Cronochucrutes

•30 de julho de 2017 • Deixe um comentário

Se contarmos duzentos anos a mais a partir do ano em que estamos, teremos um futuro sofrível. Ao menos, muito confuso. Lógico, na nossa ignorância do século 21, imaginamos duzentos anos como um tempo enorme, cheio de novidades robóticas que nos levarão para a glória sustentável: carros voadores, servos metálicos em nossas salas, hortas comunitárias em todos os edifícios, todos os humanos vegetarianos. Todos nós juntos, de mãos dadas (em seus veículos elétricos, drones pessoais ou pods que nos manteriam a uma distância segura uns dos outros, logicamente), em direção a um arco íris maravilhoso, onde comungaríamos com a natureza e redimiríamos o passado destrutivo que construímos por todos aqueles anos.

               Estávamos todos errados, eu diria. Eu sei, eu vi. (Esta é a hora que você deixa de acreditar no que está lendo; mas estou disposto a desafiar a sua descrença e colocar minha credibilidade em jogo por isso). O futuro é um lugar muito esquisito, e eu juro que não vi nenhum carro voador nem robô nem servo metálico. Mas eu vi um prédio curioso, isso eu vi.  Inclusive, desafiando o eco da minha mãe gritando comigo ao entrar na casa da tia Cristina tantos anos antes: “É para ver com os olhos, e não as mãos!”, vi com as mãos também. As mãos, os pés, o nariz. Aliás, a primeira parte minha a conhecer o futuro foi o bumbum.

               Acho que meu amor próprio foi perdido assim, quando estava agachado, alcançando um repolho na geladeira quando percebi que meu bumbum não estava mais no mesmo ambiente. Entenda, eu estava de roupão, em casa, num domingo à noite. Só pretendia cozinhar uma sopa, e não é exigência para cozinhar sopas que estejamos de cuecas. Levantei subitamente, trazendo meu traseiro que viajava para o futuro de volta a 2017 e vi que ele havia se aventurado através de um buraco brilhante que pulsava no meio da minha cozinha. Como um portal mal desenhado de um filme de ficção científica, aquele buraco mostrava através de si uma sala cheia de gente que olhava diretamente para mim, de olhos arregalados e pranchetas luminosas nas mãos. Aqueles jalecos brancos e rostos assombrados me assustaram também (mais por que eles estavam olhando para meu outro lado segundos antes do que pela ideia de estarem através de um portal ridículo na minha cozinha).

               – É ele! É ele! – Gritou um deles, um rapaz gordo, baixo e suarento. Os olhos de mais dois se encheram de lágrimas. Uma mulher desmaiou.

               Eu tinha encontrado o repolho enquanto eles observavam minhas intimidades aventureiras e ainda o agarrava com força. Abracei meu repolho como um urso de pelúcia.

               – Gente, ele não deve estar entendendo nada! Alguém fale alguma coisa para o homem! – gritou uma mulher, obviamente não falando nada para mim.

               – Senhor, é uma honra conhecê-lo! – Disse um rapaz bonito que tinha o rosto coberto por um objeto tecnológico muito complicado e quase certamente inteiramente desnecessário. – Nós estamos aqui para fazer um pedido estranho.

               Eu não conseguia pensar em nada mais estranho do que o que estava acontecendo naquele momento.

               – Precisamos do seu repolho – anunciou ele, pausada e cautelosamente, como quem anuncia uma doença terminal a um paciente.

               – O que? – Consegui pronunciar. Inacreditavelmente ele estava certo, era mesmo um pedido muito estranho.

               – Seu repolho, senhor. Esse que você está segurando agora mesmo. É a coisa mais valiosa que já existiu na história da humanidade.

               Apertei ainda mais o repolho. A hortaliça estava tendo um dia muito confuso também. De jantar foi a objeto de conforto e subitamente tornou-se a coisa mais importante de toda a história.

               – Como meu repolho pode ser a coisa mais valiosa que já existiu na história da humanidade?

               – Nós vamos explicar tudo para o senhor, se você puder, por gentileza, atravessar o portal e vier conversar conosco. Apenas passe o repolho, se puder.

               Já estava começando a entender o quanto ele valia e o que poderia significar. Não passei o repolho. Se eu podia ficar rico com o vegetalzinho, pode ter certeza que eu iria. O mercado da corretagem de imóveis não andava muito bem mesmo.

               Os cientistas se inquietaram.

               – Não vou passar o repolho coisíssima nenhuma. – Respondi, resoluto.

               – Mas senhor, é imprescindível que esse repolho esteja em segurança.

               – Então vocês vão ter que me levar junto. Que negócio é esse de pedir meu repolho sem me dar nenhum retorno? Quero conhecer esse lugar aí onde estão!

               – Não é onde, senhor. Estamos no mesmo lugar. Estamos em outra época. Pelos meus cálculos, duzentos anos à frente da sua linha do tempo.

               Eu já estava tão confuso que a menção de um portal através do tempo não me preocupou mais de forma nenhuma.

               – Certo, duzentos anos à frente. Pelo jeito a humanidade continua feia – disse eu, olhando para um dos cientistas de jaleco, com um rosto que parecia ter servido de alvo para uma brincadeira de encaixar os olhos e nariz às cegas.

               Todos me olharam impacientemente. O que parecia ter tomado a liderança desde o começo continuou a falar:

               – Senhor, entre aqui, então. Você pode se sentir um pouco enjoado.

               Atravessei o portal, da forma mais altiva que consegui. Segurava o repolho como um filho. Logicamente, tropecei na borda do portal e caí, de lado, por cima do repolho. Felizmente, o repolho era uma hortaliça particularmente resiliente e não esboçou reação por ter absorvido meu impacto. Infelizmente, o roupão cedeu ao mundo mais uma visão do meu traseiro peludo. Droga.

               Os homens de jaleco do futuro me ajudaram a levantar, não parecendo incomodados com a segunda visão do meu bumbum em poucos minutos.

               – Se fizer o favor de nos acompanhar, senhor, podemos conversar enquanto passeamos pelo prédio. Mas o portal é instável e vai durar menos de uma hora, não podemos demorar – falou o cientista. A voz dele parecia um pouco carregada de incerteza. – Esta área aqui é dedicada à pesquisa quântica de herbáceos hidropônicos elípticos, logo ali à frente há o setor de prevenção e controle de acidentes com tomates. Se você virar aqui à esquerda, encontrará o pátio solar de coleta de cogumelos subterrâneos.

               – Mas que tipo de lugar é esse? Nada disso fez sentido! – Indaguei, confuso. Eu ainda estava tentando compreender a abertura do portal. Começava a me arrepender de ter insistido pelo passeio no futuro.

               – É claro que nada disso fez sentido para o senhor, seu conhecimento científico é limitado pela sua linha temporal antiquada.

               – Você não me respondeu que lugar é esse.

               – Mas é claro que respondi, senhor.

               – Não, não respondeu! E não disse para que quer o meu repolho!

               – Logicamente, senhor. Tudo será respondido.

               Logicamente, tudo não foi respondido. Fiquei progressivamente mais confuso à medida que o homem de jaleco me levava por lugares iluminados, cheios de cientistas concentrados e vegetais sob holofotes coloridos e redomas de vidro.

               – E assim, terminamos o nosso tour onde começamos, senhor. Agora, se não se importa, por favor, ceda a hortaliça.

               – Só vou ceder a hortaliça quando eu entender o que vocês querem com o meu jantar.

               – Precisamos dele para conduzir a pesquisa de instabilidade celular no centro de pesquisa quântica de herbáceos hidropônicos elípticos, onde sou o pesquisador-chefe.

               – Mas precisa ser especificamente o meu repolho?

               – Temo que sim, senhor. O seu repolho é exatamente o que precisamos para completar a pesquisa que vai salvar a humanidade.

               – A humanidade vai ser salva por um repolho de 2017?

               – É, acho que o senhor resumiu bem.

               – É que eu vou ficar sem jantar se eu lhe der o meu repolho.

               – Podemos pagar o que você quiser, senhor.

               – O que eu quiser?

               – Nosso orçamento é quase ilimitado.

               – Então eu gostaria de um milhão de dólares, por favor.

               – Não utilizamos mais dólares no futuro, senhor. A moeda corrente é a Estrela Triangular Intergaláctica.

               – Então me vê um milhão de Estrelas Triangulares Intergalácticas , por favor.

               – Certo. Podemos repor o seu repolho por um repolho do seu futuro para que o senhor possa jantar adequadamente.

               – Acho que podemos fechar o negócio, então.

               – Vou escrever o cheque e buscar o seu repolho de reposição. – Ele fez um sinal para outro cientista, que andou até mim e esticou os braços, à espera do meu repolho.

               Entreguei a hortaliça rotunda ao cientista e esperei cinco minutos pelo meu pagamento. Me entregaram um repolho ridiculamente igual ao que vendi, e o cheque de um milhão de Estrelas Triangulares Intergalácticas escrito num papel verde. Me conduziram de volta ao portal. Na sala, menos cientistas acompanhavam minha partida, mas ouvi muitas recomendações de como preparar meu repolho de reposição. Todas elas envolviam ingredientes que nunca ouvi falar. Alguns agradeceram.

               Atravessei o portal, tropecei mais uma vez (mas dessa vez, não caí!). O portal se fechou atrás de mim.  Sentei numa cadeira bamba que deixo ao lado da mesa de fórmica azul da cozinha. Observei o repolho. Ele não me observava, porque era, afinal, apenas um repolho.

Depois de tudo isso, a vontade de comer sopa de repolho foi embora. Deixei a hortaliça em cima da mesa e observei o cheque de um milhão de Estrelas Triangulares Intergalácticas enquanto telefonava para a pizzaria.

               Quando o homem chegou com a pizza (que não tinha repolho algum na receita), ele disse que não aceitava Estrelas Triangulares Intergalácticas como forma de pagamento. Decidi pagar com meu cartão de crédito mesmo. Não tive outra opção.

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o corvo e a morte branca

•19 de julho de 2017 • Deixe um comentário

 

– Repita comigo agora. “Eu não sirvo para nada” – disse o bicho, em sua voz estridente.

– Eu… eu não sirvo para nada – respondi.

– Não foi bom o suficiente. Você está muito fraca esta manhã. Repita, vamos. “Eu não sirvo para nada”

– Eu não sirvo para nada.

– Melhor, mas não ótimo. Claramente você não serve para isso, nem para mais nada. Pode ir agora. Estou decepcionado com você.

O corvo se transformou em um pingente feito de uma pedra negra brilhante, tão negra que provavelmente nem nome tinha. Pendurei a corrente de prata em volta do meu pescoço como eu fazia todas as manhãs.

Meus filhos estavam sentados na sala, brigando por causa de um controle de videogame. Eles haviam quebrado o outro, provavelmente por negligência ou violência gratuita. Murmurei um “bom dia” desanimado na direção deles que não foi percebido. O controle, segurado como uma clava pelo mais novo, atingiu a testa do mais velho, provocando um inchaço roxo quase instantaneamente. Meu cumprimento fora inteiramente sobrepujado pelo som da a batida do plástico no crânio do meu filho, seguido pelo grito e o palavrão provindos da boca logo abaixo da testa ferida.

Meu marido estava sentado na cozinha, uma xícara de café numa mão, o celular em outra. Fingiu um sorriso ao me ver, respondeu o segundo “bom dia” que me forcei a proferir naquele dia e engoliu toda a xícara de uma vez. Estava subitamente atrasado, como todos os dias. Ele sempre ficava atrasado quando eu entrava na cozinha. Saiu, batendo a porta atrás de si. Esqueceu, de novo, de se despedir dos meus filhos. Talvez também tenha esquecido de se despedir de mim, mas eu não tinha certeza.

Eu ainda estava de pijama quando decidi que naquele dia eu não sairia para trabalhar. Um sorriso rasgou o meu rosto, inesperadamente. Os músculos quase atrofiados tiveram dificuldade de lembrar o que fazer. Levantei a mão e envolvi o corvo de pedra, sentindo o gelado sobrenatural daquela pequena obra de arte. Andei até o quarto. Meus pés determinados sacudiram os tacos de madeira do chão da casa antiga. Lá fora, o sol brilhava forte sobre o ar gelado de outono. Aqui dentro, as cortinas fechadas da sala (para não atrapalhar a televisão dos meninos) deixava passar apenas um feixe insistente de luz que dividia a sala ao meio. Enquanto andava, meus olhos caíram sobre aquela faixa tão clara de sol e meu sorriso se alargou. Olhei mais uma vez para os meninos, que agora pareciam um pouco mais calmos. O mais velho fora vencido pela batida na cabeça; assistia o irmão enquanto ele perdia novamente o controle do carro simulado na TV. No meu quarto novamente, escolhi no guarda-roupas uma calça jeans e um casaco vermelho de botões que pus sobre uma blusa branca. A blusa tinha uma textura diferente desde que a havia colocado pela última vez, há dois anos quase exatamente. O casaco e a calça também pareciam diferentes. Todos ficaram largos. As costuras tentavam sem sucesso contornar meu corpo emagrecido naquele tempo. Saí de casa, ainda sorrindo.

Minha casa tinha um enorme quintal verde, uma área grande que continha um pequeno bosque, um riacho uma velha lagoa com carpas. As mesmas carpas que meu bisavô havia colocado ali, junto com suas filhas, netas e bisnetas. A estrada que alcançava minha propriedade era pouco movimentada, empoeirada e esburacada e levava tanto para a estrada principal quanto para dentro do bosque. Entrei no meu carro, uma SUV antiga preta, tão sofrida quanto a estrada que eu a forçava rodar sobre. Acelerei, não dando a devida atenção aos buracos, como deveria ser.

Tenho certeza que meus filhos não notaram minha ausência.

Ao invés de seguir a estrada em direção à cidade, como naquele dia, segui determinada para dentro do bosque. A estrada enegreceu-se quando as árvores densas filtraram a luz forte e clara do sol de outono. Acelerei.

Depois de dez minutos, eu já sabia o que encontraria logo à frente, e meu cérebro tentou convencer-me do contrário. O instinto de sobrevivência insiste em incutir o medo mesmo nas almas mais perdidas, nas almas que têm na morte a ideia do alívio supremo. Como há dois anos, segui depois da curva fechada.

Logo à frente, a árvore agigantava-se ao final da curva, encobrindo maldosamente o penhasco que estava logo atrás.

Não se engane, eu sempre soube daquela fenda. Minha mãe sempre me alertou para jamais confiar naquela curva, jamais esquecer que aquele carvalho ancião obscurecia a morte certa. Era uma fenda enorme, encoberta pela vegetação. Parecia uma caverna tão funda que a escuridão não permitia aos mais curiosos descobrir onde terminava. Ninguém havia conseguido entrar e sair novamente para contar a história, minha mãe me disse. Aprendera com a mãe dela, que aprendera com meu bisavô, na mesma época em que encheu a lagoa de carpas.

Eu nunca tinha chegado perto da fenda antes daquele dia no outono de dois anos atrás. E não tinha ousado repetir o feito até agora. Joguei a SUV num dos cantos da estrada, displicentemente; de que importava?

Atrás do carvalho, a escuridão densa parecia gelar os pés de quem se aproximava. “A fenda não gosta de crianças”, ouvi uma vez de minha mãe. Quantas vezes não deixei de dormir por causa das sombras que tinha certeza que emergiam da fenda todas as noites para vagar pelo bosque?

Desta vez, ao contrário de dois anos atrás, eu sabia exatamente o que encontraria.

Na borda da fenda, apoiei meus pés na pedra rústica. Tirei os sapatos. Todos tiram os sapatos, a mulher tinha me dito da última vez. Fechei os olhos, abri meus braços e deixei a gravidade fazer o que faz de melhor.

A queda pareceu durar anos. O impacto, no entanto, fora tão súbito quanto intenso. Todos os meus ossos se quebraram, meus órgãos escaparam de dentro da carne e meus olhos saltaram. Apesar disso, ainda estava viva. Senti a estatueta farfalhar.

– O que foi que você fez desta vez? Você não serve para nada mesmo! – grasnou o bicho.

– Vá buscá-la – pedi.

– Por que? Para você estragar tudo de novo?

– Por favor.

Sem responder, o corvo saiu voando pela escuridão. Meus olhos se fixaram em uma série de ossos pequenos na direção da minha cabeça. Discerni o que restava de um pé, provavelmente ainda conectado ao resto do corpo antigo. A calça jeans rasgada e destruída pelo tempo podia ser qualquer uma, mas o casaco vermelho que reluzia com a parca luz que penetrava através da fenda não deixava dúvidas.

Do fundo da caverna, os pés brancos e sujos se aproximavam, exatamente como eu esperava. O andar dela era cauteloso, curioso, como o de uma corça. Apesar disso, quando seus olhos entraram no meu campo de visão, eles exalavam a fúria e sabedoria de uma existência de milhares de anos. O corpo nu da mulher era do mais absoluto branco, assim como seus olhos sem íris nem pupilas. Os cabelos negros emaranhados estavam cheios de sujeira. De sua boca, um líquido escuro escorria, formando desenhos fluídos em seu queixo, como tatuagens tribais. Seus seios pendiam belos, seu corpo bem formado como o de uma modelo internacional. A imagem era paradoxalmente maravilhosa. O corvo a acompanhava, voando em círculos ao redor. Quando ela parou à minha frente e agachou-se para falar comigo, o pássaro preto pousou em seu ombro, cravando as garras em sua carne cor de neve.

– Você quer outra chance? – ela falou, com sua voz feita de terra, medo e imortalidade.

– Não.

– Você se arrepende da última que teve?

– Sim. Não consegui ser feliz. – a calma em minha própria voz diante da Morte me surpreendeu.

– Não adianta fugir para a morte, quando o problema está dentro de você. Você sabe disso?

– Sei. Mas não adiantou viver.

– Claro. Você apenas voltou para casa. O problema estava em você o tempo todo, e continua aí. Você também sabe disso?

– Sei.

– E deseja morrer mesmo assim? Não acha que pode tentar mais uma vez, sabendo o que está errado?

– Eu sei o que está errado.

– Eu também sei. E por isso você vai morrer agora.

Ela estendeu a mão e laçou a corrente de prata que ainda estava em volta do meu pescoço com os dedos longilíneos. Arrancou com um puxão firme. As vértebras quebradas em meu pescoço tiveram uma última chance para protestar antes que eu morresse.

Levantei-me, sem dor, e observei meu corpo nu. A carne fora substituída por alguma outra coisa, que não tinha peso.

– Espero que seja feliz agora. Mas vai ser como se mudar esperando que a chuva passe. Chove em todos os lugares quando você é a tempestade. – A mulher falou pausadamente e virou as costas. Enfiou-se na escuridão novamente, o corvo voando ao seu redor.

Quando encontraram a SUV, meu marido soube instintivamente o que tinha acontecido. As equipes de resgate enviaram câmeras para o fundo da caverna, que flagraram o meu corpo junto às dúzias de outros ao redor. “As condições dessa caverna não permitem o resgate, senhor. Peço desculpas, mas o corpo da sua esposa não poderá ser retornado ao senhor. Ela certamente morreu instantaneamente”, o bombeiro dissera. Meu marido derrubou duas lágrimas à beira da caverna, retirou o celular do bolso e avisou sobre a minha morte à mãe dele.

Meus filhos e ele organizaram um pequeno funeral simbólico em casa. Depois, junto à minha mãe e a mãe dele, levaram flores para a beirada da caverna.

Naquele dia, os mortos da fenda levantaram suas cabeças com o aroma dos crisântemos.

Meu corpo imaterial me permitiu visitar minha casa sem que me percebessem. Meus filhos pararam de brigar. Cresceram unidos pela perda da mãe e se tornaram homens de sucesso, respeito. Meu mais velho se casou com um bom homem e adotou duas meninas. O mais novo decidiu não se casar, mas teve um filho com uma moça inteligente e continuavam melhores amigos. Tinham bons empregos. Eram boas pessoas.

Meu marido se casou novamente no outono seguinte à minha morte e engravidou a nova esposa com duas meninas de uma só vez. Eu os observei enquanto as educavam, iam aos seus recitais, seus jogos de vôlei e aulas de desenho. Eu estava lá quando conversavam de madrugada sobre tolices e se amavam apaixonadamente por mais de quarenta anos. Eu estava lá quando ela se foi, e o vi chorar copiosamente pela perda da esposa. Também vi quando ele finalmente se foi, aos noventa e três anos, numa cama ao lado de todos os filhos, netos e bisnetos. A fenda não recebeu novas flores naqueles cinquenta e cinco anos, mas não me importei. Os mortos continuaram quietos.

Quando ele saiu do cemitério, ainda confuso, naquela tarde chuvosa de seu funeral, eu o cumprimentei educadamente, ao longe. Ele sorriu, mas logo desviou o olhar para o amor de sua vida que viera abraçá-lo calorosamente.

No fundo da fenda, deitei-me no frio e dormi. Não estava feliz, a moça estava certa desde o começo. Mas eles tinham sido, então sorri pela última vez.

 

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três urubus

•11 de julho de 2017 • 1 Comentário

Hoje, quando eu saí de casa, três urubus me cumprimentaram. Cumprimentar, na língua deles, significava olhar ameaçadoramente com suas expressões doentias, como se calculassem o melhor jeito de desmembrar minha carcaça em decomposição.

Ao contrário do que os três urubus gostariam, eu estava viva ainda, ao menos em parte. Eles sabiam o que isso significava, e esperavam avidamente o lanche da manhã.

Ajoelhei-me, oferecendo minhas costas nuas, divididas apenas pelas amarras do sutiã envelhecido. Sobre minhas escápulas, pendiam sangrentas minhas asas. O pouco que havia crescido delas desta vez já havia sido mordiscado por todos os outros predadores noturnos. Já não doíam mais; o sangue seco entremeava as penas alvas e os nervos jaziam sem vida. O espaço entre as escápulas, ferido, mas amortecido.

Os três urubus se aproximaram. Sorriam com ferocidade enquanto arrancavam o que restava das asas. Dobravam as penas brancas em seus bicos negros. O meu sangue que sujava suas cabeças depenadas parecia apenas molhar a pele negra e brilhante que se estendia até seus pescoços. Demoraram menos de um minuto para terminarem de arrancar as asas moribundas. Com precisão quase cirúrgica, limparam as feridas paralelas que ficaram, deixando apenas as manchas de sangue para trás. Minhas costas tinham novamente a forma que todos esperavam que tivessem.

Um som metálico indicou que o portão da casa ao lado se abria, como em todas as manhãs. Minha vizinha, ainda de camisola, agachou-se e abriu os botões traseiros da roupa, com dificuldade. As asas dela estavam maiores, mas ainda mais feridas que as minhas. Os urubus avançaram com voracidade sobre ela, arrancando as penas e a carne das asas pendentes.

Fechei minha camisa. Foi um pouco mais fácil encaixar os botões em suas casas, com a ausência do volume nas costas. O tecido azul claro do uniforme de trabalho manchou-se com o sangue das feridas entre as escápulas. As asas da vizinha já haviam sido quase completamente devoradas. Antes que eu pudesse terminar de me recompor, ela já havia levantado, fechado os botões da camisola e retornado para dentro de casa, não sem antes me cumprimentar com um aceno triste e condescendente.

Andei com a bolsa apoiada no ombro, sentindo a alça de couro esfregar-se insistentemente na base da minha asa esquerda. Caminhei apressadamente pela avenida movimentada que levava ao prédio comercial onde eu trabalhava.

Também seguindo pela avenida gigantesca, centenas de pessoas também apertavam seus passos, segurando suas pastas, bolsas, paletós e jalecos, chapéus e capacetes.

Atrás de cada um deles, as manchas de sangue paralelas entre as escápulas maculavam seus uniformes, roupas sociais e de trabalho; em seus rostos, os mesmos olhos mortiços, vazios e esquecidos.

todas as casas têm cheiro

•29 de setembro de 2016 • 5 Comentários

Todas as casas têm cheiro. Normalmente, apenas um aroma característico de cada uma, fracamente perceptível por seus moradores, mas pungente para estranhos. O ar se movimenta de forma diferente, o pó se acumula em lugares peculiares, os moradores utilizam perfumes diferentes, os animais de estimação são únicos de cada moradia.

Depois de um longo dia de trabalho, Edgar afrouxou sua gravata à frente da porta do apartamento. A mão esquerda segurava a pesada pasta de couro enquanto a direita buscava a chave de casa no bolso. Girou a chave na fechadura e entrou, jogando-se no sofá pouco depois de empurrar a porta com o pé sem prestar mais atenção.

O cheiro da casa estava diferente.

Não havia aroma residual de comida, nada diferente do normal. No entanto, a forma que seu nariz reagia à casa trouxe-lhe alguma inquietação. Apesar disso, o cansaço não permitiu a estranheza alcançar a consciência e apenas a traduziu em um arrepio e uma onda de adrenalina fora de contexto. Edgar também não a percebeu.

Quando suas pernas pareceram ligeiramente mais descansadas, decidiu levantar e acomodar o paletó no cabideiro no quarto, onde ele permanecia todos os dias. No quarto, a cama estava desarrumada. “Curioso“, pensou Edgar. “Jurava que tinha ajeitado essas cobertas pela manhã“. Ainda com o paletó nas mãos, observou o cabideiro com espanto.

Havia outro paletó lá.

O paletó era grande, muito maior que seu próprio. Era de um marrom pertencente à uma categoria de cores que Edgar jamais cogitaria comprar. Tinha cheiro de perfume masculino. Não o seu próprio. Observou ao redor, fazendo a recontagem mental dos fatores anômalos que encontrara desde que chegara em casa. O pesar e a raiva se misturaram profundamente em seu peito, trazendo instantaneamente à garganta o que restou do último café que tomara antes de sair do trabalho. “Helena“, pensou ele.

Helena e Edgar eram casados há vinte anos. O único filho que tiveram morreu tragicamente afogado aos cinco anos. Os anos seguintes foram difíceis, mas eles haviam permanecido juntos. Viveram os treze anos desde a tragédia em uma montanha russa emocional complicada, mas que tinha permitido a sobrevivência do casamento. A esposa andava depressiva, calada. ” Será que estava escondendo alguma coisa esse tempo todo? Helena não faria isso comigo… faria?“, pensava ele, repetidamente, enquanto achava mais e mais evidências de outro homem em seu próprio quarto, em sua própria cama.

Então, fazendo outra recontagem, notou que eram evidências demais.

Além do paletó brutalmente marrom e gigantesco, as calças correspondentes estavam penduradas em um cabide em seu armário. As outras roupas que preenchiam o espaço eram igualmente grandes, igualmente de mau gosto. Nenhuma das roupas que ele conhecia tão bem e tinha escolhido e comprado estava ali. Fechou a porta e observou o armário de Helena, apenas para encontrá-lo exatamente como o esperado. Buscando compreensão, caminhou rapidamente até o banheiro da suíte que compartilhava com a esposa. O lado de Helena estava igual ao que ela costumava deixar. Já o dele próprio estava repleto de cosméticos que não eram seus. Cremes de barbear, pentes e perfumes que ele não reconhecia.

A mente de Edgar o traía, o incapacitava de entender a situação com clareza. Saiu do banheiro quase correndo em direção à sala. O ambiente parecia idêntico ao que esperava, alarmantemente idêntico. A cozinha ofereceu a mesma experiência, exceto por todo aquele leite empilhado num dos cantos. Nem ele nem Helena gostavam de leite. “Para que tantas caixas de leite…“, o cérebro enviou ao primeiro nível de sua consciência, futilmente. Enraivecido com a própria pequenez do pensamento, Edgar tomou às mãos uma das embalagens de leite. A incerteza crescente sobre tudo o que conhecia manifestou-se como fúria. A embalagem foi atirada com força contra a parede, espalhando todo seu conteúdo no chão.

As lajotas avermelhadas do chão do apartamento eram impermeáveis, assim como o rejunte que as unia. Edgar tinha absoluta certeza disso, pois havia instalado cada uma delas. O leite escorria lentamente em direção ao ralo perto da pia.

Decidiu observar o cômodo que dividia com Helena como escritório e biblioteca. Na parede ao lado da porta, o diploma de contadora de Helena ostentava o nome da esposa e a data de vinte e dois anos atrás. As manchas que o tempo provocara no documento estavam posicionadas exatamente como Edgar lembrava. Tentou abrir a porta e não conseguiu. Algo bloqueava o arco de abertura. Empurrou com força e um ganido alto e plástico não deixou dúvidas. Um pequeno brinquedo de plástico colorido havia se prendido sob a porta e Edgar acabara de retalhá-lo em dois. No quarto, um beliche e uma cama brancos encostavam-se nas paredes, deixando uma área central repleta de brinquedos. A janela tinha uma cortina com simpáticos dinossauros desenhados.

A mente de Edgar lançava pensamentos confusos como granizo, inundando-o de pânico. Sua pele enregelou-se e seu coração se esqueceu de bater quando ele ouviu o som da fechadura.

Helena.

Helena trabalhava numa empresa mais rígida com o horário e acabava chegando em casa vinte minutos depois de Edgar, em média.

– Mas você PRECISAVA ver a cara dele quando eu disse aquilo, hahahaha! – a voz de Helena ecoou pela sala e corredor, estridente e clara, exatamente como deveria ser. Depois da dela, uma voz grave riu abertamente, com segurança e calma.
– Eu imagino, ha ha ha ha! Você é muito boa nisso, Leninha! – “Leninha, Leninha… ninguém a chama assim, ela sempre detestou… é Helena, só Helena…” assombraram-lhe os pensamentos agressivos.

Edgar enfiou-se o mais silenciosamente que conseguiu para dentro do quarto infantil (seu escritório, ele tinha certeza disso). Não encontrou lugar melhor para se esconder rapidamente além de atrás de um dos beliches, no canto.

– Manhê, o que vamos jantar?, ouviu Edgar, claramente. A voz infantil dirigindo-se a Helena como “mãe” açoitou-lhe profundamente. Não conseguiu impedir uma lágrima de escorrer de seu olho arregalado. Como um animal acuado, ouviu muitos pares de pés se locomovendo firmemente pela casa. Conversas indistintas aconteceram por alguns minutos.

– Crianças, guardem as mochilas no quarto e se troquem para comer, quantas vezes eu vou ter que falar a mesma coisa? – gritou Helena, com a voz que Edgar reconhecia como sua característica “falsa austeridade” que dirigiu tantas vezes a Alberto.

Alberto.”

Os passos pesados que só as crianças são capazes de dar invadiram o quarto, tão familiares, tão cheios de saudade. Edgar ouviu mochilas sendo atiradas sobre camas, sapatos sendo arremessados sem nenhum cuidado para os cantos e roupas atingindo o chão, garantindo broncas futuras dadas eloquentemente por Helena.

“Alberto, é Alberto, é o Alberto, ele está vivo…”, insistia o cérebro de Edgar, tão cruel quanto apenas o luto de um pai pode ser. Não suportou a ideia de coexistir com Alberto sem o observar, pelo menos uma vez. Esgueirou-se o mais furtivamente que conseguiu de seu esconderijo, esticando seu pescoço para enxergar as crianças. “Alberto, onde está você?”. No seu bolso, seu celular tremeu. Apavorado, sem nem olhar a tela, Edgar desligou o aparelho antes que o barulho intenso da vibração chamasse a atenção de alguém.  Uma gota de suor escorreu de sua testa e invadiu seu olho, mas ele estava determinado a enxergar aquela criança. “Alberto… Papai está aqui…

Assim que saiu ligeiramente de seu esconderijo, um pequeno rosto fixou o olhar em sua face. Os olhos do menino se arregalaram. A boca se abriu enormemente e Edgar quase pôde ouvir o grito se formando em sua garganta.

– MÃE!!!! PAI!!! TEM UM HOMEM AQUI! SOCORRO!

Em desespero, Edgar tentou alcançar o braço do menino alarmado para segurar-lhe e explicar a situação, mas apenas conseguiu agarrar o ar. As pernas ligeiras do garoto o levaram rapidamente para longe do invasor. Os outros dois meninos, agora plenamente visíveis, correram juntos em direção à porta. “Não… não era Alberto… onde está Alberto…?”, os pensamentos pulsavam indistintos na mente aterrorizada de Edgar.

– O QUE? TEM O QUE AÍ?
– TEM UM HOMEM AQUI, MÃE!
– Deixa que eu vou lá ver – falou gravemente a voz masculina que havia rido da história de Helena.
– Cuidado, Fábio… quer que eu chame a polícia? – a voz de Helena estava baixa, comedida, mas cheia de adrenalina. Apenas vinte anos de convivência foram capazes de treinar os ouvidos de Edgar para capturar tamanha complexidade de sentimentos naquela voz. Edgar não ouviu resposta.

Passos largos, mas leves, avançavam cuidadosamente da sala em direção ao quarto. Fábio, presumivelmente. Edgar decidiu que manter-se escondido apenas complicaria mais a absurda situação que se desenrolava. Levantou-se e expôs-se claramente no meio do quarto dos três meninos.
Quando Fábio alcançou a porta, um calafrio escalou a espinha de Edgar. O homenzarrão ocupava quase todo o espaço do batente da porta, de altura e largura. O corpo vestia uma farda cinzenta, característica dos bombeiros.

– Eu vou te dar uma chance de explicar que merda é essa. E depois você vai sentar na sala enquanto a polícia não chega. Sem gracinhas. Você vai ter sorte se eu não arrebentar você a ponto de sua própria mãe não se lembrar de você.
Edgar, absolutamente tomado pelo pânico, foi incapaz de formular palavras compreensíveis. Balbuciou sílabas desconexas entre gotas de suor que escorriam de sua testa. Alguns segundos depois, aparentemente cansado de esperar, Fábio avançou rapidamente com o punho em riste. Os olhos de Edgar se fecharam alguns milésimos de segundo antes dos nós dos dedos gigantescos de Edgar atingirem a maçã de seu rosto.
Edgar caiu de joelhos, com sangue escorrendo pela lateral da bochecha. Não foi capaz de reagir. Permaneceu em silêncio. De joelhos, sentiu o pé de Fábio atingir-lhe as costelas. Fábio agachou-se ao seu lado.

– Helena! Está tudo sob controle. O que a polícia disse? Eles vão demorar? – gritou Fábio, estranhamente calmo, enquanto envolvia o pescoço de Edgar num golpe “mata-leão”. Levantou-o à força, arrastando-o imobilizado até a sala, onde atirou-o no sofá.
No seu campo de visão prejudicado pelo soco no rosto havia a sala tão conhecida, os olhos furiosos de Fábio e os três meninos amontoados no canto da sala, com o misto de medo e curiosidade que parece ser o combustível das crianças. Helena lentamente surgiu em sua visão periférica e depois tornou-se perfeitamente clara à sua frente. Seus olhos mostravam incredulidade, medo e, paradoxalmente, ternura.

– E..Edgar?
– Você conhece esse porra, Helena? – perguntou agressivamente Fábio. Em sua mão esquerda, uma aliança dourada brilhava, perfeitamente idêntica (apenas muito maior) à da mão de Helena.
– É meu ex marido, Fábio… o Edgar… você sabe… o pai do Alberto.

Fábio pareceu deixar a ira esvair-se ligeiramente, transformando parte de sua expressão furiosa em curiosidade.

– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI, CACETE? COMO ENTROU AQUI? – perguntou Fábio.

Quase sem som, Edgar balbuciou doloridamente a resposta mais sincera que conseguiu. Não esperava que fosse soar como o mais absoluto sarcasmo.
– Pela porta.

Fábio enfureceu-se mais uma vez e levantou a mão para acertar-lhe na face outro soco, mas a mão fora segurada por Helena.

– Não, Fábio. Não faça isso. Deixa que eu converso com ele.
– Então converse com esse merda antes que eu o arrebente inteiro.
– Não vai arrebentar ninguém, Fábio. O Edgar é um cara bom. Ele certamente tem alguma explicação perfeitamente plausível para o que está acontecendo.
– É BOM MESMO QUE TENHA! Meninos, vão para o quarto e fechem a porta. Tinha mais alguém com você lá? – Fábio dirigia-se a Edgar com a voz trovejante.

Edgar sacudiu a cabeça em negativa quase infantil. Fábio seguiu os três meninos até o quarto e postou-se à porta, como um leão de chácara. Fitava Edgar com os olhos ferozes quase sem piscar. À frente dele, Helena exibia apenas preocupação, confusão e pesar.

– Edgar… o que está fazendo aqui, afinal? Como entrou? – Helena sentou-se no sofá ao seu lado, em posição defensiva e mostrando desconforto.
– Helena… eu moro aqui.
– Você não mora aqui há doze anos, Edgar. O que está acontecendo?
– Não, Helena… eu moro aqui.
– Edgar, eu saberia se você morasse aqui ainda, você não acha?- A voz doce de Helena escondia o sarcasmo característico de sua personalidade. Mais uma vez, como ele conhecia muito bem, Helena perdia o controle e utilizava-se do sarcasmo em horas completamente inadequadas.
– Você não está entendendo, Helena… eu moro aqui. Com você. Somos casados. Alberto… Alberto morreu há treze anos.
– Você só pode estar brincando… como assim? Do que você está falando? Edgar… você está doente? Precisa de um médico?

Edgar não teve resposta. Parecia plausível a especulação de Helena. Alzheimer. Demência. Amnésia. Ele era novo demais para essas coisas, mas tudo é possível, não é mesmo?

– Você está doente, fala pra mim. Sério. Está?
– Eu… eu não sei. Acho que não.
– Vamos começar do começo. Como você veio parar aqui? – Helena havia inserido condescendência na fala. Infantilizou o discurso como se falasse com Alberto. Ou um dos outros filhos dela.
– Eu… fui trabalhar. No escritório. Hoje teve reunião. Com o Maia, sabe? Saí cansado, vim pra casa de ônibus, porque você estava com o carro. Cheguei aqui. Peguei a chave. Entrei.
– Você não tem mais a chave da porta, Edgar, nós trocamos a fechadura alguns anos atrás…
– EXCETO QUE EU TENHO, HELENA! Olha aqui! Olha essa chave! – exaltou-se Edgar. Levantou-se subitamente. Sentiu a dor na costela obviamente partida. Mesmo assim, caminhou decididamente até a porta e enfiou a chave na fechadura. Serviu. Fábio fez menção de sair de seu posto, mas decidiu esperar um pouco mais.
– Mas… como? Como você tem essa chave? – intrigou-se Helena, alarmada.
– A chave é o de menos. Helena, quem é esse cara? Quem são essas crianças? O que aconteceu? Você é minha esposa! Olha só, olha minha aliança!

Os olhos de Helena alcançaram a aliança de Edgar. Vinte anos de uso a tinham deixado opaca, mas era exatamente como ela se lembrava. E exatamente igual à que lembrava de ter devolvido ao ex-marido quando foram vencidos pelo luto e decidiram pela separação, treze anos antes.

– O que… o que está acontecendo… – perguntava Helena, mais para si mesma do que para Edgar ou Fábio.
– Eu não sei, Helena. Entrei aqui, estava tudo diferente. Quem são essas crianças? Me responda, por favor… – Edgar sabia da resposta; sabia que eram filhos de Fábio e Helena, que não faria sentido nenhum serem nada mais do que isso. Mas a simples existência delas torcia seu coração e lhe causava mais dor do que os golpes de Fábio. Como se aqueles três meninos, tão parecidos com Helena, tão parecidos com Alberto, fossem a maior traição que alguém poderia cometer contra seu próprio filho; morto, afogado, enterrado. Esquecido. Substituído.
– São Fabinho, Hélio e Rafael. Meus filhos. Nossos filhos, meus e do Fábio. Fabinho tem nove anos, Hélio e Rafael são gêmeos. Fizeram seis anos mês passado.
– Eu nem sei o que te falar. E o Alberto?
– Como assim, o Alberto? O Alberto morreu, Edgar. Pra que enfiar o dedo nessa ferida?
– Eu… eu… tinha alguma esperança de que isso tivesse mudado também.
– Mudado? Mas tudo está igual! A gente já se separou há tanto tempo… foi o que, um ano depois da morte dele? Eu refiz minha vida e esperava que você tivesse refeito a sua também. Pelo jeito não, e pelo jeito está doente também.
– Deve ser isso mesmo, Helena. – Edgar tentava compreender a situação o melhor que podia. – Devo estar doente mesmo. Acho que vou procurar o Dr. Rodrigues para uns exames. Desculpa, Helena, desculpa…

Helena abraçou Edgar, confortando-o. Seus olhos, marejados, além das lágrimas carregavam dor, compaixão e medo. – Você acha que pode ir agora, Edgar? Embora? Eu realmente queria que você fosse. Não fica chateado. É que… o susto foi grande. Você entende? Você entrou na minha casa do nada. Isso não foi legal, mas eu entendo que você não esteja bem.
– Eu entendo, claro… será que posso ir antes da polícia chegar?
– Vai, Edgar. Vê se fica bem…. e apareça. Quero saber como você vai ficar depois disso, Ok?

Edgar só conseguiu assentir. O peso de vinte anos de companheirismo sobre seus ombros só tornava mais difícil aquela despedida. Ele tinha memórias de como ela havia ganhado cada ruga em seus olhos, cada cicatriz em seu corpo. Todas elas visíveis, tanto na Helena que esperava encontrar quando na Helena que estava parada em sua frente, abraçando a si mesma e com expressão consternada. As mesmas marcas do tempo estavam ali. Apesar disso, a Helena que acreditava ser sua caminhou lentamente para trás e abraçou o homenzarrão com a aliança idêntica à do dedo dela. Com o rosto enterrado em seu peito, fazia os soluços e o choro ecoarem pela sala grande.

A sala da casa dele.

Antes de ir embora, vislumbrou o porta retratos que ele comprara numa liquidação três anos antes. Em sua memória, a foto emoldurada era uma antiga foto de Edgar, Helena e Alberto. O menino tinha perdido seu primeiro dente e exibia orgulhoso o sorriso desfalcado. Ali, viu apenas uma foto artística de Helena, Fábio e os três meninos.

Em algum lugar dentro de si, Edgar agradeceu a chance de ter saído de lá vivo às forças do universo. Ao mesmo tempo, o peso de caminhar sem rumo era grande demais. Para onde ele iria?
Caminhou por muitas horas. A noite veio e se foi. A madrugada trouxe consigo a fome insuportável que matou num fast-food qualquer. Sentou-se num banco e ali adormeceu, abraçado à pasta de trabalho.

Acordou com o sol ardendo em sua face. Levantou-se com dificuldade. Tentou aceitar mais uma vez a ideia de que continuaria sem ter para onde ir. Não conseguiu. Helena haveria de entender, ele precisava tentar de novo. “Só mais uma vez”, ele prometeu a si. “Só mais uma vez eu vou até lá, ela vai entender, a gente vai conversar. Deve haver algum engano. Não é possível. Alguma coisa aconteceu, deve ser brincadeira…”. A torrente confusa de pensamentos que misturavam negação e esperança tomou conta de sua mente. Não conseguiria ir até o trabalho nesta manhã. Veria Helena novamente.

Caminhou o mais rápido que conseguiu, com a mão sobre a costela partida grande parte do tempo. À frente do elevador, açoitou o botão com dedos nervosos, ansioso.

À porta do apartamento, mais uma vez, tudo parecia absolutamente normal. Desta vez, tocou a campainha; não cometeria novamente o erro de entrar em sua própria casa sem ser convidado. A ansiedade era insuportável. Dois, três, cinco, dez minutos. Nada. Aceitou que provavelmente todos haviam saído. Trabalho, escola, vida normal.

Tentou a chave. Acreditava que eles teriam trocado a fechadura depois do bizarro problema no dia anterior, mas tudo estava normal. A chave girou facilmente, cansada de fazer o mesmo movimento por tantos anos.

Todas as casas têm cheiro. Desta vez, Edgar sentiu quase nada. A sensação de familiaridade era tanta que seu corpo encheu-se de esperança. Olhou para o porta retratos perto da porta. Edgar, Helena. Alberto, banguela. “É A MINHA CASA! É A MINHA HELENA!”

– Helena, HELENA! Cadê você? – gritou Edgar, exaltado, misturando ansiedade, felicidade e esperança. Gritou por alguns segundos antes de se lembrar que àquela hora Helena certamente já estaria no trabalho. Abriu um meio sorriso, pensando que deveria deitar em sua própria cama e ter o descanso merecido. Largou a pasta no sofá, displicentemente, ao lado da gravata.
Caminhou até o quarto tocando nas paredes, como se buscasse evidência de realidade, constância. No quarto, tudo estava quieto. Sobre a cama, Helena, deitada.
– Está em casa, afinal! Querida… – disse Edgar, aproximando-se da cama para tocar na esposa e acordá-la.

Quando seus dedos tocaram a pele do braço de Helena, sentiram apenas o frio de quem não está mais ali.
– Ah não, ah não, ah não… Aaaaah…. Helena… Helena…

Algumas horas depois, quando conseguiu chamar polícia para recolher evidências (apenas a caixa vazia dos comprimidos), declarar o óbito (tão inegável quanto sua própria morte eventual) e levar o corpo (Helena, Helena…), Edgar encontrou, sob o travesseiro dele, um pedaço de papel.

A cada linha traçada na caligrafia desenhada da esposa, a tristeza tomou-o tão inteiramente quanto possível.

Morta. E ele a havia visto poucas horas antes, em outra vida. Em outro lugar. Enquanto ele conversava com ela, enquanto sofria pelo marido que lhe quebrara as costelas e os três meninos que substituíram o seu, Helena precisava dele. Helena dependia dele. Enquanto dormia na rua, Helena morria.

Sozinho, com a carta na mão, Edgar deitou ao lado da esposa. Depois de 20 anos, esperou a polícia enquanto admirava as rugas no canto dos olhos de Helena, cavadas pela dor tão imensurável e tão interminável. Talvez, agora, do tamanho da dele próprio.

Edgar, meu amor

Eu fiz uma coisa ruim. Não aguentei a dor, tem dias que Alberto é presente demais. Peguei aqueles remédios e tomei todos, Edgar. Eu tentei ligar para você… antes. Você não atendeu.

Fiquei esperando você voltar do trabalho, eu queria que você me impedisse. Mas você decidiu que hoje seria um bom dia para dormir fora de casa pela primeira vez. Você não me falou nada… liguei para você tantas e tantas vezes, você continuava sem atender. Desligou o celular.
Por que resolveu fazer isso comigo justo hoje, Edgar?

Agora tomei todos aqueles comprimidos. Já me arrependi. Tentei ligar para a ambulância, mas desisti no segundo toque. Se eu for salva, que seja por você.

Eu queria ficar, Edgar. Queria. Mas a dor foi grande demais.

Desculpe por isso.

Por que você não atendeu a droga do telefone?

Desculpe, desculpe, desculpe…

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Em 27 de setembro de 2016, esta bigorna me caiu. No dia seguinte, estava tudo devidamente parido.

Depois da reação das poucas almas a quem submeti este texto, penso que devo pedir desculpas. Acho que talvez tenha sido demais.

Mas, como Edgar, de vez em quando a gente não tem escolhas. Abre a porta errada.

Esse texto é sobre um homem que talvez tenha atravessado um véu proibido entre realidades. Ou, talvez, seja sobre todos nós, e nossa interminável capacidade de olhar o mundo todo e negligenciar o que está na nossa frente, gritando por ajuda.

Talvez as duas coisas.

Como está o cheiro da sua casa hoje?

Mari

NaNoWriMo – O Legado

•17 de novembro de 2015 • Deixe um comentário

Este é um post diferente.

Claro, eu normalmente não falo aqui como se fosse uma pessoa, apenas um robô com problemas de caráter e uma personalidade sociopata.
Curiosa e inesperadamente, eu sou MAIS do que isso! Estou participando do desafio de escrever um livro de 50.000 palavras durante o mês de novembro.

O desafio se chama NaNoWriMo, ou National Novel Writing Month. Meu pequeno livro é sobre o legado de um grupo chamado Amlugnehtar, ou “Matadores de Dragão”, depois de um acontecimento importante em Faerûn. Sim, eu disse Faerûn, e esse acontecimento envolve Tiamat. Does that ring a bell? 😀 O link na imagem abaixo é para os status do meu livro.

nanowrimo
Logicamente, não poderia colocar aqui tudo o que estou escrevendo, mas se a curiosidade aflorar de alguma forma, deixo aqui o link, é só clicar na imagem abaixo. 🙂

amlugbanner.fw

Já aviso que é só uma brincadeira, mas está se mostrando uma brincadeira BEM GRANDE.

É isso? É, é isso.

pesadelo

•9 de outubro de 2015 • Deixe um comentário

A dor encurvava suas costas como se ele tentasse carregar o mundo todo. Antes um profissional altivo, sorridente e brilhante, agora sofria a perda, todos os dias. Apagaram seus olhos, tomaram sua vivacidade, embruteceram suas feições antes tão gentis.

Com seu chapéu surrado, encostava-se na parede de um prédio abandonado. A testa franzida enquanto acendia o sexto cigarro denunciava sua preocupação e paciência. A chuva cessara há quase uma hora, mas uma garoa fina persistia e insistia que a rua devia permanecer encharcada. Seu rosto permanecia oculto pelo ângulo do chapéu, e seu corpo coberto por um velho sobretudo claro.

Aguardava pacientemente o surgimento de seu pesadelo. Não um pesadelo comum; um homem maltrapilho que a atacara bêbado, ou um mafioso que a tomara por vingança. Seu pesadelo levara sua esposa por pura maldade. E o homem, contrário a todas as outras pessoas, o enxergava. E havia decidido pela vingança, nem que levasse toda a eternidade.

Numa cadeira de rodas, um rapaz franzino se aproximava, levado lentamente por uma enfermeira rotunda. Seus olhos pareciam vazios a esta distância, e sua cabeça lisa exposta ao frio e à umidade desafiava o bom senso. Acima dos ombros do rapaz, seu pesadelo espreitava, com suas grandes garras esfumaçadas enterradas na lateral direita do corpo do rapaz, e seu olhar demoníaco se fixou no rosto do homem de chapéu. Percebeu que sua existência fora notada. O urro que ecoou pelas ruas fora tão ensurdecedor que todos ali teriam enlouquecido, se fossem capazes de ouvir. O rapaz na cadeira de rodas não titubeou. A enfermeira não incluiu pausa no discurso sobre como ele deveria usar um chapéu se quisesse visitar sua mãe como uma surpresa em noites frias. O homem não fora notado nem por enfermeira nem paciente.

Arrancando com violência as garras do fígado do rapaz, o pesadelo saltou sobre ele e pousou logo à frente do homem. O rapaz subitamente levou suas mãos à lateral do corpo. Ao ser indagado pela enfermeira, expôs dor súbita e lancinante. Ela pareceu preocupada e apressou o passo, na esperança de examiná-lo ao chegar à casa de sua mãe.

O pesadelo aguardava o homem de chapéu em posição de ataque. Suas mandíbulas abriam e fechavam ameaçadoramente, evidenciando uma fileira de dentes negros pontiagudos. O corpo magro, como derivado de um casamento profano entre réptil e inseto, reluzia à iluminação amarelada da rua. O exoesqueleto estava intacto, e brilhava sutilmente em suas aberturas entre as costelas. De dentro da caixa torácica, um brilho alaranjado emanava do lado direito do corpo do demônio; esticou seus chifres para trás, e com mais um urro infernal executou o bote bem planejado.

O homem, experiente, aproveitou a posição do tórax do pesadelo enquanto este avançava e cravou-lhe sua adaga por entre as costelas, atingindo a fonte do brilho alaranjado. Com movimentos convulsivos, o pesadelo caiu no chão, desfez-se em milhares de insetos pequenos que se dispersaram imediatamente.

O homem respirou fundo. Conseguiu erguer um pouco mais suas costas, e seus olhos alcançaram o rapaz na cadeira de rodas, que já se afastava. Um meio sorriso se fez, ao pensar que aquele rapaz teria outra chance. À amarrotada foto da esposa que retirou da carteira prometeu eterna devoção, beijou-a e derramou uma lágrima. No inverso, anotou mais um tracinho. Já não havia mais espaço para quase nenhum, e sua preocupação agora era decidir qual seria a próxima foto de seu grande amor que usaria em sua vingança.

Na semana seguinte, ao examinar os testes de seu paciente, o médico teve que informar ao rapaz que seu tumor havia sido completamente curado, contra todas as expectativas. A enfermeira roliça que o acompanhava derramou uma lágrima; sua mãe o abraçava e chorava de emoção, rindo e murmurando “Obrigada, obrigada, obrigada”, ao médico.
Ao final da consulta, ele tirou o jaleco, colocou seu sobretudo claro e seu chapéu surrado e foi acender mais cigarros à espera de seus pacientes e seus pesadelos.

estrela da manhã

•16 de setembro de 2015 • 1 Comentário

No início havia um castelo. Suas paredes eram negras; o silício em sua composição emprestava um brilho difuso, esparso, aos tijolos irregulares. No céu acima, réplicas perfeitas dos pequenos pontos brilhantes tremeluziam em constelações infantes.

Neste castelo havia um rei. Seus olhos eram brancos e cegos, pois ao nascer, não havia nada para ser visto. Mesmo que nunca tivesse havido mais ninguém além dele, a solidão, ainda inominável, o tornara estoico. O rei então, nomeou-se ao mesmo tempo que ao sentimento; Solidão. Quando a dor do sentimento incompreensível tomou a forma de lágrimas geladas em seu rosto, Solidão arrancou sua própria costela, e dela moldou uma bela esposa. Não podia vê-la, mas sentia sua pele macia. Sabia que a tinha feito pálida como a neve, com olhos violetas e longos cabelos negros. Sentia sua pele nua, e a tomou ali mesmo. Seu troféu, sua vitória. Nomeou-a; Orgulho.

Orgulho, impassível, não era cega como seu marido, pai, irmão e criador. Ao contrário, enxergava tão bem que ao fundo dos olhos de Solidão enxergava apenas o vazio. O Rei a tinha como posse, seu diamante precioso; Orgulho não suportava as mãos ressecadas do velho Rei invadindo-a, mas sua natureza a impedia de render-se. Aguentava todos os dias, de cabeça erguida.

Ela então deu à luz uma criança, que fora concebida durante o único momento de fraqueza de Orgulho. Numa noite, enquanto seu marido a usava, uma única lágrima escorrera de seu rosto. A criança era uma bela menina, a quem nomeou Melancolia.

Melancolia, apesar de sombria, pareceu ser necessária, remediadora. Orgulho gastava seus dias inteiros ensinando a menina sobre a Realidade, contando as estrelas que insistiam em aparecer e criando flores brilhantes no jardim eterno do Castelo. Solidão era visto de outra forma pela esposa, como o provedor de sua luz. Orgulho ainda o recebia, mas mostrava-se mais participativa, mais carinhosa. Solidão suspeitou que talvez ela até o quisesse ali.

Solidão percebera que aqueles sentimentos não eram naturais a ele; caminhou até alcançar os limites do castelo e desapareceu. Sua inexistência não afetou sua criação, as estrelas nem a Realidade.

Orgulho permaneceu plantando e colhendo flores com melancolia, que se tornavam cada dia mais brilhantes. Mesmo depois de anos após a partida do marido, viu-se grávida. A criança que pariu era um menino, de pele mais clara do que as estrelas e brilhante como as flores. Nomeou-o; Luz.

Luz era uma criança agitada, sorridente. Um dia, ao correr pelo castelo e jardins, Luz escorregou e caiu. Por décadas permaneceu em queda constante, aparentemente eterna. Quando o chão finalmente fez-se existir sob seus pés, pousou delicadamente e percebeu-se em uma planície avermelhada, infinda.

Soube, mesmo sem chaves nem portas, que aquele era seu reino. Procurou por eras por seu trono. Quando estava pronto, finalmente inteiro, o encontrou. Seu lugar havia permanecido ali, intocado, desde que seu coração se apaziguara da queda; esperava apenas que Luz se tornasse inteiro. Crescera; era um homem de feições gentis e coração imaculado.

Sentado no trono, Luz percebeu, vindo do horizonte como o nascer do sol, um belo rapaz de olhos azuis e largo sorriso. Enormes asas brancas estendiam-se de suas escápulas. Luz nomeou-o; Amor. Uma estrela surgiu brilhante no céu da Criação. Na Terra, a nomearam; Estrela da Manhã. Luz e Amor reinaram por eras em sua planície avermelhada, acolhendo a todos que os buscavam e oferecendo-lhes a Verdade.

Orgulho nunca mais vira seu filho, e ocupara o resto de sua eternidade plantando sementes inférteis. O jardim nunca mais floresceu, moribundo tal qual os olhos de Orgulho. Melancolia reinara por várias eras; sua criação é cruel, doentia e sem esperanças. Ainda assim, a Estrela da Manhã brilhava forte, tocando corações na criação inóspita de Melancolia, acendendo almas em meio à escuridão.