névoa
Em meio a névoa, tudo é incerto.
A moça caminha sem rumo. Suas pernas, cobertas de feridas causadas pelas infinitas quedas e esbarrões pelo caminho. Lhe falta um braço, arrancado por algo que ela nem teve chance de reconhecer, teve apenas tempo de fugir.
O grande ferimento da amputação feita à força pelos dentes ferozes da enorme boca fétida já enegrecera há muito, necrosado. Muitas larvas fizeram do sangue morto e carne putrefata seu lar.
Algo grande passa zunindo do seu lado, e ela, acostumada a essas criaturas voadoras, apenas desvia a cabeça.
Ela ainda se lembra de algumas coisas. Lembra-se do supermercado, das pessoas que estavam lá antes de resolver sair em busca de ajuda. Lembra-se de todas as coisas que viveu depois de sair, mas percebeu que a dor ia diminuindo a cada ataque.
A maior dor, sem dúvida, foi da perda do braço, um dos primeiros ataques. Ela se lembra, mas não completamente, da luta para libertar-se da mandíbula da criatura. Algo dentro dela ainda pondera sobre a possibilidade de estar viva ou morta.
Ela não sabe, assim como não sabe o que está acontecendo.
Ela olha para o lugar onde antes havia seu braço, e vê as larvas se contorcendo. Arranca uma, coloca-a na boca e mastiga. Sabe que aquilo está errado. Sabe que deveria estar morta, e pondera o porquê ainda caminha, depois da massiva perda de sangue.
Ainda há humanidade nela, apesar da horrenda aparência. E ela sabe que não vai demorar mais muito tempo para perder completamente o controle.
Seu lado consciente, cada vez mais distante, decide que ainda tem dignidade para acabar com aquilo ela mesma. Para, escuta: ouve ao seu lado esquerdo, ao longe, uma criatura grande se movendo. Corre naquela direção.
Grita, e os sons que saem de sua boca não se parecem com os que estava acostumada. A criatura alerta-se da presença dela e vai em sua direção.
Ela fica parada, expõe-se, abrindo o braço que resta. Grita mais uma vez.
Não enxerga bem seu algoz em meio à névoa, mas sabe que será mortal o suficiente.
Não há dor. Enquanto sente o que restava de seu corpo ser despedaçado, desvia a mente para outro lugar, e busca a sua humanidade quase perdida.
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Certamente isso aqui será compreendido erroneamente. Não ligo. É uma metáfora sobre meus pedaços perdidos. Contém sim referências descaradas a um certo filme. Não foi sem querer.
~ por Mari em 8 08UTC Janeiro 08UTC 2009.
Publicado em Bigornas, Desabafos, Levemente Chocante, Metáforas

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