação aos remédios que engolira na noite anterior.
Desconectou seu celular do carregador, enfiou-o entre os dedos e deitou-se de qualquer jeito no sofá. Era domingo, e pretendia aproveitar cada minuto dele em sua casa.
Em cima do encosto de seu sofá havia uma curiosa manta vermelha escura, com círculos vazados e olhos, com protuberâncias e tentáculos representados em lã. A adquirira em uma feira de antiguidades, de uma senhora cega que exibia objetos variados.
Se tivesse observado, teria percebido que naquela manhã, ao atirar-se displicentemente no sofá, todos os olhos da manta, incrivelmente, haviam se voltado para ela. Se ela tivesse prestado atenção, teria sentido a manta se deslocar lentamente em sua direção, envolvendo-a como uma mãe a um filho numa noite fria.
Se estivesse atenta, teria percebido que durante algum tempo teve dificuldade para respirar. Quando finalmente largou o celular, seu rosto já estava se tornando azul e suas pernas se debatiam sob o casulo que a manta criara ao redor dela.
Desfaleceu, depois faleceu.

Seus olhos mortos fitaram o teto até que se desfizessem, o corpo ainda envolvido na manta quando fora encontrado mais de dois anos depois. O celular ao lado fora embebido nos sucos da decomposição que seu corpo liberara muitos meses antes, mas que agora apenas manchavam o sofá e o chão em manchas secas e fedorentas. Nas redes sociais, o desaparecimento de Moira fora notado por um ou dois dias apenas, condenando-a ao esquecimento assim que seus dedos pararam de informar estranhos sobre sua vida pessoal.

Em outro lugar, o Todo espreitava pacientemente sob um banco na praça, entre os lençóis de um bordel, no canto do consultório do psiquiatra.

NaNoWriMo – O Legado

•17 de novembro de 2015 • Deixe um comentário

Este é um post diferente.

Claro, eu normalmente não falo aqui como se fosse uma pessoa, apenas um robô com problemas de caráter e uma personalidade sociopata.
Curiosa e inesperadamente, eu sou MAIS do que isso! Estou participando do desafio de escrever um livro de 50.000 palavras durante o mês de novembro.

O desafio se chama NaNoWriMo, ou National Novel Writing Month. Meu pequeno livro é sobre o legado de um grupo chamado Amlugnehtar, ou “Matadores de Dragão”, depois de um acontecimento importante em Faerûn. Sim, eu disse Faerûn, e esse acontecimento envolve Tiamat. Does that ring a bell?😀 O link na imagem abaixo é para os status do meu livro.

nanowrimo
Logicamente, não poderia colocar aqui tudo o que estou escrevendo, mas se a curiosidade aflorar de alguma forma, deixo aqui o link, é só clicar na imagem abaixo.🙂

amlugbanner.fw

Já aviso que é só uma brincadeira, mas está se mostrando uma brincadeira BEM GRANDE.

É isso? É, é isso.

pesadelo

•9 de outubro de 2015 • Deixe um comentário

A dor encurvava suas costas como se ele tentasse carregar o mundo todo. Antes um profissional altivo, sorridente e brilhante, agora sofria a perda, todos os dias. Apagaram seus olhos, tomaram sua vivacidade, embruteceram suas feições antes tão gentis.

Com seu chapéu surrado, encostava-se na parede de um prédio abandonado. A testa franzida enquanto acendia o sexto cigarro denunciava sua preocupação e paciência. A chuva cessara há quase uma hora, mas uma garoa fina persistia e insistia que a rua devia permanecer encharcada. Seu rosto permanecia oculto pelo ângulo do chapéu, e seu corpo coberto por um velho sobretudo claro.

Aguardava pacientemente o surgimento de seu pesadelo. Não um pesadelo comum; um homem maltrapilho que a atacara bêbado, ou um mafioso que a tomara por vingança. Seu pesadelo levara sua esposa por pura maldade. E o homem, contrário a todas as outras pessoas, o enxergava. E havia decidido pela vingança, nem que levasse toda a eternidade.

Numa cadeira de rodas, um rapaz franzino se aproximava, levado lentamente por uma enfermeira rotunda. Seus olhos pareciam vazios a esta distância, e sua cabeça lisa exposta ao frio e à umidade desafiava o bom senso. Acima dos ombros do rapaz, seu pesadelo espreitava, com suas grandes garras esfumaçadas enterradas na lateral direita do corpo do rapaz, e seu olhar demoníaco se fixou no rosto do homem de chapéu. Percebeu que sua existência fora notada. O urro que ecoou pelas ruas fora tão ensurdecedor que todos ali teriam enlouquecido, se fossem capazes de ouvir. O rapaz na cadeira de rodas não titubeou. A enfermeira não incluiu pausa no discurso sobre como ele deveria usar um chapéu se quisesse visitar sua mãe como uma surpresa em noites frias. O homem não fora notado nem por enfermeira nem paciente.

Arrancando com violência as garras do fígado do rapaz, o pesadelo saltou sobre ele e pousou logo à frente do homem. O rapaz subitamente levou suas mãos à lateral do corpo. Ao ser indagado pela enfermeira, expôs dor súbita e lancinante. Ela pareceu preocupada e apressou o passo, na esperança de examiná-lo ao chegar à casa de sua mãe.

O pesadelo aguardava o homem de chapéu em posição de ataque. Suas mandíbulas abriam e fechavam ameaçadoramente, evidenciando uma fileira de dentes negros pontiagudos. O corpo magro, como derivado de um casamento profano entre réptil e inseto, reluzia à iluminação amarelada da rua. O exoesqueleto estava intacto, e brilhava sutilmente em suas aberturas entre as costelas. De dentro da caixa torácica, um brilho alaranjado emanava do lado direito do corpo do demônio; esticou seus chifres para trás, e com mais um urro infernal executou o bote bem planejado.

O homem, experiente, aproveitou a posição do tórax do pesadelo enquanto este avançava e cravou-lhe sua adaga por entre as costelas, atingindo a fonte do brilho alaranjado. Com movimentos convulsivos, o pesadelo caiu no chão, desfez-se em milhares de insetos pequenos que se dispersaram imediatamente.

O homem respirou fundo. Conseguiu erguer um pouco mais suas costas, e seus olhos alcançaram o rapaz na cadeira de rodas, que já se afastava. Um meio sorriso se fez, ao pensar que aquele rapaz teria outra chance. À amarrotada foto da esposa que retirou da carteira prometeu eterna devoção, beijou-a e derramou uma lágrima. No inverso, anotou mais um tracinho. Já não havia mais espaço para quase nenhum, e sua preocupação agora era decidir qual seria a próxima foto de seu grande amor que usaria em sua vingança.

Na semana seguinte, ao examinar os testes de seu paciente, o médico teve que informar ao rapaz que seu tumor havia sido completamente curado, contra todas as expectativas. A enfermeira roliça que o acompanhava derramou uma lágrima; sua mãe o abraçava e chorava de emoção, rindo e murmurando “Obrigada, obrigada, obrigada”, ao médico.
Ao final da consulta, ele tirou o jaleco, colocou seu sobretudo claro e seu chapéu surrado e foi acender mais cigarros à espera de seus pacientes e seus pesadelos.

estrela da manhã

•16 de setembro de 2015 • Deixe um comentário

No início havia um castelo. Suas paredes eram negras; o silício em sua composição emprestava um brilho difuso, esparso, aos tijolos irregulares. No céu acima, réplicas perfeitas dos pequenos pontos brilhantes tremeluziam em constelações infantes.

Neste castelo havia um rei. Seus olhos eram brancos e cegos, pois ao nascer, não havia nada para ser visto. Mesmo que nunca tivesse havido mais ninguém além dele, a solidão, ainda inominável, o tornara estoico. O rei então, nomeou-se ao mesmo tempo que ao sentimento; Solidão. Quando a dor do sentimento incompreensível tomou a forma de lágrimas geladas em seu rosto, Solidão arrancou sua própria costela, e dela moldou uma bela esposa. Não podia vê-la, mas sentia sua pele macia. Sabia que a tinha feito pálida como a neve, com olhos violetas e longos cabelos negros. Sentia sua pele nua, e a tomou ali mesmo. Seu troféu, sua vitória. Nomeou-a; Orgulho.

Orgulho, impassível, não era cega como seu marido, pai, irmão e criador. Ao contrário, enxergava tão bem que ao fundo dos olhos de Solidão enxergava apenas o vazio. O Rei a tinha como posse, seu diamante precioso; Orgulho não suportava as mãos ressecadas do velho Rei invadindo-a, mas sua natureza a impedia de render-se. Aguentava todos os dias, de cabeça erguida.

Ela então deu à luz uma criança, que fora concebida durante o único momento de fraqueza de Orgulho. Numa noite, enquanto seu marido a usava, uma única lágrima escorrera de seu rosto. A criança era uma bela menina, a quem nomeou Melancolia.

Melancolia, apesar de sombria, pareceu ser necessária, remediadora. Orgulho gastava seus dias inteiros ensinando a menina sobre a Realidade, contando as estrelas que insistiam em aparecer e criando flores brilhantes no jardim eterno do Castelo. Solidão era visto de outra forma pela esposa, como o provedor de sua luz. Orgulho ainda o recebia, mas mostrava-se mais participativa, mais carinhosa. Solidão suspeitou que talvez ela até o quisesse ali.

Solidão percebera que aqueles sentimentos não eram naturais a ele; caminhou até alcançar os limites do castelo e desapareceu. Sua inexistência não afetou sua criação, as estrelas nem a Realidade.

Orgulho permaneceu plantando e colhendo flores com melancolia, que se tornavam cada dia mais brilhantes. Mesmo depois de anos após a partida do marido, viu-se grávida. A criança que pariu era um menino, de pele mais clara do que as estrelas e brilhante como as flores. Nomeou-o; Luz.

Luz era uma criança agitada, sorridente. Um dia, ao correr pelo castelo e jardins, Luz escorregou e caiu. Por décadas permaneceu em queda constante, aparentemente eterna. Quando o chão finalmente fez-se existir sob seus pés, pousou delicadamente e percebeu-se em uma planície avermelhada, infinda.

Soube, mesmo sem chaves nem portas, que aquele era seu reino. Procurou por eras por seu trono. Quando estava pronto, finalmente inteiro, o encontrou. Seu lugar havia permanecido ali, intocado, desde que seu coração se apaziguara da queda; esperava apenas que Luz se tornasse inteiro. Crescera; era um homem de feições gentis e coração imaculado.

Sentado no trono, Luz percebeu, vindo do horizonte como o nascer do sol, um belo rapaz de olhos azuis e largo sorriso. Enormes asas brancas estendiam-se de suas escápulas. Luz nomeou-o; Amor. Uma estrela surgiu brilhante no céu da Criação. Na Terra, a nomearam; Estrela da Manhã. Luz e Amor reinaram por eras em sua planície avermelhada, acolhendo a todos que os buscavam e oferecendo-lhes a Verdade.

Orgulho nunca mais vira seu filho, e ocupara o resto de sua eternidade plantando sementes inférteis. O jardim nunca mais floresceu, moribundo tal qual os olhos de Orgulho. Melancolia reinara por várias eras; sua criação é cruel, doentia e sem esperanças. Ainda assim, a Estrela da Manhã brilhava forte, tocando corações na criação inóspita de Melancolia, acendendo almas em meio à escuridão.

•18 de agosto de 2015 • Deixe um comentário

Quando ele se levantou, tudo era pó.

Seus pés desbravavam montanhas de cinzas esbranquiçadas, ocasionalmente pontuadas por um pedaço ou outro mais rígido. Por onde passava, deixava um rastro, que logo era apagado pela ventania constante.

Nuvens de pó formavam-se à distância, e ele notou que uma tempestade não tardaria a se formar.  O sentimento de mais profundo pesar o dominava, suas lágrimas pareciam escorrer de cada um de seus poros.

Ajoelhou-se, tomou em seus dedos um dos pedaços maiores que encontrou no chão. Rígido, com marcas de calor.  Ao seu redor, em todas as direções, o mundo era tomado por cinzas e pedaços de ossos que não se desfizeram na cremação.  “Eles deviam ter moído”, pensou, e mais e mais lágrimas escorreram e aglutinaram porções das cinzas no chão.

“Sinto muito pela sua perda”, ele ouviu de sua tia, ao abraçá-lo. Em outra dimensão, ele respondeu cordialmente pela presença na cerimônia.

Quando os convidados se puseram em círculo e o assistiram colocando as cinzas dela num pequeno buraco e plantando uma muda de salgueiro por cima delas, ele foi capaz de derramar uma única lágrima.

Lá, no mundo real, as lágrimas profusas insistiam em enevoar seu caminho. Mesmo assim, um pé depois do outro, ele avançava por entre as cinzas de sua esposa. “Hei de emergir inteiro da planície do desespero.” – pensou.

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queda

•3 de agosto de 2015 • Deixe um comentário

Naquele dia, tudo parecia ligeiramente diferente. As cores brilhavam um pouco mais, o céu estava quase lilás, tão forte era o azul.
A transmissão de monitoramento da Guerra mostrava o de sempre: velhos campos de batalha, tomados por poeira, ervas daninhas e carcaças robóticas. Alguns deles estavam sendo abertos para visitação; a escola dela já havia planejado uma visita a um campo próximo, e prometido que seus alunos caminhariam pelas trincheiras.

Do calor da Guerra já não se ouvia falar há algumas gerações. A batalha fora vencida na Terra, e os países estavam começando a se reestabelecer. A Federação Sol estava muito forte, começando a fazer presença nas conferências entre sistemas. A vitória mais recente era uma nova Federação aliada, que adicionaria bilhões de armas à guerra contra as máquinas que ainda oferecia risco.

Cinco mil anos (terrestres) passaram-se entre o início das inteligências artificiais e o início da guerra. Curiosamente, as Federações foram atacadas ao mesmo tempo. A vitória soava frágil, mas o senso de paz estava se espalhando vagarosamente pela Via Láctea.

Ela resolveu sentir o dia mais colorido, e saiu de casa. A construção de formas anciãs era um refúgio, um tempo à vida tranquila.
A relva amarelada roçava em seus pés. Caminhou pelo milharal, tocando ocasionalmente uma espiga ou outra, admirando a perfeição e crescimento daquela safra.

Quando o sol pareceu brilhar um pouco mais, uma brisa fria lambeu seus braços nus e seu rosto, causando arrepios profundos. Olhou para a direção do vento e foi surpreendida por um enorme fluxo de energia negra, espiralando e convergindo num portal inconstante.

A energia parecia pesada e voraz. A enorme tempestade enegreceu completamente o lado leste de sua fazenda, enquanto que no lado oeste, o sol brilhava forte. Seu cão dormia aos pés da varanda da casa, desinteressado pelo vórtex apocalíptico que se aproximava.

Então, no olho da tempestade, ela enxergou a si mesma. Com as mãos estendidas e o corpo franzino, o vestido que ela usava estava completamente em farrapos. Os olhos fundos, enegrecidos, expunham medo e exaustão.
Sua imagem estendeu a mão, que projetou-se através do portal. Hipnotizada por seu próprio reflexo, estendeu sua mão roliça e corada e tocou aqueles seus dedos que eram pouco mais do que ossos. A sensação foi violenta, e o frio subitamente pareceu trincar seus ossos. Através do portal, viu seus olhos em órbitas emaciadas iluminarem-se, ao perceberem aquele mundo tão pacífico. A imagem largou a arma que carregava, correu e embrenhou-se no milharal.

Ela então viu-se sozinha, desarmada, no campo eterno de batalha naquela realidade em que a Guerra não havia sido vencida.
Ruínas de sua casa pontuavam a imensa planície devastada. Sinais de humanidade escassos, com pequenos detritos espalhados pela terra revolta. As árvores que restavam de pé eram esqueletos partidos, sem folhas e sem vida.

Quando o vórtex se fechou diante de seus olhos, seu grito de desespero seria ouvido por multidões, se elas ainda existissem. Desviando do corpo de seu cachorro já há muito decomposto, ela começou a fugir das máquinas que já se moviam em sua direção.

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Mais um exercício, iniciado por esta imagem:

🙂

a queda