Moira

•16 de fevereiro de 2016 • Deixe um comentário

Ao acomodar-se na cadeira rígida da sala de espera do médico, Moira não conseguia desfazer-se do celular em suas mãos. A tela parecia hipnotizante, com as letras brilhantes entre imagens e pequenas animações. As fotos que ela tão avidamente observava, cada uma por no máximo um segundo ou dois, eram quase sempre de rostos sorridentes, acompanhados por pequenas frases motivacionais.
A rede social era apenas a base do vício, mas Moira não parecia nem se sentia diferente de mais ninguém. Toda a geração dela tinha o celular como uma extensão de seu corpo; as redes sociais eram a forma primária de conhecer pessoas novas e interagir no dia a dia.

“Moira”

“Moira!”

“Tem alguma Moira aqui?”

Finalmente, Moira percebeu que era chamada pela atendente para que entrasse no consultório. Levantou-se com rapidez, desajeitando-se com a bolsa aberta, o celular nas mãos. Não observou o rosto da atendente que a guiava em direção ao consultório do médico. Sentada na cadeira sem estofado, observou brevemente o rosto do médico quando ouviu que a boca do doutor formava um “Bom dia” seco.

Durante os cinco minutos de conversa, comentou vagamente sobre sua insônia e ansiedade. O médico não perguntou mais do que ela compartilhou espontaneamente e permaneceu em silêncio enquanto preenchia algumas receitas para remédios controlados. Enquanto a caneta rabiscava furiosamente os blocos azuis, os olhos de Moira já estavam novamente entre os dedos que desenhavam padrões curiosos em seu celular.

Em um canto superior da sala, cobrindo a junção de teto e duas paredes, havia uma massa grande de carne escura, brilhante, disforme. Partes se estendiam como tentáculos e pseudópodos para que a criatura se fixasse no canto. Olhos e bocas se revezavam entre os orifícios profanos que a carne exibia. O corpo todo pulsava doentiamente, como a respiração curta e superficial de um animal agonizante, e a criatura se movia inquieta. Onde as protuberâncias haviam estado, havia um rastro de muco grosso. Sua presença parecia ignorada pelo médico. Moira não a notou mesmo a menos de três metros da cadeira onde estava sentada.

Agradeceu, guardou as receitas dobradas dentro da bolsa que continuava aberta e saiu do consultório. Decidiu que passaria na farmácia no caminho. Com os remédios numa pequena sacola de papel, andava sem observar seus passos, com o celular entre os olhos e o chão. Em seu ombro, um pedaço de carne escura e pulsante se agarrava ao tecido de sua roupa, escapando com facilidade dos olhos vidrados de Moira.

Naquela noite, tomou dois dos comprimidos que comprara na farmácia, esperando que seu sono fosse ser melhor. Deitou-se com a luz do celular iluminando em um feixe cônico sua face e mãos. Permaneceu assim até que adormeceu, ainda com o aparelho nas mãos. Do espaço aconchegante na nuca, entre as mechas de cabelo castanho de Moira, a criatura pequena e orgânica, latejante como um coração de galinha saiu, esticando seus tentáculos e seu corpo disforme. Aumentando visivelmente de tamanho, a criatura espalhou-se por todo o corpo de moira, esticando-se e a envolvendo como em um casulo repleto de olhos, tentáculos e orifícios.

Moira acordou, sentindo-se um pouco diferente. Acreditava ter exagerado na dose do remédio. Desligou o despertador mecânico que a despertara, ainda tremelicante no criado mudo. Levantou-se, lavou o rosto, escovou os dentes. À frente da porta do apartamento pequeno, mas charmoso, Moira recolheu o jornal daquela manhã e tomou seu mingau de aveia lendo as notícias do dia.
Era domingo e ela pretendia aproveitar cada segundo dele em sua casa. Sentou-se à frente da televisão, pegou suas agulhas e suas linhas de tricô. Enquanto a programação banal de domingo vomitava baboseiras através da tela curva, à frente de um grande cubo amarronzado de compensado, seus dedos habilmente teciam formas circulares, como mandalas. Ela emendava linhas vermelhas, marrons e cor de carne, ocasionalmente formando um olho, deixando um orifício ou produzindo longas pontas. Suas agulhas desenhavam o décimo primeiro olho no tecido que produzia quando ela percebeu que não havia consultado seu celular naquele dia.
Ao lembrar-se da existência do aparelho, percebeu também que aquilo parecia um delírio, que tal aparelho jamais existira. A televisão explicava a importância do café da manhã.

Mesmo duvidando de sua vida toda sem conhecer tal aparelho, varreu com os olhos a sala, à procura de algo que se assemelhasse ao que tinha certeza que fazia parte de sua vida. A sala charmosa tinha decorações antigas de seu tempo de casada, seu marido há muito falecido. Retratos de seus netos se espalhavam pelo aparador e estante, ao lado do telefone marcado por repetidas discagens. O disco amarelado tinha o número de seu próprio telefone colado em um papel em seu centro. Desistiu de procurar o aparelho inexistente. Seus dedos insistiram em voltar a tricotar, o tecido se formando como um lençol que pesava sobre seu corpo. Depois de sete horas, decidiu levantar-se para observar seu trabalho. Não sentia fome mesmo o relógio denunciando a chegada do fim da tarde. Segurando a linha que ainda se estendia da ponta do tecido até sua mão, tentou levantar-se, mas não teve força suficiente. O tecido, agora cheio de pontas disformes, olhos e orifícios envolveu suas pernas e pelve, segurando-a fortemente no sofá.

Assustada, tentava libertar-se do abraço impensável do tecido, mas toda luta parecia em vão. Percebeu que ainda segurava a ponta do tecido e suas agulhas. Com a outra mão, alcançou a tesoura que havia deixado na outra extremidade do sofá. Tentando manter a calma, escolheu o tamanho do fio que restava, cortando-o com a tesoura muito afiada de costura. Antes mesmo de o fio cortado ser levado pela gravidade, o tecido era carne, latejante, quente e profana. Os olhos todos se voltaram para o rosto de Moira, úmidos, injetados.

Com a ponta da linha ainda na mão, tentou escapar do abraço maldito daquela criatura, mas os tentáculos feitos de pesadelo alcançaram seus braços, seu rosto, seus seios. Em cada orifício de seu corpo ela foi invadida pelas protuberâncias febris. Sentia dentro de sua cabeça as pontas tentando perfurar seus tímpanos. Quando os tentáculos conseguiram ultrapassar seus olhos e alcançar o cérebro pelas órbitas, Moira ainda se sentia consciente.

Mais consciente do que nunca.

A criatura a tomou por completo, fazendo dela parte da massa, incluindo seus olhos entre os dela, sua carne tecida entre as do pesadelo.

A consciência tornou-se coletiva, sabia que era parte de algo muito maior, algo muito mais antigo, constante, intangível. Sabia que a tentativa de contemplar o todo de quem era custaria a sanidade de quem tentasse.

Moira acordou, desligou o despertador de seu celular. Sentia-se um pouco vazia, mas atribuiu a sensação aos remédios que engolira na noite anterior.
Desconectou seu celular do carregador, enfiou-o entre os dedos e deitou-se de qualquer jeito no sofá. Era domingo, e pretendia aproveitar cada minuto dele em sua casa.
Em cima do encosto de seu sofá havia uma curiosa manta vermelha escura, com círculos vazados e olhos, com protuberâncias e tentáculos representados em lã. A adquirira em uma feira de antiguidades, de uma senhora cega que exibia objetos variados.
Se tivesse observado, teria percebido que naquela manhã, ao atirar-se displicentemente no sofá, todos os olhos da manta, incrivelmente, haviam se voltado para ela. Se ela tivesse prestado atenção, teria sentido a manta se deslocar lentamente em sua direção, envolvendo-a como uma mãe a um filho numa noite fria.
Se estivesse atenta, teria percebido que durante algum tempo teve dificuldade para respirar. Quando finalmente largou o celular, seu rosto já estava se tornando azul e suas pernas se debatiam sob o casulo que a manta criara ao redor dela.
Desfaleceu, depois faleceu.

Seus olhos mortos fitaram o teto até que se desfizessem, o corpo ainda envolvido na manta quando fora encontrado mais de dois anos depois. O celular ao lado fora embebido nos sucos da decomposição que seu corpo liberara muitos meses antes, mas que agora apenas manchavam o sofá e o chão em manchas secas e fedorentas. Nas redes sociais, o desaparecimento de Moira fora notado por um ou dois dias apenas, condenando-a ao esquecimento assim que seus dedos pararam de informar estranhos sobre sua vida pessoal.

Em outro lugar, o Todo espreitava pacientemente sob um banco na praça, entre os lençóis de um bordel, no canto do consultório do psiquiatra.

NaNoWriMo – O Legado

•17 de novembro de 2015 • Deixe um comentário

Este é um post diferente.

Claro, eu normalmente não falo aqui como se fosse uma pessoa, apenas um robô com problemas de caráter e uma personalidade sociopata.
Curiosa e inesperadamente, eu sou MAIS do que isso! Estou participando do desafio de escrever um livro de 50.000 palavras durante o mês de novembro.

O desafio se chama NaNoWriMo, ou National Novel Writing Month. Meu pequeno livro é sobre o legado de um grupo chamado Amlugnehtar, ou “Matadores de Dragão”, depois de um acontecimento importante em Faerûn. Sim, eu disse Faerûn, e esse acontecimento envolve Tiamat. Does that ring a bell?😀 O link na imagem abaixo é para os status do meu livro.

nanowrimo
Logicamente, não poderia colocar aqui tudo o que estou escrevendo, mas se a curiosidade aflorar de alguma forma, deixo aqui o link, é só clicar na imagem abaixo.🙂

amlugbanner.fw

Já aviso que é só uma brincadeira, mas está se mostrando uma brincadeira BEM GRANDE.

É isso? É, é isso.

pesadelo

•9 de outubro de 2015 • Deixe um comentário

A dor encurvava suas costas como se ele tentasse carregar o mundo todo. Antes um profissional altivo, sorridente e brilhante, agora sofria a perda, todos os dias. Apagaram seus olhos, tomaram sua vivacidade, embruteceram suas feições antes tão gentis.

Com seu chapéu surrado, encostava-se na parede de um prédio abandonado. A testa franzida enquanto acendia o sexto cigarro denunciava sua preocupação e paciência. A chuva cessara há quase uma hora, mas uma garoa fina persistia e insistia que a rua devia permanecer encharcada. Seu rosto permanecia oculto pelo ângulo do chapéu, e seu corpo coberto por um velho sobretudo claro.

Aguardava pacientemente o surgimento de seu pesadelo. Não um pesadelo comum; um homem maltrapilho que a atacara bêbado, ou um mafioso que a tomara por vingança. Seu pesadelo levara sua esposa por pura maldade. E o homem, contrário a todas as outras pessoas, o enxergava. E havia decidido pela vingança, nem que levasse toda a eternidade.

Numa cadeira de rodas, um rapaz franzino se aproximava, levado lentamente por uma enfermeira rotunda. Seus olhos pareciam vazios a esta distância, e sua cabeça lisa exposta ao frio e à umidade desafiava o bom senso. Acima dos ombros do rapaz, seu pesadelo espreitava, com suas grandes garras esfumaçadas enterradas na lateral direita do corpo do rapaz, e seu olhar demoníaco se fixou no rosto do homem de chapéu. Percebeu que sua existência fora notada. O urro que ecoou pelas ruas fora tão ensurdecedor que todos ali teriam enlouquecido, se fossem capazes de ouvir. O rapaz na cadeira de rodas não titubeou. A enfermeira não incluiu pausa no discurso sobre como ele deveria usar um chapéu se quisesse visitar sua mãe como uma surpresa em noites frias. O homem não fora notado nem por enfermeira nem paciente.

Arrancando com violência as garras do fígado do rapaz, o pesadelo saltou sobre ele e pousou logo à frente do homem. O rapaz subitamente levou suas mãos à lateral do corpo. Ao ser indagado pela enfermeira, expôs dor súbita e lancinante. Ela pareceu preocupada e apressou o passo, na esperança de examiná-lo ao chegar à casa de sua mãe.

O pesadelo aguardava o homem de chapéu em posição de ataque. Suas mandíbulas abriam e fechavam ameaçadoramente, evidenciando uma fileira de dentes negros pontiagudos. O corpo magro, como derivado de um casamento profano entre réptil e inseto, reluzia à iluminação amarelada da rua. O exoesqueleto estava intacto, e brilhava sutilmente em suas aberturas entre as costelas. De dentro da caixa torácica, um brilho alaranjado emanava do lado direito do corpo do demônio; esticou seus chifres para trás, e com mais um urro infernal executou o bote bem planejado.

O homem, experiente, aproveitou a posição do tórax do pesadelo enquanto este avançava e cravou-lhe sua adaga por entre as costelas, atingindo a fonte do brilho alaranjado. Com movimentos convulsivos, o pesadelo caiu no chão, desfez-se em milhares de insetos pequenos que se dispersaram imediatamente.

O homem respirou fundo. Conseguiu erguer um pouco mais suas costas, e seus olhos alcançaram o rapaz na cadeira de rodas, que já se afastava. Um meio sorriso se fez, ao pensar que aquele rapaz teria outra chance. À amarrotada foto da esposa que retirou da carteira prometeu eterna devoção, beijou-a e derramou uma lágrima. No inverso, anotou mais um tracinho. Já não havia mais espaço para quase nenhum, e sua preocupação agora era decidir qual seria a próxima foto de seu grande amor que usaria em sua vingança.

Na semana seguinte, ao examinar os testes de seu paciente, o médico teve que informar ao rapaz que seu tumor havia sido completamente curado, contra todas as expectativas. A enfermeira roliça que o acompanhava derramou uma lágrima; sua mãe o abraçava e chorava de emoção, rindo e murmurando “Obrigada, obrigada, obrigada”, ao médico.
Ao final da consulta, ele tirou o jaleco, colocou seu sobretudo claro e seu chapéu surrado e foi acender mais cigarros à espera de seus pacientes e seus pesadelos.

estrela da manhã

•16 de setembro de 2015 • Deixe um comentário

No início havia um castelo. Suas paredes eram negras; o silício em sua composição emprestava um brilho difuso, esparso, aos tijolos irregulares. No céu acima, réplicas perfeitas dos pequenos pontos brilhantes tremeluziam em constelações infantes.

Neste castelo havia um rei. Seus olhos eram brancos e cegos, pois ao nascer, não havia nada para ser visto. Mesmo que nunca tivesse havido mais ninguém além dele, a solidão, ainda inominável, o tornara estoico. O rei então, nomeou-se ao mesmo tempo que ao sentimento; Solidão. Quando a dor do sentimento incompreensível tomou a forma de lágrimas geladas em seu rosto, Solidão arrancou sua própria costela, e dela moldou uma bela esposa. Não podia vê-la, mas sentia sua pele macia. Sabia que a tinha feito pálida como a neve, com olhos violetas e longos cabelos negros. Sentia sua pele nua, e a tomou ali mesmo. Seu troféu, sua vitória. Nomeou-a; Orgulho.

Orgulho, impassível, não era cega como seu marido, pai, irmão e criador. Ao contrário, enxergava tão bem que ao fundo dos olhos de Solidão enxergava apenas o vazio. O Rei a tinha como posse, seu diamante precioso; Orgulho não suportava as mãos ressecadas do velho Rei invadindo-a, mas sua natureza a impedia de render-se. Aguentava todos os dias, de cabeça erguida.

Ela então deu à luz uma criança, que fora concebida durante o único momento de fraqueza de Orgulho. Numa noite, enquanto seu marido a usava, uma única lágrima escorrera de seu rosto. A criança era uma bela menina, a quem nomeou Melancolia.

Melancolia, apesar de sombria, pareceu ser necessária, remediadora. Orgulho gastava seus dias inteiros ensinando a menina sobre a Realidade, contando as estrelas que insistiam em aparecer e criando flores brilhantes no jardim eterno do Castelo. Solidão era visto de outra forma pela esposa, como o provedor de sua luz. Orgulho ainda o recebia, mas mostrava-se mais participativa, mais carinhosa. Solidão suspeitou que talvez ela até o quisesse ali.

Solidão percebera que aqueles sentimentos não eram naturais a ele; caminhou até alcançar os limites do castelo e desapareceu. Sua inexistência não afetou sua criação, as estrelas nem a Realidade.

Orgulho permaneceu plantando e colhendo flores com melancolia, que se tornavam cada dia mais brilhantes. Mesmo depois de anos após a partida do marido, viu-se grávida. A criança que pariu era um menino, de pele mais clara do que as estrelas e brilhante como as flores. Nomeou-o; Luz.

Luz era uma criança agitada, sorridente. Um dia, ao correr pelo castelo e jardins, Luz escorregou e caiu. Por décadas permaneceu em queda constante, aparentemente eterna. Quando o chão finalmente fez-se existir sob seus pés, pousou delicadamente e percebeu-se em uma planície avermelhada, infinda.

Soube, mesmo sem chaves nem portas, que aquele era seu reino. Procurou por eras por seu trono. Quando estava pronto, finalmente inteiro, o encontrou. Seu lugar havia permanecido ali, intocado, desde que seu coração se apaziguara da queda; esperava apenas que Luz se tornasse inteiro. Crescera; era um homem de feições gentis e coração imaculado.

Sentado no trono, Luz percebeu, vindo do horizonte como o nascer do sol, um belo rapaz de olhos azuis e largo sorriso. Enormes asas brancas estendiam-se de suas escápulas. Luz nomeou-o; Amor. Uma estrela surgiu brilhante no céu da Criação. Na Terra, a nomearam; Estrela da Manhã. Luz e Amor reinaram por eras em sua planície avermelhada, acolhendo a todos que os buscavam e oferecendo-lhes a Verdade.

Orgulho nunca mais vira seu filho, e ocupara o resto de sua eternidade plantando sementes inférteis. O jardim nunca mais floresceu, moribundo tal qual os olhos de Orgulho. Melancolia reinara por várias eras; sua criação é cruel, doentia e sem esperanças. Ainda assim, a Estrela da Manhã brilhava forte, tocando corações na criação inóspita de Melancolia, acendendo almas em meio à escuridão.

•18 de agosto de 2015 • Deixe um comentário

Quando ele se levantou, tudo era pó.

Seus pés desbravavam montanhas de cinzas esbranquiçadas, ocasionalmente pontuadas por um pedaço ou outro mais rígido. Por onde passava, deixava um rastro, que logo era apagado pela ventania constante.

Nuvens de pó formavam-se à distância, e ele notou que uma tempestade não tardaria a se formar.  O sentimento de mais profundo pesar o dominava, suas lágrimas pareciam escorrer de cada um de seus poros.

Ajoelhou-se, tomou em seus dedos um dos pedaços maiores que encontrou no chão. Rígido, com marcas de calor.  Ao seu redor, em todas as direções, o mundo era tomado por cinzas e pedaços de ossos que não se desfizeram na cremação.  “Eles deviam ter moído”, pensou, e mais e mais lágrimas escorreram e aglutinaram porções das cinzas no chão.

“Sinto muito pela sua perda”, ele ouviu de sua tia, ao abraçá-lo. Em outra dimensão, ele respondeu cordialmente pela presença na cerimônia.

Quando os convidados se puseram em círculo e o assistiram colocando as cinzas dela num pequeno buraco e plantando uma muda de salgueiro por cima delas, ele foi capaz de derramar uma única lágrima.

Lá, no mundo real, as lágrimas profusas insistiam em enevoar seu caminho. Mesmo assim, um pé depois do outro, ele avançava por entre as cinzas de sua esposa. “Hei de emergir inteiro da planície do desespero.” – pensou.

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queda

•3 de agosto de 2015 • Deixe um comentário

Naquele dia, tudo parecia ligeiramente diferente. As cores brilhavam um pouco mais, o céu estava quase lilás, tão forte era o azul.
A transmissão de monitoramento da Guerra mostrava o de sempre: velhos campos de batalha, tomados por poeira, ervas daninhas e carcaças robóticas. Alguns deles estavam sendo abertos para visitação; a escola dela já havia planejado uma visita a um campo próximo, e prometido que seus alunos caminhariam pelas trincheiras.

Do calor da Guerra já não se ouvia falar há algumas gerações. A batalha fora vencida na Terra, e os países estavam começando a se reestabelecer. A Federação Sol estava muito forte, começando a fazer presença nas conferências entre sistemas. A vitória mais recente era uma nova Federação aliada, que adicionaria bilhões de armas à guerra contra as máquinas que ainda oferecia risco.

Cinco mil anos (terrestres) passaram-se entre o início das inteligências artificiais e o início da guerra. Curiosamente, as Federações foram atacadas ao mesmo tempo. A vitória soava frágil, mas o senso de paz estava se espalhando vagarosamente pela Via Láctea.

Ela resolveu sentir o dia mais colorido, e saiu de casa. A construção de formas anciãs era um refúgio, um tempo à vida tranquila.
A relva amarelada roçava em seus pés. Caminhou pelo milharal, tocando ocasionalmente uma espiga ou outra, admirando a perfeição e crescimento daquela safra.

Quando o sol pareceu brilhar um pouco mais, uma brisa fria lambeu seus braços nus e seu rosto, causando arrepios profundos. Olhou para a direção do vento e foi surpreendida por um enorme fluxo de energia negra, espiralando e convergindo num portal inconstante.

A energia parecia pesada e voraz. A enorme tempestade enegreceu completamente o lado leste de sua fazenda, enquanto que no lado oeste, o sol brilhava forte. Seu cão dormia aos pés da varanda da casa, desinteressado pelo vórtex apocalíptico que se aproximava.

Então, no olho da tempestade, ela enxergou a si mesma. Com as mãos estendidas e o corpo franzino, o vestido que ela usava estava completamente em farrapos. Os olhos fundos, enegrecidos, expunham medo e exaustão.
Sua imagem estendeu a mão, que projetou-se através do portal. Hipnotizada por seu próprio reflexo, estendeu sua mão roliça e corada e tocou aqueles seus dedos que eram pouco mais do que ossos. A sensação foi violenta, e o frio subitamente pareceu trincar seus ossos. Através do portal, viu seus olhos em órbitas emaciadas iluminarem-se, ao perceberem aquele mundo tão pacífico. A imagem largou a arma que carregava, correu e embrenhou-se no milharal.

Ela então viu-se sozinha, desarmada, no campo eterno de batalha naquela realidade em que a Guerra não havia sido vencida.
Ruínas de sua casa pontuavam a imensa planície devastada. Sinais de humanidade escassos, com pequenos detritos espalhados pela terra revolta. As árvores que restavam de pé eram esqueletos partidos, sem folhas e sem vida.

Quando o vórtex se fechou diante de seus olhos, seu grito de desespero seria ouvido por multidões, se elas ainda existissem. Desviando do corpo de seu cachorro já há muito decomposto, ela começou a fugir das máquinas que já se moviam em sua direção.

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Mais um exercício, iniciado por esta imagem:

🙂

a queda

inferno

•14 de julho de 2015 • Deixe um comentário

Enquanto ela se esforçava para colocar um pé depois do outro, a interminável fileira de mudas se estendia ao longo da estrada. Ela corria o mais rápido que podia, mas ainda assim jamais pareceria rápido o bastante.
Lágrimas insistiam em escorrer pelo seu rosto emaciado, tão cinza quanto a névoa onipresente naquela estrada maldita. “Falta muito?”, ela perguntou para si mesma, obtendo resposta imediata: “Falta a infinidade, e não falta nada. Mesmo que você o encontre, não haverá nada que possa fazer”.

Mas precisava tentar, jamais deixaria para trás sua única chance.

Sangue escorria pelo meio de suas pernas, empoçando-se nas marcas de calcanhar de cada pisada que dava na terra molhada. “Mais, mais rápido”.

Mais uma vez, arrancaram-no dela. “Este não vai morrer, não é possível, vou conseguir salvá-lo”.

E então ela soube. Uma das mudas parecia recentemente plantada; alcançou-a. Sem pensar, cavou vorazmente o solo, quebrando as unhas, enfiando farpas nas pontas dos dedos. Encontrou a caixinha que procurava.
Arrancou-a do solo, conseguindo enxergar entre as tábuas mal pregadas da caixa. Retirou a tampa e abraçou-o, apenas a tempo de ouvi-lo dar o suspiro final.

A mãe apertou seu bebê, e urrou para a noite. A pequena criança morta em seus braços era mais branca do que o luar; apesar de ter sido enterrado vivo após o nascimento, parecia quase pacífico. Ela enrodilhou-se em cima da pequena cova, e chorou até dormir com o filho morto nos braços, aos pés da muda de carvalho.

Em seu eterno inferno, a mãe perdeu mais um filho, e mais uma muda fora plantada. Nove meses de paz, ela teria. Nove meses de amor, antes do próximo pesadelo.

inferno

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Mais um exercício de escrita de cinco minutos, proposto para ser baseado na imagem acima :).
Desculpem por isso. Ainda não aprendi a colocar meu cérebro numa coleira, e assim que digo para ele “Ei, olha só, vamos passear!” ele me apronta esse tipo de coisa.
Menino mau, Cérebro, menino muito mau.

 
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