carvalho

•4 04UTC Novembro 04UTC 2009 • Deixe um comentário
oak

 

Caminharam pelo campo até o carvalho solitário que haviam plantado na juventude. Agora, tantos e tantos anos depois, era uma bela e robusta árvore.

Ouviram falar que o carvalho é uma árvore de muitas portas, que dão acesso a outras realidades.

E a vida havia-lhes cansado, depois de tanto tempo.

Sentaram-se lado a lado, mãos entrelaçadas e a noite tocou-os com a escuridão estrelada. A muitos quilômetros de distância, ouvia-se o trem, assobiando pelos trilhos. Não o tomariam novamente.

Quando a manhã avermelhou o céu, ainda estavam lá, de mãos entrelaçadas, os olhos fixos no horizonte. Um meio sorriso pintava o rosto de cada um, resultado de uma vida inteira compartilhada.

As portas podem ter muitas formas.

You’re the dream that’s a fact
You’re the wind at my back

 

paraíso

•16 16UTC Outubro 16UTC 2009 • 2 Comentários

paraisoO paraíso pode ter diversas formas e cores.

O dele tem grama por cortar, formigueiros. Tem árvores de acerola e tem redes de dormir.
Enlameia-se na chuva. É profundamente silencioso e aconchegante. Tem cheiro de infância.
Ele não fica longe de lá, porque ele e seu paraíso são mutuamente dependentes.
Um dia ele me levou lá, e eu entendi. Tomei para mim a sensação de paz e clareza.
Cada momento passado ali tem um sabor diferente; determinante.
Certa vez, enquanto estava lá, ele pintou um quadro de um nascer do sol chuvoso e assinou seu
nome embaixo.
É, o paraíso pode ter diversas formas e cores.
No meu, a tinta está meio escorrida, por causa da chuva. Dá pra ver o sol atrás das nuvens. Bem
no cantinho, a assinatura, riscada em letras firmes.

O dele tem grama por cortar, formigueiros. Tem árvores de acerola e tem redes de dormir.

Enlameia-se na chuva. É profundamente silencioso e aconchegante. Tem cheiro de infância.

Ele não fica longe de lá, porque ele e seu paraíso são mutuamente dependentes.

Um dia ele me levou lá, e eu entendi. Tomei para mim a sensação de paz e clareza.

Cada momento passado ali tem um sabor diferente; determinante.

Certa vez, enquanto estava lá, ele pintou um quadro de um nascer do sol chuvoso e assinou seu nome embaixo.

É, o paraíso pode ter diversas formas e cores.

No meu, a tinta está meio escorrida, por causa da chuva. Dá pra ver o sol atrás das nuvens. Bem no cantinho, a assinatura, riscada em letras firmes.

insone (participação especial)

•9 09UTC Outubro 09UTC 2009 • 1 Comentário

Segue uma participação especial do meu amigo Pedro, a quem eu estava infernizando por um texto para cá. E depois o infeliz diz que escreve mal ¬¬.

triskel

insone

Ele já estava olhando para o teto há algumas horas. O quarto em semi-escuridão pela janela aberta, com as luzes alaranjadas da rua fazendo desenhos na parede.

Era uma terça feira, e já passava das duas da manhã. Ele não tentava mais, já havia desistido. A insônia era sua maior e mais indesejável companhia. Em pouco mais de três horas, ele já teria que estar de pé, ir cambaleando pelas ruas ainda desertas e escuras para o trabalho. Mas isso já não o preocupava mais.

Após alguns minutos depois de deitar, o cansaço tomava conta. Muitas vezes era físico, o que nem sempre queria dizer um sono rápido – mas esta noite era outro tipo de cansaço.

Muitos o perguntavam como ele aguentava. Mas perguntavam de outras coisas, insignificantes e banais. Desta vez, o que era realmente importante era o seu peso. Um peso que ele estava cansado de carregar.

“É isso, vai ser hoje”, sussurou sozinho enquanto levantava vagarosamente. Sentou-se no canto da cama, e estendeu o braço para a mesa ao lado.
Abriu a caixa e contou. Já havia usado três, restavam pouco mais de vinte comprimidos. Provavelmente dez seriam o suficiente, mas não havia sentido em racionar nisso. Melhor que isso, era ter certeza.

Vagarosamente tirou um por um do envelope, e colocou todos em sua mão, que nesse momento já estava tremendo. Começou a juntar saliva em sua boca enquanto olhava para a mão na escuridão.

De repente, nos pequenos comprimidos vermelhos surgiram nomes. Nomes de pessoas, nomes de lugares, sentimentos. Fechou a mão e apertou, segurando as lágrimas enquanto os comprimidos dissolviam e escorriam pelos seus dedos.

Jogou-os para debaixo da cama, e suas mãos pararam de tremer. Sua expressão se tornou firme e séria. “Não será hoje, afinal”, disse em voz alta.

Deitou-se, e fechou os olhos, se sentindo em paz pela primeira vez em dias. “Ainda tenho algumas coisas para fazer”, disse em um breve sussuro, e adormeceu.

dança

•9 09UTC Outubro 09UTC 2009 • 1 Comentário
Ela estava sentada no chão, olhando o céu noturno carregado de nuvens. As folhas do jardim pingando furiosamente a água que despencava sobre elas.
Abraçada aos joelhos, tremia de frio. Tinha corrido até chegar ali, e estava encharcada. Mas, não conseguiu entrar. Hipnotizada pelo clima, sentou-se ali no chão enlameado para apreciar a tempestade.
Ele a viu pela janela de sua casa. Era seu vizinho há alguns anos e eram amigos, até. Naquele instante, notou o seu sentimento pela primeira vez. Enlouquecedor, atordoante, urgente.
Ele nunca tinha dançado na vida.
Desceu correndo as escadas do sobrado e apareceu, já encharcado, ao portão dela. Teve que chamar-lhe pelo nome para capturar a atenção dela.
Ela veio ao seu encontro e cumprimentou-o com um beijo no rosto.
- Sente-se aqui. Olhe essa tempestade, com olhos de quem nunca viu – disse ela, puxando-o pela mão para sentar-se no canto enlameado da parede da varanda onde estava quando ele chegou.
Olharam a chuva juntos, pelo que pareceu a eternidade.
Ela nunca tinha dançado na vida.
Ele levantou-se e puxou-a pela mão.
- Dança comigo? – ele disse.
- Mas eu não sei dançar.
- Nem eu.
Abraçou-a pela cintura e ela enrolou-se em seu pescoço, e apoiou a cabeça em seu peito.
Dançaram assim, encharcados, ao som da chuva, por muito tempo.

RaindanceEla estava sentada no chão, olhando o céu noturno carregado de nuvens. As folhas do jardim pingando furiosamente a água que despencava sobre elas.

Abraçada aos joelhos, tremia de frio. Tinha corrido até chegar ali, e estava encharcada. Mas, não conseguiu entrar. Hipnotizada pelo clima, sentou-se ali no chão enlameado para apreciar a tempestade.

Ele a viu pela janela de sua casa. Era seu vizinho há alguns anos e eram amigos, até. Naquele instante, notou o seu sentimento pela primeira vez. Enlouquecedor, atordoante, urgente.

Ele nunca tinha dançado na vida.

Desceu correndo as escadas do sobrado e apareceu, já encharcado, ao portão dela. Teve que chamar-lhe pelo nome para capturar-lhe a atenção.

Ela veio ao seu encontro e cumprimentou-o com um beijo no rosto.

- Sente-se aqui. Olhe essa tempestade, com olhos de quem nunca viu – disse ela, puxando-o pela mão para sentar-se no canto enlameado da parede da varanda onde estava quando ele chegou.

Olharam a chuva juntos, pelo que pareceu a eternidade.

Ela nunca tinha dançado na vida.

Ele levantou-se e puxou-a pela mão.

- Dança comigo? – ele disse.

- Mas eu não sei dançar.

- Nem eu.

Abraçou-a pela cintura e ela enrolou-se em seu pescoço, e apoiou a cabeça em seu peito.

Dançaram assim, encharcados, ao som da chuva, por muito tempo.

Day Eleven : Love

lia

•1 01UTC Outubro 01UTC 2009 • 2 Comentários
Ela era linda. Notei-a quando a vi parada do outro lado da rua, em frente à janela da minha casa térrea. Estava imóvel, com os cabelos lisos e negros ao vento, fitando-me diretamente através do vidro da janela.
Seu vestido era de cor creme e esvoaçava no mesmo ritmo dos cabelos. Era pálida. Exibiu-me um sorriso encantador, e quando correspondi, atravessou a rua e veio bater à minha porta.
Corri, hipnotizado pela situação alienígena.
Ao abrir a porta, notei que ela tinha sardas, os olhos muito negros e as bochechas rosadas por cima da palidez extrema. Era ainda mais bonita do que eu pensava.
- Oi. – Ela disse, de forma simples e despretensiosa.
- Hã… oi… – respondi, atordoado.
- Você tem chá, não tem?
- Tenho. Entre e sente-se, vou lhe trazer um pouco.
Olhei pela porta da cozinha a pá enterrada no cimento fresco que estava usando para cobrir o quintal. Estava cansado daquelas  ervas daninhas tomando conta da terra. O trabalho ficaria para depois. Naquela tarde, eu teria companhia.
Ela acomodou-se, sentada com a postura perfeita no canto mais distante do sofá, e observou-me através do balcão da cozinha enquanto eu preparava o chá. Os seus cabelos agora encobriam levemente o belo rosto da moça, e suas mãos cruzadas perfeitamente ao colo a faziam parecer saída de uma pintura antiga.
Levei-lhe o chá, carregando também uma xícara para mim.
Conversamos por horas. Disse que era de muito longe, e estava perdida na cidade quando notou-me através da janela. Contei-lhe toda a minha vida; ela, contou-me apenas que seu nome era Lia. Não importava o quanto eu soubesse dela, estava completamente apaixonado pelos enormes e negros olhos da moça, carregados de sentimento.
Em algum momento, toquei-a. Sua pele era fria e aveludada. O toque era tão perfeito que causou-me arrepios na espinha. Beijei-a, e fui beijado. Eu já a amava, já entregaria a minha vida por aquela moça que havia aparecido tão repentinamente.
Senti-me completo, enlouquecido por não tê-la conhecido vinte anos antes – Tolo, ela não poderia ter mais do que isso de idade, pensei eu.
Tomei-a em meus braços, a envolvendo ternamente. Ela era tão pequena que quase desapareceu dentro do abraço. Levei-a ao quarto.
Deixou-me tirar o seu vestido, e eu notei que ela não vestia nada por baixo dele. Encolheu-se, envergonhada. Seus pequenos seios empinados e sua pele de alvura impecável tomaram conta da minha sanidade, e consumei o que mais queria desde que a vi.
Acordei no dia seguinte e ela não estava lá. Não parecia haver sinal nenhum de sua presença ter existido na minha casa. Havia uma xícara de chá usada em cima da mesa de centro da sala, em frente a lareira.
Apenas uma.
Desnorteado, corri para a janela. Nem sinal dela.
Não me recordo bem daquele dia. Sei que andei por toda a vizinhança à procura dela. Voltei para casa ao entardecer, desolado, perdido. Acreditava ter sonhado aquilo tudo.
Sentei-me no sofá, descansei a cabeça no encosto e meus olhos tocaram a janela.
Ela estava lá, da mesma forma que no dia anterior. O sol do fim da tarde pintando seus cabelos de vermelho.
Ela sorriu.
Abri a porta e corri para ela, tomando-a no colo num abraço passional, como se não visse o amor de minha vida por meses.
Naquela noite, depois do sexo, ela levantou-se. Notei, enquanto fingia dormir. Chamei-a e ela virou-se.
- Onde vai, Lia?
- Tenho fome, vou buscar algo para comer.
- Há comida na geladeira, pode servir-se.
- Obrigada – ela disse, sorrindo.
- Não vá embora hoje, fique mais comigo.
- Tudo bem.
Mais aliviado, adormeci, sem notar que o lado em que ela estava deitada na cama, parecia intocado.
Acordei no meio da madrugada, preocupado com a ausência dela. Ouvi barulhos estranhos vindo da sala, e andei cautelosa e silenciosamente até a porta.
Lia estava no meio da sala, ajoelhada, de costas para mim. À sua frente havia alguém deitado no chão. Um homem nu.
Alarmado, chamei-a. Ela sobressaltou-se e virou o rosto. Estava com a boca cheia de sangue. O homem estava morto, e havia um enorme buraco em seu abdômem. Pude ver intestinos, que pareciam boiar num mar de sangue.
Lia levantou-se rapidamente, o medo estampado em seus olhos.
Sinto que minha mente tange a loucura ao afirmar tal absurdo, mas ela tornou-se um gato cinzento e fugiu pela janela entreaberta por onde a notei do outro lado da rua. Creio estar errado; ela não tornou-se um gato. Não houve nenhuma transmutação cinematográfica, nenhum processo de transição. Ela simplesmente sempre havia sido um gato, naquele momento, embora minhas memórias traíssem minha percepç.
Olhei o homem deitado no chão da sala. Seus olhos estavam abertos, injetados de sangue. Era um homem alto e atlético. Estava quente ainda, embora morto indubitavelmente. Seu abdômem parcialmente devorado expunha órgãos internos. O fígado estava deslocado, exibindo mordidas diversas.
Mordidas humanas, não felinas.
Decidi que meu amor por Lia demandava que eu resolvesse aquele problema.
Tudo ficaria bem. Tudo acabaria bem.
Dirigi-me ao quintal, que estava sendo cimentado por mim até o dia anterior, quando encontrei Lia.
Peguei uma pá e cavei uma cova rasa. Arrastei com dificuldade o homem, por causa de seu tamanho e peso. Joguei-o de mal jeito na cova e pude ouvir seu braço estalando quando tocou o fundo por baixo de seu corpo. Cobri com a terra. Cimentaria a cova assim que o dia clareasse.
A sala ainda estava escura quando voltei. Havia um rastro de sangue que brilhava em negro no chão por onde carreguei o homem. Não havia nenhum sinal de como ele havia sido trazido até ali. A porta da frente continuava trancada. Náuseas sobrepujaram meus pensamentos e corri para o banheiro. Vomitei e senti-me fraco e tonto.
Deitei-me na cama sujo de terra e sangue e acordei tarde na manhã seguinte.
Nem sinal de Lia.
O rastro de sangue estava quase completamente seco, e amarronzado no chão de ladrilhos claros da sala.
Sentia-me fraco, devastado, perdido. Apesar disso, o amor por Lia não tinha mudado.
Eu não sabia quem era ela, e agora, não sabia o que era ela. Mas decidi ajudá-la e aceitá-la, fosse qual fosse a realidade.
As manchas de sangue estavam secas quando eu finalmente fui limpá-las depois de cimentar a cova no quintal.
No fim da tarde, o vento castigava as árvores da rua, e assobiava nas janelas da minha casa. Folhas revolviam-se em redemoinhos. A campainha tocou e era Lia de volta.
Seu olhar era triste e assustado, e ela atirou-se em meus braços. Beijei-a.
Não perguntei o que havia acontecido, e ela não contou. Jantamos almôndegas e acariciei seu cabelo sedoso até que ela adormecesse.
Acordei cedo na manhã seguinte, e ainda não havia notado que o lado da cama continuava intocado.
Um prato com restos de molho estava em cima da mesa, e a luz da sala de jantar continuava acesa.
Na sala de estar, à frente da lareira, havia um homem nu deitado. Ele não estava morto, gorgolejava tentando falar ao me ver. Cuspia sangue.
Aproximei-me rapidamente, colocando a cabeça do homem moribundo em meu colo. Seu abdômem também estava destroçado. Além disso, faltavam-lhe alguns músculos da coxa, aparentemente arrancados com violência.
Era meu vizinho, Augusto. Convidou-me algumas vezes para comer a maravilhosa comida que sua esposa, Paula, fazia. Tinha três filhos pequenos.
Cuspiu mais sangue, com grandes coágulos.
Céus, há quanto tempo aquele homem estava ali?
Não havia uma grande perda de sangue, e seu abdômem estava aberto, mas não completamente perdido. Ele possivelmente sobreviveria se fosse levado ao hospital.
Olhei para o canto e havia um gato cinzento sentado de forma altiva, observando-me. O homem arfava.
O olhar do gato – de Lia – acusador, incisivo, fez-me pegar uma faca de mesa mal afiada, a que tinha sido usada no jantar da noite anterior. Calmamente, na perna saudável de Augusto, fui cortando com dificuldade até atingir uma grande artéria qualquer. O homem debatia-se e lutava como podia, mas estava muito fraco. Sangue jorrou do corte com bordas irregulares quando atingi o meu objetivo. Sentei-me ao lado do homem gorgolejante e assisti-o sangrar por mais de cinco minutos antes de finalmente morrer. Uma enorme poça de sangue manchava o tapete e molhava-me a roupa. Havia respingos no sofá, nas paredes, na lareira.
Levantei-me, larguei a faca ao lado do homem. O olhar do gato brilhava. O felino atravessou um feixe de luz do sol que vinha da janela e suas patas molharam-se no sangue. Então, Lia (e sempre havia sido ela novamente), enterrou habilmente a mão no abdômem aberto, retirou o fígado e mordeu-o vorazmente. Olhou-me de soslaio e compreendi que ela queria privacidade.
Enterrei Augusto da mesma forma que o outro homem.
Na noite seguinte, encontrei uma mulher partida ao meio. Na outra, uma mulher grávida com o abdômem aberto e seu bebê parcialmente devorado ao lado do corpo.
Isso persistiu por um tempo indeterminado, mas acabei criando uma rotina para encobrir os hábitos de minha amada.
Em algum momento, eu notei que Lia não aparecia mais para preencher minhas noites, mas os corpos continuavam a aparecer. Depois de algum tempo, eu parei de tomar tanto cuidado, pois meu quintal já não tinha mais espaço. Comecei a guardar partes na geladeira, dentro de paredes e móveis.
Eventualmente, o cheiro chamou a atenção de Paula, a esposa de Augusto. Perguntou-me se estava tudo bem por uma fresta na porta, e eu afirmei que sim.
Depois de alguns dias, policiais bateram à minha porta e me levaram embora.
Durante o julgamento, ouvi palavras como insanidade, frieza, ausência de culpa. Compulsão. Ouvi sobre canibalismo e requintes de crueldade. Não compreendi o que acontecia. Disseram-me que eu havia matado, comido e ocultado restos de incontáveis pessoas. Eu tentei falar sobre Lia, mas eles nunca acharam nenhuma evidência de que ela tivesse existido.
Trouxeram-me para cá, há um tempo indeterminado. As paredes são brancas e à noite, os gritos impedem-me de dormir. Estou sozinho.
Um dia, convenci-me de que eles deviam estar certos.
Nesta noite, através da janela alta e com grades, pude ver um gato cinzento parado do lado de fora, no parapeito, observando-me com seus grandes olhos brilhantes.

liaEla era linda. Notei-a quando a vi parada do outro lado da rua, em frente à janela da minha casa térrea. Estava imóvel, com os cabelos lisos e negros ao vento, fitando-me diretamente através do vidro da janela.

Seu vestido era de cor creme e esvoaçava no mesmo ritmo dos cabelos. Era pálida. Exibiu-me um sorriso encantador, e quando correspondi, atravessou a rua e veio bater à minha porta.

Corri, hipnotizado pela situação alienígena.

Ao abrir a porta, notei que ela tinha sardas, os olhos muito negros e as bochechas rosadas por cima da palidez extrema. Era ainda mais bonita do que eu pensava.

- Oi. – Ela disse, de forma simples e despretensiosa.

- Hã… oi… – respondi, atordoado.

- Você tem chá, não tem?

- Tenho. Entre e sente-se, vou lhe trazer um pouco.

Olhei pela porta da cozinha a pá enterrada no cimento fresco que estava usando para cobrir o quintal. Estava cansado daquelas  ervas daninhas tomando conta da terra. O trabalho ficaria para depois. Naquela tarde, eu teria companhia.

Ela acomodou-se, sentada com a postura perfeita no canto mais distante do sofá, e observou-me através do balcão da cozinha enquanto eu preparava o chá. Os seus cabelos agora encobriam levemente o belo rosto da moça, e suas mãos cruzadas perfeitamente ao colo a faziam parecer saída de uma pintura antiga.

Levei-lhe o chá, carregando também uma xícara para mim.

Conversamos por horas. Disse que era de muito longe, e estava perdida na cidade quando notou-me através da janela. Contei-lhe toda a minha vida; ela, contou-me apenas que seu nome era Lia. Não importava o quanto eu soubesse dela, estava completamente apaixonado pelos enormes e negros olhos da moça, carregados de sentimento.

Em algum momento, toquei-a. Sua pele era fria e aveludada. O toque era tão perfeito que causou-me arrepios na espinha. Beijei-a, e fui beijado. Eu já a amava, já entregaria a minha vida por aquela moça que havia aparecido tão repentinamente.

Senti-me completo, enlouquecido por não tê-la conhecido vinte anos antes – Tolo, ela não poderia ter mais do que isso de idade, pensei eu.

Tomei-a em meus braços, a envolvendo ternamente. Ela era tão pequena que quase desapareceu dentro do abraço. Levei-a ao quarto.

Deixou-me tirar o seu vestido, e eu notei que ela não vestia nada por baixo dele. Encolheu-se, envergonhada. Seus pequenos seios empinados e sua pele de alvura impecável tomaram conta da minha sanidade, e consumei o que mais queria desde que a vi.

Acordei no dia seguinte e ela não estava lá. Não parecia haver sinal nenhum de sua presença ter existido na minha casa. Havia uma xícara de chá usada em cima da mesa de centro da sala, em frente a lareira.

Apenas uma.

Desnorteado, corri para a janela. Nem sinal dela.

Não me recordo bem daquele dia. Sei que andei por toda a vizinhança à procura dela. Voltei para casa ao entardecer, desolado, perdido. Acreditava ter sonhado aquilo tudo.

Sentei-me no sofá, descansei a cabeça no encosto e meus olhos tocaram a janela.

Ela estava lá, da mesma forma que no dia anterior. O sol do fim da tarde pintando seus cabelos de vermelho.

Ela sorriu.

Abri a porta e corri para ela, tomando-a no colo num abraço passional, como se não visse o amor de minha vida por meses.

Naquela noite, depois do sexo, ela levantou-se. Notei, enquanto fingia dormir. Chamei-a e ela virou-se.

- Onde vai, Lia?

- Tenho fome, vou buscar algo para comer.

- Há comida na geladeira, pode servir-se.

- Obrigada – ela disse, sorrindo.

- Não vá embora hoje, fique mais comigo.

- Tudo bem.

Mais aliviado, adormeci, sem notar que o lado em que ela estava deitada na cama, parecia intocado.

Acordei no meio da madrugada, preocupado com a ausência dela. Ouvi barulhos estranhos vindo da sala, e andei cautelosa e silenciosamente até a porta.

Lia estava no meio da sala, ajoelhada, de costas para mim. À sua frente havia alguém deitado no chão. Um homem nu.

Alarmado, chamei-a. Ela sobressaltou-se e virou o rosto. Estava com a boca cheia de sangue. O homem estava morto, e havia um enorme buraco em seu abdômem. Pude ver intestinos, que pareciam boiar num mar de sangue.

Lia levantou-se rapidamente, o medo estampado em seus olhos.

Sinto que minha mente tange a loucura ao afirmar tal absurdo, mas ela tornou-se um gato cinzento e fugiu pela janela entreaberta por onde a notei do outro lado da rua. Creio estar errado; ela não tornou-se um gato. Não houve nenhuma transmutação cinematográfica, nenhum processo de transição. Ela simplesmente sempre havia sido um gato, naquele momento, embora minhas memórias traíssem minha percepç.

Olhei o homem deitado no chão da sala. Seus olhos estavam abertos, injetados de sangue. Era um homem alto e atlético. Estava quente ainda, embora morto indubitavelmente. Seu abdômem parcialmente devorado expunha órgãos internos. O fígado estava deslocado, exibindo mordidas diversas.

Mordidas humanas, não felinas.

Decidi que meu amor por Lia demandava que eu resolvesse aquele problema.

Tudo ficaria bem. Tudo acabaria bem.

Dirigi-me ao quintal, que estava sendo cimentado por mim até o dia anterior, quando encontrei Lia.

Peguei uma pá e cavei uma cova rasa. Arrastei com dificuldade o homem, por causa de seu tamanho e peso. Joguei-o de mal jeito na cova e pude ouvir seu braço estalando quando tocou o fundo por baixo de seu corpo. Cobri com a terra. Cimentaria a cova assim que o dia clareasse.

A sala ainda estava escura quando voltei. Havia um rastro de sangue que brilhava em negro no chão por onde carreguei o homem. Não havia nenhum sinal de como ele havia sido trazido até ali. A porta da frente continuava trancada. Náuseas sobrepujaram meus pensamentos e corri para o banheiro. Vomitei e senti-me fraco e tonto.

Deitei-me na cama sujo de terra e sangue e acordei tarde na manhã seguinte.

Nem sinal de Lia.

O rastro de sangue estava quase completamente seco, e amarronzado no chão de ladrilhos claros da sala.

Sentia-me fraco, devastado, perdido. Apesar disso, o amor por Lia não tinha mudado.

Eu não sabia quem era ela, e agora, não sabia o que era ela. Mas decidi ajudá-la e aceitá-la, fosse qual fosse a realidade.

As manchas de sangue estavam secas quando eu finalmente fui limpá-las depois de cimentar a cova no quintal.

No fim da tarde, o vento castigava as árvores da rua, e assobiava nas janelas da minha casa. Folhas revolviam-se em redemoinhos. A campainha tocou e era Lia de volta.

Seu olhar era triste e assustado, e ela atirou-se em meus braços. Beijei-a.

Não perguntei o que havia acontecido, e ela não contou. Jantamos almôndegas e acariciei seu cabelo sedoso até que ela adormecesse.

Acordei cedo na manhã seguinte, e ainda não havia notado que o lado da cama continuava intocado.

Um prato com restos de molho estava em cima da mesa, e a luz da sala de jantar continuava acesa.

Na sala de estar, à frente da lareira, havia um homem nu deitado. Ele não estava morto, gorgolejava tentando falar ao me ver. Cuspia sangue.

Aproximei-me rapidamente, colocando a cabeça do homem moribundo em meu colo. Seu abdômem também estava destroçado. Além disso, faltavam-lhe alguns músculos da coxa, aparentemente arrancados com violência.

Era meu vizinho, Augusto. Convidou-me algumas vezes para comer a maravilhosa comida que sua esposa, Paula, fazia. Tinha três filhos pequenos.

Cuspiu mais sangue, com grandes coágulos.

Céus, há quanto tempo aquele homem estava ali?

Não havia uma grande perda de sangue, e seu abdômem estava aberto, mas não completamente perdido. Ele possivelmente sobreviveria se fosse levado ao hospital.

Olhei para o canto e havia um gato cinzento sentado de forma altiva, observando-me. O homem arfava.

O olhar do gato – de Lia – acusador, incisivo, fez-me pegar uma faca de mesa mal afiada, a que tinha sido usada no jantar da noite anterior. Calmamente, na perna saudável de Augusto, fui cortando com dificuldade até atingir uma grande artéria qualquer. O homem debatia-se e lutava como podia, mas estava muito fraco. Sangue jorrou do corte com bordas irregulares quando atingi o meu objetivo. Sentei-me ao lado do homem gorgolejante e assisti-o sangrar por mais de cinco minutos antes de finalmente morrer. Uma enorme poça de sangue manchava o tapete e molhava-me a roupa. Havia respingos no sofá, nas paredes, na lareira.

Levantei-me, larguei a faca ao lado do homem. O olhar do gato brilhava. O felino atravessou um feixe de luz do sol que vinha da janela e suas patas molharam-se no sangue. Então, Lia (e sempre havia sido ela novamente), enterrou habilmente a mão no abdômem aberto, retirou o fígado e mordeu-o vorazmente. Olhou-me de soslaio e compreendi que ela queria privacidade.

Enterrei Augusto da mesma forma que o outro homem.

Na noite seguinte, encontrei uma mulher partida ao meio. Na outra, uma mulher grávida com o abdômem aberto e seu bebê parcialmente devorado ao lado do corpo.

Isso persistiu por um tempo indeterminado, mas acabei criando uma rotina para encobrir os hábitos de minha amada.

Em algum momento, eu notei que Lia não aparecia mais para preencher minhas noites, mas os corpos continuavam a aparecer. Depois de algum tempo, eu parei de tomar tanto cuidado, pois meu quintal já não tinha mais espaço. Comecei a guardar partes na geladeira, dentro de paredes e móveis.

Eventualmente, o cheiro chamou a atenção de Paula, a esposa de Augusto. Perguntou-me se estava tudo bem por uma fresta na porta, e eu afirmei que sim.

Depois de alguns dias, policiais bateram à minha porta e me levaram embora.

Durante o julgamento, ouvi palavras como insanidade, frieza, ausência de culpa. Compulsão. Ouvi sobre canibalismo e requintes de crueldade. Não compreendi o que acontecia. Disseram-me que eu havia matado, comido e ocultado restos de incontáveis pessoas. Eu tentei falar sobre Lia, mas eles nunca acharam nenhuma evidência de que ela tivesse existido.

Trouxeram-me para cá, há um tempo indeterminado. As paredes são brancas e à noite, os gritos impedem-me de dormir. Estou sozinho.

Um dia, convenci-me de que eles deviam estar certos.

Nesta noite, através da janela alta e com grades, pude ver um gato cinzento parado do lado de fora, no parapeito, observando-me com seus grandes olhos brilhantes.

triskel

Idéia do Pedro. Espero que eu tenha ao menos tangido a intenção inicial dele.  Estava precisando escrever, depois de tanto tempo.

teimosia

•29 29UTC Março 29UTC 2009 • 1 Comentário

teimosiaSou feia;
e é de agora, quando era criança eu era linda.
Mas eu sei aparecer.
Sei chamar a atenção, e gosto. E se quiser, ainda posso parecer bonita!
Mas não quero. Quero que feche teus olhos e veja o que em mim brilha de verdade.
Está lá no fundo, e você precisa procurar bem.
Feche as janelas e veja como meus olhos brilham.

Sou teimosa;
e sempre fui, sempre vou ser e ai de quem quiser que eu mude!
Mas sei ceder, mesmo que doa.
Vou guardar cicatrizes, vou dar com a cabeça na parede, se precisar.
Se quiser que ceda, eu cederei.
Peça-me, e eu cederei se amar-vos.

Sou independente;
demais, e em parte, totalmente atada a tantas coisas!
Não sei pedir ajuda a quem não amo, e sobrecarrego quem me toca.
Posso tentar desatar nós até que minhas mãos sangrem antes de pedir ajuda a um marinheiro qualquer.
Posso sentir-me perdida até que tua mão venha espontaneamente até a minha.
Abraça-me e ajuda-me.

Ouço mal;
não é de agora, é coisa de infância, mesmo.
Mas falar, isso eu sei!
Sussurro, a maior parte das vezes.
Então, se ficar bem, bem quieto, pode me escutar.
Dá pra escutar até aquelas coisinhas que falo entredentes, sem querer, e que carregam o arrependimento junto.
São sussurros baixinhos, bem baixinhos.

Cala a tua boca e me escuta.

estranho no sofá

•6 06UTC Março 06UTC 2009 • 1 Comentário

couchAcordei com um sobressalto. Outro pesadelo, como em muitas noites. Sentei-me na cama, desconfortável por ter caído no sono com as roupas do dia anterior. A porta entreaberta me permitiu o vislumbre de sua mão, largada acima da cabeça, enquanto você dormia no sofá. Você ressonava levemente, e dormia de boca aberta como criança – e tantas vezes o mandei ao médico por isso. Toquei tua mão e em teu sono você virou-se de lado. Sentei-me no chão, de costas para você.

Quantas noites acalmei-me de meus pesadelos na tua companhia muda? Aquela era certamente a que tornava o número incapaz de ser definido. Sorri, aquele meio sorriso que aparece quando a realização toma conta de nós.

Você chegava, até mais de uma vez por semana e trocava as lágrimas do dia pelas bênçãos noturnas da boa companhia. As pessoas perguntavam porque eu dormia tão pouco em algumas noites, e nunca consegui explicar quem você era. Era apenas meu estranho no sofá.

Aquela haveria de ser a última das noites do estranho no sofá. Você foi aparecendo cada vez menos, tomava um café e ia embora. Nada mais de conversas invadindo a madrugada, nada mais de filmes B na tv a cabo. As conversas passaram a ser cada vez mais superficiais, e a companhia tornou-se irrelevante.

Um dia não apareceu mais, e eu demorei duas semanas para notar a tua ausência. Durante algum tempo, quando os pesadelos aconteciam, eu ainda olhava pela fresta da porta, esperando ver a sua mão ali, enquanto você dormia. Sentei-me algumas vezes no chão, de costas para o sofá vazio, e fechei meus olhos imaginando que você estava atrás de mim como em todas aquelas vezes. O sofá sempre frio, desocupado. As almofadas não trocam mais de lugar.

Certa vez acordei assustada de um pesadelo. Não olhei pela fresta. Não espero mais encontrá-lo ali. Levantei-me, tomei um copo de água. Deitei-me no sofá, com a mão acima da cabeça.

Eu nunca soube teu nome. Eu sabia o quanto calçava e você sabia sobre minha verdadeira cor de cabelo. Naquela hora, eu gostaria apenas de poder gritar o teu nome e pedir que voltasse, que ocupasse o sofá e nunca mais fosse embora. Adormeci no sofá frio, sentindo a saudade mais profunda que se pode sentir.

Talvez você  tenha voltado, ou não. Mas o fato é que eu não tive mais pesadelos, então, acho que nunca saberei.

indiferença

•23 23UTC Fevereiro 23UTC 2009 • 2 Comentários

 

walkawayO amor e o ódio não são antagonistas. Nem irmãos, nem amantes, como a agonia e o êxtase.

São o mesmo sentimento. Afetam da mesma forma, engrandecem e nulificam na mesma medida. Inebriam e envolvem, criam e desfazem laços, inquietam e embalam.

Dividem o mesmo espaço, e os mesmos personagens.

E nem sempre a face ativa é clara.

Apenas um sentimento antagoniza ambos amor e ódio:

a indiferença.

E ela vem, instala-se lentamente, abranda o fogo do amor/ódio e não os deixa voltar.

Às vezes eles voltam, com outros personagens, outros marionetes pra brincar.

Mas a indiferença não vai embora, e depois ela só cresce.

Cresce, e cresce.

Tanto que no fim, o que resta é só a saudade de sentir saudade.

E depois, não resta mais nada.

até logo

•9 09UTC Fevereiro 09UTC 2009 • 1 Comentário

 

flowervaseEla se despediu, sem lágrimas nos olhos, é claro. A relação desgastada, os anos de convivência e a certeza da volta em uma semana não a abalaram. A idéia do divórcio vinha cortejando-a recentemente, também.

 Adeus – a velha mania de desejar “adeus” nos aeroportos a fez dizer.

Adeus nada, até logo. – ele disse.

Mais tarde, naquele dia, o telefonema lhe informou que o avião dele havia caído, e que não haviam sobreviventes.

Ela desligou o telefone sem falar nada. Foi até a mesa de jantar, arrumou as flores no vaso. Uma lágrima escorreu. Ela sentou-se em uma cadeira, e chorou até dormir ali mesmo. Ela não desejaria por nada mais pretensioso do que uma segunda chance de despedir-se, de dizer algo melhor do que aquele adeus, e de ouvir aquele maldito até logo.

É que algumas vezes os “atés logos” não chegam nunca.

 

 

– cure, cut here –

dezenove coisas

•5 05UTC Fevereiro 05UTC 2009 • Deixe um comentário

kaDezenove Coisas Para Fazer Antes de Desistir

 

1 ) Nunca deixá-la sozinha, nunca faltar como mãe e amiga.

2 ) Formar-me e prosperar.

3) Conseguir a minha casa, minha família.

4 ) Ler mais Stephen King, Neil Gaiman e Terry Pratchett, e todos os outros que já li muito.

5 ) Ler Tolkien, Saramago, H.P. Lovecraft, Anne Rice, Doyle, Wilde e todos os outros que li pouco ou nada.

6 ) Parar de amar e depois amar mais.

7 ) Parar de visitar sempre os mesmos lugares, pessoas e sonhos.

8 ) Não ser mais afetada por músicas, filmes, livros.

9 ) Rir da afirmação acima.

10 ) Cumprimentar a loucura, a velhice, a doença e as perdas quando elas chegarem.

11 ) Abrir a mente para muitas coisas e fechar para outras.

12 ) Não prometer mais, e nem esperar promessas.

13 ) Não esperar nada, nunca.

14 ) Descobrir o significado de “surpresa”.

15 ) Amar-me mais, e amar-me menos.

16 ) Aprender com os meus erros.

17 ) Nunca implorar por nada.

18 ) Certo, talvez de vez em quando. Só quando valer a pena, e quando o respeito não for perdido.

19 ) Dezenove. (pássaro e urso e lebre e peixe)