boba

•12 12UTC Maio 12UTC 2009 • 1 Comentário

GIZBoba.

Eu era feliz o tempo todo.

Um pediu-me em namoro sem nunca ter me beijado;

Outro roubou-me dele e me deu anos e anos de paixão louca;

Um terceiro deu-me de presente sua música, um pequeno brinco de ovelha azul e uma festa de aniversário surpresa mesmo depois de termos terminado;

Outro me fez quem sou, riu de desenhos animados e chorou no meu colo;

Aquele abdicou de sua felicidade por mim, me deu um belo conto e me fez uma tarde inesquecível;

Outro ficou comigo por tanto tempo e tornou-se quem não era por mim;

O sétimo aceitou um sonho louco de sermos pais;

O oitavo escrevia-me recados de sabonete na porta do box e em blocos coloridos, amou-me desde o primeiro dia e me permitiu o mesmo;

E este… este amou-me sem nunca ter-me visto, viajou longas distâncias por mim e caiu na própria brincadeira. Aguenta minhas crises, consternações e injustiças.

Injustiça.

Por mais lágrimas que eu tenha derramado…

- boba -

eu sempre fui feliz e não sabia.

(eu rabisco o sol que a chuva apagou…)

inversão

•30 30UTC Abril 30UTC 2009 • 1 Comentário

auroraborealisEla tem um sexto sentido inacreditável.

Aquele sorriso, e aquela palavra inesperada pronunciada logo no início foram um atestado de que ela havia apaixonado-se.

Agora, ela fala teu nome de forma calma e peculiar, e não demonstra perda ou desespero.

Usarei-a como exemplo.

Chamarei-te, desejarei-te, mas com toda a calma do mundo. Sei que está aí, e eu aqui, e é tudo uma questão de tempo.

E ela também sabe.

Você veio e foi, de um jeito.

E veio e ficou, daquele jeito mais importante, sabe? Aquele.

Me enxerga como sou, e me quer por quem sou.  Só você mesmo, louco de pedra. 

Louco, e tudo que eu precisava.

teimosia

•29 29UTC Março 29UTC 2009 • 1 Comentário

teimosiaSou feia;
e é de agora, quando era criança eu era linda.
Mas eu sei aparecer.
Sei chamar a atenção, e gosto. E se quiser, ainda posso parecer bonita!
Mas não quero. Quero que feche teus olhos e veja o que em mim brilha de verdade.
Está lá no fundo, e você precisa procurar bem.
Feche as janelas e veja como meus olhos brilham.

Sou teimosa;
e sempre fui, sempre vou ser e ai de quem quiser que eu mude!
Mas sei ceder, mesmo que doa.
Vou guardar cicatrizes, vou dar com a cabeça na parede, se precisar.
Se quiser que ceda, eu cederei.
Peça-me, e eu cederei se amar-vos.

Sou independente;
demais, e em parte, totalmente atada a tantas coisas!
Não sei pedir ajuda a quem não amo, e sobrecarrego quem me toca.
Posso tentar desatar nós até que minhas mãos sangrem antes de pedir ajuda a um marinheiro qualquer.
Posso sentir-me perdida até que tua mão venha espontaneamente até a minha.
Abraça-me e ajuda-me.

Ouço mal;
não é de agora, é coisa de infância, mesmo.
Mas falar, isso eu sei!
Sussurro, a maior parte das vezes.
Então, se ficar bem, bem quieto, pode me escutar.
Dá pra escutar até aquelas coisinhas que falo entredentes, sem querer, e que carregam o arrependimento junto.
São sussurros baixinhos, bem baixinhos.

Cala a tua boca e me escuta.

estranho no sofá

•6 06UTC Março 06UTC 2009 • Deixe um comentário

couchAcordei com um sobressalto. Outro pesadelo, como em muitas noites. Sentei-me na cama, desconfortável por ter caído no sono com as roupas do dia anterior. A porta entreaberta me permitiu o vislumbre de sua mão, largada acima da cabeça, enquanto você dormia no sofá. Você ressonava levemente, e dormia de boca aberta como criança – e tantas vezes o mandei ao médico por isso. Toquei tua mão e em teu sono você virou-se de lado. Sentei-me no chão, de costas para você.

Quantas noites acalmei-me de meus pesadelos na tua companhia muda? Aquela era certamente a que tornava o número incapaz de ser definido. Sorri, aquele meio sorriso que aparece quando a realização toma conta de nós.

Você chegava, até mais de uma vez por semana e trocava as lágrimas do dia pelas bênçãos noturnas da boa companhia. As pessoas perguntavam porque eu dormia tão pouco em algumas noites, e nunca consegui explicar quem você era. Era apenas meu estranho no sofá.

Aquela haveria de ser a última das noites do estranho no sofá. Você foi aparecendo cada vez menos, tomava um café e ia embora. Nada mais de conversas invadindo a madrugada, nada mais de filmes B na tv a cabo. As conversas passaram a ser cada vez mais superficiais, e a companhia tornou-se irrelevante.

Um dia não apareceu mais, e eu demorei duas semanas para notar a tua ausência. Durante algum tempo, quando os pesadelos aconteciam, eu ainda olhava pela fresta da porta, esperando ver a sua mão ali, enquanto você dormia. Sentei-me algumas vezes no chão, de costas para o sofá vazio, e fechei meus olhos imaginando que você estava atrás de mim como em todas aquelas vezes. O sofá sempre frio, desocupado. As almofadas não trocam mais de lugar.

Certa vez acordei assustada de um pesadelo. Não olhei pela fresta. Não espero mais encontrá-lo ali. Levantei-me, tomei um copo de água. Deitei-me no sofá, com a mão acima da cabeça.

Eu nunca soube teu nome. Eu sabia o quanto calçava e você sabia sobre minha verdadeira cor de cabelo. Naquela hora, eu gostaria apenas de poder gritar o teu nome e pedir que voltasse, que ocupasse o sofá e nunca mais fosse embora. Adormeci no sofá frio, sentindo a saudade mais profunda que se pode sentir.

Talvez você  tenha voltado, ou não. Mas o fato é que eu não tive mais pesadelos, então, acho que nunca saberei.

indiferença

•23 23UTC Fevereiro 23UTC 2009 • 2 Comentários

 

walkawayO amor e o ódio não são antagonistas. Nem irmãos, nem amantes, como a agonia e o êxtase.

São o mesmo sentimento. Afetam da mesma forma, engrandecem e nulificam na mesma medida. Inebriam e envolvem, criam e desfazem laços, inquietam e embalam.

Dividem o mesmo espaço, e os mesmos personagens.

E nem sempre a face ativa é clara.

Apenas um sentimento antagoniza ambos amor e ódio:

a indiferença.

E ela vem, instala-se lentamente, abranda o fogo do amor/ódio e não os deixa voltar.

Às vezes eles voltam, com outros personagens, outros marionetes pra brincar.

Mas a indiferença não vai embora, e depois ela só cresce.

Cresce, e cresce.

Tanto que no fim, o que resta é só a saudade de sentir saudade.

E depois, não resta mais nada.

até logo

•9 09UTC Fevereiro 09UTC 2009 • 1 Comentário

 

flowervaseEla se despediu, sem lágrimas nos olhos, é claro. A relação desgastada, os anos de convivência e a certeza da volta em uma semana não a abalaram. A idéia do divórcio vinha cortejando-a recentemente, também.

 Adeus – a velha mania de desejar “adeus” nos aeroportos a fez dizer.

Adeus nada, até logo. – ele disse.

Mais tarde, naquele dia, o telefonema lhe informou que o avião dele havia caído, e que não haviam sobreviventes.

Ela desligou o telefone sem falar nada. Foi até a mesa de jantar, arrumou as flores no vaso. Uma lágrima escorreu. Ela sentou-se em uma cadeira, e chorou até dormir ali mesmo. Ela não desejaria por nada mais pretensioso do que uma segunda chance de despedir-se, de dizer algo melhor do que aquele adeus, e de ouvir aquele maldito até logo.

É que algumas vezes os “atés logos” não chegam nunca.

 

 

– cure, cut here –

dezenove coisas

•5 05UTC Fevereiro 05UTC 2009 • Deixe um comentário

kaDezenove Coisas Para Fazer Antes de Desistir

 

1 ) Nunca deixá-la sozinha, nunca faltar como mãe e amiga.

2 ) Formar-me e prosperar.

3) Conseguir a minha casa, minha família.

4 ) Ler mais Stephen King, Neil Gaiman e Terry Pratchett, e todos os outros que já li muito.

5 ) Ler Tolkien, Saramago, H.P. Lovecraft, Anne Rice, Doyle, Wilde e todos os outros que li pouco ou nada.

6 ) Parar de amar e depois amar mais.

7 ) Parar de visitar sempre os mesmos lugares, pessoas e sonhos.

8 ) Não ser mais afetada por músicas, filmes, livros.

9 ) Rir da afirmação acima.

10 ) Cumprimentar a loucura, a velhice, a doença e as perdas quando elas chegarem.

11 ) Abrir a mente para muitas coisas e fechar para outras.

12 ) Não prometer mais, e nem esperar promessas.

13 ) Não esperar nada, nunca.

14 ) Descobrir o significado de “surpresa”.

15 ) Amar-me mais, e amar-me menos.

16 ) Aprender com os meus erros.

17 ) Nunca implorar por nada.

18 ) Certo, talvez de vez em quando. Só quando valer a pena, e quando o respeito não for perdido.

19 ) Dezenove. (pássaro e urso e lebre e peixe)

cedo demais

•1 01UTC Fevereiro 01UTC 2009 • 2 Comentários

 

jumpPassavam rápido, as janelas pela sua visão turva.

Ela via as coisas de uma perspectiva diferente da que imaginava quando planejou, e a vontade de gritar era bem menor do que lhe disseram.

“Você morre antes de chegar ao chão”, ela sempre ouviu.

Era mentira, e quando ela sentiu o impacto, repensou sobre o plano, e sobre a dor que a fez concluí-lo. 

Sentiu seu crânio rachando, e deliciou-se com a perda de consciência.

Naquela mesma hora, seu chefe adentrou o escritório para avisá-la da promoção. Era surpresa. Ele vê as cortinas esvoaçando do lado de fora da janela. 

Um pouco mais tarde, depois de seis anos, seu filho finalmente acordou do coma, que era teoricamente irreversível. 

E a inexistência a levou, antes mesmo que ela soubesse que era cedo demais pra desistir.

tsurus e sonhos

•27 27UTC Janeiro 27UTC 2009 • 2 Comentários

tsurus Dizem que quem dobrar mil tsurus com o pensamento voltado ao seu sonho, vai alcançá-lo.

Pois bem, aqui estou eu, sonhando com a mente, o coração e as mãos, dobrando meus mil tsurus.

E estou falando sério. Eu já fiz alguns na minha vida, graças a um amigo que me ensinou (Obrigada, Pipi.). Mas, resolvi recomeçar, e pensar seriamente no que quero.

Meu maldito sonho, que não me abandona, só cresce a cada dia. Então, eu digo:

10 tsurus dobrados, 1% concluído.

de onde vem a esperança

•14 14UTC Janeiro 14UTC 2009 • 3 Comentários

 

esperancaTerça Feira. A luz de sol que entrava pela janela tocou seu rosto e ela acordou, como todos os dias.

Naquela manhã, algo parecia diferente. Ela olhou para os lados, ainda sonolenta. Viu suas roupas atiradas ao chão, uma xícara de chocolate quente esquecida sobre o criado mudo e o livro que estava lendo antes de dormir ainda aberto sobre o travesseiro do lado não usado da cama de casal. 

Sentou-se na borda da cama e esfregou o rosto. A impressão não se foi, embora tudo parecesse igual ao que esperava encontrar.

Levantou-se, foi até a sala. Ligou o som alto, para ver se a música traria distração. Freddie Mercury então interrompeu o silêncio. 

I was born to love you 

With every single beat of my heart 

Yes, I was born to take care of you 

Every single day…

Foi até o banheiro lavar o rosto. “Que bagunça”, pensou. Olhou-se. As olheiras estavam crescendo, e ela já conseguia vislumbrar mais alguns pés de galinha.  Os cachos curtos desgrenhados, o braço tatuado tantos anos atrás.

- Feliz Aniversário – diz ao espelho – Trinta e oito. Puta merda.

‘...An amazing feeling 

Coming through...”

Ela então captou no espelho um pequeno movimento atrás dela. Olhou,  não achou nada. Chamou, procurou atrás dos móveis. Nada. Há um ano já morava sozinha, desde que a filha fora para a faculdade. Ninguém além dela tinha a chave de seu apartamento, e ela estava em época de provas, em outra cidade. Não era ela.

…Go, I love you babe 

Yes I was born to love you 

I wanna love you, love you, love you…

“É só impressão. É a maldita velhice chegando”.

…I wanna love you 

I get so lonely, lonely, lonely…

Foi até o quarto, abriu o armário de roupas brancas. Percebeu que haviam poucas, e imaginou que a maioria estivesse no cesto no banheiro. “É hora de lavar, e eu esqueci de novo”. Pegou uma calça e uma camisa. Ela sabia que faria sol, mesmo que a previsão fosse de temporal. Havia sido assim sempre, desde que era criança. Nunca, nunca chovera em seu aniversário. Freddie Mercury calou a sua voz que nunca envelheceu e a sua coleção de músicas lhe preparou uma surpresa: uma gaita anuncia Smiths.

…Hand in glove

The sun shines out of our behinds

No, it’s not like any other love

This one is different – because it’s us...”

“Uau, essa eu não esperava”, ela riu-se.

Algo atravessou o quarto atrás dela. Ela quase conseguiu ver. Voltou-se para aquela direção o mais rápido que pôde, mas perdeu o movimento. “Eu não entendo, acho que estou ficando louca. E velha. Uma velha louca.”

…And everything depends upon

How near you stand to me...”

O telefone tocou e a música quase tornou-o inaudível. Ela correu para a sala e desligou o som.

- Feliz Aniversário, velha. De novo. 

- Obrigada, coisa. Mas não esqueça que daqui a duas semanas é o seu. Está tão velha quanto eu.

- Que nada, eu sou dois anos mais nova. Esqueceu que só você é do tempo da fita cassete?

- Besta. Vamos?

- Vamos. Passa aqui?

- Tô indo. Tchau.

- Tchau.

Terminou de vestir-se. Olhou mais uma vez para a casa, esperando encontrar aquilo que lhe dera a impressão de movimento. Nada. 

Tomou um copo do suco que encontrou na geladeira. Morango, já meio velho. 

Abriu a porta da frente, e encontrou uma única rosa em cima do capacho. Havia um cartão nela. 

Leu o que dizia nele, e era o que sempre soube que estaria escrito.

Um sorriso iluminou-se em seu rosto, ela sabia que finalmente era a hora. Colocou a rosa num copo com água, ainda sorrindo.

Saiu de casa para buscar a irmã, que não havia virado loira e frustrada, afinal, depois de tanto brincarem com isso. Era uma bela morena com dois filhos de seis e oito anos, e estava esperando um terceiro. Mesmo assim, não deixaria de trabalhar no laboratório delas até os nove meses, como fizera nas outras gravidezes.

Quando trancou a porta, eu saí de onde me escondia. E ela, como em todas as outras vezes que olhei para o futuro, continuou sem enxergar-me(se). 

E continuou sem entender de onde tirara a força para continuar durante todos aqueles anos, mesmo quando na juventude, tudo parecia errado. Ela nunca conseguiu parar de ter esperanças, e nunca entender o porquê.