papel quadriculado
Então, a tinta da caneta finalmente acabou.
Naquele porão, era tudo o que lhe restava. A comida acabara na semana anterior, as latas abertas jogadas no chão empoeirado. Dois lençóis rasgados eram toda a forma de aquecimento que tinha, além das parcas roupas do corpo, aquelas que usara para fugir.
Quando tudo começou, ele estava voltando para casa, com a música no último volume no fone de ouvido. Vinha da papelaria, e tinha nas mãos um bloco de folhas quadriculadas. Então, ele notou a rua esvaziando, pessoas correndo, os gritos emudecidos pela música que atravessava seus ouvidos como uma lança. Finalmente, viu do que elas fugiam, e fugiu também. Em nenhum momento desligou a música, então, nunca soube que som aquilo fazia.
Talvez, tenha sido melhor assim.
Conseguiu chegar na própria casa, e enfiar-se no porão. Os pais estavam trabalhando, e ele preocupou-se. Esperava que os pais tivessem chance de fugir, abrigar-se; e mais ainda, esperava que os pais estivessem ali com ele. Sentou-se no canto do pequeno porão que servia como uma despensa meio esquecida, e esperou.
Sentiu os tremores, viu o pó caindo por entre as frestas das tábuas do chão da cozinha, diretamente acima do porão. A casa fora completamente destruída. O entulho restante, caído, bloqueando a saída do porão. Ele não retirou os fones de ouvido até que tudo parecesse calmo. Então, quando o fez, notou o silêncio. Nada mais funcionava, nada se mexia. Do abrigo subterrâneo, nem o vento se fazia ouvir.
Observou ao redor, fazendo um inventário mental: algumas latas de comida, envelhecidas e além do prazo de validade; poucas ferramentas enferrujadas; uma velha mesa de desenho; latas velhas de tinta ressecada, de uma pintura feita no bangalô mais de vinte anos antes; panos e lençois rasgados, empilhados precariamente no canto. E o bloco de papel quadriculado.
Ele saíra mais cedo naquela tarde para buscar o papel, querendo desenhar mapas para suas histórias fantásticas. Queria ser escritor, ele dizia. Achou uma caneta no bolso, aquela que sempre ficava ali para “emergências”. Sentou-se à mesa de desenho, passando a mão pela superfície, tentando limpar. Abriu o bloco na primeira folha, e começou a desenhar. Intercalava seus mapas com histórias, apertadas, ocupando cada centímetro das folhas. Diminuía sua letra cada vez mais, para que aquele bloco durasse o máximo possível.
Os dias foram passando. Ele tentava racionar comida, mas a fome era enlouquecedora. Bebia a água das conservas. Quando chovia, aproveitava as gotas que escorriam pelas poucas aberturas entre as tábuas do chão do que costumava ser a cozinha. Também, por estas frestas, usava a luz para desenhar. À noite, ele ficava apenas com a escuridão. E os gritos, é claro. Eles começavam sempre que o sol se punha. De manhã, apenas o farfalhar de passos erráticos sobre folhas caídas e sujeira podiam ser ouvidos. À noite, o mundo parecia enlouquecido.
Os pais nunca voltaram para buscá-lo. Ele esperava que os pais estivessem mortos ou abrigados como ele. Pensava todos os dias que se os pais também estivessem gritando daquele jeito, era melhor mesmo que tivessem morrido. O dia em que caneta finalmente deu seu último suspiro, era seu aniversário de treze anos. Ele, claro, não sabia disso. Não tentou, e nem queria contar o tempo. Observou ao redor, e viu as latas espalhadas pelo chão. Usou uma delas, cortou a palma da mão esquerda, fazendo o sangue escorrer fracamente e pingar na mesa. Então, recomeçou a desenhar.
Foram meses até a comida acabar. Ele ainda aguentou mais três semanas antes de morrer, magro, sozinho, numa noite fria. Escrevera até a última página, frente e verso de todas. Tentava ignorar os gritos enlouquecidos. Via, através de uma fresta no teto, os flocos de neve caindo. Enquanto morria, pensava em cavalos e cavaleiros, coroas e princesas, dragões e elfos, ouro e pedras preciosas. No mundo dele, cada um daqueles flocos de neve caía sobre uma terra próspera e mágica, cheia de criaturas fantásticas. Deixou-se levar pelos pensamentos, a princesa mais bela acolhendo-o nos braços após uma batalha.
No mundo real, seu corpo debilitado contorceu-se no último sopro de vida. Se algum dia alguém encontrasse seu refúgio, acharia a mais bela obra já escrita, metade em tinta, metade em sangue. Ilustrações riquíssimas, mapas de mundos utópicos e criaturas nunca antes imaginadas.
Mas, não havia mais ninguém.

Conto fantástico bem trágico, mas inspirador. Bom trabalho Mari.
Igor Tomaz disse isso em 12 12UTC setembro 12UTC 2011 às 12:56 pm