cedo demais

•1 01UTC Fevereiro 01UTC 2009 • 3 Comentários

 

jumpPassavam rápido, as janelas pela sua visão turva.

Ela via as coisas de uma perspectiva diferente da que imaginava quando planejou, e a vontade de gritar era bem menor do que lhe disseram.

“Você morre antes de chegar ao chão”, ela sempre ouviu.

Era mentira, e quando ela sentiu o impacto, repensou sobre o plano, e sobre a dor que a fez concluí-lo. 

Sentiu seu crânio rachando, e deliciou-se com a perda de consciência.

Naquela mesma hora, seu chefe adentrou o escritório para avisá-la da promoção. Era surpresa. Ele vê as cortinas esvoaçando do lado de fora da janela. 

Um pouco mais tarde, depois de seis anos, seu filho finalmente acordou do coma, que era teoricamente irreversível. 

E a inexistência a levou, antes mesmo que ela soubesse que era cedo demais pra desistir.

tsurus e sonhos

•27 27UTC Janeiro 27UTC 2009 • 2 Comentários

tsurus Dizem que quem dobrar mil tsurus com o pensamento voltado ao seu sonho, vai alcançá-lo.

Pois bem, aqui estou eu, sonhando com a mente, o coração e as mãos, dobrando meus mil tsurus.

E estou falando sério. Eu já fiz alguns na minha vida, graças a um amigo que me ensinou (Obrigada, Pipi.). Mas, resolvi recomeçar, e pensar seriamente no que quero.

Meu maldito sonho, que não me abandona, só cresce a cada dia. Então, eu digo:

10 tsurus dobrados, 1% concluído.

de onde vem a esperança

•14 14UTC Janeiro 14UTC 2009 • 4 Comentários

 

esperancaTerça Feira. A luz de sol que entrava pela janela tocou seu rosto e ela acordou, como todos os dias.

Naquela manhã, algo parecia diferente. Ela olhou para os lados, ainda sonolenta. Viu suas roupas atiradas ao chão, uma xícara de chocolate quente esquecida sobre o criado mudo e o livro que estava lendo antes de dormir ainda aberto sobre o travesseiro do lado não usado da cama de casal. 

Sentou-se na borda da cama e esfregou o rosto. A impressão não se foi, embora tudo parecesse igual ao que esperava encontrar.

Levantou-se, foi até a sala. Ligou o som alto, para ver se a música traria distração. Freddie Mercury então interrompeu o silêncio. 

I was born to love you 

With every single beat of my heart 

Yes, I was born to take care of you 

Every single day…

Foi até o banheiro lavar o rosto. “Que bagunça”, pensou. Olhou-se. As olheiras estavam crescendo, e ela já conseguia vislumbrar mais alguns pés de galinha.  Os cachos curtos desgrenhados, o braço tatuado tantos anos atrás.

- Feliz Aniversário – diz ao espelho – Trinta e oito. Puta merda.

‘...An amazing feeling 

Coming through...”

Ela então captou no espelho um pequeno movimento atrás dela. Olhou,  não achou nada. Chamou, procurou atrás dos móveis. Nada. Há um ano já morava sozinha, desde que a filha fora para a faculdade. Ninguém além dela tinha a chave de seu apartamento, e ela estava em época de provas, em outra cidade. Não era ela.

…Go, I love you babe 

Yes I was born to love you 

I wanna love you, love you, love you…

“É só impressão. É a maldita velhice chegando”.

…I wanna love you 

I get so lonely, lonely, lonely…

Foi até o quarto, abriu o armário de roupas brancas. Percebeu que haviam poucas, e imaginou que a maioria estivesse no cesto no banheiro. “É hora de lavar, e eu esqueci de novo”. Pegou uma calça e uma camisa. Ela sabia que faria sol, mesmo que a previsão fosse de temporal. Havia sido assim sempre, desde que era criança. Nunca, nunca chovera em seu aniversário. Freddie Mercury calou a sua voz que nunca envelheceu e a sua coleção de músicas lhe preparou uma surpresa: uma gaita anuncia Smiths.

…Hand in glove

The sun shines out of our behinds

No, it’s not like any other love

This one is different – because it’s us...”

“Uau, essa eu não esperava”, ela riu-se.

Algo atravessou o quarto atrás dela. Ela quase conseguiu ver. Voltou-se para aquela direção o mais rápido que pôde, mas perdeu o movimento. “Eu não entendo, acho que estou ficando louca. E velha. Uma velha louca.”

…And everything depends upon

How near you stand to me...”

O telefone tocou e a música quase tornou-o inaudível. Ela correu para a sala e desligou o som.

- Feliz Aniversário, velha. De novo. 

- Obrigada, coisa. Mas não esqueça que daqui a duas semanas é o seu. Está tão velha quanto eu.

- Que nada, eu sou dois anos mais nova. Esqueceu que só você é do tempo da fita cassete?

- Besta. Vamos?

- Vamos. Passa aqui?

- Tô indo. Tchau.

- Tchau.

Terminou de vestir-se. Olhou mais uma vez para a casa, esperando encontrar aquilo que lhe dera a impressão de movimento. Nada. 

Tomou um copo do suco que encontrou na geladeira. Morango, já meio velho. 

Abriu a porta da frente, e encontrou uma única rosa em cima do capacho. Havia um cartão nela. 

Leu o que dizia nele, e era o que sempre soube que estaria escrito.

Um sorriso iluminou-se em seu rosto, ela sabia que finalmente era a hora. Colocou a rosa num copo com água, ainda sorrindo.

Saiu de casa para buscar a irmã, que não havia virado loira e frustrada, afinal, depois de tanto brincarem com isso. Era uma bela morena com dois filhos de seis e oito anos, e estava esperando um terceiro. Mesmo assim, não deixaria de trabalhar no laboratório delas até os nove meses, como fizera nas outras gravidezes.

Quando trancou a porta, eu saí de onde me escondia. E ela, como em todas as outras vezes que olhei para o futuro, continuou sem enxergar-me(se). 

E continuou sem entender de onde tirara a força para continuar durante todos aqueles anos, mesmo quando na juventude, tudo parecia errado. Ela nunca conseguiu parar de ter esperanças, e nunca entender o porquê.

 

 

névoa

•8 08UTC Janeiro 08UTC 2009 • Deixe um comentário

mistEm meio a névoa, tudo é incerto.

A moça caminha sem rumo. Suas pernas, cobertas de feridas causadas pelas infinitas quedas e esbarrões pelo caminho. Lhe falta um braço, arrancado por algo que ela nem teve chance de reconhecer, teve apenas tempo de fugir.

O grande ferimento da amputação feita à força pelos dentes ferozes da enorme boca fétida já enegrecera há muito, necrosado. Muitas larvas fizeram do sangue morto e carne putrefata seu lar.

Algo grande passa zunindo do seu lado, e ela, acostumada a essas criaturas voadoras, apenas desvia a cabeça.

Ela ainda se lembra de algumas coisas. Lembra-se do supermercado, das pessoas que estavam lá antes de resolver sair em busca de ajuda. Lembra-se de todas as coisas que viveu depois de sair, mas percebeu que a dor ia diminuindo a cada ataque.

A maior dor, sem dúvida, foi da perda do braço, um dos primeiros ataques. Ela se lembra, mas não completamente, da luta para libertar-se da mandíbula da criatura. Algo dentro dela ainda pondera sobre a possibilidade de estar viva ou morta.

Ela não sabe, assim como não sabe o que está acontecendo.

Ela olha para o lugar onde antes havia seu braço, e vê as larvas se contorcendo. Arranca uma, coloca-a na boca e mastiga. Sabe que aquilo está errado. Sabe que deveria estar morta, e pondera o porquê ainda caminha, depois da massiva perda de sangue.

Ainda há humanidade nela, apesar da horrenda aparência. E ela sabe que não vai demorar mais muito tempo para perder completamente o controle.

Seu lado consciente, cada vez mais distante, decide que ainda tem dignidade para acabar com aquilo ela mesma. Para, escuta: ouve ao seu lado esquerdo, ao longe, uma criatura grande se movendo. Corre naquela direção.

Grita, e os sons que saem de sua boca não se parecem com os que estava acostumada. A criatura alerta-se da presença dela e vai em sua direção.

Ela fica parada, expõe-se, abrindo o braço que resta. Grita mais uma vez.

Não enxerga bem seu algoz em meio à névoa, mas sabe que será mortal o suficiente.

Não há dor. Enquanto sente o que restava de seu corpo ser despedaçado, desvia a mente para outro lugar, e busca a sua humanidade quase perdida.

triskel

Certamente isso aqui será compreendido erroneamente. Não ligo. É uma metáfora sobre meus pedaços perdidos. Contém sim referências descaradas a um certo filme. Não foi sem querer.

dois mil e oito “eu te amos”

•1 01UTC Janeiro 01UTC 2009 • 1 Comentário

 

fireworks1Dois mil e oito foi um ano de amor.

Amores, amores, amores. De todas as formas.

Ouvi “eu te amos” engasgados, gritados, verdadeiros, falsos, passageiros e eternos.

Disse os gritados, verdadeiros e eternos, e engoli ainda mais os engasgados. Comigo, não há “eu te amo” passageiro, e os falsos, eu tento não dizer mais.

Então, agora eu grito para todos os que merecem (e são muitos!):

Eu os amo, com todo o meu ser, e amo cada osso e cada poro dos vossos corpinhos. Amo cada processo mental, e cada baboseira proferida.

Amo, amo, amo!

E amo ser amada também. Amo que se esforcem por mim. Amo que sigam minhas dicas literárias, amo que ouçam Pure Reason Revolution, e amo que me queiram para partilhar dos momentos mais íntimos, mesmo que particularmente sórdidos (hehehe, não, e eu não te desculpo, lol).

Amo hoje e pra sempre cada uma dessas alminhas malditas que cruzaram meu caminho em 2008.

E tudo o que eu mais quero, é que essas mesmas alminhas estejam ainda mais grudadas na minha em 2009, e pra sempre.

Que venha um ano de mais amores. E que meu coração exploda, mas que eu sinta, sinta e sinta!

triskel

E um recado da Ângela: “Nunovo BUM!” ( por causa dos fogos. )

e depois…

•29 29UTC Dezembro 29UTC 2008 • Deixe um comentário

 

beachA volta à casa trouxe verdades inesperadas.

Ah, eu vi! Mais de uma vez, ainda! Uma libélula pousou na cortina, depois de debater-se pela sala, desnorteada pela luz artificial.

Outra, voou pela tarde que tornava-se crepúsculo na praia. 

Um cantarolar inocente, por um amigo ao meu lado, de madrugada no jogo de cartas. Não doeu, apenas espantei-me, e foi ato reflexo. Aquela música. Pra quê? 

Pra que eu ponderasse.

O nome que eu disse a mim mesma surpreendeu-me, e um meio sorriso se abriu em meu rosto.

A saudade que eu posso matar. A saudade de quem sei que estava aqui o tempo todo.  Há o esforço pendente, há o medo enclausurado e há a incerteza; 

mas o aconchego do teu abraço e as conversas em silêncio fizeram falta, ah, fizeram!

And how soon is now?

 

mil portas

•20 20UTC Dezembro 20UTC 2008 • 1 Comentário

lonelinessCuida;

 

Cuida daquilo que é teu, daquilo que criou.

Cuida de quem és, e de quem pretende ser.

Cuida daquilo pelo que lutou, e cuida daquilo que lhe foi dado. 

Cuida, alimenta, cativa, acolhe.

Cuida daquilo que considera mais precioso, e daquilo que lhe considera a coisa mais preciosa.

Cuida de mim, e não me deixe ir.

____________________________________________________________________________

A solidão é quem me cria, quem acaricia meus cabelos quando eu durmo.

“Você não conhece a solidão”, ele disse. Ah, conheço. Conheço tanto que ela me chama pelo nome. 

É uma casa de mil portas trancadas.

Ao menos, é território conhecido, e eu posso abaixar a guarda.

Afinal, o que é que eu estava esperando? 

____________________________________________________________________________

Quem é que muda de casa quando a sua ainda lhe serve às necessidades, e  é acessível ao bolso? Que fiquemos na casa velha, com todos os cantos conhecidos! O cheiro pode não ser bom, e o papel de parede pode estar amarelado. Pode faltar espaço e não proporcionar boas sensações o tempo todo. Quem se importa? É apenas o bom e velho lar da família, e ninguém pretende sair daqui.

Assim, é bem mais fácil pegar o copo d’água no escuro sem esbarrar nas quinas.

pai

•13 13UTC Dezembro 13UTC 2008 • 2 Comentários

paiQuando esperava na janela, eu não sabia.
Não sabia que pelo resto da minha vida eu ia querer mesmo que ele chegasse, que almejava demais essa presença louca, meio antinatural.

Afinal, não é tão fácil ser pai quanto ser mãe. Não é natural, entendam.

Quando ele não veio mais, eu não compreendi muito bem. Claro que eu sabia que ele não era meu pai mesmo, já haviam me explicado isso. Mas eu ainda assim insistia em chamá-lo assim.

A marca foi eterna. Não tenho idéia do que é paternidade, não entendo nos níveis mais profundos.
Outro veio, e tomou o lugar do primeiro. Fez o trabalho muito bem, mas a cicatriz é funda demais.

Quando alcancei a idade necessária, a primeira coisa que pensei foi que nunca cometeria o mesmo erro. Eu não acredito em famílias perfeitas, de forma alguma. Mas, queria que meus filhos soubessem muito bem quem são seus pais, e o que eles representam.

Quando eu vi que tinha feito o mesmo, o desespero caiu sobre mim.

Ela, infelizmente, está confusa. Tem pai sim, claro! Mas é ausente, como todos os pais costumavam ser no passado. Não por mal, creio eu. Mas na prática, ela ficou sem.

Aí, ela conheceu alguém que dava atenção. Que a amava. Que cuidava dela e a levava no ombro por quilômetros.  Que a acalmava num sono perturbado e que ensinou coisas.

E então, aconteceu o mesmo com ela.

Ela agora chama, pede, imita. Há meses que não o vê, e a dor do meu erro só aumenta, porque ela não esquece.

Quando ela chama o nome dele, dói mais que nunca; eu não podia ter feito isso com ela, não. Jamais.

Condenei minha filha à mesma incerteza. À mesma falta de esperança.

Mas, ao menos, se ela ainda se lembrar quando for adulta, eu vou poder dizer que não era a minha intenção, e que eu a compreendo. Se ela chorar, eu vou abraçá-la e dizer que a amo.

Quanto a mim, permaneço no silêncio da falta de compreensão. Tudo bem; acho que ao menos com isso eu aprendi. Para ela, EU nunca vou faltar.

crime

•11 11UTC Dezembro 11UTC 2008 • 1 Comentário

gun- Por que você o matou?

- Porque eu o amava.

- Quem ama cuida, quer o bem.

- E foi exatamente por isso que o matei.

- Isso não faz sentido, querida. Lembra-se? Você o matou enquanto ele dormia, com um tiro no peito. Isso não é uma demonstração de amor e cuidado, espero que entenda.

- Não para os padrões da sociedade. E, mais uma vez, foi por isso que o matei.

- Você acha que fez bem a ele?

- Eu sei que fiz.

- E por que?

- Porque assim, eu o poupei de todas as dores do mundo. Eu libertei-o de sua própria prisão, e de todas as coisas que o machucariam por muitos anos ainda.

- Isso é bonito, mas na prática, espero que entenda, querida, você cometeu um crime.

- Não me chame de querida, é mais falso que o sorriso que acompanha a palavra. E sim, sei que cometi um crime, mas não importo. Eu o libertei, fiz o bem mais supremo que alguém

pode fazer a quem ama.

- Se considera a morte uma bênção, por que não cometeu suicídio?

- Porque alguém teria que estar vivo para libertá-lo. Afinal, ele jamais faria isso sozinho.

- Mas, agora que ele se foi, por que não vai junto?

- Porque não ficaríamos juntos, afinal.

- E como você sabe?

- Porque todos sabem que não há vida após a morte.

- Na verdade, querida, é uma questão amplamente discutida.

- Não me chame de querida.

- Desculpe-me.

- Bem, eu não dou a mínima para as suas discussões. Não há nada, nossa consciência resume-se a impulsos elétricos, que cessam no momento da morte.

- E você crê, mesmo assim, que o libertou? Condenando-o à inexistência?

- A inexistência é infinitamente mais indulgente que a existência. Não há sofrimento. Não há nada.

- E então, por que não vai junto? Aqui, só lhe resta um crime para responder por, e as lembranças do seu amado falecido.

- O crime não me importa, porque as lembranças são tudo o que eu necessito. E eu não vou junto, porque na inexistência, elas se perderiam.

- Fica pelas lembranças, então? Matou quem amava e não quer morrer para lembrar dele… isso não faz sentido! Por que simplesmente não o deixou viver?

- Porque se eu o deixasse viver, ele me mataria. E ele não seria forte o suficiente para entender a minha inexistência, e as lembranças o destruiriam progressivamente.

- Ele era fraco, você diz?

- Era, e eu o amava por sua fraqueza.

- Ele sabia que isso aconteceria?

 - Sim e não. Ele almejava pela morte. Mas não queria que morrêssemos, porque seria o fim de nossa história.

- E esse não foi o fim? Afinal, o outro personagem morreu, não existe romance de uma pessoa só.

- Ele deixou de existir, mas as lembranças mantém o romance vivo como todos os dias.

- Desculpe-me, mas além de impedir as dores do mundo e coisa e tal, ainda não entendi o verdadeiro motivo pelo qual ele queria a morte, e você deu-lhe isso.

- Porque ele não suportaria ver o nosso amor morrer. Como eu disse, ele era fraco.

- Mas o amor morreria?

- Todos os amores morrem, se não cultivados. E mesmo se cultivados, eles mudam de natureza. Não queríamos perder o que tínhamos.

- E essa era a única forma?

- Sim. Só assim o amor seria eterno. Se simplesmente não nos víssemos mais, iríamos continuar com nossas vidas e amar outras pessoas.

- Em toda a minha vida como psicóloga da polícia, eu nunca ouvi argumentos como esses. Não sei se os compreendo.

- Questiona a minha sanidade, eu sei. Está certa, não foi criada para reconhecer as partes mais profundas da compreensão que a mente humana é capaz. Você é pequena e fraca.

- Considerarei isto como uma ofensa.

- Entenda como quiser.

- E o que você fará agora? Afinal, vai ficar presa por um bom tempo.

- Não faz a menor diferença onde eu estarei, se eu ainda possuir as lembranças.

- E se você as esquecer?

- Não sei. Não consigo compreender essa possibilidade.

- Você se lembra da última conversa que tiveram?

- Claro, e essa sempre será a mais vívida de todas.

- O que ele disse, por último?

- “Até logo, meu amor. Boa noite.”. Eu o matei duas horas depois.

- É, nem sempre os “Até logos” se realizam.

Ela ficou presa por alguns anos. Nunca mais falou. Um dia, encontraram-na  morta, enforcou-se na viga do teto com um lençol velho. Em sua mão esquerda, a última frase que escreveu em sua existência.

“E afinal, eu esqueci porque estou aqui.”

triskel

Não exatamente me lembro de escrever isso, e eu acabei de fazer.

The Cure – Cut Here.

treze

•6 06UTC Dezembro 06UTC 2008 • 4 Comentários

all-starAos treze, eu gostava de Pearl Jam e A Perfect Circle. Odiava Smiths e AC/DC.

Eu tinha amigos de quem nunca me separava, e jogava RPG todos os fins de semana. À noite, encontrava com todos numa galeriazinha ao ar livre, e ali era onde eu me sentia em casa.
Eu tinha que chegar às nove em casa. Ia bem na escola. Saía da aula e ia andar por aí com o pessoal da classe, que foi a melhor que eu tive na vida toda.
Namorava um cara chamado Marcelo, e alguns amigos tinham ciúme dele, e ele, de alguns amigos.
Eu era tudo o que queria ser, e andava com meus All Stars coloridos.

Então, todos os anos depois, eu adoro Smiths e AC/DC, e continuo adorando Pearl Jam e A Perfect Circle. Eu tenho outros amigos dos quais me separo de vez em quando. Jogar RPG é apenas uma lenda.
Os frequentadores da galeria dispersaram-se pela vida: dois ou três fora do país, muitos fora da cidade. Quase todos, formados já há tempos. Um morto. Uns dois crentes.  Outros, já casaram. Algumas das meninas já tiveram filhos.
Eu nunca mais me dei bem em escola alguma, odiei todos os lugares em que estudei. Não namoro mais o Marcelo, mas nos esbarramos algumas vezes ao longo dos anos. Não uso mais All Stars.

Queria que tivessem me dito que aos 21 eu teria uma filha de um ano, seria muito gorda e viciada em computador. Que faria Biomedicina e teria feito intercâmbio! Eu teria rido, dizendo que Biomedicina era a pior profissão do mundo, que eu jamais seria mãe cedo, e que haviam muitos países melhores do que a Alemanha para um intercâmbio.

Nesses anos todos, eu conheci todo o tipo de gente. Namorei oito vezes e tive infinitas paixões, a maioria, platônicas. Escrevi todas as cartas de amor do mundo, e a maioria delas ainda está comigo. Conheci o amor verdadeiro, e queria não ter conhecido. Já aceitei namorar com quem mal conhecia, e já namorei com um melhor amigo. Aprendi tanta coisa… e continuo sem saber nada.

Olho pros meus All Stars empoeirados no armário e penso que queria poder viver tudo de novo.
Mas, o tempo passou.

Eu cresci, e cresci sendo exatamente o que queria ser, mesmo que não soubesse disso.