verônica

•24 de setembro de 2018 • Deixe um comentário

Palavras nas paredes, palavras em todos os cantos.

Enquanto sentia seus pés se moldando sobre o chão irregular, fazendo com que a carne macia da sola pouco calejada engolfasse as pequenas pedras no chão, ela pensou que deveria sentir dor, mas nada alcançava sua consciência. Era como se estivesse dormindo. No entanto, se estivesse dormindo, ainda seria capaz de lembrar seu próprio nome. Nos sonhos, durante seus dezoito anos de vida, nunca havia esquecido seu nome. Estranhamente, naquele momento isso pareceu desimportante, tal qual a sensação de pisar sobre o chão malcuidado.
O túnel apertado onde estava era iluminado por luminárias antigas, dependuradas de forma sofrida no teto. Alguns fios expostos transmitiam insegurança, mas a sensação também não foi capaz de alcançar seus pensamentos conscientes. Pichações pouco artísticas cobriam quase a totalidade das paredes do túnel. Delas pouco sentido se fazia, já que eram majoritariamente nomes, números ou símbolos simples.

AMANDA @ CARLOS 😦 JONAS 434 08/12/2000 ISABEL ❤ CABO 6 WESLEY 😀 SAMANTA 13 31 18

Caminhava lentamente, observando as paredes e sentindo o chão tentando agredir seus pés. As mãos tocavam a superfície áspera das paredes, ora acompanhando os contornos das letras desenhadas às pressas sobre o cimento, ora apenas seguindo as linhas pouco exatas das divisões do concreto. Os nomes, símbolos e números ainda não faziam sentido, mas, à medida que caminhava pelo túnel, sua mente se encarregava de entreter-se, criando situações que explicassem o que via nas paredes.

434 foi o número de vezes em que chorei por amor.
Houve a vez em que assisti o pôr do sol em Cabo com Samanta.
Houve a vez em que Wesley disse que eu não era boa o bastante para ele.

Não percebeu quando parou de enxergar o que passava em sua cabeça como invenções e passou a compreendê-las como memórias reais, apenas prosseguiu andando lentamente pelo corredor estreito. Progressivamente estreito. Algum tempo depois (embora ela não seria capaz de pontuar exatamente quanto), percebeu que o túnel se afunilava muito sutilmente. Em seu campo de visão, o fundo escuro e as paredes pareciam apenas obedecer regras de perspectiva, mas, se no começo da caminhada (quando havia sido? Não conseguiu lembrar. Sentia que existia apenas o agora) havia espaço de quase um metro entre o topo de sua cabeça e a parte inferior das luminárias empoeiradas, agora havia menos de dez centímetros.

Decidiu não pensar mais nisso.

Houve aquela vez em que Carlos me enviou um e-mail com a lista feita pelos meninos da minha sala, onde eu constava como “MAIS POSSÍVEL DE ENGRAVIDAR DO INSPETOR DE ALUNOS”
Houve a vez em que eu tinha 13 anos e minha vida mudou.
Houve aquela vez em que Amanda roubou minhas pequenas panelas de brinquedo e atirou-as no rio.
Houve a vez em que Isabel teve uma filha.

Quem é a filha de Isabel?

ARNALDO ISABEL VERÔNICA 73653837-2 ISABEL PRAIA 22

A pergunta persistiu, muito mais pungente que as outras histórias/memórias. As luminárias já estavam na altura de seu rosto e as paredes já estavam a vinte centímetros de seus cotovelos.

Quem é a filha de Isabel?

Já tinha que andar curvada. Os braços tinham pouco espaço para fazerem o movimento natural de balanço ao caminhar.

Quem é a filha de Isabel?

Não viu outra alternativa a não ser apoiar-se nos joelhos e nas mãos para se mover. Nas paredes, as palavras pareciam agora entremeadas por um outro nome, que aparecia muito frequentemente.

VERÔNICA ISABEL ISABEL VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA ARNALDO VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA VERÔNICA ISABEL VERÔNICA

Quando seus cotovelos não tinham mais espaço para se esticarem e ela podia fazer pouco mais do que se arrastar, nas paredes havia apenas um nome.

VERÔNICA.

As paredes comprimiam seu corpo, estranhamente frias e quentes simultaneamente, como uma compressa gelada sobre uma testa febril. Então, quando pareceu impossível continuar, ela pôde vislumbrar o final do túnel. O que lhe parecia apenas sombras provocadas pela profundidade do túnel mostrou-se como a escuridão numa abertura final. Ela teria que se arrastar até lá, mas as paredes a comprimiam quase proibitivamente. Sentia seu peito comprimido pelo chão coberto de pedriscos, mas não sentia dor. Percebeu que Seu peito já não tinha mais espaço para se expandir, então parou de respirar. De alguma forma, estava tudo bem. Não havia pânico. A saída estava quase ao alcance, mas ela não conseguiria esticar os braços para enganchá-los na borda do túnel.

Na parede, à altura de seus olhos, pela última vez, leu a palavra que tanto se repetia. VERÔNICA. Era a última pichação, escrita em letra cursiva, como infantil. Em menos de dez centímetros estava a saída, mas ela estava presa e não entendia como poderia sair. Então, a compreensão atingiu-a como um raio.

Eu sou Verônica, filha de Isabel.

Com a força que os verdadeiros nomes têm, Verônica conseguiu impulsionar-se para fora do túnel claustrofóbico e, agarrando-se nas bordas, puxou a cabeça, depois o tronco, o quadril e finalmente as pernas para fora do túnel de concreto. Olhou para trás, apenas para enxergar a abertura do túnel se fechando aos poucos. Em menos de um minuto, o túnel havia completamente entrado em colapso, deixando para trás aquilo que a rodeava completamente.

O Nada.

Não era uma escuridão profunda, como poucos sortudos conseguem em seus quartos para potencializar o sono noturno. Não era uma escuridão absoluta, como aquela que encontramos ao olhar para dentro de nós e perceber nossa verdadeira natureza vazia. Era uma escuridão feita do mais absoluto Nada, a completa ausência de tudo, inclusive do próprio conceito de Tudo. Mas, contrariando as possibilidades, Verônica estava lá, desafiando o Nada a aceitar sua existência.
Sob seus pés, não via nada, mas a sensação era úmida, como se pisasse numa triste poça de chuva numa tarde fria e cinzenta.

Ao longe, algo pareceu desafiar a inexistência da mesma forma que ela. Uma luz fraca, amarelada, começava a se aproximar. Era difícil calcular, já que a luz tinha Nada para iluminar e não haviam raios nem feixes de luz se estendendo para além de seu contorno puntiforme. Sua mente, enquanto os olhos se hipnotizavam pela luz, gastava grande parte de sua energia escassa repetindo uma única frase:

Eu sou Verônica, filha de Isabel.

Verônica não viu o sangue que pingava de seus braços e pernas arranhados pelas paredes do túnel, descia em gotas e desaparecia na inexistência. Observou por muito tempo (Tempo? Certamente não há Tempo.) a luz que se aproximava lentamente. Conseguiu determinar que seu desenho lembrava muito uma lamparina de óleo. Muito tempo se passou até que visse que a lamparina estava presa a uma haste de madeira. Ainda mais tempo escoou até que Verônica percebesse que esta haste estava sendo mantida erguida por um homem de idade incalculável, que parecia flutuar no Nada. O contorno do barco sob seus pés foi a última coisa que Verônica conseguiu discernir claramente antes que o homem finalmente parasse a embarcação à sua frente.

– Eu sou Verônica, filha de Isabel. – disse Verônica, antes que o homem pudesse dizer qualquer coisa.
– Sim. Onde está a moeda?
– Que moeda?
– A taxa de embarque. Você precisa pagar pelo embarque, Verônica, filha de Isabel.

Ela observou seu corpo pela primeira vez. Não estava vestida, portanto, não tinha bolsos. Não carregava nada. Em sua canela, arranhada pela passagem pelo túnel, encontrou uma tatuagem que mostrava uma coruja, mas nada mais. A coruja tinha dois enormes olhos amarelos e brilhantes, mas ela não percebeu essa possibilidade. Também esqueceu-se de suas patelas e seus próprios olhos.

– Não tenho moeda alguma.
– Então não posso levar você. – Respondeu o barqueiro, com os olhos fixos nos dela.

Verônica não protestou, afinal, não entendia por que deveria embarcar de qualquer forma. Assistiu em silêncio o barqueiro desaparecer no Nada. Apenas uma eternidade depois, percebeu o propósito do homem com a lamparina. Chorou, mas havia apenas o Nada para ouvi-la.

Enquanto isso, onde havia Tudo e não Nada, Isabel também chorava. Sobre o pequeno caixão branco, colocou um coelho branco de pelúcia.

– Nós podemos tentar de novo – sussurrou Arnaldo para Isabel, na tentativa de consolar a esposa. Ainda era visível o inchaço que permanecia no abdômem dela após o parto.
– Mas não será Verônica… – ganiu Isabel, entre lágrimas pesadas.

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sobre o sentido da vida e a verdadeira riqueza

•22 de agosto de 2018 • Deixe um comentário

Em busca do sentido da vida, centenas de milhares de seres humanos pensaram por centenas de milhares de anos, em esforço fútil. Como não sou boa em aprender com os erros dos outros, cá estou eu, me juntando às massas dos que acreditam saber de alguma coisa.
Mas fique com o que eu sei: não há sentido na vida. A vida acontece, apenas acontece, e acontece repetidamente apenas por acontecer. A vida dá um jeito, a vida se esgueira onde tudo parecia perdido. Entre paralelepípedos numa estrada movimentada, há a pequena planta que abriga um pequeno formigueiro. Num telhado, sob forte chuva e raios, a gata dá à luz a uma ninhada de gatinhos que, de alguma forma, sobrevivem para perpetuar a história daquela família felina. No útero da mulher infértil, com muito mais frequência do que o esperado, mais um ser humano consegue se desenvolver, apenas para nascer e questionar a própria existência.
A vida acontece, e esta é a beleza. Não tem sentido, nem aquele que buscamos dar. A vida continuará sem que nossa vontade tenha forças para interferir. Mesmo que nos empenhemos em multiplicá-la, criando filhos, animais ou plantas como se o ecossistema dependesse de nosso esforço, ou mesmo que decidamos exterminá-la, arrancando a planta do paralelepípedo, afogando aquela ninhada de gatos ou causando desastres naturais inimagináveis com nossos atos egoístas, a vida permanecerá.
A vida permanecerá, como sempre aconteceu. Existiu por bilhões de anos antes da infecção humana começar na Terra e permanecerá por outros bilhões depois que a Natureza vencer a doença de Nós, com a facilidade que vencemos um resfriado. Somos apenas uma minúscula parte de um todo, mas a arrogância humana acredita que somos a causa de tudo. Então, qual a beleza da vida, se para ela somos apenas uma doença passageira no Planeta?
De novo, arrisco-me na sabedoria inculta que formo em palavras: a beleza está em reconhecer sua insignificância, sua ínfima parte na história do Universo, entender que, mesmo infinitamente pequeno, você representa uma única e jamais vista combinação de átomos na história do Universo. A beleza está em compreender que, apesar de não ser mais importante que a planta na estrada, você desafiou as probabilidades esmagadoras que ditavam que sua existência era impossível matematicamente. A beleza está em entender que sua vida é tão válida e impossível quanto a do gato recém nascido no telhado, mas que, ao contrário dele, você tem consciência disso já que, por uma coincidência ainda mais impensável do acaso, nasceu humano. A beleza está em entender que, apesar de todas as intercorrências inacreditáveis na história da humanidade, há uma linha sem falhas que percorre toda sua ancestralidade, desde seus pais até as primeiras formas de vida na Terra. Em todas as gerações, por todas as probabilidades incalculáveis, o indivíduo específico que faz parte da sua linhagem permaneceu vivo e deu origem a seu ancestral mais recente. E cada um deles tinha na própria existência a mesma improbabilidade da sua. A beleza, então, está em enxergar a si como parte do todo, como parte da insana maré de acaso que formou seu corpo e sua consciência. Está em ver que são as melhores possíveis as pessoas que por acaso venceram as probabilidades de não existirem e estão ao seu lado: porque além de terem conseguido coincidir com você neste espaço e tempo, te concederam a honra de dar tudo o que temos de verdadeira riqueza para você. O tempo.
Reconhecer a verdadeira riqueza, entender as verdadeiras prioridades da vida e saber o quão improváveis e maravilhosos são todos os seres talvez, para você, não seja o sentido verdadeiro da vida. Talvez a beleza tenha morada em outros lugares, outros conceitos, outros valores. Mas é fato incontestável: se você não tivesse vencido a inexistência, não estaríamos aqui para debater isso, não é mesmo?

lampião

•31 de julho de 2018 • 1 Comentário

Quando ele se foi, disseram a ela que se acendesse um lampião ele encontraria o caminho de volta para casa.

O vento soprou mais forte naquele dia, rugindo através das ruínas da cidade. Quando anoiteceu, apenas a luz do lampião permaneceu, vencendo as brumas e a escuridão quase palpável do mundo caído.

Depois de milênios, entretanto, não havia mais ninguém para enxergar aquele fraco feixe de luz, nem escutar o fraco som que o metal da lanterna fazia ao sacudir sob a força do vento noturno.

a tempestade no espelho

•8 de março de 2018 • 1 Comentário

Com máculas cinzentas no algodão

As nuvens questionando o azul perfeito
Da norma, do correto, a despeito
Sorrio; saúdo a oposição!

O chumbo pesado que pinta o céu
Extingue o sorriso do homem pequeno
Sonhando voltar ao sol, ao ameno
Cerra seu paletó cinza e cruel

Do caos furioso vou ao encontro
Sem pudor nem medo, dispo minha alma
A tempestade lava a dor de dentro

Quando o sol fulgura sobre a cidade
Ainda rio; chove em todo lugar
quando você é a própria tempestade

 

_____________________________

Como eu não tenho bom senso, resolvi iniciar outra faculdade. E foi para a aula de Fundamentos Filosóficos da Psicologia que escrevi este sonetinho. Bem, taí, registrado.

 

o corvo e a morte branca

•19 de julho de 2017 • Deixe um comentário

 

– Repita comigo agora. “Eu não sirvo para nada” – disse o bicho, em sua voz estridente.

– Eu… eu não sirvo para nada – respondi.

– Não foi bom o suficiente. Você está muito fraca esta manhã. Repita, vamos. “Eu não sirvo para nada”.

– Eu não sirvo para nada.

– Melhor, mas não ótimo. Claramente você não serve para isso, nem para mais nada. Pode ir agora. Estou decepcionado com você.

O corvo se transformou em um pingente feito de uma brilhante pedra negra , tão negra que provavelmente nem nome tinha. Pendurei a corrente de prata em volta do meu pescoço como fazia todas as manhãs.

Meus filhos estavam sentados na sala, brigando por causa de um controle de videogame. Eles haviam quebrado o outro, provavelmente por negligência ou violência gratuita. Murmurei na direção deles um “bom dia” desanimado que não foi percebido. O controle, empunhado como uma clava pelo mais novo, atingiu a testa do mais velho, provocando quase instantaneamente um inchaço roxo e disforme.  Meu cumprimento fora inteiramente sobrepujado pelo som da batida do plástico no crânio do meu filho, seguido pelo grito e o palavrão provindos da boca logo abaixo da testa ferida.

Meu marido estava sentado na cozinha, a xícara de café numa mão, o celular em outra. Fingiu um sorriso ao me ver, respondeu o segundo “bom dia” que me forcei a proferir naquele dia e engoliu toda a xícara de uma vez. Estava subitamente atrasado, como todos os dias. Ele sempre ficava atrasado quando eu entrava na cozinha. Saiu, batendo a porta atrás de si. Esqueceu, de novo, de se despedir dos meus filhos. Talvez também tenha esquecido de se despedir de mim, mas eu não tinha certeza.

Eu ainda estava de pijama quando decidi que desta vez eu não sairia para trabalhar. Um sorriso rasgou o meu rosto, inesperadamente. Os músculos faciais quase atrofiados tiveram dificuldade de lembrar o que fazer. Levantei a mão e envolvi o corvo de pedra, sentindo o gelado sobrenatural daquela pequena obra de arte. Andei até o quarto, meus pés determinados sacudindo os tacos de madeira do chão da casa antiga. Lá fora, o sol brilhava forte sobre o ar gelado de outono. Aqui dentro, as cortinas fechadas da sala (para não atrapalhar a televisão dos meninos) deixava passar apenas um feixe insistente de luz que dividia a sala ao meio. Enquanto andava, meus olhos caíram sobre aquela faixa tão clara de sol e meu sorriso se alargou. Olhei mais uma vez para os meninos, que agora pareciam um pouco mais calmos. O mais velho fora vencido pela batida na cabeça; assistia o irmão perder repetidamente o controle do carro simulado na TV. No meu quarto novamente, escolhi no guarda-roupas uma calça jeans e um casaco vermelho de botões que pus sobre uma blusa branca. A blusa tinha uma textura diferente desde que a havia colocado pela última vez, há dois anos quase exatamente. O casaco e a calça também pareciam diferentes. Todos ficaram largos. As costuras tentavam sem sucesso contornar meu corpo emagrecido naquele tempo. Saí de casa, ainda sorrindo.

Minha casa tinha um enorme quintal verde, uma área grande que continha um pequeno bosque, um riacho uma velha lagoa com carpas. As mesmas carpas que meu bisavô havia colocado ali, junto com suas filhas, netas e bisnetas. A estrada que alcançava minha propriedade era pouco movimentada, empoeirada e esburacada e levava tanto para a estrada principal quanto para dentro do bosque. Entrei no meu carro, uma SUV antiga preta, tão sofrida quanto a estrada que eu a forçava rodar sobre. Acelerei, não dando a devida atenção aos buracos, como deveria ser.

Tenho certeza que meus filhos não notaram minha ausência.

Ao invés de seguir a estrada em direção à cidade, como para ir ao trabalho, segui determinada para dentro do bosque. A estrada enegreceu-se quando as árvores densas filtraram a luz forte e clara do sol de outono. Acelerei.

Depois de dez minutos, eu já sabia o que encontraria logo à frente, e meu cérebro tentou convencer-me do contrário. O instinto de sobrevivência insiste em incutir o medo mesmo nas almas mais perdidas, que têm na morte a ideia do alívio supremo. Como há dois anos, segui depois da curva fechada.

Logo à frente, a árvore agigantava-se ao final da curva, encobrindo maldosamente o penhasco que estava logo atrás.

Não se engane, eu sempre soube daquela fenda. Ao longo da infância, minha mãe me alertara repetidas vezes para jamais confiar naquela curva, jamais esquecer que aquele carvalho ancião obscurecia a morte certa. Era uma fenda enorme, recoberta pela vegetação. Parecia uma caverna tão funda que a escuridão não permitia aos mais curiosos descobrir onde terminava. Ninguém havia conseguido entrar e sair novamente para contar a história, minha mãe dissera. Aprendera com a mãe dela, que aprendera com meu bisavô, na mesma época em que  ele enchera a lagoa de carpas.

Eu nunca havia chegado perto da fenda antes daquele dia no outono de dois anos atrás. E não tinha ousado repetir o feito até agora. Joguei displicentemente a SUV num dos cantos da estrada; de que importava?

Atrás do carvalho, a escuridão densa parecia gelar os pés de quem se aproximava. “A fenda não gosta de crianças”, ouvi uma vez de minha mãe. Quantas vezes não deixei de dormir por causa das sombras que tinha certeza que emergiam da fenda todas as noites para vagar pelo bosque?

Desta vez, ao contrário de dois anos atrás, eu sabia exatamente o que encontraria.

Na borda da fenda, apoiei meus pés na pedra rústica. Tirei os sapatos. Todos tiram os sapatos, a mulher tinha me dito da última vez. Fechei os olhos, abri meus braços e deixei a gravidade fazer o que faz de melhor.

A queda pareceu durar anos. O impacto, no entanto, foi tão súbito quanto intenso. Todos os meus ossos se quebraram, meus órgãos escaparam de dentro da carne e meus olhos saltaram para fora de suas órbitas. Apesar disso, ainda estava viva. Senti a estatueta farfalhar.

– O que foi que você fez desta vez? Você não serve para nada mesmo! – grasnou o bicho.

– Vá buscá-la – pedi.

– Por que? Para você estragar tudo de novo?

– Por favor.

Sem responder, o corvo saiu voando pela escuridão. Meus olhos se fixaram em uma série de ossos pequenos na direção da minha cabeça. Discerni o que restava de um pé, provavelmente ainda conectado ao resto do corpo antigo. A calça jeans rasgada e destruída pelo tempo podia ser qualquer uma, mas o casaco vermelho que reluzia com a parca luz que penetrava através da fenda não deixava dúvidas.

Do fundo da caverna, os pés brancos e sujos se aproximavam, exatamente como eu esperava. O andar dela era cauteloso, curioso, como o de uma corça. Apesar disso, quando seus olhos entraram no meu campo de visão, eles exalavam a fúria e sabedoria de uma existência de milhares de milênios. O corpo nu da mulher era do mais absoluto branco, assim como seus olhos sem íris nem pupilas. Os cabelos negros emaranhados estavam cheios de sujeira. De sua boca, um líquido escuro escorria, formando desenhos fluídos em seu queixo, como tatuagens tribais. Seus seios pendiam belos, seu corpo bem formado como o de uma modelo internacional. A imagem era paradoxalmente maravilhosa e aterradora. O corvo a acompanhava, voando em círculos ao redor. Quando ela parou à minha frente e agachou-se para falar comigo, o pássaro preto pousou em seu ombro, cravando as garras em sua carne cor de neve.

– Você quer outra chance? – ela falou, com sua voz feita de terra, medo e imortalidade.

– Não.

– Você se arrepende da última que teve?

– Sim. Não consegui ser feliz. – a calma em minha própria voz diante da Morte me surpreendeu.

– Não adianta fugir para a morte, quando o problema está dentro de você. Você sabe disso?

– Sei. Mas não adiantou viver.

– Claro. Você apenas voltou para casa. O problema estava em você o tempo todo, e continua aí. Você também sabe disso?

– Sei.

– E deseja morrer mesmo assim? Não acha que pode tentar mais uma vez, sabendo o que está errado?

– Eu sei o que está errado.

– Eu também sei. E por isso você vai morrer agora.

Ela estendeu a mão e laçou a corrente de prata que ainda estava em volta do meu pescoço com os dedos longilíneos. Arrancou com um puxão firme. As vértebras quebradas em meu pescoço tiveram uma última chance para protestar antes que eu morresse.

Levantei-me, sem dor, e observei meu novo corpo nu. A carne fora substituída por alguma outra coisa, que não tinha peso.

– Espero que seja feliz agora. Mas vai ser como se mudar esperando que a chuva passe. Chove em todos os lugares quando você é a tempestade. – A mulher falou pausadamente e virou as costas. Enfiou-se na escuridão novamente, o corvo voando ao seu redor.

Quando encontraram a SUV, meu marido soube instintivamente o que tinha acontecido. As equipes de resgate enviaram câmeras para o fundo da caverna, que flagraram o meu corpo junto às dúzias de outros ao redor. “As condições dessa caverna não permitem o resgate, senhor. Peço desculpas, mas o corpo da sua esposa não poderá ser retornado ao senhor. Ela certamente morreu instantaneamente”, o bombeiro dissera. Meu marido derrubou duas lágrimas à beira da caverna, retirou o celular do bolso e avisou sobre a minha morte à mãe dele.

Meus filhos e ele organizaram um pequeno funeral simbólico em casa. Depois, junto à minha mãe e a mãe dele, levaram flores para a beirada da caverna.

Naquele dia, os mortos da fenda levantaram suas cabeças com o aroma dos crisântemos.

Meu corpo imaterial me permitiu visitar minha casa sem que me percebessem. Meus filhos pararam de brigar. Cresceram unidos pela perda da mãe e se tornaram homens de sucesso, respeito. Meu mais velho se casou com um bom homem e adotou duas meninas. O mais novo decidiu não se casar, mas teve um filho com uma moça inteligente e continuavam melhores amigos. Tinham bons empregos. Eram boas pessoas.

Meu marido se casou novamente no outono seguinte à minha morte e engravidou a nova esposa com duas meninas de uma só vez. Eu os observei enquanto as educavam, iam aos seus recitais, seus jogos de vôlei e aulas de desenho. Eu estava lá quando conversavam de madrugada sobre tolices e se amavam apaixonadamente por mais de quarenta anos. Eu estava lá quando ela se foi, e o vi chorar copiosamente pela perda da esposa. Também vi quando ele finalmente se foi, aos noventa e três anos, numa cama ao lado de todos os filhos, netos e bisnetos. A fenda não recebeu novas flores naqueles cinquenta e cinco anos, mas não me importei. Os mortos continuaram quietos.

Quando ele saiu do cemitério, ainda confuso, naquela tarde chuvosa de seu funeral, eu o cumprimentei educadamente, ao longe. Ele sorriu, mas logo desviou o olhar para o amor de sua vida que viera abraçá-lo calorosamente.

No fundo da fenda, deitei-me no frio e dormi. Não estava feliz, a moça estava certa desde o começo. Mas eles tinham sido, então sorri pela última vez.

 

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três urubus

•11 de julho de 2017 • 1 Comentário

Hoje, quando eu saí de casa, três urubus me cumprimentaram. Cumprimentar, na língua deles, significava olhar ameaçadoramente com suas expressões doentias, como se calculassem o melhor jeito de desmembrar minha carcaça em decomposição.

Ao contrário do que os três urubus gostariam, eu estava viva ainda, ao menos em parte. Eles sabiam o que isso significava, e esperavam avidamente o lanche da manhã.

Ajoelhei-me, oferecendo minhas costas nuas, divididas apenas pelas amarras do sutiã envelhecido. Sobre minhas escápulas, pendiam sangrentas minhas asas. O pouco que havia crescido delas desta vez já havia sido mordiscado por todos os outros predadores noturnos. Já não doíam mais; o sangue seco entremeava as penas alvas e os nervos jaziam sem vida. O espaço entre as escápulas, ferido, mas amortecido.

Os três urubus se aproximaram. Sorriam com ferocidade enquanto arrancavam o que restava das asas. Dobravam as penas brancas em seus bicos negros. O meu sangue que sujava suas cabeças depenadas parecia apenas molhar a pele negra e brilhante que se estendia até seus pescoços. Demoraram menos de um minuto para terminarem de arrancar as asas moribundas. Com precisão quase cirúrgica, limparam as feridas paralelas que ficaram, deixando apenas as manchas de sangue para trás. Minhas costas tinham novamente a forma que todos esperavam que tivessem.

Um som metálico indicou que o portão da casa ao lado se abria, como em todas as manhãs. Minha vizinha, ainda de camisola, agachou-se e abriu os botões traseiros da roupa, com dificuldade. As asas dela estavam maiores, mas ainda mais feridas que as minhas. Os urubus avançaram com voracidade sobre ela, arrancando as penas e a carne das asas pendentes.

Fechei minha camisa. Foi um pouco mais fácil encaixar os botões em suas casas, com a ausência do volume nas costas. O tecido azul claro do uniforme de trabalho manchou-se com o sangue das feridas entre as escápulas. As asas da vizinha já haviam sido quase completamente devoradas. Antes que eu pudesse terminar de me recompor, ela já havia levantado, fechado os botões da camisola e retornado para dentro de casa, não sem antes me cumprimentar com um aceno triste e condescendente.

Andei com a bolsa apoiada no ombro, sentindo a alça de couro esfregar-se insistentemente na base da minha asa esquerda. Caminhei apressadamente pela avenida movimentada que levava ao prédio comercial onde eu trabalhava.

Também seguindo pela avenida gigantesca, centenas de pessoas também apertavam seus passos, segurando suas pastas, bolsas, paletós e jalecos, chapéus e capacetes.

Atrás de cada um deles, as manchas de sangue paralelas entre as escápulas maculavam seus uniformes, roupas sociais e de trabalho; em seus rostos, os mesmos olhos mortiços, vazios e esquecidos.

todas as casas têm cheiro

•29 de setembro de 2016 • 5 Comentários

Todas as casas têm cheiro. Normalmente, apenas um aroma característico de cada uma, fracamente perceptível por seus moradores, mas pungente para estranhos. O ar se movimenta de forma diferente, o pó se acumula em lugares peculiares, os moradores utilizam perfumes diferentes, os animais de estimação são únicos de cada moradia.

Depois de um longo dia de trabalho, Edgar afrouxou sua gravata à frente da porta do apartamento. A mão esquerda segurava a pesada pasta de couro enquanto a direita buscava a chave de casa no bolso. Girou a chave na fechadura e entrou, jogando-se no sofá pouco depois de empurrar a porta com o pé sem prestar mais atenção.

O cheiro da casa estava diferente.

Não havia aroma residual de comida, nada diferente do normal. No entanto, a forma que seu nariz reagia à casa trouxe-lhe alguma inquietação. Apesar disso, o cansaço não permitiu a estranheza alcançar a consciência e apenas a traduziu em um arrepio e uma onda de adrenalina fora de contexto. Edgar também não a percebeu.

Quando suas pernas pareceram ligeiramente mais descansadas, decidiu levantar e acomodar o paletó no cabideiro no quarto, onde ele permanecia todos os dias. No quarto, a cama estava desarrumada. “Curioso“, pensou Edgar. “Jurava que tinha ajeitado essas cobertas pela manhã“. Ainda com o paletó nas mãos, observou o cabideiro com espanto.

Havia outro paletó lá.

O paletó era grande, muito maior que seu próprio. Era de um marrom pertencente à uma categoria de cores que Edgar jamais cogitaria comprar. Tinha cheiro de perfume masculino. Não o seu próprio. Observou ao redor, fazendo a recontagem mental dos fatores anômalos que encontrara desde que chegara em casa. O pesar e a raiva se misturaram profundamente em seu peito, trazendo instantaneamente à garganta o que restou do último café que tomara antes de sair do trabalho. “Helena“, pensou ele.

Helena e Edgar eram casados há vinte anos. O único filho que tiveram morreu tragicamente afogado aos cinco anos. Os anos seguintes foram difíceis, mas eles haviam permanecido juntos. Viveram os treze anos desde a tragédia em uma montanha russa emocional complicada, mas que tinha permitido a sobrevivência do casamento. A esposa andava depressiva, calada. ” Será que estava escondendo alguma coisa esse tempo todo? Helena não faria isso comigo… faria?“, pensava ele, repetidamente, enquanto achava mais e mais evidências de outro homem em seu próprio quarto, em sua própria cama.

Então, fazendo outra recontagem, notou que eram evidências demais.

Além do paletó brutalmente marrom e gigantesco, as calças correspondentes estavam penduradas em um cabide em seu armário. As outras roupas que preenchiam o espaço eram igualmente grandes, igualmente de mau gosto. Nenhuma das roupas que ele conhecia tão bem e tinha escolhido e comprado estava ali. Fechou a porta e observou o armário de Helena, apenas para encontrá-lo exatamente como o esperado. Buscando compreensão, caminhou rapidamente até o banheiro da suíte que compartilhava com a esposa. O lado de Helena estava igual ao que ela costumava deixar. Já o dele próprio estava repleto de cosméticos que não eram seus. Cremes de barbear, pentes e perfumes que ele não reconhecia.

A mente de Edgar o traía, o incapacitava de entender a situação com clareza. Saiu do banheiro quase correndo em direção à sala. O ambiente parecia idêntico ao que esperava, alarmantemente idêntico. A cozinha ofereceu a mesma experiência, exceto por todo aquele leite empilhado num dos cantos. Nem ele nem Helena gostavam de leite. “Para que tantas caixas de leite…“, o cérebro enviou ao primeiro nível de sua consciência, futilmente. Enraivecido com a própria pequenez do pensamento, Edgar tomou às mãos uma das embalagens de leite. A incerteza crescente sobre tudo o que conhecia manifestou-se como fúria. A embalagem foi atirada com força contra a parede, espalhando todo seu conteúdo no chão.

As lajotas avermelhadas do chão do apartamento eram impermeáveis, assim como o rejunte que as unia. Edgar tinha absoluta certeza disso, pois havia instalado cada uma delas. O leite escorria lentamente em direção ao ralo perto da pia.

Decidiu observar o cômodo que dividia com Helena como escritório e biblioteca. Na parede ao lado da porta, o diploma de contadora de Helena ostentava o nome da esposa e a data de vinte e dois anos atrás. As manchas que o tempo provocara no documento estavam posicionadas exatamente como Edgar lembrava. Tentou abrir a porta e não conseguiu. Algo bloqueava o arco de abertura. Empurrou com força e um ganido alto e plástico não deixou dúvidas. Um pequeno brinquedo de plástico colorido havia se prendido sob a porta e Edgar acabara de retalhá-lo em dois. No quarto, um beliche e uma cama brancos encostavam-se nas paredes, deixando uma área central repleta de brinquedos. A janela tinha uma cortina com simpáticos dinossauros desenhados.

A mente de Edgar lançava pensamentos confusos como granizo, inundando-o de pânico. Sua pele enregelou-se e seu coração se esqueceu de bater quando ele ouviu o som da fechadura.

Helena.

Helena trabalhava numa empresa mais rígida com o horário e acabava chegando em casa vinte minutos depois de Edgar, em média.

– Mas você PRECISAVA ver a cara dele quando eu disse aquilo, hahahaha! – a voz de Helena ecoou pela sala e corredor, estridente e clara, exatamente como deveria ser. Depois da dela, uma voz grave riu abertamente, com segurança e calma.
– Eu imagino, ha ha ha ha! Você é muito boa nisso, Leninha! – “Leninha, Leninha… ninguém a chama assim, ela sempre detestou… é Helena, só Helena…” assombraram-lhe os pensamentos agressivos.

Edgar enfiou-se o mais silenciosamente que conseguiu para dentro do quarto infantil (seu escritório, ele tinha certeza disso). Não encontrou lugar melhor para se esconder rapidamente além de atrás de um dos beliches, no canto.

– Manhê, o que vamos jantar?, ouviu Edgar, claramente. A voz infantil dirigindo-se a Helena como “mãe” açoitou-lhe profundamente. Não conseguiu impedir uma lágrima de escorrer de seu olho arregalado. Como um animal acuado, ouviu muitos pares de pés se locomovendo firmemente pela casa. Conversas indistintas aconteceram por alguns minutos.

– Crianças, guardem as mochilas no quarto e se troquem para comer, quantas vezes eu vou ter que falar a mesma coisa? – gritou Helena, com a voz que Edgar reconhecia como sua característica “falsa austeridade” que dirigiu tantas vezes a Alberto.

Alberto.”

Os passos pesados que só as crianças são capazes de dar invadiram o quarto, tão familiares, tão cheios de saudade. Edgar ouviu mochilas sendo atiradas sobre camas, sapatos sendo arremessados sem nenhum cuidado para os cantos e roupas atingindo o chão, garantindo broncas futuras dadas eloquentemente por Helena.

“Alberto, é Alberto, é o Alberto, ele está vivo…”, insistia o cérebro de Edgar, tão cruel quanto apenas o luto de um pai pode ser. Não suportou a ideia de coexistir com Alberto sem o observar, pelo menos uma vez. Esgueirou-se o mais furtivamente que conseguiu de seu esconderijo, esticando seu pescoço para enxergar as crianças. “Alberto, onde está você?”. No seu bolso, seu celular tremeu. Apavorado, sem nem olhar a tela, Edgar desligou o aparelho antes que o barulho intenso da vibração chamasse a atenção de alguém.  Uma gota de suor escorreu de sua testa e invadiu seu olho, mas ele estava determinado a enxergar aquela criança. “Alberto… Papai está aqui…

Assim que saiu ligeiramente de seu esconderijo, um pequeno rosto fixou o olhar em sua face. Os olhos do menino se arregalaram. A boca se abriu enormemente e Edgar quase pôde ouvir o grito se formando em sua garganta.

– MÃE!!!! PAI!!! TEM UM HOMEM AQUI! SOCORRO!

Em desespero, Edgar tentou alcançar o braço do menino alarmado para segurar-lhe e explicar a situação, mas apenas conseguiu agarrar o ar. As pernas ligeiras do garoto o levaram rapidamente para longe do invasor. Os outros dois meninos, agora plenamente visíveis, correram juntos em direção à porta. “Não… não era Alberto… onde está Alberto…?”, os pensamentos pulsavam indistintos na mente aterrorizada de Edgar.

– O QUE? TEM O QUE AÍ?
– TEM UM HOMEM AQUI, MÃE!
– Deixa que eu vou lá ver – falou gravemente a voz masculina que havia rido da história de Helena.
– Cuidado, Fábio… quer que eu chame a polícia? – a voz de Helena estava baixa, comedida, mas cheia de adrenalina. Apenas vinte anos de convivência foram capazes de treinar os ouvidos de Edgar para capturar tamanha complexidade de sentimentos naquela voz. Edgar não ouviu resposta.

Passos largos, mas leves, avançavam cuidadosamente da sala em direção ao quarto. Fábio, presumivelmente. Edgar decidiu que manter-se escondido apenas complicaria mais a absurda situação que se desenrolava. Levantou-se e expôs-se claramente no meio do quarto dos três meninos.
Quando Fábio alcançou a porta, um calafrio escalou a espinha de Edgar. O homenzarrão ocupava quase todo o espaço do batente da porta, de altura e largura. O corpo vestia uma farda cinzenta, característica dos bombeiros.

– Eu vou te dar uma chance de explicar que merda é essa. E depois você vai sentar na sala enquanto a polícia não chega. Sem gracinhas. Você vai ter sorte se eu não arrebentar você a ponto de sua própria mãe não se lembrar de você.
Edgar, absolutamente tomado pelo pânico, foi incapaz de formular palavras compreensíveis. Balbuciou sílabas desconexas entre gotas de suor que escorriam de sua testa. Alguns segundos depois, aparentemente cansado de esperar, Fábio avançou rapidamente com o punho em riste. Os olhos de Edgar se fecharam alguns milésimos de segundo antes dos nós dos dedos gigantescos de Edgar atingirem a maçã de seu rosto.
Edgar caiu de joelhos, com sangue escorrendo pela lateral da bochecha. Não foi capaz de reagir. Permaneceu em silêncio. De joelhos, sentiu o pé de Fábio atingir-lhe as costelas. Fábio agachou-se ao seu lado.

– Helena! Está tudo sob controle. O que a polícia disse? Eles vão demorar? – gritou Fábio, estranhamente calmo, enquanto envolvia o pescoço de Edgar num golpe “mata-leão”. Levantou-o à força, arrastando-o imobilizado até a sala, onde atirou-o no sofá.
No seu campo de visão prejudicado pelo soco no rosto havia a sala tão conhecida, os olhos furiosos de Fábio e os três meninos amontoados no canto da sala, com o misto de medo e curiosidade que parece ser o combustível das crianças. Helena lentamente surgiu em sua visão periférica e depois tornou-se perfeitamente clara à sua frente. Seus olhos mostravam incredulidade, medo e, paradoxalmente, ternura.

– E..Edgar?
– Você conhece esse porra, Helena? – perguntou agressivamente Fábio. Em sua mão esquerda, uma aliança dourada brilhava, perfeitamente idêntica (apenas muito maior) à da mão de Helena.
– É meu ex marido, Fábio… o Edgar… você sabe… o pai do Alberto.

Fábio pareceu deixar a ira esvair-se ligeiramente, transformando parte de sua expressão furiosa em curiosidade.

– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI, CACETE? COMO ENTROU AQUI? – perguntou Fábio.

Quase sem som, Edgar balbuciou doloridamente a resposta mais sincera que conseguiu. Não esperava que fosse soar como o mais absoluto sarcasmo.
– Pela porta.

Fábio enfureceu-se mais uma vez e levantou a mão para acertar-lhe na face outro soco, mas a mão fora segurada por Helena.

– Não, Fábio. Não faça isso. Deixa que eu converso com ele.
– Então converse com esse merda antes que eu o arrebente inteiro.
– Não vai arrebentar ninguém, Fábio. O Edgar é um cara bom. Ele certamente tem alguma explicação perfeitamente plausível para o que está acontecendo.
– É BOM MESMO QUE TENHA! Meninos, vão para o quarto e fechem a porta. Tinha mais alguém com você lá? – Fábio dirigia-se a Edgar com a voz trovejante.

Edgar sacudiu a cabeça em negativa quase infantil. Fábio seguiu os três meninos até o quarto e postou-se à porta, como um leão de chácara. Fitava Edgar com os olhos ferozes quase sem piscar. À frente dele, Helena exibia apenas preocupação, confusão e pesar.

– Edgar… o que está fazendo aqui, afinal? Como entrou? – Helena sentou-se no sofá ao seu lado, em posição defensiva e mostrando desconforto.
– Helena… eu moro aqui.
– Você não mora aqui há doze anos, Edgar. O que está acontecendo?
– Não, Helena… eu moro aqui.
– Edgar, eu saberia se você morasse aqui ainda, você não acha?- A voz doce de Helena escondia o sarcasmo característico de sua personalidade. Mais uma vez, como ele conhecia muito bem, Helena perdia o controle e utilizava-se do sarcasmo em horas completamente inadequadas.
– Você não está entendendo, Helena… eu moro aqui. Com você. Somos casados. Alberto… Alberto morreu há treze anos.
– Você só pode estar brincando… como assim? Do que você está falando? Edgar… você está doente? Precisa de um médico?

Edgar não teve resposta. Parecia plausível a especulação de Helena. Alzheimer. Demência. Amnésia. Ele era novo demais para essas coisas, mas tudo é possível, não é mesmo?

– Você está doente, fala pra mim. Sério. Está?
– Eu… eu não sei. Acho que não.
– Vamos começar do começo. Como você veio parar aqui? – Helena havia inserido condescendência na fala. Infantilizou o discurso como se falasse com Alberto. Ou um dos outros filhos dela.
– Eu… fui trabalhar. No escritório. Hoje teve reunião. Com o Maia, sabe? Saí cansado, vim pra casa de ônibus, porque você estava com o carro. Cheguei aqui. Peguei a chave. Entrei.
– Você não tem mais a chave da porta, Edgar, nós trocamos a fechadura alguns anos atrás…
– EXCETO QUE EU TENHO, HELENA! Olha aqui! Olha essa chave! – exaltou-se Edgar. Levantou-se subitamente. Sentiu a dor na costela obviamente partida. Mesmo assim, caminhou decididamente até a porta e enfiou a chave na fechadura. Serviu. Fábio fez menção de sair de seu posto, mas decidiu esperar um pouco mais.
– Mas… como? Como você tem essa chave? – intrigou-se Helena, alarmada.
– A chave é o de menos. Helena, quem é esse cara? Quem são essas crianças? O que aconteceu? Você é minha esposa! Olha só, olha minha aliança!

Os olhos de Helena alcançaram a aliança de Edgar. Vinte anos de uso a tinham deixado opaca, mas era exatamente como ela se lembrava. E exatamente igual à que lembrava de ter devolvido ao ex-marido quando foram vencidos pelo luto e decidiram pela separação, treze anos antes.

– O que… o que está acontecendo… – perguntava Helena, mais para si mesma do que para Edgar ou Fábio.
– Eu não sei, Helena. Entrei aqui, estava tudo diferente. Quem são essas crianças? Me responda, por favor… – Edgar sabia da resposta; sabia que eram filhos de Fábio e Helena, que não faria sentido nenhum serem nada mais do que isso. Mas a simples existência delas torcia seu coração e lhe causava mais dor do que os golpes de Fábio. Como se aqueles três meninos, tão parecidos com Helena, tão parecidos com Alberto, fossem a maior traição que alguém poderia cometer contra seu próprio filho; morto, afogado, enterrado. Esquecido. Substituído.
– São Fabinho, Hélio e Rafael. Meus filhos. Nossos filhos, meus e do Fábio. Fabinho tem nove anos, Hélio e Rafael são gêmeos. Fizeram seis anos mês passado.
– Eu nem sei o que te falar. E o Alberto?
– Como assim, o Alberto? O Alberto morreu, Edgar. Pra que enfiar o dedo nessa ferida?
– Eu… eu… tinha alguma esperança de que isso tivesse mudado também.
– Mudado? Mas tudo está igual! A gente já se separou há tanto tempo… foi o que, um ano depois da morte dele? Eu refiz minha vida e esperava que você tivesse refeito a sua também. Pelo jeito não, e pelo jeito está doente também.
– Deve ser isso mesmo, Helena. – Edgar tentava compreender a situação o melhor que podia. – Devo estar doente mesmo. Acho que vou procurar o Dr. Rodrigues para uns exames. Desculpa, Helena, desculpa…

Helena abraçou Edgar, confortando-o. Seus olhos, marejados, além das lágrimas carregavam dor, compaixão e medo. – Você acha que pode ir agora, Edgar? Embora? Eu realmente queria que você fosse. Não fica chateado. É que… o susto foi grande. Você entende? Você entrou na minha casa do nada. Isso não foi legal, mas eu entendo que você não esteja bem.
– Eu entendo, claro… será que posso ir antes da polícia chegar?
– Vai, Edgar. Vê se fica bem…. e apareça. Quero saber como você vai ficar depois disso, Ok?

Edgar só conseguiu assentir. O peso de vinte anos de companheirismo sobre seus ombros só tornava mais difícil aquela despedida. Ele tinha memórias de como ela havia ganhado cada ruga em seus olhos, cada cicatriz em seu corpo. Todas elas visíveis, tanto na Helena que esperava encontrar quando na Helena que estava parada em sua frente, abraçando a si mesma e com expressão consternada. As mesmas marcas do tempo estavam ali. Apesar disso, a Helena que acreditava ser sua caminhou lentamente para trás e abraçou o homenzarrão com a aliança idêntica à do dedo dela. Com o rosto enterrado em seu peito, fazia os soluços e o choro ecoarem pela sala grande.

A sala da casa dele.

Antes de ir embora, vislumbrou o porta retratos que ele comprara numa liquidação três anos antes. Em sua memória, a foto emoldurada era uma antiga foto de Edgar, Helena e Alberto. O menino tinha perdido seu primeiro dente e exibia orgulhoso o sorriso desfalcado. Ali, viu apenas uma foto artística de Helena, Fábio e os três meninos.

Em algum lugar dentro de si, Edgar agradeceu a chance de ter saído de lá vivo às forças do universo. Ao mesmo tempo, o peso de caminhar sem rumo era grande demais. Para onde ele iria?
Caminhou por muitas horas. A noite veio e se foi. A madrugada trouxe consigo a fome insuportável que matou num fast-food qualquer. Sentou-se num banco e ali adormeceu, abraçado à pasta de trabalho.

Acordou com o sol ardendo em sua face. Levantou-se com dificuldade. Tentou aceitar mais uma vez a ideia de que continuaria sem ter para onde ir. Não conseguiu. Helena haveria de entender, ele precisava tentar de novo. “Só mais uma vez”, ele prometeu a si. “Só mais uma vez eu vou até lá, ela vai entender, a gente vai conversar. Deve haver algum engano. Não é possível. Alguma coisa aconteceu, deve ser brincadeira…”. A torrente confusa de pensamentos que misturavam negação e esperança tomou conta de sua mente. Não conseguiria ir até o trabalho nesta manhã. Veria Helena novamente.

Caminhou o mais rápido que conseguiu, com a mão sobre a costela partida grande parte do tempo. À frente do elevador, açoitou o botão com dedos nervosos, ansioso.

À porta do apartamento, mais uma vez, tudo parecia absolutamente normal. Desta vez, tocou a campainha; não cometeria novamente o erro de entrar em sua própria casa sem ser convidado. A ansiedade era insuportável. Dois, três, cinco, dez minutos. Nada. Aceitou que provavelmente todos haviam saído. Trabalho, escola, vida normal.

Tentou a chave. Acreditava que eles teriam trocado a fechadura depois do bizarro problema no dia anterior, mas tudo estava normal. A chave girou facilmente, cansada de fazer o mesmo movimento por tantos anos.

Todas as casas têm cheiro. Desta vez, Edgar sentiu quase nada. A sensação de familiaridade era tanta que seu corpo encheu-se de esperança. Olhou para o porta retratos perto da porta. Edgar, Helena. Alberto, banguela. “É A MINHA CASA! É A MINHA HELENA!”

– Helena, HELENA! Cadê você? – gritou Edgar, exaltado, misturando ansiedade, felicidade e esperança. Gritou por alguns segundos antes de se lembrar que àquela hora Helena certamente já estaria no trabalho. Abriu um meio sorriso, pensando que deveria deitar em sua própria cama e ter o descanso merecido. Largou a pasta no sofá, displicentemente, ao lado da gravata.
Caminhou até o quarto tocando nas paredes, como se buscasse evidência de realidade, constância. No quarto, tudo estava quieto. Sobre a cama, Helena, deitada.
– Está em casa, afinal! Querida… – disse Edgar, aproximando-se da cama para tocar na esposa e acordá-la.

Quando seus dedos tocaram a pele do braço de Helena, sentiram apenas o frio de quem não está mais ali.
– Ah não, ah não, ah não… Aaaaah…. Helena… Helena…

Algumas horas depois, quando conseguiu chamar polícia para recolher evidências (apenas a caixa vazia dos comprimidos), declarar o óbito (tão inegável quanto sua própria morte eventual) e levar o corpo (Helena, Helena…), Edgar encontrou, sob o travesseiro dele, um pedaço de papel.

A cada linha traçada na caligrafia desenhada da esposa, a tristeza tomou-o tão inteiramente quanto possível.

Morta. E ele a havia visto poucas horas antes, em outra vida. Em outro lugar. Enquanto ele conversava com ela, enquanto sofria pelo marido que lhe quebrara as costelas e os três meninos que substituíram o seu, Helena precisava dele. Helena dependia dele. Enquanto dormia na rua, Helena morria.

Sozinho, com a carta na mão, Edgar deitou ao lado da esposa. Depois de 20 anos, esperou a polícia enquanto admirava as rugas no canto dos olhos de Helena, cavadas pela dor tão imensurável e tão interminável. Talvez, agora, do tamanho da dele próprio.

Edgar, meu amor

Eu fiz uma coisa ruim. Não aguentei a dor, tem dias que Alberto é presente demais. Peguei aqueles remédios e tomei todos, Edgar. Eu tentei ligar para você… antes. Você não atendeu.

Fiquei esperando você voltar do trabalho, eu queria que você me impedisse. Mas você decidiu que hoje seria um bom dia para dormir fora de casa pela primeira vez. Você não me falou nada… liguei para você tantas e tantas vezes, você continuava sem atender. Desligou o celular.
Por que resolveu fazer isso comigo justo hoje, Edgar?

Agora tomei todos aqueles comprimidos. Já me arrependi. Tentei ligar para a ambulância, mas desisti no segundo toque. Se eu for salva, que seja por você.

Eu queria ficar, Edgar. Queria. Mas a dor foi grande demais.

Desculpe por isso.

Por que você não atendeu a droga do telefone?

Desculpe, desculpe, desculpe…

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Em 27 de setembro de 2016, esta bigorna me caiu. No dia seguinte, estava tudo devidamente parido.

Depois da reação das poucas almas a quem submeti este texto, penso que devo pedir desculpas. Acho que talvez tenha sido demais.

Mas, como Edgar, de vez em quando a gente não tem escolhas. Abre a porta errada.

Esse texto é sobre um homem que talvez tenha atravessado um véu proibido entre realidades. Ou, talvez, seja sobre todos nós, e nossa interminável capacidade de olhar o mundo todo e negligenciar o que está na nossa frente, gritando por ajuda.

Talvez as duas coisas.

Como está o cheiro da sua casa hoje?

Mari